Eppur si muove: Plutão, Estamira

Não obstante sua extraordinária beleza plástica, Estamira, documentário de Marcos Prado, é daqueles filmes por si necessários – talvez o único filme brasileiro realmente indispensável este ano (há uma excelente resenha do filme aqui). Apesar do último lugar na lista pequeno-burguesa de personagens que gravitam nosso imaginário consumista e pseudointelectual, a protagonista, Estamira, uma senhora de seus sessenta anos que vive no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias (RJ), na Baixada Fluminense, neste século 21, não escapará jamais de nosso inconsciente, tão-logo deixamos a sala de cinema. E embora você não se importe mais com esse tipo de nonada, todo o lixo que produz todos os dias vai para algum lugar, ser manipulado por mãos humanas, ou quase isso – e não por habitantes de Plutão.

Marcos Prado passou sete anos documentando a saga da catadora de lixo, de sua família, de seus amigos e dos colegas que vivem no planeta Gramacho. É inevitável que seu olhar tenha se apaixonado pelo blend de surpreendentes loucura e lucidez que impregna cada fala, cada gesto e cada mirada de Estamira. Prado abandonou qualquer esperança de explicação e entrou no mundo subterrâneo disposto a desaparecer – e a verdade de Estamira e seus satélites é a única verdade que nos é apresentada. Porque Prado – ao contrário dos astrônomos que desdenharam o oitavo planeta para uma subcategoria – busca aproximar Estamira de nosso sistema: Estamira, como todos nós, gravita ao redor do sol.

Estamira é o sol de nossa culpa, de nossos detritos, daquilo que nós queremos esconder no fim de mundo. Ela rege a passagem deste para o outro plano. Ela fala a língua dos urubus. Ela diz morar nas beiradas do encontrável, mas em certo ponto suas retinas alçam vôo: “Estamira está aqui, está ali, está em todo lugar” – o inferno, ela intui, podemos tentar escondê-lo, mas tem mil entradas. Algumas são pontos turísticos, outras são mais disfarçadas, diria Alex Antunes. O inferno está ao nosso alcance, ao alcance da lata de lixo mais próxima; o inferno o criamos todos os dias. O inferno está escancarado no filme de Prado, no imundo e granulado preto&branco do mundo “real” de Estamira ou nas cores saturadas de seu universo cotidiano e afetivo.

Prisioneira da passagem, Estamira está e não está – sal da terra, permanece, carontiana, como elo de ligação entre o físico e o metafísico, o concreto e o escatológico. “Tudo é morte”, ela solta, em luta aberta contra uma epifânica tempestade, em uma das cenas mais emocionantes do filme. Na sua revolta contra Deus (“enfia esse Deus no cu!”, ela ordena ao neto de 10 anos) e suas disputas com o misterioso Trocadilo (“ele é o esperto ao contrário”), Estamira ecoa as rusgas metafísicas de Hilda Hilst: “Somos iguais à morte. Ignorados e puros./ E bem depois (o cansaço brotando nas asas)/ seremos pássaros brancos à procura de um deus.” Quando faz distinção entre “defeito” e “perturbação” mentais, ela demonstra a mesma autoconsciência de limites de uma Stela do Patrocínio (“Não trabalho com a inteligência/ Nem com o pensamento/ Mas também não uso a ignorância”). E o saber de sua imortalidade pode ser partilhado com Maura Lopes Cançado: “O que me assombra na loucura é a imortalidade. Ou: a eternidade é a loucura. Ser louco para mim é chegar lá. (…) Acaso alguém tocou o abstrato?”.

Porém, ao contrário dessas três imensas e sagradas loucas, Estamira não escreve. Estamira tão-somente é. Sua permanência nessa terceira margem que é o Gramacho – o Hades banhado por borbulhantes lagos de chorume, o sumo da sucata, nossa última contribuição ao planeta – é em si sua obra de arte. Seus raciocínios cosmogônicos, parentes do Mundo Racional de Manoel Jacinto Coelho, são o testemunho não-escrito dessa Diógenes contemporânea. E ela se recusa a sair do lixão, se recusa a ter uma existência “normal” (“Eu estou em um outro plano”): como o teimoso Bartleby de Melville, prefere não fazê-lo – e, não o fazendo, faz-se, é.

Não adianta ocultar sob o capacho de nossa exuberante civilização: Gramacho, à semelhança do infernal Plutão, gira ao redor do mesmo sol que banha nossas belas capas de revista. O que não sabemos, o que esquecemos, obscurecidos pelas aparências, é que só existimos porque existe o Hades, só começamos porque o mundo um dia termina, e o sutil e lúcido mecanismo que governa os sistemas planetários não prescinde da excêntrica órbita de um planeta sujo, frio e morto. “Eu tenho em minha cabeça um cometa. E você sabe o que quer dizer cometa? Comandante!”, afirma Estamira. É reconfortante que Marcos Prado nos tenha lembrado que isso pode ser possível. Que, apesar de tudo, também existe esta mira da realidade, é reconfortante receber o inferno em nossa mesa, é bom estar em casa – mesmo estando tão longe.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

2 thoughts

  1. até que ponto esses filmes e seus prêmios não nos reconfortam em nossa tão “aconchegante” vida moderna, enclausurada entre automóveis e salas de cinema? e não misturam lixo com sabedoria num “canto” ignorado pela racionalidade civilizatória? imagino que a revolvida provocada por pessoas que se realizam num ambiente tão impropício à vida possa até calar fundo, mas existem mais coisas entre o céu e a terra do que gadgets eletrônicos, e isso é o que Está)mira diz com sua existência. e é o que disseram os sobreviventes dos holocaustos, dos escombros… e não será isso que os índios, com seu suicídio, recusam? ou seja, a vida a qualquer preço?

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