A história do futuro


> Resenha pro Estadón de domingón. A trilogia Fundação, clássico da ficção científica de Isaac Asimov de 1951, é relançada em nova tradução. Embora a forma pareça envelhecida, o conteúdo segue atual

foundation_asimov

É inquietante voltar a um livro que você leu há 25 anos. Ainda mais se tratando de um livro de ficção científica – sem falar no dado importante de que, quando foi lido pela primeira vez, o leitor tinha 13 anos. Uma verdadeira viagem no tempo: retorna-se ao futuro para tentar se lembrar de como era no passado, ao mesmo tempo em que tenta lembrar de como era, neste passado, sua visão de futuro.

Desculpas ao leitor pela viagem temporal, mas a digressão é necessária para avaliar um romance como Fundação (Aleph, 238 páginas), de Isaac Asimov, primeiro exemplar da trilogia que prossegue em Fundação e Império e Segunda Fundação.

Ficção científica é mais ou menos como heavy metal. Você gosta daquilo por um tempo, daí cresce, e começa a achar coisa de adolescente. Tanto é que ambos os gêneros não são muito levados a sério dentro de suas disciplinas – a literatura de imaginação e o rock’n’roll. Tanto faz: seus obcecados fãs também se encarregam de separar esses gêneros do resto do universo, o que contribui para lançá-los na vala comum do preconceito. Por essa chave, a obra de Isaac Asimov seria algo assim como uma mistura de todos os álbuns de Mötorhead, Black Sabbath e Iron Maiden.

O finado escritor russo/norte-americano é uma lenda: ajudou a consolidar o gênero, criou alguns de seus maiores clássicos (a trilogia Fundação e Eu, Robô entre eles), estabeleceu regras e uma gramática próprias, conquistou fãs de diversas gerações e ainda foi um dos mais prolíficos autores na área – e também em outras: entre seus mais de 500 livros, há histórias de mistério, enciclopédias, volumes de divulgação científica e até poesia. No espectro clássico da ficção-científica anglo-saxã, somente Arthur C. Clarke e Ray Bradbury lhe fariam companhia.

Essa produção toda talvez seja a culpada por algo que o leitor de 38 dá mais atenção que o de 13: a linguagem. Embora muito bem traduzida por Fábio Fernandes, especialista no gênero no Brasil, a paisagem verbal asimoviana é pobre e freqüentemente adensada por um palavrório científico. Os grandes vôos da ficção-científica nesse território ficam por conta de Douglas Adams (O mochileiro das galáxias) e Philip K Dick (O homem-duplo), escritores sessentistas que temperaram o gênero com psicodelia, sarcasmo e cultura pop. Asimov privilegia a objetividade da ação, o desenho rápido na descrição, o tom ligeiro na psicologia das personagens.

O forte do homem é a solidez na estruturação de tramas e a ousadia na concepção: ele baseia seu livro em grandes acordes, em ritmo bem marcado. E na trilogia da Fundação é onde Asimov foi mais longe. Se o leitor de 13 viajava nos saltos pelo hiperespaço, o que intriga o leitor de 38 são as analogias políticas, os mergulhos na filosofia e as observações socioeconômicas.

Asimov em 1956
Asimov em 1956

O livro de cabeceira de Obama
A Fundação é um centro de alta pesquisa criada em Terminus por um brilhante psicohistoriador. Estamos em 11988, e o Império Galáctico controla com mão de ferro a Via Láctea. A psicohistória é uma disciplina que domina a futurologia através de uma ultraminuciosa aplicação de algoritmos probabilísticos a comportamentos socioeconômicos. Seu mestre, Hari Seldon, prevê que em breve – coisa de mil anos – o Império será derrubado, e sobrevirá uma era medieval de 30 milênios.

O imperador o acusa de traição, e assim Seldon e seus colaboradores são exilados em Terminus, na periferia do Império, onde o psicohistoriador tem liberdade para criar a Fundação – uma universidade cujo objetivo aparente é compilar todo o conhecimento humano na Enciclopédia Galáctica, porém sua missão é mais ambiciosa: substituir o Império.

Nesse livro baseado em economia e política, destrincha-se um mundo todo voltado ao domínio da tecnologia, da informação e do conhecimento. Seldon é o primeiro personagem de uma galeria de heróis da Fundação. O seguinte, Salvor Hardin, tem como lema “A violência é o último refúgio do incompetente” e usa a religião como método de dominação de planetas tecnologicamente atrasados. Hober Mallow, mais à frente, demonstrará maestria política pela imposição do livre mercado.

Com eles, Asimov elenca as forças do poder: o jeitinho (a forma malandra como Hardin e Mallow conduzem a crise, usando a cabeça para dominar reinos militarmente mais fortes), o misticismo (o fundamentalismo religioso, sempre apresentado como instrumento de poder, é desprezível para Asimov), o dinheiro (ganância e inveja como motores da humanidade), e, acima de tudo, a crença irrefreável no saber e na tecnologia.

Dramaticamente, Fundação tem uma estrutura tão previsível quanto a psicohistória. Quase todos os capítulos são alicerçados sobre diálogos – e é neles que a ação se desenrola, como comentário, crítica ou explanação de fatos ou argumentos pró e contra os dogmas científicos da Fundação. Asimov produz uma espécie de literatura de tese, mais interessada na argumentação cerebral, tornando passagens de Fundação curiosamente semelhantes a outro subgênero – a dramaturgia de tribunal.

Terrível para o leitor quarentão (e que concorre para a tosca analogia desta resenha com o misógino heavy metal) é a quase ausência de mulheres. Não há personagens femininas, nem sensualidade, sequer se tangencia a idéia de sexo: a primeira mulher vai aparecer na página 191. Tudo é épico, sério e severo demais. Ninguém relaxa, pô. É meio chato viver em um universo em que o futuro está em jogo o tempo inteiro.

Asimov em 1982, anunciando um TRS80 da Radio Shak
Asimov em 1982, anunciando um TRS80 da Radio Shak

Contudo, o que fascinava o leitor de 13 não é o que confere atualidade a Fundação: naves espaciais. desintegradores e escudos nucleares, além de raras mas impressionantes descrições de planetas como Trantor, onde tudo é cultura, a natureza foi abolida e quem vê o céu fica tão abalado que vai parar no hospital… Isso já foi superado pelo cinema e pelos videogames.

O que não envelheceu foi a capacidade asimoviana em demonstrar a fatalidade dos impérios, quando se tornam gordos, gastões e gigantescos; e a agilidade das pequenas comunidades periféricas, quando detêm o conhecimento. Seu ouro é a transposição da História – o império romano, o destino manifesto norte-americano, a ascensão e queda do nazismo – para milênios no futuro. Uma prudente sugestão de leitura para Barack Obama ter na cabeceira, lá do trono de seu declinante império.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

8 pensamentos

  1. Você me emprestou um livro que mudou minha cabeça bem no finzinho de minha fase Heavy Metal. Tá lembrado? Lá se vão uns sete anos e eu nunca te devolvi aquele 1984. Pois, ao regressar pela primeira vez à Luanda foi irresistível trazer debaixo do braço três volumes da obra de George Orwell e distribuir para alguns angolanos “rebeldes”. Foi um livro importante pra mim, naquela época e continua sendo aqui nessas cidades africanas dominadas por Grandes Irmãos e Inimigos Invisíveis. Espero poder pegar emprestado o Fundação quando voltar pro Brasil, só não prometo devolver…

  2. Hahahaha…
    Bressane, o comentário acima foi deixado por mim! Eu estava editando layout do Blog do amigo João Fellet (candongueiro.wordpress.com) e acabei saindo com a cara dele… Bem, dá dá no mesmo.
    Abs!

  3. Ronnie, ma man!

    Você viu que eu viu cometer a asneira de lançar mais um livro na minha vida. Você até fez a foto da capa, seu maluco, meses antes de eu sequer sabetr quem ia editar a bagaça! Isso é que é fotógrafo à frente do se tempo. Seguinte: o bukão deve sair no fim do mês. Vai daí que, aproveitando a boa vontade da editora Objetiva, que se dispõe a ir até o correio e arcar com as despesas, queria te enviar um exemplar da minha nada exemplar noveleta de 500 páginas (!). Se não virar seu livro de cabeceira, poderá se tornar, quem sabe, a própria cabeceira. É a forma que encontrei de garantir um público cativo, sem esperar que alguém se disponha a coçar o bolso pra comprar o cartapácio. Mas pra isso, preciso do seu endereço. Pode mandar pra:

    naldo@uol.com.br

    abração

    Reinaldo Moraes

  4. Bressane, nada a ver a pergunta com o post, mas vamos lá: tava previsto pra primeira semana de maio o Junot Diaz traduzido… Sabe se há uma data já? E o novo do Roth?

    Abraços.

  5. Gostei muito deste post, assunto uma ligação bem interessante. Gosto muito muito de Isaac Asimov e compartilho do pensamento que idades diferentes levam a interpretações diferentes. E acho que não é só isso, o nível de conhecimento do leitor também influencia. Assim como, o conhecimento histório do período que a obra foi escrita. Como vivia o autor, o período político-socioeconômico, sua classe, influências externas e etc. Tudo isso pode ajudar a entender melhor um livro.

    Parabéns pelo blog.

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