Nossa vida não vale um Chevrolet

É relançado no Brasil o romance Crash, de J. G. Ballard, em que o automóvel é a metáfora extrema do século 20. Em entrevista a’O Estado, o autor inglês afirma: “Ciência e tecnologia servem aos nossos mais perversos impulsos. Os seres humanos são profundamente perigosos, e ficarão ainda mais”.

Segue a entrevista que Mr. Ballard me concedeu – por fax. É. Embora Ballard seja hoje, aos 77 anos, um dos grandes escritores de ficção científica vivos, não se afasta de sua velha e boa máquina de escrever; para ele, computadores e internet são um perigo… Acompanhe.

O ESTADO Surpreende em Crash a busca minuciosa por tornar visíveis as obsessões do narrador – uma vontade de aproximar a literatura de uma certa carnalidade. Como foi assistir pela primeira vez ao filme de Cronenberg? O cinema pode oferecer uma experiência menos ou mais física que a literatura? J. G. BALLARD Fiquei muito impressionado com o filme de Cronenberg, bastante fiel ao espírito do meu romance. Mas o filme e o romance são meios totalmente distintos, e a uma tradução exata de um romance para um filme é muito rara. O romance pode esconder, mas o filme é forçado a mostrar.

Penso que em sua obra há muitos pontos de contato com as idéias de Georges Bataille. Uma das semelhanças é a junção violenta entre primeiro plano e cenário – em Crash, isso aparece sobretudo na mixagem entre homem e máquina, quase como se a cultura, a civilização, fosse a verdadeira natureza. Esse é um caminho para interpretar seu texto? Cultura e civilização (e a civilização feita pela mão do homem, a tecnologia) são a verdadeira Natureza. As florestas estão todas dentro de nossas mentes. A tecnologia é a grande facilitadora. Criadas pela razão e pelo Iluminismo, ciência e tecnologia agora servem para os nossos mais perversos e desviantes impulsos. Os seres humanos são profundamente perigosos, e ficarão ainda mais.

Recentemente foi publicado no Brasil Terroristas do Milênio (Millenium People). Creio haver neste livro uma série de coincidências com Crash: intelectuais de classe média alta entediados, casamentos entorpecidos, uma revolta infantil, protagonistas fascinados pela figura de um outsider (sem falar nas mulheres algo perversas e suas sexies muletas). Mas me parece que em Crash o protagonista leva sua náusea em relação a sua vida “normal” às últimas conseqüências, enquanto que em Terroristas do Milênio o narrador é de certa maneira tão idealista quanto cínico (e de certo modo conformista). O que mudou, daquela classe média dos anos 1970 em relação à dos anos 2000? Não estou tão certo se você pode comparar Crash a Millenium People. O último é uma sátira a estapear os medos da novas classes médias, que estão perdendo seu lugar privilegiado na sociedade – e com efeito, se tornando um novo proletariado. Sua nêmese é o Doutor Gould. Mas às classes médias falta a coragem para carregar sua rebelião para o ponto de falta de sentido. Elas retornam às suas casas, e estão satisfeitas com meras concessões em seus estacionamentos. Revelam sua real condição de escravidão. Em Terroristas do Milênio, Gould realiza o crucial ato surrealista (disparando um revólver ao acaso no meio da multidão) atirando e matando em uma apresentadora de TV, que para ele é um ser humano completamente em branco. Já Crash mostra que a raça humana abraça a psicopatologia – o que certamente acontecerá algum dia, depois de alguns falsos inícios (os nazistas alemães, o stalinismo na Rússia, e mesmo talvez os religiosos hoje nos EUA).

No prefácio da edição de 1995 de Crash, você diz que ao escritor cabe “inventar a realidade”. Num mundo superpovoado por demandas da informação, a missão do escritor seria “dar um sentido mais puro às palavras da tribo”, como pedia Mallarmé? O que pensamos que é a realidade do dia-a-dia é em fato nossa mais inimaginável ficção. Nossos sistemas nervosos centrais nos bombardeiam com uma corrente de mentiras e meias-verdades. O trabalho do escritor é dar sentido a isso.

Se o século 20 foi o século do automóvel, como você escreveu, pode-se afirmar que o século 21 será o século da internet? A internet, sim (ou os sistemas de realidade virtual), é a maior ameaça de todas.

O que você está escrevendo no momento? Acabei de escrever minha autobiografia, chamadas Miracles of Life [Milagres da Vida], uma descrição dos meus filhos – e, por suposto, de todas as crianças.

Para finalizar a respeito de Crash, e lembrando certa efeméride, o que seus personagens Vaughan e Ballard pensariam de um acidente de carro envolvendo uma princesa britânica, seu namorado, um milionário saudita, um carro alemão, um túnel e paparazzi franceses? Uma morte trágica, com certeza. E possivelmente a mais trágica morte de uma celebridade que jamais veremos. Se Tom Cruise fosse morrer num acidente de carro, quem realmente se importaria? Diana foi uma genuína figura trágica, abandonada pela mãe quando criança, abusada pela famíla real e por seu marido real, se agarrando à celebridade para manter-se amada pelo público. Uma morte trágica foi inscrita em sua curta vida. Se você tem de morrer tragicamente, tem de ser em uma Mercedes preta, com seu namorado árabe e seu guarda-costas ao seu lado, perseguido por paparazzi, num túnel parisiense que é uma entrada para um não-mundo [neitherworld]. Talvez ela fique aí, como Eurídice, esperando pelo seu Orfeu para reclamá-la. O inferno tem muitos espelhos. Depois de sua morte, que me chocou profundamente, dois jornalistas da Fleet Street [rua londrina que concentra os jornais] me ligaram. Os dois pensaram que eu era parcialmente responsável – como se Crash fizesse algum estranho sentido para sua morte…

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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