Esquimó sai do forno


Entrevista com Fabrício Corsaletti feita pro Outlook [p. 65] – 2 de março o poeta lança Esquimó na Livraria da Vila

Fabrício Corsaletti no clique de Renato Parada

“Escrevo/ como quem constrói/ um túnel transparente/ para o vento/ como quem modela o vento/ como quem deseja/ ajudar/ o vento/ a passar.” Nessa rara passagem metalinguística, Fabricio Corsaletti, 31, mais uma vez fala sem falar, abordando o invisível da poesia. “Poesia é o movimento de dar nome para o que não tem nome. Só que em geral quando você tem faz um poema sobre algo que você acha que sabe sobre o que é, o poema acaba te revelando uma outra face“, se contradiz o jovem poeta e editor para o Outlook. E seu novo livro é mesmo essa contradição: de um lado é angustiado, de outro, bem-humorado. É Bandeira, mas também é Dylan; é Hemingway, mas também Vinicius. Como sempre, lírico no úrtimo – como diriam os conterrâneos do poeta nascido em Santo Anastácio (SP) .

Caipira, estranho, estrangeiro, deslocado é o lugar de Esquimó (Companhia das Letras, 76 págs.), novo livro do elogiado autor de Estudos para seu corpo, King Kong & cervejas e Golpe de ar – todos surgidos em três anos. Isso sem falar em Zôo zureta (Cia.), seu novo livro de poemas para crianças. A superprodução demonstra o grande momento vivido por Corsaletti, que troca a balada para acordar bem cedo – mas nunca descuida da musa, a professora de estilismo Mariana Rocha. A seguir, a entrevista integral sobre o amigo poetinha, de quem eu já havia feito um perfil para O Globo, aqui.

De onde saiu a imagem do esquimó?
Esquimó é o símbolo do estranhamento, é um jeito perverso ou bizarro de se ver. Saiu de um poema do livro. A expressão “meu amigo esquimó” foi inspirada em um poema do Joca Reiners Terron. Também tem uma música do Dylan, “Quinn the eskimo (The mighty Quinn)”. Gosto muito de Dylan, é um grande poeta. Já traduzi pra mim metade das letras. O esquimó tem um caráter meio ambíguo. Tende pro estranho, pro bizarro, e também pro lúdico. Pode ser um não-lugar da poesia na cidade.

Deslocamento é uma idéia muito presente na sua poesia. É porque você é caipira?
Já parei pra pensar nisso… mas quando eu tava lá, me sentia mais caipira que os caipiras. Me sentia civilizado demais. Tinha um esquimó da minha infância que era um ermitão, num sítio vizinho ao do meu pai. Meu avô era um pouco assim. Mas também pode ser o lugar da poesia, da imaginação. Acho que nesse livro tem uma caipirice mais fantasiosa. O Movediço era mais real, mais imediato, tinha acabado de chegar em São Paulo. Tem um lugar da minha imaginação que é meio caipira, pré-civilização.

Outra imagem recorrente é a do vento… como se você quisesse desaparecer por trás dos poemas.
Nunca pensei nisso. Mas pode ser um reflexo da idéia de que o invisível não está inexistente, ele é visível na nossa psique, no nosso cotidiano. É também o lugar da poesia.

Uma imagem semelhante, que está em outro livro seu, Golpe de ar, tem a ver com liberdade…
Com surpresa, com sair de um estado ruim para viver o imponderável, que você não é capaz de viver. Pra minha vida pessoal é uma ética. Eu tento não me fechar. Eu sou totalmente pé no chão e prático. Acordo cedo, trabalho, não atraso, não falto, nada disso. Mas eu gosto de deixar coisas sem nome, coisas não definidas, não gosto de ter a ilusão de que sei tudo. Evito viver de maneira estereotipada. Não acho que sou uma pessoa que vive uma vida fora da vida. Tento encarar meus problemas. Só preciso de grandes amigos, de um grande amor. Odeio ser blasé, sabe?

O que é poesia?
Poesia é o movimento de dar nome para o que não tem nome. Em geral quando você tem faz um poema sobre algo que você acha que sabe sobre o que é, o poema acaba te revelando uma outra face. Raramente eu começo um poema e ele termina do jeito que eu pensava antes. Acho que tem que estar aberto para a surpresa, para o inesperado. É o pacto da poesia: você pode nunca mais escrever e pode ser surpreendido por isso.

Já teve bloqueio pra escrever?
Já, mas agora não. Estou na melhor fase. Dificilmente eu passo mais de dois dias sem escrever nada. Mas já tive medo de perder a mão, já passei meses sem escrever… Você força, força e não sai nada… É possível travar por algum motivo inexplicável. No fundo eu tenho uma confiança de que vai voltar. Aí espero. Mas atento, nem desatento pra deixar passar nem tanto atento pra forçar demais. Tento ficar esperto e ter humilde. E jogo muito poema fora.

Como escreve? Começa da imagem ou de um jogo de palavras?
Vem tudo junto. Uma sonoridade, um ritmo, e cada vez menos sem imagens concretas. Tenho uma obsessão imagética. Por exemplo, eu queria escrever algo sobre as orelhas. Tava fazendo a barba, olhei pra minha orelha e falei, poxa, nunca penso nas orelhas, e elas são tão leais a mim. Aí pensei em fazer um poema cômico, de estranhamento, meio esquimó. Aí quando vieram esses dois versos “e nunca botaram outro malandro no meu lugar” saiu nos 45 do segundo tempo, e só aí senti que ficou pronto. No fim do dia escrevi. É, foi num dia só. Muito difícil demorar mais de três dias para escrever um poema. Resolvo muito poema no fim do dia. Não guardo frases, não tenho bloco de anotações. Esses dias eu tava lendo um poema do Catulo. “O ócio, Catulo, te faz tanto mal.” Aí fiz uma estrofe em cima disso, achei que o poema estava pronto. Um amigo fez uma crítica radical, destruiu o poema, joguei fora. 15 dias depois, sábado agora, tinha uma festa pra ir, não fui. Aí veio de novo “O ócio, Fabrício, te faz muito mal“. Fui até o final e terminei o poema.

Esse poema das orelhas é muito besta…
Ele divide o livro no meio. Até este poema, o livro é um pouco melancólico. Depois ele se entrega para um humor. Esse poema da gaiola eu fiquei o tempo todo escrevendo um poema com “máscara” e “gaiola”. Depois de seis meses, eu acabei fazendo dois poemas.

Seus poemas não são reflexivos, você resolve tudo pela imagem.
Sou ruim de reflexão. Esse livro é muito repetitivo, muita imagem volta. A Eva Green, por exemplo, aparece duas vezes…

Ela pode aparecer sempre!
Tem o poema “Seu nome”, que também tem muita repetição [clique aqui para ver Corsaletti lendo este poema].

Nome que, assim como o vento na poesia, nunca aparece.
Tem uma oposição aí: aparece tanto que acaba por sumir. E é um mantra. É o poema que eu mais gosto. Eu sempre quis fazer um poema assim. E é um contraponto à Eva Green – que é atriz do cinema mundial, um símbolo sexual e tal, uma mulher pública do capitalismo, da ordem mundial. Já o poema “Seu nome” fala da musa da vida íntima, a musa do segredo. Tudo o que eu penso sobre poesia e sobre lirismo está ali.

O nome não é dito mas é a Mari, sua mulher, né?
Eu não cito a Mari, tem M., até pensei em colocar uma dedicatória, mas preferi manter em segredo no final. Mas é ela, claro.

Quanto tempo estão juntos?
Três anos e meio. Não moramos juntos por questões muito pessoais, mas eu vou lá no apartamento dela, ela vem no meu e assim vai, é bom para os dois, cada um tem uma rotina. Na verdade a gente quase não tem distância nenhuma…

Como foi o processo de escrever esse poema “Seu nome”?
Eu queria fazer um poema “pra valer”. Fiz meio brincando, mas é o poema mais cara de pau e cínico do livro, e ao mesmo tempo o mais lírico e dramático. Uma amiga disse que era uma palhaçada. Tinha o dobro do tamanho. Tinha coisas como “Em Minas Gerais tem uma cidade com seu nome“, “Se eu tiver uma tatuagem, vai ter o seu nome“. Fui juntando as melhores imagens em blocos de significantes e cortei até 60 versos. Seria legal ler com um piano de fundo, meio jazz. O metro tem muito a ver com Apollinaire , e o poema todo se relaciona também com um verso famoso de Éluard, que também é cheio de repetições [Nos meus cadernos da escola/Na minha carteira nas árvores/ Sobre a areia e sobre a neve/ Escrevo o teu nome].

Outra coisa que percebo em sua poesia é a culpa. Você tem culpa de quê?
Não sei, mas sinto muita culpa. Acho que a culpa é um mal-estar do refluxo de uma entrega a certas coisas, como um poema. É um reflexo de me deixar permitir escrever algumas coisas. Talvez seja um sentimento meio camuflado. Eu me jogo para as coisas, e acho que é por covardia que eu me jogo, porque eu não me fecho para nada.

Você é muito chorão?
Muito. Choro em qualquer filme. Eu me comovo com as coisas. As coisas me incomodam. Não levo na boa as coisas. Em geral eu sou sério. Por isso que eu gosto tanto de beber: pra tentar relaxar.

Faz análise?
Parei ano passado, fazia duas vezes por semana. Fiz durante 9 anos. Comecei por angústia, fazia faculdade, uns frilas. Acho que minha culpa tem a ver um pouco de eu me sentir responsável pelas pessoas, não me sentir à altura do amor que sinto pelas pessoas. Acho que eu seria outra pessoa sem análise. Claro que qualquer coisa que você faz durante nove anos te muda – se fosse ping pong, plantação de alface, também mudaria. Mas sou muito grato à minha analista. Acho que fui criado pra ser um bom menino e hoje consegui assumir um estranhamento em relação ao mundo. Um bom menino precisa cumprir com as expectativas dos outros. Resolvi que não preciso.

O que é esse “Penúltimo poema pros pais”?
Uma tentativa, né, de deixar o passado em paz, mas não sou capaz disso… Eles às vezes reclamam que eu falo tanto deles, mandam um “vira o disco, menino”.

Teu pai te demandava muita expectativa?
Não exatamente… meu pai é poeta, compositor, tem disco com marchinhas de carnaval, fez o hino de Santo Anastácio. Mas é dentista, se preocupa com o lado prático. E minha ambição nunca foi pequena, não poderia focar em outra coisa que não fosse escrever. Quando resolvi ser poeta, vi que era uma decisão totalmente minha. Sempre quis que isso desse certo, fazer os poemas que eu queria fazer e conseguir um mínimo de reconhecimento, ter um retorno de pessoas que se emocionaram com um poema meu – sempre foi isso o que eu queria. Não quero reconhecimento midiático, nem de grana: só fazer alguma coisa que poderia dizer respeito a alguém mas que, no fundo, só diz respeito a mim. Esse livro é o máximo que eu quis fazer. Ele junta humor e angústia, lirismo e mal-estar.

E quando você sente que o poema está bom pra sair do forno?
Quando eu decoro. sei todos os meus poemas de cor. Quando fico meses com ele na cabeça e nada me incomoda. Quando termino um poema a pé no meu trabalho, volto pra casa a pé e fico pensando no meu poema. No meio do caminho, se eu sinto que um verso tá ruim, isso estraga o meu dia. Aí fico pensando naquilo até resolver, e em geral acabo resolvendo no dia seguinte.

Apesar dessa vida regrada, você não é recluso…
Não, eu adoro balada. Me controlo pra poder escrever mais. Quando tô escrevendo prosa, sou capaz de ir dormir às 20h30. eu acordo às 6h e já começo às 6h15, o café e o pão ali do lado. Nunca escrevi nada depois das onze horas. Adoro a manhã, é quando me sinto mais lúcido. Poesia não tem horário, mas não escrevo à noite. E também não escrevo se estou em algum lugar estranho, viajando. Em geral escrevo sobre coisas banais. O poema da vizinha foi todo inventado, eu queria ter uma vizinha que fosse um Bob Dylan mulher com 33 anos, daí esse poema. E nem sempre escrevo com a memória. Quando tô escrevendo prosa, não vou em festas, não saio, nada. O ideal é ficar 5 dias sem sair nem beber, indo dormir 21h. Daí escrevo dois parágrafos por dia, e em 2 meses eu tenho um conto.

Quais são suas regras para poesia?
Só faço na ordem direta, se possível sem pontuação, uso mínimo de recursos, não uso muito enjambement [encadeamento de versos], quebro o verso para ele não ficar muito solene, tento deixar o poema mais vertical.

Quais são seus principais interlocutores?
O artista plástico e editor Alberto Martins, um cara muito elegante, discreto, de poesia idem. A poeta Angélica Freitas, acho ela genial. E ela ainda nem tá escrevendo o tanto quanto ela ainda vai escrever! Ela tem uma precisão nível Bandeira e Chico. Outro cara com quem eu converso muito, mas aí sobre prosa, é o Chico Mattoso.

Acha que falta debate em torno da poesia?
Sou meio contra debate. Não tenho paciência pra isso. Já participei, como na Flip. mas hoje prefiro escrever a debater. Gosto, sim, de ler meus poemas em voz alta.

Quem lê poesia hoje?
Acho que nem todo mundo gosta de poesia. As pessoas gostam mais de prosa. Mesmo escritores. Mas não me preocupo muito com isso.

E como anda sua produção agora?
Já estou com uns dez poemas e uns quatro contos novos.

O que está sempre na cabeceira?
Gosto do Tchecov, Hemingway, Jack Kerouac – acabei de descobrir nele o conceito da alegria sagrada –, William Saroyan, Dylan Thomas… e Bandeira e Drummond, claro.

O poema “Estudos para seu corpo”, como fez?
Eu tava travado pra escrever, então resolvi voltar pro básico. Pensei: o que é que eu gosto mais? É de mulher. Então vamos descrever uma mulher, parte por parte. Foi muito difícil, no começo era meio discursivo. Mas depois peguei um jeito de escrever isso e foi. Só depois é que eu vi que tinha algo a ver com o “Receita de mulher“, do Vinicius. Mas no meu poema não tem nada daquela coisa de homem entendedor da mulher. Eu queria tirar o homem da jogada. Porque na real eu não entendo nada de mulher.

Tem consciência de que muita gente presenteou Estudos para seu corpo pra comer alguém?
Nunca fiquei sabendo disso… Mas é um grande elogio!

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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