Crítica

Entre o caminho do zen e o caminho do bauret

Dois lançamentos finalizam de forma perfeita um ano cheio de boas edições sobre música. Biografias de dois negões excessivos, que, cada um de maneira bastante peculiar, detonaram pequenas revoluções no jeito de fazer e pensar música no século 20 and beyond: um norte-americano nascido em Hamlet, North Carolina, em 1926, e o tijucano do Rio de Janeiro safra 1942. Ambos conviveram no mesmo país entre 1959, quando Tim Maia desembarcou em Nova York, e 1964, quando voltou ao Rio – John Coltrane sumiria do planeta pela mesma cidade em 1967. Mundos paralelos, distintos, com algumas curiosas encruzilhadas.

Os livros também são em chave bem diversa. Vale tudo, de Nelson Motta [Objetiva, 390], deve ser um dos livros mais engraçados que eu já li. A personalidade transbordante, contraditória e anárquica do autonomeado preto gordo e canalha comparece ali estruturada pelo jornalista carioca autor de Noites Tropicais em anedotas sensacionais, bastidores de estúdios, shows e alcovas e frases de efeito que penetraram fundo na cultura brasileria – assim como seus pancadões e suas fossas de corno imprimiram uma marca pesada e dionisíaca no funk, no rythmn’n’blues, no rock, na canção de dor-de-cotovelo e até na bossa nova.

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A Love Supreme, de Ashley Khan [também autor da fabulosa bio de Kind of blue, o álbum de Miles Davis, idem pela Barracuda], narra a trajetória do saxofonista neto de um pastor evangélico até o polêmico estrelato; um ponto culminante do livro é o detalhista dichavamento de sua obra-prima, uma suíte espiritual de jazz em louvor a Deus. A história de Coltrane é ainda um aberto panorama do jazz moderno, desde que o saxofonista foi apontado como o novo Bird até que sua música generosa e única expandisse furiosamente os limites do jazz modal, free, cool, deixando perplexos público e crítica.

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Mais retorno, mais eco, mais volume, mais baixo, mais agudo, mais voz, mais tudo!”, berrava Tim, esculhambando seus próprios técnicos de som e músicos. Trane agregava humildemente a seu quarteto clássico [o pianista McCoy Tyner, o baixista Jimmy Garrison e o baterista Elvin Jones] mais um baixista, percussionistas e outro saxofonista [por vezes Pharoah Sanders no tenor, enquanto Coltrane pegava o soprano], em improvisos free com todos solando ao mesmo tempo durante horas.

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Nos EUA é que Tim Maia experimenta seu primeiro bauret, assim como a primeira prisão e vários petardos do rithmn’n’blues recém-lançados; o beck [batizado assim durante um show com os Mutantes em Bauru] inseparável de Tim [chegou a ser gíria nos anos 80: um baseado bacana era um tim, um bonzão era dois tins, mas o federal mesmo era um maia] ganhou a companhia do goró, do pó e eventuais goles de mescalina e tabletes de ácido lisérgico, isso sem falar nas coxinhas, empadinhas, risoles [pra ficar só nos salgadinhos] e litros de leite condensado com nescau [não, não tem aquela incrível história do brigadeiro contada pelo Nelson Primitivo no livro-blog do Marião].

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Por volta dos anos 50, logo depois de participar do maravilhoso Kind of blue, Coltrane está com os dois pés atolados na jaca do álcool e da heroína. Em 1957, depois de tomar uns cascudos do baixote Miles Davis, que o mandaria embora de seu quinteto [não antes de lhe fazer o grande favor de presenteá-lo com um sax soprano, com que Trane irá gravar “My favourite things” e se tornar um astro] com um peteleco na cara na frente de Thelonious Monk – que viria a ser um de seus mestres reconhecidos, ao lado de Ornette Coleman e do próprio Miles –, o saxofonista caladão resolve tomar tenência e ordena a próprio uma abstinência baseada não em metadona, remédios ou outra droga, mas em revelações divinas durante o exercício febril de seu saxofone.

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Ninguém metia a mão na cara de Tim Maia não. Nem a sua adorada mãe tinha coragem de dar esporro no cantor e compositor de “Não há nada no mundo que pague” e “Que beleza”. E assim, sem freio nenhum, ele prosseguiu, derrubando engradados de uísque, quilos de maconha, toneladas de pó e várias geladeiras, até seus 56 pantagruelicamente vividos, morrendo com a mesma ânsia com que gravou sua maior obra-prima, o álbum duplo Racional, criada na graça do amor ao carola Universo em Desencanto, a bíblia freak do terceiro mundo esculhambada pelo próprio Tim anos depois em benefício da gréia. Mesmo com o freio do Miles e o sopro de Deus, os eflúvios psicodélicos do esoterismo dos 60 e a simpatia pelo budismo inspirando obras cada vez mais complexas e arrojadas, um câncer no fígado levou Coltrane ainda mais jovem, aos 41 anos.

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E encerremos esses cruzamentos bizarros entre vida desregrada, aproximações do divino e revoluções musicais de Tim e Trane. Era só um pretexto para falar da vida desses caras larger than life.

“A vida, por mais inconveniente que seja para os biógrafos, não é uma pilha arrumadinha de páginas retiradas de um calendário que marca as datas e os acontecimentos especiais; não é uma subida gradual das profundezas até um ponto bem alto, de onde caímos para aterrisar numa pilha de garrafas vazias e maços de cigarros. A realidade é algo bem mais complicado, curso que um cachorro faz ao longo da rua, às vezes indo de um poste a outro para deixar sua marca, muitas vezes voltando ao primeiro poste demarcado, circulando-o, mirando mais uma vez, e correndo para o outro lado para demarcar outro poste em outra rua”, reflete Sylvia Simmons na ótima biogafia do branquelo judeu franco-russo Serge Gainsborg, Um punhado de Gitanes [Barracuda].

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Em ziguezague ou zaguezigue, entre o caminho do zen e o caminho da zona, a love supreme numa relax, numa tranqüila, numa boa para todos vocês em 2008!

2 pensamentos sobre “Entre o caminho do zen e o caminho do bauret

  1. Porque esse tom tão fascinado pelos caras que se drogam, que se matam com cachaça e comida?…
    Curto pra caralho o som do Coltrane, do Bird, do Miles, este pra mim simplesmente o máximo que um ser humano poderia ser em termos de genialidade musical. Mas a lado bagaceira desse povo eu não admiro de jeito nenhum. Foram gênios na música mas uma bosta como gente… É isso ai.

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