Poucas vezes li uma resenha tão preguiçosa quanto esta do Alcir Pécora, acerca do novo livro do Mutarelli, A arte de produzir efeito sem causa [Cia. das Letras]. Alcir, que é dos poucos acadêmicos que lêem de fato tudo o que se produz na literatura contemporânea [não o conheço, mas amigos próximos me confirmam], cometeu aqui nessa resenha da Folha um pecado que, segundo o mestre de todos Antonio Candido, o levaria por certo ao canto da classe, com um canudo espetado na cabeça, ajoelhado no milho. [Update: Ciça me lembra que ele cometeu, além da preguiça, o pecado da soberba.]
O pecado da preguiça que acometeu Pécora – e que, aliás, é doença infantil comum em 90% das resenhas que se publicam por aí – tem uma tag: a paráfrase. Se você vai escrever sobre qualquer coisa, para observá-la com objetividade é necessário descrevê-la na miúda, assim como se a contasse para um amigo: “Olha, o que estou vendo aqui é um ser verde, com olhos enormes e membros longos e finos, voz metalizada. Ele está me dizendo que vem de Marte”, e por aí vai.
Feita a paráfrase, que nada mais é que contar com suas próprias palavras o resumo de um livro, você procede à crítica propriamente dita. Dá trabalho, porque a paráfrase em si não quer dizer porra nenhuma. Você tem de escarafunchar lá no fundo do seu repertório todo tipo de associação que possa fazer em relação à obra. Indispensável seria conhecer outras obras do criticado [por exemplo, ler seus outros livros, e se for um pouco mais informado, ir atrás de seus comics], discuti-lo face à produção contemporânea, se possível investigar-lhe uma linhagem de que participe, sempre extraindo da própria obra uma lógica literária interna – para jogar o mais limpo possível, não perder nunca de vista o texto, o texto.
Assim, sempre a partir do livro, abordar elementos como tom, perspectiva da narrativa, parâmetros da linguagem, condução, ritmo, léxico, drama, visão de mundo, psicologia, humor, atmosfera etc etc. Feito um médico, catar cada recorrência expressiva e, entendendo-a como sintoma, descobrir as doenças do livro, proceder à biópsia – seu estilo, enfim. Isso se chama interpretar um texto. É a lição de casa, cazzo!
Nada disso fez o professor Pécora, para minha decepção [não dá pra não levar a sério um sujeito que organizou as obras de Hilda Hilst e de Roberto Piva, por exemplo]. O mestre da Unicamp preferiu a modorrenta orelhada escrita nas coxas numa rede ao cair da tarde, certamente pra mandar no dia seguinte, junto da nota fiscal de R$ 500 [o cachê de uma resenha de jornal], e pronto, tá pago o supermercado do mês. Leu o livro com má vontade e escreveu qualquer coisa como se o contasse pro neto de 8 anos – inclusive dando a extrema mancada de contar o livro inteiro, do começo ao fim.
Não é isso que se espera de um dos melhores professores de literatura do país. Os acadêmicos não vivem reclamando que os jornalistas ocuparam seu espaço na crítica? Porra, e quando têm a chance de publicar mandam uma merda dessas?
Claro que fiquei puto porque sou amigo do Muta. Mas não só: achei este seu melhor livro, o mais profundo, o que vai mais longe em seu flerte com a patologia – a narrativa é um verdadeiro manual de psiquiatria, e muito da originalidade de Mutarelli vem do modo como sugere a doença como único parâmetro possível para dar sentido ao universo. Não me lembro, por exemplo, quem tenha descrito na literatura brasileira um surto epiléptico com tanta intensidade, drama e, o que surpreende, senso e timing de comédia. Enfim, não vou resenhar o livro aqui – o que me irritou mesmo foi esse desleixo com o olhar crítico: quer falar mal, tranki, mas que fale com alguma inteligência. Dá só uma sacada:
Crítica/”A Arte de Produzir Efeito sem Causa”
Literatura de Mutarelli fica à altura de história trash
Autor descreve protagonista paranóico em livro que lembra gibi sem desenhos
ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA
Não vejo melhor modo de resenhar “A Arte de Produzir Efeito sem Causa”, de Lourenço Mutarelli, do que contar por alto o seu enredo. Numa primeira parte da narrativa, o pacato protagonista, que porta o nome de Júnior, abandona a casa, a mulher, o filho e o emprego na fábrica de embalagens de autopeças. Muda-se então para o apê do pai, velho de bom coração, que tem um caso com a vizinha e aluga o segundo quarto do imóvel para uma estudante de artes. Júnior se instala no sofá da sala e lá dorme, deprimido, boa parte do dia. Na outra parte, gostaria de olhar a estudante nua por um buraquinho que lá havia. Se isso pareceu bobo, esperem para saber o motivo da brusca mudança e depressão de Júnior: o pobre descobrira que sua mulher havia dormido com o amiguinho do filho. E também com o pai do amiguinho do filho, o qual, flagrando o ilícito, exigiu a parte que lhe era devida para não divulgá-lo. E há mais: sabem quem era o pai do amiguinho do filho? Ninguém menos que um amigo fiel de infância, que também calhava de ser seu patrão na fábrica. Neste ponto, se alguém deixasse de lado o livro, não seria eu a condená-lo por impaciência. Mas há ainda uma segunda parte, na qual Júnior dá sinais de uma progressiva paranóia. Ela se precipita com a chegada, via sedex, de pacotes sem nome de remetente. Entre outros objetos, trazem um recorte de jornal de época que noticiava o caso em que William Burroughs, cultuado autor da beat generation, havia matado a própria mulher com um tiro de pistola ao errar o copo sobre a sua cabeça. Nada muito criminoso: apenas brincava, bêbado, de Guilherme Tell. Em outro pacote, ganha o DVD do filme de David Cronenberg inspirado em “Naked Lunch”, do mesmo Burroughs, além de recortes nos quais defende a sua velha tese de que a linguagem é um vírus. Quanto a nós, atenção! Não devemos perder os signos de cultura underground disseminados na narrativa. Somados os pacotes à tentação da estudante (com quem divide um lanche, uma pizza e um baseado), mais os porres solitários de conhaque, Júnior dá de perceber estranhas conexões nos recortes. Passa daí a desenhar combinações com as suas letras, enquanto vai ficando afásico. Desconfiado dessas esquisitices, o pai resolve dar uma espiada nos papéis que o filho rabisca e descobre que ele preenche páginas com uma única frase. Embora nada se diga no livro, não é de duvidar que também tenham vindo vários outros DVDs, entre eles, “O Iluminado”, de Stanley Kubrick. O certo é que, preocupado, o bom pai o leva a um médico, que suspeita de neurocisticercose, isto é, tênia nos miolos. Para ajudá-lo a deixar a bebida e as alucinações, o pai resolve lhe dar um choque de realidade e o leva a visitar o irmão, preso por tráfico de drogas. Mas tráfico não é problema para o irmão, e sim a suspeita de que a mãe, metida com demônios, entregara a eles a sua cabeça. E não é que Júnior acha que a mãe, já morta, fez o mesmo com ele? Aliás, Júnior suspeita que o demônio possuiu o pai e a estudante, trocando-os por fantasmas que querem matá-lo. Conseguirá ele matá-los antes disso? O que dizer mais? Fechos alternativos: 1) Que a literatura de Mutarelli faz jus à história “trash” que conta? 2) Que o livro é um gibi sem desenho? 3) Que o título é correto? Sem dar causa a nada, ainda ganhou uma resenha como efeito.
ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária na Unicamp
A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA
Autor: Lourenço Mutarelli
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 39,50 (208 págs.)
Avaliação: ruim
Deixe um comentário