Crítica

Cretinos fundamentais

Satyros Sons e Furyas é um dos espetáculos mais esquisitos em cartaz em SP. Capitaneado pelo bróder André Sant’Anna, reveza leituras de textos deste com canções de uma ótima banda, que tem um pique meio Vanguarda Paulistana meio Orquestra Imperial [duas vocalistas, excelentes instrumentistas, uma coisa escracho hippie]. André fica sentado a uma mesa no canto do palco, lendo seus textos – e quando não lê fica gemendo como um retardado em transe, a língua de fora tipo Down: “oooo, oooooo, oooooo”….

E, apesar de a banda ser bacana e responder por momentos divertidos – o solo de Vanessa Bumagny para “Joana”, inspirada em Mirisola e num classificado de putaria; um samba-exaltação à morte; um funkão tirando onda da alegria forçada do brasileiro – , o show é mesmo do André. Aqui, ele encarna a essência do brasileiro imbecil, nos mais variados ângulos – o milico ressentido, o adolescente emo, o taxista burro, a criança debilóide, o tijolo neural. Só André explica a obsessão da audiência com reality shows.

Um Buster Keaton possuído pelo cretino fundamental do Nelson Rodrigues, André aplica silogismos aristotélicos à nossa moralidade mais baixa – é um virtuose de uma escrita que dribla tatibitateanamente todas as frações entre o QI zero e o menos um. Já que falamos em baixaria dos baixos instintos, de cagar de rir é o monólogo do cristão que ama sua irmãzinha que ama comer bifes, com tradução simultânea para surdo-mudos. Isso sem falar no refrão repetido ad infinitum “Vida/ tristeza/ pô/ porcaria/ pombas/ puxa vida” ou algo assim.

O mais estranho nesse espetáculo todo pautado pelo sarcasmo é que o ponto alto seja justamente aquele em que não existe graça nenhuma. André lê seu monólogo zuando os jogadores da Seleção Brasileira, Roberto Carlos e o Zagallo. Em seguida, o guitarrista Zeca Loureiro manda uma interpretação pura e brilhante de “O divã” – talvez a melhor música do Rei [dá uma tristeza pensar que o hoje caquético RC fazia coisas geniais como essa, um “Creep” de garoto pobre do interior]. É uma epifania da contra-ironia. Uma porrada. Se liga.

Um pensamento sobre “Cretinos fundamentais

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