Famoso também é gente


Siamese twins, de Alla Tkachuk
Siamese twins, de Alla Tkachuk

Saiu o Inverdades, do André Sant’Anna, o gênio da burrice. Mestre em pegar assuntos complexos e ir reduzindo à migalha, André tricota personagens até se transformarem em estereótipos, estereótipos se tornarem signos, signos virarem meros ritmos. Binária, sua literatura quebra comportamentos requintados com equações de primeiro grau, provando que, apesar de toda nossa empáfia, ainda somos uns símios.

‘A letra do samba-enredo da escola de pequeno porte contava a história, a vida e a obra do acadêmico Paulo Coelho.’

Esse livro de contos do André é provavelmente sua obra mais engraçada, que é outra coisa que ele prova: o texto mais experimental pode ser o mais hilário. A idéia simples por trás dos 15 contos é pegar personagens da ‘vida real’ – na real ex-humanos que viraram convenções em carne e osso, fantasmas de reality show – e observá-los por um olhar situacionista, sem alarde nem ênfase.

‘Todo sábado, depois da feira, depois da xepa, depois de vender o último tomate, o Ronaldo ia jogar uma pelada lá no campinho do parque. O Ronaldo jogava razoavelmente, mesmo sendo meio gordinho.’

Essa banalidade do real lembra o mal-estar causado por obras como as do pintor Alla Tkachuk . Dá vontade de rir dos ditadores em action paintings, mas também dá um certo estranhamento. É o que rola no triste “Gases”, que narra o problema que Nelson Rodrigues tinha com a flatulência. Ou “Lula, lá, de novo”, contando a festinha da reeleição do Quase-Cinco [nome de guerra do presidente entre os amigos de sindicalismo].

‘Por volta da meia-noite, Duke Ellington deixou a cova e se sentou sobre o túmulo, observando a lápide vizinha, de Miles Davis.’

A lente da inverdade de André é dinâmica: ora imagina situações [como o papo de Miles com Duke no além], ora observa celebridades através de anônimos que poderiam ter sido famosos [como um peladeiro Ronaldo vidrado numa tal Daniela Cicarelli], ora recria cenas clássicas [os Beatles fumando um beck no Palácio de Buckingham, a festa em que Mick Jagger conheceu Luciana Gimenez, João Gilberto reclamando do som de um show em São Paulo].

‘No banheiro do palácio da rainha da Inglaterra:
– George, porra, passa o baseado.
– Peraí, acabei de acender.
– Vai logo, senão chega o guarda.
– Deixa de ser paranóico, John. Daqui a pouco você vai ser Lord Lennon.’

Outro procedimento é o do ‘e se…?’. Aí saem peças como a carta de despedida de Sandy, o monólogo de Bush bêbado num pub inglês, o desfile medíocre da sociedade brasileira assistindo a um medíocre desfile de carnaval. [Estas saíram na Trip – e o publisher volta e meia pedia um corte no texto do André, pra não chatear algum amigo…] Minhas favoritas são o angustiado retrato de Charlie Parker – ou ‘O perseguidor’ de Cortázar para crianças freaks – e o relato da morte de Jimi Hendrix; bons de doer.

‘Jimi estava muito cansado e queria voltar pra casa. Mas toda noite era assim. Alguém estava sempre arrastando Jimi pro mau caminho.’

Agrippinamente, André devolve a condição de ‘reais’ aos famosos: a glória, sabe-se, oferece ao afamado o efeito colateral de envernizá-lo com fantasia, arrancando sua condição humana. Ao dedurar a estupidez atávica aos ícones pop com lógica cruelmente infantil e linguagem de tia fofoqueira, André faz com que o leitor ria e chore com esses seres falsos. Meio que pensando: poxa, coitados… famoso também é gente.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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