O homem que odiava as mulheres

Escroto, em Pernambuco, é adjetivo com duas acepções. Pode tanto significar sórdido, nojento, porco, podre, feladaputa; quanto forte, bom, ducaralho, fuderoso. Assim, peço licença e [outra vez] hiperbolizo o cujo: Baixio das Bestas é o filme mais escroto já feito no Brasil. Deixando de lado a paráfrase [vá ver o filme, régis, ou leia alguma resenha] e voltando ao paradoxo, a pergunta: isso é bom, ruim, ou as categorias “bom” e “ruim” não se aplicam a essa infame fita?

Fui ver o filme, confesso, muito instigado pelo perfil de Cláudio Assis publicado na revista Piauí deste mês. É um texto da Esquina, seção que, à guisa de New Yorker, não ousa dizer o nome de quem o cometeu. No texto, conta-se um encontro com Cláudio durante um almoço em que se bebeu vinho e se comeu steak tartare; o cineasta defendia sua obra dos talheres de prata do crítico, que, ao menos no artigo [não acredito que falou o que pensava na cara do zeca-diabo pernambucano], passou-lhe um sabão. O filme, “repulsivo, estúpido, abjeto” [também são sinônimos para escroto, viu, régis], é um sinal “de que quem se refocila no sadismo misógino está sintonizado com o imaginário perverso dos tempos que correm”.

Bem – é texto de maricas, escrito com o guardanapo ainda enfiado na camisa. Pra falar a verdade, não acho o Claudião cacto que se cheire, e já tive minhas tretas pessoais com o figura. Acontece que escrever sem assinar, dar pontapé sem declarar a autoria, hum, na minha terra, isso tem nome. Coisa feia, em tão elegante magazine. Quer canelar, canele; mas olha no olho, poxa. Portanto, que se esculhambe o caruaruense com todas as letras – inclusive com as do nome próprio. [O autor da resenha é Mario Sergio Conti. Não acho que isso venha ao caso, esse aqui não é um texto-denúncia – mas como alguns leitores reclamaram abaixo, xisnoveio o cujo*.]

Certamente o filme é disgusting. Mas não há como negar que também é lindíssimo, graças sobretudo à fotografia do Walter Carvalho, à câmera de seu filho Lula e à trilha sonora de Pupillo. O filme é armado em grandes planos-seqüência, em que a ação transcorre dentro dos limites do quadro, sem apelar para cortes ou fades – o que garante à narrativa um ritmo abafado, tenso. A abertura, em que uma garota se desnuda acossada por vagabundos punheteiros, é uma interpretação brilhante da cena da Noiva Cercada por Celibatários, tema clássico da pintura cujo ponto alto é O Grande Vidro, de Duchamp. O conceito “cinema-cachoeira”, de Humberto Mauro, é sugerido numa cena gay, pano de fundo para o tédio de playboys que correm sem sair do lugar, que se masturbam mas nunca gozam.

Sempre autônomas, desconectadas da anterior ou da próxima, são belas ainda as seqüências que mostram os cortadores de cana/ mestres de maracatu na boléia de um caminhão, ou o estupro de Dora pelos boyzinhos, entrevisto nas sombras projetadas numa tela de cinema, ou o fogo no canavial, ou o banho de Auxiliadora no riacho [citada pelo articulista de Piauí como “manipulativa, baixa e pedófila“. Relaxe, tiozinho, uma garota tomando banho pode ser simplesmente bonito].

Se há beleza na apresentação da violência – sobretudo a violência contra a mulher -, me vem a pergunta: então há uma distância entre o que se vê e o por que se vê? Aí é que parece haver um problema. Porque Baixio das Bestas não tem ironia. Não tem graça nenhuma: é a coisa em si. Quando o personagem de Nachtergaele estupra a personagem de Hermilla Guedes, o que se sente é abjeção, pura e simples [pelo menos é o que se espera de quem tem um psiquismo razoavelmente normal]. Noutra cena, a prostituta Dora joga vodca sobre si enquanto manda um streaptease – a referência, óbvia, é Salma Hayek lambuzando-se de tequila em From Dusk till Dawn, de Tarantino/Rodríguez. Só que na dupla TexMex há ironia e fantasia. No árido movie de Assis, é tamanco sem couro, pau puro.

Tudo bem, régis – um grande, talvez o maior, mérito do filme é expor sem camisinha o mecanismo da exploração. Homens exploram mulheres, mulheres exploram meninas, canavieiros são explorados pela usina, playboys exploram os pais, empregados e pobres, maracatuzeiros da Zona da Mata são explorados pelo público classe-média do Recife. Isso a gente já sabe – mas é bom que se lembre, anyway, pelo menos pra chacoalhar o público lobotomizado pela Globo de Arraes e Falcão que crê ser o Nordeste aquela coisa mágica e ariana. A maravilhosa cena em que um cortador espreme uma cana até o bagaço é a assinatura do filme: não existe cordialismo nenhum por aqui; no Brasil todo mundo é escroto até a última gota, até que o próximo se estrepe.

Porém

Não sei se concordo com isso, ou se limito a realidade a este slogan. Quando comecei a me interessar pela estética da violência, nunca achei que “documentar a realidade” fosse muito interessante. Escrevi histórias em que meninos de rua asfixiavam um sorveteiro com picolés de limão, em que uma perua era estuprada por um lixeiro com um telefone celular, em que um mendigo esfaqueava um cachorro… porém, a idéia não era dedurar a realidade [como alguns preguiçosos críticos literários escreveram], e sim investigá-la, procurar suas nuances, seus sentidos ocultos – ocultos até para mim. Eu sei que existem putas nojentas violentadas por bestas-feras no Brasil profundo – e espero que o espectador [que o leitor] também saiba. Mas e daí?

Provocar discussão, ainda que qualidade admirável, não pode ser muleta para um filme. Para que eu assisti a três estupros hoje? Talvez, para atiçar minha cômoda posição de voyeur da estúpida realidade brasileira? Isso me parece insuficiente em Baixio das Bestas. Quando se assiste, no fim de Salò, ao burguês fascista observando de um binóculo belos jovens serem trucidados e torturados por carrascos, se percebe essa mensagem de Pasolini: você, espectador, também é parte disso. A mensagem, no entanto, surge como epifania. No cinema de Assis, é mera constatação. E a mera constatação cai no moralismo. Tanto é moralista o cineasta que “aponta o dedo para a realidade” quanto o crítico da Piauí, que aponta o dedo para o cineasta culpando-o de se dar bem em cima da desgraça alheia.

Talvez fosse mais conseqüente perguntar a Claudião se o moveu fazer um filme sobre a violência feminina um caso ocorrido em sua própria família. Como é notório em Pernambuco, seu filho Cláudio Júnior foi preso aos 16 anos por participar, com um grupo de amigos, de um estupro. Hoje, liberto, aos 22 anos, trabalhou em Baixio das Bestas fazendo assistência de produção. O que será que passou pela cabeça do garoto ao reproduzir violências que ele mesmo teria cometido? Isso seria uma questão jornalisticamente mais relevante e iluminadora do que apelar a uma rasteira análise moralista do filme.

Uma vez, em entrevista, assim o Cony me definiu o presidente Lula: “Ele não é burro; pelo contrário, ele é muito esperto – mas a esperteza dele não vai muito além disso. Esse cinzeiro aqui, por exemplo, que você está vendo, você pode olhá-lo com metafísica, com fantasia, alegoricamente, o diabo a quatro. Mas do jeito que ele é, só um cinzeiro, ninguém entende mais esse cinzeiro do que o Lula”. É um jeito carinhoso de chamar um cabra tosco de gênio. Do mesmo modo, acho que ninguém entendeu mais a escrotidão brasileira que o Cláudio Assis. Mas ele também não faz nenhum esforço para transcendê-la. Nem a arte – que, no filme, é encarnada pelo Maracatu Estrela Brilhante – pode tirar os seres humanos da miséria. Niilista, é um jeito tosco de ver as coisas.

O banho da adolescente no riacho, único momento em que Cláudio Assis – o mais misógino dos diretores brasileiros – trata uma mulher com carinho, talvez seja uma dica de que ainda pode vir a existir alguma redenção no olhar desse escroto cineasta.

[*Mas poderia estar errado em não nomear o crítico; há quem acredite que o autor da resenha tenha sido um outro editor da Piauí, o também cineasta João Moreira Salles… e aí o rolo pode ir mais longe…]

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

15 thoughts

  1. Se você sabia quem era o autor da matéria da piauí por que omitiu essa informação? Condeno a revista por ter publicado “opinião” anônima e negativa sobre um filme, ou devo questionar o tal RB por condenar um “anônimo” personagem (quantos predicados, não?) na tentativa de salvar a película do misógino. Na minha terra isso tem nome: ética do cagaço!

  2. Eu não omiti nada, JC. Como eu já disse ao BTN, não é esse o foco do meu texto, ‘desmascarar’ o autor da resenha, isso aqui não é bloguismo de resultados. Nem estou querendo salvar película de ninguém, Assis que se cuide sozinho. Tudo o que fiz aqui foi emitir minha opinião sobre o filme, que é moralista, e sobre o cara que criticou o filme de maneira, a meu ver, moralista – ou seja, demonstrar como um retrato moralista da realidade pode ser analisado de maneira moralista. Quis dizer que o que importa a mim, numa película, é mais a ética da estética e menos a cosmética da moral – se é que você me entende…
    abrazz
    RB

  3. eu acho que o filme, como os de pasolini, instiga o espectador a fazer parte “disso”, sim. na cena do banho, por exemplo, sentimos desejo pela menina; ou não? é como se assis perguntasse ali: ao sentir desejo pela garota, quem somos nós para julgar os escrotos do filme?
    e, afinal, quem é régis?

  4. Não sou “blogueiro”, mas quem pensa sê-lo foi porque kilo. Deve imaginar ser lido por alguém que não seu alterego nem seu superego, se é que você me entende. Mais de 20 linhas da sua crítica pertinente sobre a ética da estética do escroto Assis e seu filme foram dedicadas ao “tal” do cujo. Você sabia porque estava batendo.Eu,o cujo e a torcida do Sport queríamos saber em quem e por que. Parabéns pelo texto(me poupe dos bjs, RB!)

  5. Eu não vi o filme ainda e pessoas que viram – e em quem eu confio – se dividiram: uns acharam “mais do mesmo”, ou seja, o velho esquema masturbatório de contemplar uma coisa “feia” e mostrar isso de um jeito quase infantil, e outras acharam um filme muito honesto e blablabla. Anyway, verei. Como vc MUITO BEM colocou, pelo menos o Claudio Assis não colabora com o “público lobotomizado pela Globo de Arraes e Falcão que crê ser o Nordeste aquela coisa mágica e ariana”.
    E bora tomar uns chopes aqui no Rio, cabrón!

  6. Caros, infelizmente, tenho q admitir que o cinema de Assis é para poucos. Assisti ao filme numa sala de arte aqui em REC e naquela ocasião pelo menos 3 pessoas sairam logo após a primeira cena de estupro. O que lhes faltou talvez tenha sido estômago (lembremos de Amarelo Manga), ou talvez o excesso de culpa. Nós recifenses de certo modo (muito ou pouco) contribuimos com aquele relidade. Seja em nosso carnaval “multicultural” que paga uma miséria para aqueles grupos de maracatu e paga uma fostuna para Maria Bethania e CIA (não que ela não mereça). Seja na formação daquele escroto grupo de agroboys que já se tornam um vírus em nossa realidade urbana (e uma maldição no interior “deles”).No entanto, lembro-me de um outro artista ‘nacional’ que também desperta olhares cruzados e adjetivos rebuscados quando tentamos classificá-lo: Zé Celso Martinez Corrêa. Esses vcs conhecem. Eu nunca li nenhum jornal de Recife ou de outro lugar ofendendo-o ou colocando o seu trabalho em dúvida. Será que é pq ele é de sampa? Não, certamente que não. Tô certo?

  7. Nem toda racionalização precisa ser moralista, ô recifense envergonhado. No recente e excepcional Lady Vengeance, de Park Chan-Wook, também há uma cena atroz de estupro – só que ali ela tem uma conotação estética que transcende o mero realismo. Já comparar o Claudião com o Zé… que loucura, hein, régis? É o mesmo que chupar cana e dizer que tem gosto de babaçu. Apure a sintonia, malungo. Ninguém está aqui colocando o trabalho do CA em dúvida, e sim discutindo o que ele significa. Quanto aos agroboys… essa praga tem bastante aqui em SP, bem mais do que por aí. Precisaria de muitos filmes de Assis pra nos livrar dessa corja…
    abz
    RB

  8. ô RB,
    Não leve a mal minha comparação, foi puramente analógica. Não quero ficar aqui debatendo o mérito (ou demérito) de um ou do outro.
    Estupro é sempre plêmico e as vezes fala mais que O FILME COMO UM TODO. É fato (e gosto, preferência, bairrismo…) que continuo com CA.
    No mais, vamos continaur nossa luta contra os agroboys!
    (RB, sem brigas, eu quero é paz)

  9. olha, cara me sinto ofendiddo quando vejo aqueles filmes tipo lisbela e o prisioneiro que colocam aqueles tipos cômicos nordestinos, acho aquilo uma babaquice, uma merda, porque o nordestino não é aquilo, um traço muito interessante do nordestino é o rancor, nordestino guarda rancor e fica puto mesmo e se vinga se for necessário, nordeste é vidas secas, meu velho!

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