Estrelas mudam de lugar


– Bressane, tudo bem? É o Bruno, da Ilustrada.
– Fala, Bruno, beleza? Recebeu aí o texto?
– Recebi sim, mas… é… é que tem um problema…
– Que rolou?
– O começo do texto… tá… meio fora do padrão aqui da Ilustrada.
– Como assim?
– A gente não começa texto com diálogo, sabe…
– Não?
– É, tem que ser uma coisa assim mais caretona, sabe? Mais direta…
– Poxa, Bruno, que decepcionante escutar isso de você.
– É que… esse formato de texto cai bem numa revista, não num jornal.
– Sei…
– Você pode dar uma mexida?
– Bom, eu pensei que, tendo em vista que a Exploding Star Orchestra é uma banda criativa, a gente pudesse abordar o show de uma maneira criativa…
– Mas dá pra começar o texto de uma maneira criativa, mesmo que mais caretona, não dá?
– Dá sim… fazer o quê. Bom, depois eu publico no meu blog como eu acho que tem que ser. Dá um tempo aí que já te mando o texto novo.
– Valeu, Bressane.
– De nada…
.
O diálogo explicita porque os jornais cada vez se parecem mais: tiragens caindo e matérias de escassa impressão digital. Curioso que no periódico de um adorador de Talese e Wolfe não se possa iniciar um texto jornalístico usando um expediente tão simples do new journalism para chamar a atenção do leitor: um diálogo. Forma também informa, pô.

Anyway, isso nem é o mais importante. Importante é o show da Exploding Star Orchestra que rola hoje e amanhã no Sesc Vila Mariana. Imperdível. Saiba abaixo o porquê:

Estrelas mudam de lugar

Vanguarda musical de Chicago e Nova York encontra a cena underground de São Paulo: trazendo um dos papas do free jazz, o saxofonista Roscoe Mitchell, a Exploding Star Orchestra estréia no Brasil

explodingstarorchestra2007

“63 luas de Júpiter?”, se espanta Jason.
“Qual o problema?”, devolve Rob.
“Por que não 62 ou 64?”, Jason provoca.
“É o número de luas descobertas até agora”, Rob explica.
“Se acharem mais duas você muda o nome?”, cutuca Jason.
“Velho, dá um tempo? Estou tentando dar uma entrevista!”, ri Rob.

O diálogo surreal entre o trompetista norte-americano Rob Mazurek e o vibrafonista Jason Adesiewicz teve lugar na padaria Real, ponto de encontro de músicos na zona oeste paulistana. Rob, vivendo no Brasil há oito anos – passou 3 em Manaus, 3 em Brasília e vive há 2 em São Paulo –, apresentava coxinhas e risoles a Jason e seus asseclas. Falavam do concerto da Exploding Star Orchestra, combo de músicos de vanguarda de Chicago e Nova York que toca no país pela primeira vez.

“Primeira vez” é expressão importante para entender a superbanda, vitaminada por improvisações em free jazz, música eletroacústica, concreta, minimalista e até rock. O primeiro disco, We’re all from somewhere else, descreve a explosão de uma estrela e suas metamorfoses cósmicas. Ao vivo, a base sonora ganha mutações e colorações que “jamais se repetirão”, enfatiza Rob, o diretor da Orchestra. O trompetista de 45 anos debutou no hard bop de Chicago e hoje descreve sua música como “projeções sonoras”. O termo tem a ver com a outra atividade deste aficionado por ficção científica: artista plástico.

“Sempre escuto umas coisas enquanto pinto, ou vejo formas quando toco”, revela Rob. Em São Paulo, ele flerta com uma cena que flana entre música e artes plásticas. Fã do sambista Rômulo Fróes (parceiro do artista Nuno Ramos), Rob toca com o Hurtmold de Maurício Takara e Guilherme Granado – também artistas visuais –, que são o tempero brasileiro da Exploding Star: Takara na percussão, Granado nas marimbas.

Duas outras participações tornam único o concerto. A primeira é a do imprevisível Roscoe Mitchell, saxofonista de 79 anos que, com sua Art Ensemble of Chicago, foi um dos fundadores da Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM) – seu nome é indissociável do avant-garde jazz dos últimos 30 anos. A segunda é do vocalista e tecladista Damon Locks, da electro-dub The Eternals (e mais um artista plástico).

Completam a Orchestra a flautista e vocalista Nicole Mitchell (melhor flautista de 2006 para a revista DownBeat), a performática saxofonista Matana Roberts (AACM), o baterista John Herndon (Tortoise), o baterista Chad Taylor (Chicago Underground e Iron & Wine), o baterista – sim, são três! – Mike Reed (Loose Assembly), o vibrafonista Jason Adesiewicz (Rolldown), o baixista funk Matthew Lux (Isotope 217), o trombonista novaiorquino Steve Swell (Lionel Hampton, Buddy Rich), o músico eletrônico Kevin Drumm (um dos grandes guitarristas experimentais do planeta), e o saxofonista Matt Bauder (Anthony Braxton).

Ah, sim: “63 moons of Jupiter” é uma composição de Rob Mazurek criada especialmente para o evento. Fique tranqüilo se você observar uma ou duas luas a mais orbitando o show.

> Exploding Star Orchestra. 8 e 9 de maio , teatro do SESC Vila Mariana; rua Pelotas, 141

> Pra quem se interessar por esse detalhe satélite, a resenha ‘careta’ saiu aqui. E mais tarde, assim que tiver um tempo pra dichavar a conversa soterrada debaixo do noise da padaria Real, posto a entrevista com Rob – é, na Folha não tinha espaço…

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

4 pensamentos

  1. poxa, bressane, o começo do seu post muito me interessa. sempre falo sobre o tal padrão jornalístico, a linha editorial e tals com os meus alunos. tsssss

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