Crítica

O Ó


Confesso que nunca entendi nem gostei muito das obras de Nuno Ramos. Coisas como essa Craca [título autoexplicativo] ou aquele Balada [um livro perfurado por um tiro de .38] me parecem, como quase tudo o que se faz em arte conceitual, francamente, caô.

Mas o cara de vez em quando interrompe sua carreira caôtica com livros plenos de fulgurações. É o caso desse Ó [Iluminuras]. Um livro errático, denso de raciocínios que começam mas não terminam, achados arnaldantunianos óbvios e portanto espertos, imagens inquietantes e um permanente e kafkiano estranhamento em relação ao mundo, às coisas, palpáveis e impalpáveis – como o próprio corpo. Como a abertura:

Meu corpo se parece muito comigo, embora eu o estranhe às vezes.

ou

Entre o que podemos de melhor e mais generoso, entre todas as chamadas virtudes, que tanta tinta [e tanto sangue] já fizeram derramar, nenhuma se equipara à capacidade de perder tempo.

ou

O inferno, se existe, é com certeza um lugar cheio. O sofrimento solitário pode ser melancólico ou extremamente assustador – em filmes de terror, as vítimas estão quase sempre sozinhas -, mas o horror maior está associado à multidão.

ou

Galinhas parecem extremamente burras […], como tantos bichos, formam logo legião, mal conseguindo elevar-se a um significado próprio […] parecem humanos muito chatos, como velhas tias tricoteiras que levaríamos sem culpa ao braseiro […], mas há o ovo […]

ou

Quem põe uma boneca russa dentro da outra é o dia. E quem põe um dia dentro do outro sou eu. Assim, eu e meus dias, como colecionadores, vamos escondendo bonecos iguais a nós mesmos, uns dentro dos outros. Mas não apenas nós, pois a natureza é uma enorme boneca russa também. E o rio, que não banharia duas vezes o mesmo homem, é uma boneca russa de água, enrolado a si mesmo em turbilhões, repetindo-se enquanto procura o mar…

ou

Conforme ficamos velhos, rituais vão se colando ao nosso dia, como uma craca ao barco antigo. De repente, percebemos que não saímos mais de casa sem uma meia extra, ou que não lemos romances em papel muito branco, ou que não temos paciência para assistir a trailers no início da sessão, e aguardamos na sala de espera do cinema até que o filme comece. Parece que precisamos aumentar nossos automatismos, nossas manias, caracterizando uma região mais extensa da vida como nossa, e delimitando assim, como os lobos quando urinam, nosso território.

Enfim… Não queria gozar com o Nuno alheio pra zuar um terceiro, mas já que começamos… Um tal de Felipe Pena, professor de pós-graduação na UFF, apareceu outro dia no Prosa e Verso chamando a literatura contemporânea de “chata, hermética e besta“. Eu achei a entrevista que ele deu feia, boba e criança – e é claro que ele tem o direito de emitir um preconceito ignorante do mesmo jeito que eu, aí em cima, a respeito da arte conceitual.

O que não dá pra aceitar de um professor é um argumento empenado assim:

A literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura. Os autores não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação da vaidade intelectual. Escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade literária. Acreditam que são a reencarnação de James Joyce e fazem parte de uma estirpe iluminada. Por isso, consideram um desrespeito ao próprio currículo elaborar enredos ágeis, escritos com simplicidade e fluência. E depois reclamam que não são lidos [PENA, Felipe]

Pois é, esse cara escreveu isso agora, 2008. Fico imaginando os críticos da época do Machado: “Escrevam livros para o povo brasileiro médio! Saiam da torre de marfim”… Não que eu esteja comparando algum contemporâneo a Machado: me irrita é a falta de ambição, ou melhor, com a ambição pequena. O olhar penalizado acima, eivado de clichezões rancorosos do tipo ‘estirpe iluminada’, ‘reencarnações de Joyce’ [quem por Deus, se acha isso? Nomes, queremos nomes!] demonstra uma personalidade ressentida e generalizante, que vê a manada mas não as ovelhas negras. Achava que um professor poderia ter mais acurácia, e nesse balaio de gatos incluo o chato e besta do Pécora, com suas resenhas rasas e paráfrases sem spoiler.

Enfim, o Pena que pene na sua falta de imaginação [Adriana Lisboa devolve as gentilezas aqui, e ele responde acolá. Ah, o Rio de Janeiro e suas polêmicas sublimes… bom, o que esperar de uma cidade que deixa o Gabeira a pé?].

Eu não acho que escritor tem que escrever bonitinho pra conquistar público. Não acho que tenha que ‘contar histórias’, que não possa parecer pretensioso, que tenha de adular o leitor. Foda-se o leitor. O escritor tem que escrever o que tem que escrever. O leitor que leia o que puder.

Voltando ao Nuno: nesse livro há histórias que não parecem histórias, reflexões que por vezes não levam a lugar nenhum, e poemas que podem até parecer herméticos [nem todas as portas estão aí escancaradas feito pernas de putas, caro Peninha. ‘Trouxeste a chave?’, lembra?]. Mas Nuno persegue o risco – coisa que acadêmicos e professores parecem ter esquecido de fazer.

Esqueçamos deles. Mais uma do Nuno, um dos ‘Ós’ que crivam todo o livro de espantos:

por que a vida se vinga de quem a quer cantar?

4 pensamentos sobre “O Ó

  1. Pô, essa escultura é legal… as crianças – que não sabem distinguir arte-conceito de tobogã esquisito – se amarram nessa massaroca de peixes mortos e bonecas velhas metalizada em meio ao ibira. Até acho massa negózdi arte-conceito, se puder pisar.

  2. Dá-lhe, tio.

    O argumento do Senhor Pena tem um furo do tamanho do mercado editorial brasileiro de livros didáticos e paradidáticos: e para que serve toda essa literatura infanto-juvenil brasileira tão apegadinha às tramas redondinhas senão para formar leitores?

  3. issssa!

    é uma coisa mucho louca, né, ronny, que os críticos tratem os escritores como os inimigos, a turma de lá, aqueles em quem não se deve compactuar

    tá faltando farinha na sustância do coração das gentes, diz aí

    bacci tiozzito

  4. Caros Tiago e Lauro Mesquita e Arthur Dantas,

    no meu blog eu escrevo o que eu quero. Se vocês tiverem algum tipo de opinião original, o que não parece ser o caso, abram um blog e a escrevam lá. Porém, uma vez que nem escrever sabem, creio que sejam mais úteis chupando o pau do tio Nuno, o que deve ser seu real talento. E ah, claro, seus comentários foram e serão sempre apagados.

    RB

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