Urgente


Dave Eggers e Valentino Achak Deng
Dave Eggers e Valentino Achak Deng

Nem sei quantas vezes amaldiçoei nossa falta de pressa. Se um dia eu voltar a amar, não vou esperar para amar da melhor maneira que eu puder. Pensávamos que éramos jovens e que haveria tempo para amar bem em algum momento do futuro. É uma forma terrível de pensar. Esperar pelo amor não é vida.

*

…descobri que, quando ela caminhava, tinha um andar lento e deliberado, e nenhuma parte de seu corpo fazia nenhum esforço para se mover. De longe, ela parecia flutuar, sua cabeça nem sequer oscilava, e mal se podia discernir o movimento de suas pernas debaixo das saias. Eu sabia disso […], e sei que, durante algum tempo, não consegui falar e me comportei como um débil mental em sua presença […]. Às vezes desejava estar perto dela, tê-la sempre ao alcance dos olhos, e então, instantes depois, desejava viver em um mundo onde ela não existisse…

*

O que é o Quê, de David Eggers, não pode, claro, ser resumido a esses dois pequenos e românticos trechos aí em cima. Mas ambos me passam, subrepticiamente, o sentimento que perpassa todo o romance: urgência.

Eggers narra na primeira pessoa a incrível odisséia de Valentino Achak Deng, um dos Meninos Perdidos que atravessaram todo o sul do Sudão, fugindo da guerra civil, da fome, dos leões, dos crocodilos e do que mais que posso tornar a existência de um garoto da Cracolândia um passeio perto desse inferno, até viver como um refugiado, primeiro na Etiópia, depois no Quênia, para afinal conseguir emigrar para os EUA – até conhecer o editor da MacSweeney’s.

Depois de incontáveis horas de entrevista com Valentino e muita pesquisa, Eggers chegou a um objeto raro no gênero da não-ficção: um romance autobiográfico. Não é new journalism, muito menos gonzo, e também não é uma ‘ficção baseada em fatos reais’. Seria exaustivo desvendar onde começa Valentino e acaba Eggers – uma vez que a autobiografia, como em Uma comovente obra de espantoso talento, o autor novaiorquino também parte da vida – a sua – para chegar a uma ficção verossímil. A novidade aqui é ele se basear totalmente na vida de um outro.

De um outro que deposita o tempo todo sua existência sobre uma linha tênue entre a sorte total e o azar absoluto: começa o livro, por exemplo, já sendo assaltado – e o assalto, no presente, torna-se pano de fundo para extensos flashbacks. Essas idas e vindas no tempo são estruturadas com maestria, de modo a manter a narrativa sempre tensa – ainda que em certos momentos ela tangencie o tom de conto de fadas [ou de bruxas, melhor dizendo].

Os dois trechos acima são exemplo: o primeiro fala da namorada de Valentino, uma reflexão madura de um homem amargurado; o segundo, o deslubramento de um adolescente apaixonado. Que Eggers tenha contado o fim antes do começo só torna este ainda mais belo – e o aquele, mais terrível. Chegar a um conceito do que é urgente – em literatura e na vida, a África em transe como cenário -, através da densa entrega a um passado de luta pela sobrevivência, me parece suficiente para me espantar: que grande livro!

Pra finalizar, olha que brilhante recriação do salingeriano mito do apanhador no campo de centeio:

…o sonho do rio me impedia de descansar. Quando tinha esse sonho, eu acordava perturbado e ansioso. No sonho, eu era muitas pessoas, da forma como, em sonho, é possível ser várias pessoas ao mesmo tempo. […] O rio era em parte o rio da minha terra natal, Marial Bai, e em parte o rio Gilo, e dentro dele, comigo, havia dúzias de meninos. […] Eu ficava flutuando bem alto em uma onda de água fria, e então conseguia, por alguns instantes, ver a cabeça de todos os meus alunos, enquanto eles faziam o possível para me ver e me ouvir, mas então eu descia para a parte baixa da onda, e tudo o que conseguia ver era um muro de água cor de café. Toda vez, nesse ponto do sonho, depois de as ondas terem se transformado em muros, eu voltava a ser eu mesmo, e, desse ponto em diante, o sonho acontecia em grande parte debaixo da água cor de café. Eu me via no leito do rio, entre os tentáculos verdes das plantas subaquáticas, e ali, no fundo, estavam os cadáveres. Aqueles meninos que tentavam me escutar agora estavam no fundo do rio, e minha tarefa era mandá-los de volta para a superfície. Sabia que essa tarefa era minha, e realizava-a com a eficiência de um operário. Encontrava um menino debaixo d’água, ainda vivo, mas sentado no leito do rio, punha as mãos em suas axilas e o empurrava para cima. Era um trabalho simples. Fazia isso sabendo que, quando o fizesse, o menino estaria seguro […] No sonho, eu nunca me cansava, e não precisava respirar. Movia-me debaixo d’água, de um menino para o outro, e erguia-os até o ar e até a luz

Muitas outras coisas poderia dizer sobre esse magnífico romance, mas acho que é melhor terminá-lo antes…

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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