Categoria: Crítica

  • Insuportável torpeza do ter

    Insuportável torpeza do ter

    O romance Solar, de Ian McEwan, é uma corrosiva tiração de onda do discurso politicamente correto da sustentabilidade. [Uma das derradeiras resenhotas pro extinto caderno cultural Outlook, morto por miopia…]

  • Cadê os anos 60 que tavam aqui?

    Cadê os anos 60 que tavam aqui?

    Lançamentos simultâneos, Ponto Final, de Mikal Gilmore, e A Turma Que Não Escrevia Direito, de Marc Weingarten, demonstram como a ousadia daqueles tempos loucos não deixou descendentes

  • Nem aí

    Nem aí

    “Falar mal do turismo é o mesmo que reclamar do trânsito sentado no carro.” Geoff Dyer, o escritor inglês que mistura relatos de viagem, memórias, ficção e ensaísmo em uma prosa deliciosamente inclassificável, tem seu primeiro romance lançado no Brasil

  • Por mares nunca dantes

    Por mares nunca dantes

    Rara parceria no Brasil entre escritor e artista plástico, chega à praia Cachalote, impressionante graphic novel de quase 300 páginas. Resenha para o Outlook de 3-7 A graphic novel brasileira vive seu melhor momento. Provas do crime são álbuns autorais como os recentes de Allan Sieber (É Tudo Mais ou Menos Verdade), Marcelo Quintanilha (Sábado…

  • João Carlos sai do armário

    João Carlos sai do armário

    Escritor identificado com a literatura de invenção, Joca Reiners Terron publica primeiro romance “convencional” por uma grande editora: a história de um ex-gêmeo que vira transexual no Egito. Resenha amiga pro Outlook de 29-5 Do Fundo do Poço Se Vê a Lua

  • Esquimó sai do forno

    Esquimó sai do forno

    Entrevista com Fabrício Corsaletti feita pro Outlook [p. 65] – 2 de março o poeta lança Esquimó na Livraria da Vila “Escrevo/ como quem constrói/ um túnel transparente/ para o vento/ como quem modela o vento/ como quem deseja/ ajudar/ o vento/ a passar.” Nessa rara passagem metalinguística, Fabricio Corsaletti, 31, mais uma vez fala…

  • Quero sumir

    Quero sumir

    “Porque o resto, o que estava fora do caminho, era – continua sendo para mim – um espaço em branco, sem nenhum significado, algo assim como aquele espaço imaginado que desde sempre atraiu Arthur Rimbaud e que consistia numa rua que se estendia de umas paliçadas até a multicolorida zona portuária de uma cidade que…

  • Jogo duro

    Jogo duro

    >> Resenhol pro Outlook de 6-2 Pais que procuram filhos, filhos que se perdem dos pais: no melhor romance de William Kennedy, trama de mistério no submundo faz cortina de fumaça para densos conflitos psicológicos Cara, como escreve esse tal de William Kennedy. Ele faz a coisa toda parecer moleza – entenda-se recriar uma cidade,…

  • Monstros da razão

    Monstros da razão

    Com a noveleta Corrida selvagem, o inglês JG Ballard satiriza os excessos de uma civilização higienista – e adverte para os massacres criados dentro dos mais ordeiros subúrbios. Resenhol para o Estadón de domingo Muito antes de serem construídas as torres neoclássicas do Parque Cidade Jardim, maior empreendimento imobiliário das Américas, cuja vista para as…

  • Tô tenso tô tenso tô tenso

    Tô tenso tô tenso tô tenso

    Jovem escritor mineiro estréia com romance perturbador. Resenhol pro Outlook [p. 57] Para morrer, basta estar vivo, surra o ditado, sem sequer coragem para entrar no milagroso O Pai dos Burros – dicionário de lugares-comuns e frases feitas de Humberto Werneck (Arquipélago). Mineiro como Werneck, Carlos de Brito e Mello usa um espertíssimo fantasma como…

  • Sem eira nem beira

    Sem eira nem beira

    Três jovens escritores ampliam as intersecções da poesia escrita com o audiovisual, as artes plásticas e a música [saiu no fim de dezembro na pg 57 do Outlook] Devagar a coleção Ás de Colete/ Série Bolso (7Letras/Cosac Naify) vai mapeando a poesia contemporânea. Desta vez, recebemos três autores bem diferentes que, em comum, dão perdido…

  • Deixem o velhinho brincar

    Deixem o velhinho brincar

    >>>Meu comentário sobre a invasão fonsequiana no último Outlook Fora da realidade Relançamento do primeiro e terceiro livros de contos e do novo romance sugere: reduzir Rubem Fonseca a “escritor realista” é um equívoco Aqueles “Duzentos e vinte e cinco gramas” tiraram toneladas das costas de muito escritor brasileiro. O segundo conto de Os prisioneiros,…

  • A palavra da origem

    A palavra da origem

    >> Resenha de Clarice, Uma Biografia, seguida de entrevista com o autor – para o Outlook de 21-11 “Estou atrás do que está atrás do meu pensamento” Com Clarice, Uma biografia, o crítico, tradutor e ensaísta norte-americano Benjamin Moser investiga as raízes judaicas de Clarice Lispector e a afirma como “autora da maior autobiografia espiritual…

  • Seu monstro!

    Seu monstro!

    Clássico infantil de Maurice Sendak é finalmente lançado no Brasil, seguido por recriação de David Eggers e filme de Spike Jonze Monstros Ilimitados Todo menino de oito anos é um monstro. Os dentes de leite estão caindo, a segunda infância mal chegou, a adolescência parece um lugar nojento e o universo adulto é detestável. De…

  • Ficção homeopata

    Ficção homeopata

    Em romance ora previsível ora inventivo, José Saramago outra vez usa parábolas cristãs para – outra vez – atacar a Igreja Em Caim, Saramago prossegue seu esporte favorito: jogar pedra na cruz. O sistemático ataque do Nobel de 87 anos à Igreja usa os ardis da crença cristã – mais ou menos como se um…

  • Vida de cinema

    Vida de cinema

    > Essa saiu no Estadón de ontem Escrita depois do diagnóstico de câncer terminal, autobiografia de J. G. Ballard joga luz sobre uma vida tão extraordinária quanto a obra Biografias de escritores costumam ser um tanto chatas. A não ser no caso de inquietos como Jack London, Joseph Conrad ou Paulo Leminski, aventuras e agruras…

  • Quem manda aqui sou eu

    Quem manda aqui sou eu

    >> Comentário sobre Iniciantes, de Raymond Carver, publicado ontem no Estadão. Segue a versão sem cortes [por falta de espaço no jornal, evidentemente…]

  • Sossega, Leão

    . Tudo é pequeno. Tudo é pequeno A fama A lama O lince hipnotizando a iguana O que é grande É a arte Há vida em Marte. . Estranho último poema este, postado cinco dias antes da grande viagem. Dia 1 de julho Rodrigo de Souza Leão partiu além. Um poeta estranho pela peculiar mistura…

  • Os colaboracionistas

    Os colaboracionistas

    A cena musical brasileira é uma orgia: ninguém é de ninguém e todo mundo toca com todo mundo

  • A volta e a revolta dos boêmios

    A volta e a revolta dos boêmios

    >>> Direto do Estadón de ontem, que traz ainda bela entrevista com Gary Snyder e outra com Walter Salles

  • Famoso também é gente

    Saiu o Inverdades, do André Sant’Anna, o gênio da burrice. Mestre em pegar assuntos complexos e ir reduzindo à migalha, André tricota personagens até se transformarem em estereótipos, estereótipos se tornarem signos, signos virarem meros ritmos. Binária, sua literatura quebra comportamentos requintados com equações de primeiro grau, provando que, apesar de toda nossa empáfia, ainda…

  • Pra começar a semana

    Trabalhadores felizes, uni-vos Em A chave-estrela, o escritor italiano Primo Levi narra os doze trabalhos de um Hércules moderno: um operário que pensa e ama o próprio labor Primo Levi é um CDF. O leitor perdoe o linguajar grosso, a vida é dura – mas não parece ter pesado para este químico que levava seu…

  • Estrelas mudam de lugar

    – Bressane, tudo bem? É o Bruno, da Ilustrada. – Fala, Bruno, beleza? Recebeu aí o texto? – Recebi sim, mas… é… é que tem um problema… – Que rolou? – O começo do texto… tá… meio fora do padrão aqui da Ilustrada. – Como assim? – A gente não começa texto com diálogo, sabe……

  • A história do futuro

    > Resenha pro Estadón de domingón. A trilogia Fundação, clássico da ficção científica de Isaac Asimov de 1951, é relançada em nova tradução. Embora a forma pareça envelhecida, o conteúdo segue atual É inquietante voltar a um livro que você leu há 25 anos. Ainda mais se tratando de um livro de ficção científica –…

  • Pense melhor. Pense mal

    A Malpensante é uma das boas descobertas que trouxe de meu mês e pouco na Colômbia. É uma das duas revistas nacionais de literatura [a outra é a ótima Arcadia]. O que nos lembra que, apesar de umas coisas bizarras, vagamente profissionais, vagamente universitárias que vemos nas bancas [tipo essas revistas com títulos no gerúndio],…

  • Meia Couto

    Resonha pro Estadon de domingo agora. Mal ae, Mia, mas a gente sabe que você faz muito melhor… Sub-Rosa dá em prosa rosa-chá Nas fábulas de O fio das missangas, o moçambicano Mia Couto, fã confesso de Guimarães Rosa, dilui sua linguagem inventiva e quase sempre apresenta mais do mesmo O novo Rosa. Modo grosso,…

  • Loucademia de shaloms

    Loucademia de shaloms

    Esqueci de postar a resonha do Chabon que escrevi em fevereiro aqui pro Estadón. Segue: Judeus congelados reinventam o romance policial Com Academia Judaica de Polícia, Michael Chabon propõe um thriller noir que investiga nada menos que a vinda do Messias Dois mitos perigosos para sustentar: o Fim do Romance e a Volta do Messias.…

  • No labirinto de Papasquiaro & Bolaño

    O milagre exige Que via imaginarei para seguir flutuando & atravessar a selva sempre crescente do grosseiro rio O milagre exige De meus ossos flor & de minha mente frutos Neste crepúsculo preciso em que a nuca do sol vai de focinho O ouro sepulta a cinza a praga ao mar a magia a toda…

  • Urgente

    Nem sei quantas vezes amaldiçoei nossa falta de pressa. Se um dia eu voltar a amar, não vou esperar para amar da melhor maneira que eu puder. Pensávamos que éramos jovens e que haveria tempo para amar bem em algum momento do futuro. É uma forma terrível de pensar. Esperar pelo amor não é vida.…

  • O Ó

    Confesso que nunca entendi nem gostei muito das obras de Nuno Ramos. Coisas como essa Craca [título autoexplicativo] ou aquele Balada [um livro perfurado por um tiro de .38] me parecem, como quase tudo o que se faz em arte conceitual, francamente, caô. Mas o cara de vez em quando interrompe sua carreira caôtica com…

  • Pecado de Pécora

    Poucas vezes li uma resenha tão preguiçosa quanto esta do Alcir Pécora, acerca do novo livro do Mutarelli, A arte de produzir efeito sem causa [Cia. das Letras]. Alcir, que é dos poucos acadêmicos que lêem de fato tudo o que se produz na literatura contemporânea [não o conheço, mas amigos próximos me confirmam], cometeu…

  • Cretinos fundamentais

    Satyros Sons e Furyas é um dos espetáculos mais esquisitos em cartaz em SP. Capitaneado pelo bróder André Sant’Anna, reveza leituras de textos deste com canções de uma ótima banda, que tem um pique meio Vanguarda Paulistana meio Orquestra Imperial [duas vocalistas, excelentes instrumentistas, uma coisa escracho hippie]. André fica sentado a uma mesa no…

  • A ressurreição d’O Natimorto

    “Tem um negócio aí que eu escrevi, mas tá ruim… Melhor deixar na gaveta. São só 10 páginas mesmo”, esquivou-se Lourenço ao telefone. “Mandae, pô”, insisti. Com Joca Terron, Marcelino Freire e Nelson de Oliveira, estava envolvido na criação da Risco:Ruído, coleção de livros provocadores velhos & novíssimos, vivos & mortos, que a DBA lançou…

  • Free jazz à bolonhesa

    Já fazia algum tempo que gente como Cecil Taylor estava agitando, mas foi o quarteto de Ornette, no Five Spot, que nos desentupiu os ouvidos. Parecia uma briga de cachorros, ou melhor, os instantes que precedem uma briga de cachorros, você os ouve na esquina e imagina a cena, os donos puxando as guias e…

  • Not so young, still gods

    Se você não foi ao SescPompéia entre 5a e sábado, perdeu, régis: a banda suíça Young Gods mandou canções matadoras, como esta sua releitura de ‘Speak low’, de Weill/Nash. O grupo formado em 1985 foi uma das atrações principais de um ciclo de shows, palestras e exposições alicerçados em uma incerta “contracultura”. [Contra o quê…

  • Memória em ziguezague

    > Essa saiu no Estadón de 4a feira passada, 14-2. No romance de formação Paris não tem fim, o espanhol Enrique Vila-Matas revisita sua juventude para entender por que raios virou escritor Por Ronaldo Bressane* Sim, eu sei que é um clichê escrever “esse livro é um companheiro de viagem, leve-o para um café, um…

  • Memória em ziguezague

    Memória em ziguezague

    No romance de formação Paris não tem fim, o espanhol Enrique Vila-Matas revisita sua juventude para entender por que raios virou escritor

  • Entre o caminho do zen e o caminho do bauret

    Dois lançamentos finalizam de forma perfeita um ano cheio de boas edições sobre música. Biografias de dois negões excessivos, que, cada um de maneira bastante peculiar, detonaram pequenas revoluções no jeito de fazer e pensar música no século 20 and beyond: um norte-americano nascido em Hamlet, North Carolina, em 1926, e o tijucano do Rio…

  • Duas Turquias de Pamuk

    Duas Turquias de Pamuk

    Dois novos livros do Nobel de 2006, o turco Orhan Pamuk, tiram a ambivalente Turquia do noticiário político e a devolvem às páginas literárias

  • Nossa vida não vale um Chevrolet

    Nossa vida não vale um Chevrolet

    É relançado no Brasil o romance Crash, de J. G. Ballard, em que o automóvel é a metáfora extrema do século 20. Em entrevista a’O Estado, o autor inglês afirma: “Ciência e tecnologia servem aos nossos mais perversos impulsos. Os seres humanos são profundamente perigosos, e ficarão ainda mais”.

  • Meu amor me ensinou a ser simples

    > essa saiu n’ O Globo, 30-6-7. Com as lições de Oswald, Drummond e Bandeira na ponta do lápis, o poeta paulista Fabrício Corsaletti estréia pela Cia. das Letras em antologia que atualiza o modernismo – sem ser chato “Acontecia às vezes/ da cidade/ se abrir como manhã de maio/ na minha frente hoje/ entanto…

  • O homem que odiava as mulheres

    Escroto, em Pernambuco, é adjetivo com duas acepções. Pode tanto significar sórdido, nojento, porco, podre, feladaputa; quanto forte, bom, ducaralho, fuderoso. Assim, peço licença e [outra vez] hiperbolizo o cujo: Baixio das Bestas é o filme mais escroto já feito no Brasil. Deixando de lado a paráfrase [vá ver o filme, régis, ou leia alguma…

  • Pequeno detalhe

    Roberto Carlos é mesmo um cuzão. Torrar R$ 1 milhão com advogados pra tirar de circulação uma biografia que o babuja do início ao fim é ser muito otário. Contrariando minha preguiça do hype [devo ser um dos poucos que não ouviu ainda o Cê do Caê], acabei comprando o livro sexta passada. Além de…

  • Vanguart

    Vanguart

    Era neurônio demais na cabeça. Precisava urgentemente de algum rock’n’roll. Hermano Vianna deu a dica: tem uma tal de Vanguart tocando na Ribeira, bairro histórico de Natal. Chegando no Do Sol, o boteco mais underground da cidade, somos recepcionados por Buca Dantas, o papa do cinema-processo – espécie de “logística” criada por ele para realizar…

  • Todo homem é uma cultura

    ::: Esta resenha saiu no Prosa & Verso, d’O Globo, 4-11-6. Não houve espaço para a engraçada entrevista que o Efraim me deu, então segue aí o material bruto [pero con ternura]. Amor e outros restos humanos Em Era uma vez o amor mas tive de matá-lo, seu primeiro romance, o colombiano Efraim Medina Reyes…

  • Eppur si muove: Plutão, Estamira

    Não obstante sua extraordinária beleza plástica, Estamira, documentário de Marcos Prado, é daqueles filmes por si necessários – talvez o único filme brasileiro realmente indispensável este ano (há uma excelente resenha do filme aqui). Apesar do último lugar na lista pequeno-burguesa de personagens que gravitam nosso imaginário consumista e pseudointelectual, a protagonista, Estamira, uma senhora…

  • O profeta do bundalelê

    “Rompam de uma vez por todas com a palavra ‘arte’, assim como com uma outra: ‘artista’. Parem de chafurdar nessas palavras que vocês repetem sem cessar. Não é verdade que cada um de nós tem um pouco de artista? Não é verdade que a humanidade cria arte não somente no papel e na tela, mas…

  • Os novos impressionistas

    Já faz tempo que se sabe que osgemeos são os grandes gênios do graffiti nacional. Paulistanos do Cambuci, os mais-que-iguais Gustavo e Otávio Pandolfo são conhecidos por dominarem dúzias de técnicas da “arte mural” – látex, spray, stencil, máscaras, canetas e longa lista de etc. – e serem incansavelmente audaciosos, a ponto de deixar sua marca registrada no alto de…