Quero sumir

Horizonte reto – Barcelona 5, de Marcos Vias Boas

Porque o resto, o que estava fora do caminho, era – continua sendo para mim – um espaço em branco, sem nenhum significado, algo assim como aquele espaço imaginado que desde sempre atraiu Arthur Rimbaud e que consistia numa rua que se estendia de umas paliçadas até a multicolorida zona portuária de uma cidade que tinha de ser ponta avançada de um deserto. […] Um estranho panorama para depois dessa batalha perdida que é a infância. Envelhecer talvez tenha sua graça, mas também é certo que envelhecer serve para comprovar que mudamos e que o tempo caminhou conosco, serve para comprovar que avançamos por dunas movediças que na aparência nos conduziram ao término de um trajeto e nos situaram na ponta avançada de um deserto onde, ao voltar a vista para trás e tentar recuperar algo de nossa rua de Arthur Rimbaud, só podemos ver um velho caminho no qual o Tempo escreveu o fim abrupto de nosso mundo, do mundo. Sabemos que é o fim do mundo, se avançarmos. Sabemos que, se dermos um passo adiante, desapareceremos. E planejamos dá-lo, pois pensamos que é o melhor, recordamos que outros já deram esse passo antes, e esses outros sempre foram nossos exploradores favoritos, os que tanto admirávamos quando os víamos desvanecer-se nas tenazes sombras do vazio.”

Horizonte reto – Barcelona 1, de Marcos Vilas Boas

Vila-Matas, em Doutor Pasavento, trad. J. Geraldo Couto. Romance que ganhou uma resenha no Outlook de 27-2 [p. 63]:

Com Doutor Pasavento, o escritor catalão Enrique Vila-Matas prossegue em seu projeto: criar uma literatura da desaparição

Sabe aquela hora em que dá vontade de sumir? O barcelonês Enrique Vila-Matas parece ser surpreendido por essa sensação a todo instante. A vontade de desaparecer na paisagem é tão marcante que, pode apostar, ninguém vai acreditar quando sair num jornal a manchete Morre o escritor Vila-Matas (toc, toc, toc). Esta ambição por se tornar um fantasma em carne viva é levada ao extremo em Doutor Pasavento (Cosac Naify, 410 págs.), talvez o mais ousado dos romances do autor de Suicídios Exemplares e Bartleby e Companhia – o que vai mais longe em seu projeto de aliar negatividade e fantasia, ficção e ensaio, digressão e obsessão, literatura e vida.

Vila-Matas está mais interessado no drible fantasioso do que no passe objetivo para o gol: “A divagação ou a digressão é a estratégia perfeita para adiar a conclusão, uma multiplicação do tempo na obra, uma fuga perpétua da morte“, afirma. Assim, sua história inicia com uma indagação que será respondida de variadas maneiras: “De onde vem a sua paixão por desaparecer?“. O narrador é um escritor sem nome que, desgastado pelo circo da literatura (a maratona de lançamentos, debates, colóquios, palestras, entrevistas), irritado por tudo aquilo que não tem nada a ver com escrever, pouco antes de comparecer a um evento literário resolve sumir.

Desaparecer, porém, mesmo para um homem sem família, separado da mulher após a morte da filha, não é um plano assim tão simples: é preciso romper com a rotina. E o modo mais radical concebido pelo narrador é sumir para dentro da própria literatura, tornar-se um personagem de papel – o Doutor Pasavento, um psiquiatra adepto da antipsiquiatria. O narrador começa a viajar pela Europa (e este é também uma estranha road novel, à moda de WG Sebald) registrando-se como Pasavento em hotéis da Itália, França, Suíça e Espanha. Então o narrador passa a ser importunado por uma voz interior chamada Doutor Ingravallo. Mais adiante, quando o narrador está habitando a fictícia (?) cidade de Lokunowus, em algum lugar entre a Espanha e o Marrocos, Ingravallo dá lugar a outro psiquiatra, o Doutor Pynchon, sujeito que tem mania de escrever textos microscópicos em papeizinhos lidos para a sociedade psiquiátrica local – que já o começa a tratar como maluco.

Pynchon, claro, ecoa o escritor norte-americano Thomas Pynchon, notório por seu desaparecimento: dele só há uma imagem, feita ainda na juventude; preferindo “inexistir” por trás da obra, o autor de O arco-íris da gravidade jamais deu entrevistas. Pynchon é um dos escritores-fetiche de Vila-Matas, ao lado de outro famoso recluso, J. D. Salinger, recentemente desaparecido (será?). Mas, acima de todos estes escritores-fantasmas paira a aura invernal de Robert Walser, suíço de língua alemã muito admirado por Kafka e Hesse, que foi escrevendo textos cada vez menores até se internar num hospício e permanecer 23 anos sem escrever.

Walser inventou os “microgramas“, em que desenvolve ficções ou ensaios milimétricos (sua escrita a lápis tinha menos de um milímetro de altura), de estilo fascinante pela abstração quase zen – coisas enigmáticas como “Por acaso a paisagem viaja ao estrangeiro?”. Doutor Pasavento vai à Suíça hospedar-se na mesma cidade em que morreu Walser, e tenta se internar no mesmo hospício. Como o leitor percebe, este é um romance que, além de entrelaçar a narração à vida de dezenas de escritores, é um ensaio deambulatório que investiga a idéia de identidade.

Vila-Matas é obcecado pelo fato de que só existe ao ver seu nome impresso no papel; e que, justamente por ter se tornado um ente ficcional, está à parte da realidade. É o mesmo tipo de “doença” que acomete autores de todos os tempos – de Rimbaud, autor do verso “Eu é um outro“, que parou de escrever aos 20 anos para traficar armas na África, ao nosso Raduan Nassar, que após três obras-primas voltou à cidade natal; afinal, como declarou, “toda a literatura não pode ser melhor do que criar galinhas“. Pelas idas e vindas, vai-que-vai-mas-não-vai, reflexões, coincidências e rodeios ao redor do abismo – apesar da escrita como de hábito irônica –, Doutor Pasavento não é leitura fácil. Mas quem disse que é fácil olhar-se todo o dia ao espelho e afirmar: “Este sou eu“?

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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