Loucademia de shaloms

Mas que sapatón, seu Chabon
Mas que sapatón, seu Chabon

Esqueci de postar a resonha do Chabon que escrevi em fevereiro aqui pro Estadón. Segue:

Judeus congelados reinventam o romance policial

Com Academia Judaica de Polícia, Michael Chabon propõe um thriller noir que investiga nada menos que a vinda do Messias

Dois mitos perigosos para sustentar: o Fim do Romance e a Volta do Messias. Ambos os eixos se cruzam em Academia Judaica de Polícia, de Michael Chabon (Companhia das Letras, 463 págs.). O segundo eixo, na verdade, derruba o primeiro – o mito judaico é responsável pela engraçadíssima conspiração em busca da Terra Prometida, aqui em criativo registro: um romance policial que se passa em um universo alternativo. Os profetas preguiçosos que proclamam que o fim do romance está próximo não vão gostar nada desse livro, que se lê com enorme prazer – tanto pela inventividade da linguagem quanto pela segura condução da narrativa.

O tal universo alternativo é o Alasca, estado que, no livro de Chabon, abriga milhões de chosen frozen (“eleitos congelados”). A idéia de um mundo paralelo, em que a narrativa toma uma espécie de atalho literário da História, não é nova – lembre-se do fabuloso O homem do castelo alto, romance de Philip K. Dick em que os EUA perderam a guerra e foram divididos entre Japão e Alemanha. Mas, neste quinto romance, o superpremiado autor de As incríveis aventuras de Kavalier & Clay retoma o conceito com graça e fantasia – e, numa época em que o mundo se pergunta por que Israel se tornou um país tão ferozmente beligerante, o livro fornece iluminações preciosas.

A premissa: em 1948, os judeus perdem a guerra da independência de Israel e são forçados a aceitar um asilo temporário no Alasca concedido pelo presidente Roosevelt. A proposta existiu de fato, mas sua votação no Congresso nunca aconteceu. Entanto, a idéia de fornecer um território exclusivo para judeus reapareceu algumas vezes no século 20. Os japoneses tentaram atrair os barbudos – e suas economias – no Fugu Plan (“fugu” é o nome de um tempero que, mal cozinhado, pode se transformar em veneno). Churchill lhes ofereceu um pedaço do atual Quênia, oferta recusada. Stálin destinou aos judeus russos um território autônomo entre a Sibéria e a China. Mesmo os nazistas, antes de optar pela inominável Solução Final, planejaram deportar os judeus para a ilha do amor, Madagáscar, então possessão da França, invadida pela Alemanha. Tudo isso entre os anos 30 e 40 – para usar o refrão de AJP, “uma época estranha para ser judeu”.

Vacas maquiadas e gângsteres hassídicos
Chabon, nascido há 47 anos em uma família judaica de Washington DC, situa seus personagens em Sitka, cidade da Baía do Alasca. Eles são agora quase 4 milhões; porém, depois de terem se confrontado – ou mesmo se aculturado – com os tlingit locais, os chosen frozen são ameaçados pela “reversão”: momento em que, conforme estipulado sessenta anos antes, os EUA os forçam a sair de seu provisório território. Uns planejam invadir a Palestina, outros lotearem Madagáscar; outros, a pegar em armas.

Nesse clima de Juízo Final, Chabon chega ao requinte de criar um dialeto que flexiona palavras hebraicas com sonoridades do iídiche e do inglês. Assim, piece (pedaço em inglês) no jargão noir significa arma; mas a palavra lembra a homófona peace (paz) – logo, na imaginária colônia judaica, políciais, ladrões e gângsteres chamam suas armas de… shalom. A tradução do livro para português, a cargo de Luiz A. de Araújo, é certamente feliz ao escolher não traduzir este e outros termos, reservando-se o direito de manter no português brasileiro (em AJD os americanos não falam inglês, mas “americano”) gírias e expressões bizarras inventadas por Chabon. O resultado é tão saboroso quanto um repolho recheado – iguaria adorada pelo protagonista, Meyer Landsmann.

A linguagem, conforme dito, é o ponto alto do romance, e a imagem, seu prato principal. Chabon é um alucinado por descrições, o que faz de AJP um livro eminentemente visual. Ao contrário dos pouco imaginativos preciosistas do realismo, que defendem um texto isento, concreto, de adjetivos restritos, prático ao extremo – o legado de autores hardboiled como Dashiell Hammett –, Chabon detona a escrita noir com uma verdadeira festa da linguagem.

Muito do encanto do livro está no esplêndido uso da metáfora, da analogia e da comparação. O famoso mandamento tchecoviano “Se você mostra uma arma no início de uma narrativa, no fim tem de dispará-la” é solenemente jogado no lixo por Chabon, que atira tantas pistas falsas pelo livro quanto Super Mario joga cascas de banana fugindo numa moto em alta velocidade.

Exemplos: “o prédio tem o charme de um desumidificador”, “ele jogava xadrez como um sujeito com dor de dente, hemorróidas e gases”, “gingando feito um ursinho cujos donos cruéis o obrigam a executar proezas aviltantes”, “os olhos lembram o lado convexo de duas colheres”, “a cabeça se assenta na garganta venada feito um parasita forasteiro a lhe devorar o corpo”, “um alfabeto de homens espalhados numa página verde”, “barulho como de ossos num balde”, “um céu que é como um mosaico feito de cacos de mil espelhos, cada qual de um tom diferente de cinza”.

Mas, a história. Landsmann, detetive durão e endurecido pela depressão e pelo álcool (clichê), um órfão de pai suicida que perdeu a irmã aviadora num acidente e a mulher por causa de um aborto (nem tão clichê), fica obcecado pelo assassinato de Mendel Shpilman, um enxadrista heroinômano, no mesmo hotel em que vive (nada clichê), que descobre ser nada menos que o Tzaddik Ha Dor (o “justo de sua geração”, a/k/a O Messias; ok, esqueçamos os clichês).

Seu parceiro é o ameaçador Berko Hertz, um gigantesco mestiço de judeu e tlingit; sua ex-mulher, a irônica Bina Gelbfish, retorna como sua chefe na delegacia de Sitka e o proíbe de investigar o homicidio. É a senha para o sarcástico Landsmann se obstinar a desvendar uma conspiração em que não faltam gangues de hassídicos (os “urubus”), clínicas de reabilitação clandestinas, fanáticos por xadrez, túneis misteriosos, vacas maquiadas, rosquinhas filipinas e muita tensão sexual entre Landsmann e Bina. Tudo isso temperado com diálogos espirituosos muitos graus abaixo de zero.

Outro mito certamente repelido por este romance é o de que bons livros nunca dão bons filmes. AJP está sendo adaptada pelos irmãos Coen, que, com a recriação do romance de Cormac MacCarthy, Onde os fracos não têm vez, já haviam soterrado esse lugar comum. Ou seja, certamente vão produzir outro grande filme (bom lembrar que Chabon já teve seu Garotos incriveis brilhantemente filmado por Curtis Hanson).

Sem querer dirigir sua leitura, o livro se torna muito visível se a gente se lembra do nevado Fargo e imagina Frances Macdormand no lugar de Bina, John Turturro no de Landsmann, John Candy no de Berko… Enquanto o filme não estréia, sugiro a leitura de Chabon. Quem não gostar, que continue à espera do Messias dos romances, gelado feito um picolé.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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