Os novos impressionistas

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Já faz tempo que se sabe que osgemeos são os grandes gênios do graffiti nacional. Paulistanos do Cambuci, os mais-que-iguais Gustavo e Otávio Pandolfo são conhecidos por dominarem dúzias de técnicas da “arte mural” – látex, spray, stencil, máscaras, canetas e longa lista de etc. – e serem incansavelmente audaciosos, a ponto de deixar sua marca registrada no alto de arranha-céus, em trens da CPTM, fachadas, muros, paredes, postes… onde der. Mais que isso: sem se deter um instante no que coçadores-de-queixo-de-vernissages suspiram como “teoria”, forjaram um universo pictórico, gráfico e cromático único. Às garrafas de Morandi, às bandeirinhas de Volpi, aos girassóis de Van Gogh e às gordinhas de Botero acrescente-se, de agora em diante, os homens amarelos d’osgemeos – que realizam na Galeria Fortes Vilaça, inusitadamente, a primeira “individual” brasileira de artistas egressos do graffiti.

Osgemeos são o exato oposto dos punheteiros da arte conceitual… aquele tipo de artista cuja obra não se sustenta sem uma bula explicativa do lado ou um crítico amigo no bolso. Há quinze anos eles simplesmente vão lá e fazem, ignorando regras estéticas, a ordem pública ou a lei da gravidade. A dupla dinâmica é ainda o epicentro da poderosa arte nascida e criada nas ruas de SP – com óbvias influências no graffiti novaiorquino e seu pé no hiphop, porém hoje liberada para canibalizar qualquer referência -, cujos nomes de frente são, entre outros, Zezão, Speto, Nunca, Vitché, Jana, Ise, Tikka, TitiFreak, DeddoVerde, Flip, Nina, Boleta. Artistas que, pela diversidade, fazem da cena graffiti de São Paulo a mais importante do mundo, hoje.

Quando visitei pela primeira vez a galeria Choque Cultural, há uns dois anos, tive uma sensação estranha. Imediatamente, reconheci nas paredes as imagens, os estilos e as marcas que minhas retinas haviam captado e perdido tantas vezes nas andanças por SP – tão naturais ao meu cotidiano, era como se me pertencessem, participassem de meu imaginário mais íntimo [certamente já teria sonhado com elas]. Naquele sobrado da João Moura um fortíssimo movimento artístico se demonstrava, sem programa ou manifesto que não fosse o velho e bom do it yourself pretendido tanto por punks quanto por impressionistas… sim, aqueles mesmos, que deram as costas à academia e foram buscar ao ar livre suas próprias referências. Na atitude intrépida e pela diversidade e consistência de cada estilo, chegando para atropelar noções de bom-gosto de crítica e público, foi assim que os vi: como os novos impressionistas.

Hoje, vários grafiteiros trocam perigosos muros da cidade por confortáveis paredes brancas de galerias [alguns nem se consideram mais grafiteiros, enquanto recém-chegados se dizem grafiteiros só pra surfar o hype…], são puxasaqueados por marketing, mídia e classmedia [‘será que esse pôster do Speto vai combinar com a cor do sofá da sala?’], e começam a ganhar dinheiro e notoriedade internacional [osgemeos passaram grande parte de 2005 trabalhando no exterior]. E, claro: por ocuparem espaço no limitado mercado brasileiro, sempre latifundiado por artistas bem-nascidos e melhor articulados, tomam suas primeiras pedradas da crítica. Como vai ser essa passagem do meio-fio ao marchand, não sei – só espero que não tenham o mesmo destino do Jean-Michel Basquiat, paradigma do artista parido nas calçadas.

O que se sabe, não precisa ser muito esperto para sacar, é que a primeira individual d’osgemeos é um marco na arte brasuca. Não só pelo fato de a dupla transitar da efêmera criação praticada em paredes a obras duradouras [orçadas, aliás, em R$ 20 mil]. E não só por simbolizarem uma mudança no público freqüentador – e consumidor – de galerias. Mas sobretudo por Gustavo e Otávio terem ultrapassado o plano bidimensional de quadros e muros rumo à tridimensionalidade de O peixe que comia estrelas cadentes. Com impressionante riqueza de detalhes, combinam barco, bicicleta, bonecos gigantes e outros minúsculos, luzes, trilha sonora, traquitanas, jogos de espelhos… a um raro senso de espetáculo. Só não sai maravilhado e emocionado da exposição quem já não sente mais nada, dopado pelo papo-furado do crítico da moda ou pela fuligem das ruas.

Bora lá: O peixe que comia estrelas cadentes. Exposição individual d’osgemeos. Galeria Fortes Vilaça, rua Fradique Coutinho 1500, SP, 11/ 5511-3032.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

12 thoughts

  1. Bom, concordo com vc em algumas coisas, principalmente, quando vc fala deles em relação a arte conceitual. Mas daí chamar o que eles fazem de ARTEEE, não. Seguindoa tradição de vários filósofos eu classifico a arte em graus de importancia. Sim, o que eles fazem é arte mas num grauuuu muito baixo. Legal, tem o espirito da ruas, paredes sujas de Sampa mass… pra mim é como se fosse cerveja sem alcool. e que isso de osgemeos? Artes plásticas tá em decadência. tá em decadência pq grafite e cartoon é mais fácil de entender. Afinal carregar ou desvelar o peso de séculos e séculos de pinturas e artistas angustiados é muito mais dificil. Acho grafite infantil, fácil. Coisa de garoto que fica deitado no sofá esperando a mãe trazer um mixto quente com Nescau. Acho uma pena que arte conceitual, grafite e bienais com carnes podres e fezes sejam o must das artes plásticas atualmente. Mas ainda tem muita gente que pinta e não pinta natureza morta, paisagem ou autoretrato. Pinta as angustias, talvez até as tuas paradas que vc vê por aí em Sampa mas essas pessoas ultrapassam o muro. Ela exercitam o olhar. O olhar q vai além da imagem e chega nas sensações. Eu conheço um pintor.
    ver é ter a distância MP

  2. Esse pintor que conheço começou na mesma época que Basquiat. Um em NY e outro no Rio. Basquiat morreu e o Juliano continuou. Eu diria que o Juliano Guilherme tem um pouco de Basquiat, um pouco de expressionismo alemão com um pouco de rio sampa grandes cidades.

  3. Ò, muito grosseiros esses últimos coments. Ninguém mais sabe discutir com educação? Não existe espaço para opiniões diferentes? Agora, qualquer crítica é rechaçada desta maneira fascista?

  4. Escrevi o post acima com a intenção de manifestar a minha opinião. Esperava ter respostas com argumentos que pudessem até me fazer mudar de idéia. Não ofendi pessoalmente ninguem. Não sou escritora, nem nada. Não quero publicar um livro nem artigos em jornal. Sou amante da literatura e das artes plásticas. E ainda tenho um longo caminho na estrada do saber. Só fico triste de saber que não existe espaço para opiniões diferentes. Que a ordem é achar tudo o máximo. Não, eu não sou assim. Prefiro ser burra, escrever mal mas ter opinião. Prefiro ser uma Riobalda.

  5. Riobalda,nao fique chateada. nao precisa gostar de grafiti. mas nao precisa ficar escrevendo razoes pseudo-wannabe-intelectuais para explicar porque nao gosta. é ISSO que queima o filme e nao a sua opiniao. o que pegou mal e esse estereotipo realmente BURRO de chamar de mixto quente com nescau. da um tempo os caras que pintam na rua correm riscos e se expoem para mostrar a sua arte. enquanto isso os artistas de galeria ficam se achando conceituais. vai pintar na rua pra ver o tamanho da encrenca! noiaman FALOU!

  6. querido noia, realmente não preciso gostar de grafite mas por que precisaria? eu não gosto porque acho infantil. concordo com vc na importancia e no valor dele. só não acho que irá salvar a arte dos conceitulalismos… sim, eles correm riscos mas foram eles que escolheram isso, né. existe algo facil? viver é perigoso, disse riobaldo e no caso eu, Riobalda repito. Acho tb BURRO esse enquadramento pseudo-wannabe-intelectuais.

  7. Bom, primeiro eu gostaria de parabenizar o respeito com que são tratados os assuntos, seja graffiti, seja arte. Segundo, agradecer a preza pra choque cultural… bem que a gente precisa dessa força.
    e, em terceiro, congratular o pessoal que discute arte, mesmo que na base da baixaria.

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