Deixem o velhinho brincar


>>>Meu comentário sobre a invasão fonsequiana no último Outlook

Fora da realidade

Rubem Fonseca captado por uma lente verde em Portugal
Rubem Fonseca captado por uma lente verde em Portugal

Relançamento do primeiro e terceiro livros de contos e do novo romance sugere: reduzir Rubem Fonseca a “escritor realista” é um equívoco

Rubem Fonseca feliz da vida durante leitura na Feira Internacional do Livro de Guadalajara, em 2007

Aqueles “Duzentos e vinte e cinco gramas” tiraram toneladas das costas de muito escritor brasileiro. O segundo conto de Os prisioneiros, estréia de Rubem Fonseca em 1963, narra a dissecação do cadáver de uma moça assassinada – o título se refere ao peso do coração. Contado de modo objetivo, equilibrando frieza kafkiana e o humor negro de um Edgar Allan Poe, aos 47 anos o texto segue com impacto e mistério intactos. Foi ainda mais importante a partir de 1964, quando a literatura conviviria não só com a ditadura militar, mas com outro tipo de monopólio: ou se partia para uma narrativa psicológica urbana, de texto enigmático à Clarice Lispector, ou se copiava o realismo fantástico em chave regionalista, de linguagem barroca à Guimarães Rosa.

Com sua coloquialidade fina e perspectiva cosmopolita, Rubem Fonseca levou a literatura brasileira a um patamar decididamente não-brasileiro. Embora tenha ouvido esperto para a gíria e a prosa de rua, no que se acerca de João Antônio e Dalton Trevisan, a linguagem de Fonseca é mais precisa – e não envelhece. A clareza vernacular e sintática de um conto como “Duzentos e vinte e cinco gramas” poderia ser escrita em qualquer língua. O texto aparentemente fácil soava ainda mais libertário a quem iniciava nas letras nos anos 70 e 80, sob as pesadas sombras de Clarice e Rosa. E não só a linguagem, também os temas de Fonseca eram inovadores.

Escrevo sobre pessoas empilhadas na cidade enquanto os tecnocratas afiam o arame farpado“, indicou, na única entrevista que jamais deu, o conto “Intestino grosso”, de Feliz Ano Novo (1969), em que nega a existência da “literatura brasileira”. Nada de vaquinhas nem vaqueiros, sequer uma evocação à “brasilidade” n’Os Prisioneiros, onde desfilam psicanalistas, um pitboy, uma garota obcecada por fazer plástica, um estrangulador refinado e tipos abstratos em busca de uma ética pessoal em um mundo decadente.

O flerte com o anti-naturalismo, a presença da cultura pop, a recusa do psicologismo, a linguagem limpa, o humor estranho, o erotismo cru (em especial a devoção à beleza feminina) e os choques entre barbárie e civilização são adensados em Lúcia McCartney, livro em que Fonseca mais avançou na experimentação formal – ampliando os limites do gênero que Mario de Andrade definia na clássica boutade: “Conto é tudo o que chamamos conto“.

Executivo executor
Não é com mesma felicidade que são recebidas as reedições do primeiro e terceiro livro de contos e a publicação de seu recente romance, O seminarista (Agir). Afinal, ultrapassados Clarice e Rosa, hoje se vive sob a ditadura do realismo – de que o sucesso de Fonseca, mesmo sem querer, é o maior responsável. E a falta de surpresa nos temas, ao lado de uma linguagem empobrecida, fez com que muito leitor e crítico prosseguisse em seu esporte favorito: chutar o novo Rubem Fonseca. Mas não é pecado ser fiel a si mesmo – nem se espere novidades de um escritor de 84 anos. E um livro menor de RF ainda é melhor que uns 80% da subliteratura criminal que se escreve no Brasil. Se há pecado, está presente num momento em que certo importante personagem é assassinado para daí ressuscitar na página seguinte – pareceu meio forçação de barra.

Conduzido com mão de polímero (material da Glock, a pistola do assassino-narrador), O seminarista exibe as usuais qualidades fonsequianas: escrita seca, fascinante personagem feminina, fetiche por armas, trama de final abrupto, protagonista vil e charmoso, referências eruditas, violência enquadrada com frieza corporativa – tudo digerido com a voracidade que seus fãs esperam. E é nas tais referências eruditas do narrador, um matador que tenta abandonar o ofício mas não consegue, que se percebe o equívoco de críticos e imitadores de Fonseca, quando o reduzem a um realista obcecado pela violência.

Nas citações em latim, no esquematismo da trama e na melancolia do protagonista – um matador tão tecnocrata e pequeno-burguês quanto qualquer executivo –, Rubem Fonseca reafirma a artificialidade de sua arte, afastando-se de um naturalismo leviano. Deixemos o “realismo” para os paparazzi, o mau jornalismo e os reality shows; o que se tem aqui é somente literatura.

>> Achei uma curiosa ‘entrevista’ com RF, feita por um estudante de letras paranaense, no Caderno G. Perguntado se gostaria de ter uma estátua em sua homenagem, Rubão responde: “Só se eu estiver agarrado em uma gostosa“. Como eu disse – não é pecado ser fiel a si mesmo.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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