Meu amor me ensinou a ser simples

> essa saiu n’ O Globo, 30-6-7.

Fabrício Corsaletti a/k/a The Eskimo no clique de Renato "Ética" Parada
Fabrício Corsaletti a/k/a The Eskimo no clique de Renato “Ética” Parada

Com as lições de Oswald, Drummond e Bandeira na ponta do lápis, o poeta paulista Fabrício Corsaletti estréia pela Cia. das Letras em antologia que atualiza o modernismo – sem ser chato

Acontecia às vezes/ da cidade/ se abrir como manhã de maio/ na minha frente hoje/ entanto há nem/ vento solução/ de nuvem manga/ mordida no úmido quintal/ onde minhocas caramujos caquis podres.” Assim inicia a primeira antologia poética do paulistano Fabrício Corsaletti, Estudos Para o Seu Corpo (Cia. das Letras, 165 págs., R$ 30). Começa já meio com soluço – o autor tinha 23 anos quando o publicou pela primeira vez (tem agora 29) –, mas decididamente com timbre seguro, ecoando duas marcadas referências: Drummond e Bandeira. Rapaz vindo do interior (Santo Anastácio, SP, cidade que aliás ganhou hino escrito pelo poeta), Corsaletti guarda um olhar entre o terno das lembranças e o terror pelo sufoco da província: “a cidade não cabe/ cheguei no limite do poema”. Ele olha os mesmos bois que o poeta mineiro tão pasmaceiramente enquadrou – porém os atinge com raiva certeira: “(seria preciso um soco/ no olho do dia/ o pus da pastagem/ enfim rasgado/ o vão – o mundo aberto – em que esses bois se movem/ e o sol)”.

Aqui, a infância do poeta pernambucano, estação primeira de humildade, paixão e morte, o paulista contamina com o caruncho do tempo: “os tomates/ fervendo na panela/ meu pai minha mãe/ na sala televisão/ fiquei olhando/ os tomates/ estava frio o bafo/ quente dos tomates/ esquentava as mãos/ saía da panela/ já naquele dia/ um cheiro/ forte de passado”. Com pontuação exígua, senso certeiro de imagem e divisão rítmica, além de precisão e aridez no verso, Corsaletti parece radicalizar a poesia do modernismo de primeira hora, ao mesmo tempo que lhe atualiza o léxico e a velocidade de percepção. Porém não só à luz de Drummond e Bandeira, influências centrais da poesia do século 20, ou de Cabral, que iluminou a poesia concreta e além. O sol da poesia do santanastaciano parece emanar da doce iconoclastia de Oswald – o que, curiosamente, o aproxima de outro poeta de forma límpida e certeira: Leminski. É o que se nota neste outro, ainda da fase inicial: “não sei se devemos/ queimar navios/ ou velejar”. Ou neste dístico-síntese: “a ternura/ como último desdobramento da revolta”.

Dos quadris aos seios

O leitor atento de poesia brasileira contemporânea irá notar uma ausência estranha nos versos de Corsaletti. Não é de pontuação, exatamente, embora esta seja rara e bem posta. A ausência gritante é da falta de referências literárias. Citações e nomes são quase nulos nos poemas do rapaz. “Cantar/ do mar o sal/ e não a água”, diz ele em “Articulações”, uma das peças do poema final, “Estudos Para o Seu Corpo”. Um Torquato aqui, um Cortázar ali, Parker e Modigliani de lá: a formação artística de Corsaletti não parece ser o mote favorito de sua poesia. E ater-se ao essencial beirando o simples, elegendo como alvos temas tão velhos quanto a infância, a província ou o erotismo, são riscos friamente calculados pelo poeta, que os dribla com humor. (Entenda-se que não faço aqui o elogio do poeta ignaro. Prefiro, porém, ao poeta pernóstico, fetichista de epígrafes, o poeta burro: aquele que tenta observar o mundo como um absolute beginner, sem bula nem manual.)

O amor, ah, o velho amor, é de fato o mote mais mortífero em Estudos Para o Seu Corpo, conforme o título propõe. Pois é – depois de anos que a poesia brasileira foi (de)formada pelo cabecismo oriundo das lapidares carpideiras concretóides (pobres Campos, nada têm que ver com isso), o tema primordial da poesia parece oxigenar de novo a cabeça de novos autores. O amor e seus arredores, sem frescura, pompa nem circunstância: “Amo aquela mulher/ desde o momento/ em que a vi mijando/ descontrolada em pé/ aquela mulher/ era o puro amor”. Ou este, que faria a delícia do subestimado Drummond dos últimos versos: “sua bunda jamais terá/ ideologia”. O prodígio nos versos amorosos de Corsaletti é sua facilidade em concentrar o derramado: sintetizar um sentimento apaixonado de modo preciso, em imagem concreta – “o ar onde você esteve/ três dias depois ainda estava morno”.

Essa capacidade de catar no coloquial o instante poético – qualidade presente em poucos contemporâneos, como Alvim – curiosamente aproxima a poesia do paulista de expressão pouco valorizada na Academia: a canção popular brasileira. Impossível não lembrar da enganosa simplicidade de um Noel ao ler “Nos seus quadris começa o mundo/ seu passo aperfeiçoa o amor”. Se nos quadris começa o mundo de Corsaletti, é nos seios femininos que ele encerra o livro, numa peça perfeita: “a cidade ignora/ o lento trabalho/ do ar/ nos seus seios/ perdoa/ perdoa/ a nossa ignorância/ a nossa banalidade/ a nossa amargura/ e humor desesperado/ sei que existe um mundo/ real atrás dos mundos/ em que nos defendemos/ e concentrado engulo/ a saliva/ anterior ao deleite”.

Chatice é o oitavo pecado: dois dedos de prosa com o poeta Fabrício

O GLOBO Como foi essa história de ter escrito o hino de sua cidade? CORSALETTI Meus pais vieram me visitar em 2002 e meu pai disse que estava rolando um concurso do hino da cidade, que é nova e por isso ainda não tinha hino. Meu pai, que além de dentista é compositor, já estava com a música pronta e metade da letra feita. Pediu minha ajuda e eu completei o que faltava. Minha mãe ajudou dando sugestões de coisas que estavam faltando falar. Ela estava cozinhando e gritava pra nós, que estávamos na sala, o que lembrava que era importante não esquecer. Aí entramos no concurso e ganhamos. Gostei de fazer isso com meu pai. Agora colocaram uma foto nossa no museu da cidade, o que me deixou feliz.

Há uma semiprosa em seu livro. pensa em escrever prosa? Já tenho um livro de contos pronto. Não sei quando vou publicá-lo. Tenho também um romance inacabado. Leio muita prosa, talvez mais que poesia, apesar dos meus prosadores preferidos serem no fundo poetas, como Cortázar, Guimarães Rosa, Hemingway.

Se pudesse passar um mês em uma cidade qualquer do mundo para escrever uma história de amor, que cidade escolheria e por quê? Se está se referindo ao projeto Amores Expressos, digo que também fui chamado pelo João Paulo Cuenca para participar. Iria pra Dublin, mas recusei o convite. Acho o projeto legal, e a maioria das reclamações me pareceu fruto da mais óbvia inveja, mas pessoalmente fiquei com medo de escrever um romance por encomenda, não sair bom e depois ter que publicar um troço mal-feito. Não quis arriscar. Já tenho um romance pra terminar e está difícil. Não quero arrumar mais problemas no momento.

Quais são seus poetas favoritos? Drummond, Bandeira, Rimbaud, Baudelaire, Neruda.

E seus cinco poemas favoritos? “Poema sujo” (Ferreira Gullar), “Do not go gentle into that good night” (Dylan Thomas), algum dos melhores “poemas à Lou” (Apollinaire), “Llanto por Ignacio Sánchez Mejías” (Lorca), “Cântico dos cânticos para flauta e violão” (Oswald de Andrade).

Por que o passado (sobretudo a infância) é tão importante na sua obra? A infância me parece o lugar onde todas as sensações estão concentradas e além disso me parece infinita, porque é uma experiência encerrada, que já acabou. Ela está lá, mas continua irradiando sua força. Acho que dá pra tirar muita poesia daí.

Por que raios fazer poesia hoje? Não dá pra escolher em que época nascer. Nasci nessa época. Então é nela que vou escrever. Não sei exatamente pra que serve a poesia, mas sei que a minha vida mudou e ganhou sentido quando decidi ser poeta.

Por que raios falar de amor em poesia hoje? É um tema que me interessa, sempre me interessou. Além do mais, em todas as épocas os poetas escreveram poemas de amor. Não vejo por que não fazer isso nos dias de hoje.

O que mais gosta na poesia atual? A falta de patrulhamento. Acho difícil algum poeta se acreditar dono da verdade atualmente.

O que mais detesta na poesia contemporânea? Certo excesso de referências literárias, os poemas que pressupõem que o leitor tenha lido toda a poesia já escrita antes. Como se fosse impossível ler um poema sabendo apenas a língua em que foi escrito.

O que mais detesta na poesia em geral? A chatice. Existem poemas muito chatos, mas a chatice não é levada muito em conta no universo literário. Ninguém tem medo de ser chato.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

2 pensamentos

  1. Pingback: o trompetista gago

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