Todo homem é uma cultura

::: Esta resenha saiu no Prosa & Verso, d’O Globo, 4-11-6. Não houve espaço para a engraçada entrevista que o Efraim me deu, então segue aí o material bruto [pero con ternura].

Amor e outros restos humanos

Em Era uma vez o amor mas tive de matá-lo, seu primeiro romance, o colombiano Efraim Medina Reyes reafirma sua escrita anti-Márquez

por Ronaldo Bressane

Kurt Cobain tem 10 anos e está voltando para casa com seu violãozinho, solitário sob a garoa de Seattle. Passa por um grupo de garotos negros mais velhos, que jogam basquete sem bola. É interceptado por um dos meninos, que o impõe o uso de seu instrumento: dez minutos depois, o garoto olha para Kurt assombrado – “Você tem os olhos do Jimi”, diz. Kurt volta para sua casa e encontra a mãe histérica com seu atraso. Como castigo, a mãe tira seu violão. Só resta ao pequeno Kurt tocar, como os garotos negros, violão sem violão. Muitos anos mais tarde, famoso, rico e deprimido, Kurt tenta outra vez tocar seu violão imaginário. Não consegue – e o resto vocês sabem.

Resumida, esta é uma das histórias de Era uma vez o amor mas tive de matá-lo (Planeta, 173 págs., R$ 35), do colombiano cartaginense Efraim Medina Reyes, 39. Quando li, me lembrei no ato de Amizade, livro de André Sant’Anna, 40 – volume de contos em que o escritor mineiro tece biografias ficcionalizadas de gente como Miles Davis, os Beatles… e Jimi Hendrix, outro filho de Seattle. Desta vez o traço geracional convida à rotulagem: sim, embora de linguagens absolutamente distintas, os autores surgidos nos anos 1990 têm como cânone a música pop – em particular a contracultura anglo-saxã –, no mesmo altar ou mesmo acima dos deuses locais. Se por aqui o fantasma ainda é Guimarães Rosa, pelas bandas colombianas o leviatã morto-vivo se chama Gabriel García Márquez. Contra o realismo-mágico que se tornou pensamento único na terra da cocaína rara e barata é que se insurge a voz de Efraim, sempre falando através de seu narrador, Big Rep, tentativa de músico, escritor, cineasta e fundador da Fracaso Ltda. (cujo slogan é “Onde for preciso um fracasso, lá estaremos”).

Em lugar das folclóricas tintas latinas, Efraim toma como mestres Kurt Cobain, Sid Vicious (cuja vida também ficcionaliza) e Charles Bukowski, numa narrativa muscular bem próxima de outro caribenho: Pedro Juan Gutiérrez. Neste romance não-linear, surgem espasmos da vida de suicidas pop e da própria vida de Big Rep/Efraim, numa dicção que vaga entre o cômico e uma melancolia sem-lugar – tons que atingem mais consistência em seu elogiado Técnicas de masturbação entre Batman e Robin (Planeta). Efraim, que vive entre Cartagena, Colômbia, e Vincenza, Itália, onde mora sua mulher, respondeu a perguntas d’O Globo via e-mail diretamente de, ele jura, Paris (“Não fico mais de um mês no mesmo lugar”, afirma). Como os escritores mais sérios, Efraim tem a sabedoria de não se levar a sério. Divirtam-se.

Quando escreveu Era uma vez o amor mas tive de matá-lo? Em meados dos 1990 ainda vivia em Cartagena, minha “cidade imóvel”, e não me passava pela cabeça virar escritor; minha paixão e meu objetivo era a música. Eu e meus amigos e tínhamos um bar, muitas mulheres e a 7 Torpes Band. Tudo foi abaixo porque eu tinha me apaixonado, sem perceber, por “certa garota” e ela me deixou para ficar com um maldito dentista… e tudo porque me encontrou transando com a sua melhor amiga. Aprendi com dor e sangue o quanto é perigoso brincar com os sentimentos alheios, a depressão sentimental trouxe outros fantasmas, inclusive me fez entender que não valia nada como músico e decidi deixar a minha cidade para tentar saber aquilo que todo homem deveria saber antes de deixar este mundo porco. Nessas circunstâncias, entre hotéis baratos e amores mais baratos ainda, escrevi a novela como terapia contra aquela horrível sensação de fracasso e abandono.

É sobre sua vida? Há muito da minha vida ali, não tanto no sentido biográfico mas no emocional. A história que conto é uma desculpa para refletir sobre os eternos assuntos da condição humana e, é obvio, as angústias, alegrias e expectativas geracionais. Gosto de partir da minha experiência, daquilo que conheço para depois me aventurar em outras dimensões. Para mim a linguagem é um meio, não um fim. Interessam-me as palavras na medida em que possam servir para o leitor para alguma coisa, pretendo transformá-la numa arma de defesa contra a demência cotidiana, a estupidez, as trepadas ruins e os falsos amores.

Esta é uma questão relevante? Digo – é relevante o leitor ter acesso à biografia do escritor? Saber quem sou não tem nenhuma importância na hora de ler o que escrevo, as novelas são entes autônomos. Mas como leitor entendo a curiosidade que certos autores despertam. Lendo as novelas de Capote e Carson McCullers me afeiçoei a eles e comecei a pesquisar sobre suas vidas.

Até onde Big Rep é você? Quando ele deixa de ser? Acredito que compartilhei com esse personagem algumas das minhas experiências vitais… Imagino que a paixão desmedida pelas mulheres é uma coisa que sempre teremos em comum assim como a auto-ironia e o vício de dizer as coisas da maneira como as pensamos.

Seu romance me parece um livro que constrói minuciosamente uma personalidade – ao mesmo tempo em que demonstra, através de fragmentos da vida de Sid Vicious e Kurt Cobain, o processo de sua destruição. Concorda com essa análise? Sim, na verdade as obsessões do Rep e seus transbordamentos emocionais são uma afirmação da vida. É um cara que está fodido, raivoso, decepcionado, mas com uma ânsia selvagem de viver. Sid e Kurt são a outra cara da moeda, as obsessões os conduzem irremediavelmente à morte. E isso é um código cultural do Caribe e da cultura afroamericana; transformar a tragédia, a dor, a pobreza e todo tipo de adversidade em mais uma razão para viver. O homem branco, e me refiro ao que pensa e sente como branco, tem pouco sentido de ritmo, trepa mal e apodrece mais rápido.

Era uma vez o amor mas tive de matá-lo é muito inspirado em Bukoswski. Ele é ainda o seu grande guia? O que você lê hoje? Eu me identifico com Bukowski no sentido vital, não acho que haja muita relação no sentido literário, ele é um escritor clássico e eu um experimental. Sinto-me mais mais próximo de Cortázar, Laurence Sterne ou do Capote de Música para camaleões. Cresci num bairro difícil e acredito que isso marcou minha forma de ver o mundo e a linguagem direta que atribuem aos meus livros. Detesto a retórica, gosto de ver as coisas sem enfeites e de chamá-las pelo seu nome. Bukowski é um escritor extraordinário, mas hoje leio mais escritores como Harold Brodkey e Stefano Benni.

Outra chave para girar seu livro é a questão do sucesso/fracasso, tanto é que sua empresa se chama Fracaso Limitada. Ser um loser brilhante hoje é garantia de ser bem-sucedido? Afinal, a máquina de fazer celebridades do nosso tempo adora malditos como Sid e Kurt… O fracasso, o verdadeiro fracasso, não tem nenhuma relação com a obtenção de certas coisas na vida. Trata-se da sensação e da certeza de que, não importa o que você faça, está reduzido a ser um mamífero, uma criatura sem possibilidade de se comunicar, cheia de ânsias insaciáveis e com uma estreita lucidez frente à urgência elementar de saber quem raios é o que significa. O dinheiro, a fama e as adulações são apenas o peixe podre com que alimentam a foca amestrada para que continue divertindo o público. É verdade que há camas mais suaves, bundas mais vigorosas e carros mais velozes que outros, mas isso não garante que a gente durma mais tranqüilo, demore mais para ejacular ou chegue mais longe.

É impossível separar sua vida de sua literatura [e não acho isso ruim], então lá vai a questão indiscreta: hoje, bem casado e bem morando em Vicenza, Itália, o que o move? Afinal, Era uma vez o amor mas tive de matá-lo é movido por uma insatisfação, uma raiva e até um ressentimento ferozes. Não teme ‘aburguesar’ sua literatura, hoje? O amor, o mais doce amor, não passa de uma crise que deixa aversão. A única cura é continuar amando. Sempre vivi no fio da navalha e não posso mudar isso. Não vivo em Vicenza, passei um tempo ali. Eu gosto de me mover, mudar de pele. O mundo só é divertido quando se é capaz de romper seu próprio equilíbrio. Recuso-me a ser um animal doméstico, não acho que tenho um lugar no mundo. Eu me sinto desconfortável aqui ou lá, mas o suicídio me parece uma droga muito perigosa, em compensação o sexo é um bom calmante.

Costuma visitar a Cidade Imóvel? Vou seguido, lá está grande parte do que amo. Minhas raízes, a razão de minha ira e desenfreio. Tenho uma relação visceral com minha cidade, há dívidas pendentes. Acredito profundamente na amizade, é minha única religião.

Como vê a Colômbia hoje? Sente-se um exilado? A Colômbia é um belo e demencial país em guerra; quando nasci a guerra já tinha começado e desde que me lembro falam em acabar com ela, só que as razões dessa guerra continuam intactas: a miséria, o racismo, a corrupção, o poder e a riqueza concentrados em poucas pessoas e o resto condenado a viver na merda… Sou parte desse país, não posso me sentir exilado porque vou para a Europa a cada certo tempo. Eu gosto de estar na Colômbia, apesar da violência é um país muito divertido.

Um dos méritos de Era uma vez o amor mas tive de matá-lo é demonstrar que o eixo paradigmático da literatura dos anos 90/00 no continente não é a latinidade, ou melhor, não é o universo do bem-sucedido realismo mágico, e sim mais calcado na contracultura anglo-saxã, principalmente a influenciada pelo rock’n’roll. Mas esta não será também uma espécie de armadilha para o escritor – impor-se uma perspectiva sempre na periferia da cultura dominante? Minha cultura está em mim e nos meus sonhos, acredito que cada homem é uma cultura em si mesmo. Quando me sento para escrever não o faço desde um lugar geográfico mas desde minha alma, minhas vísceras, minha mente. Sou um mestiço desde qualquer ponto de vista, uma incessante mescla de tudo o que existe. Milhares de fragmentos dispersos fazem o que sou e não posso reduzir isso a um estúpido nacionalismo. Amo Miles Davis, Chico César, Bach, Roberto Carlos. Amo o mar e a neve, amo o son e o guaguancó… O que significa hoje ser de um lugar? Eu gosto de futebol inglês, de comida árabe, de vodca russa… Detesto a cumbia, um puto japonês entende mais de cumbia do que eu.

Você leu as biografias de Sid e Kurt para ficcionalizar momentos da vida deles? Não li as biografias de Sid ou Kurt, cresci ouvindo a música do The Sex Pistols e as histórias do Sid, nos noventa me afeiçoei ao Nirvana. A história de um e de outro estavam no ar e eu fiz minha versão, o resto eu inventei.

O que você ouve hoje? Revivi a 7 Torpes Band com dois músicos italianos, um roqueiro e outro mais eletrônico. Estamos gravando um CD intitulado A forma do vazio. Com 14 de minhas canções. Então ultimamente só ouço isso. Sou um animal eclético, passo de Marvin Gaye a The Cure com facilidade. Eu gosto de uma banda eletrônica chamada Orbital e de muitas outras coisas…

O que o deixa mais irritado? Que todas as mulheres que eu acho gostosas não se entreguem para mim. Que a estupidez continue ganhando a batalha, que o lixo que Paulo Coelho e Dan Brown escrevem seja consumido por milhões de mamíferos. Que nos estádios de futebol milhares de pobres se matem enquanto 22 milionários se divertem no campo. Basta de assistir futebol, é hora de jogá-lo, todos. Não quero assistir à próxima final da Copa, quero jogá-la.

Por fim: quanto tempo o cupim leva para devorar o bosque? Querido amigo, não tenho todas as respostas, só espero que antes que o bosque desapareça o lobo tenha conseguido dar uma boa trepada com a Chapeuzinho.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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