Tô tenso tô tenso tô tenso


Carlos Brito

Jovem escritor mineiro estréia com romance perturbador. Resenhol pro Outlook [p. 57]

Para morrer, basta estar vivo, surra o ditado, sem sequer coragem para entrar no milagroso O Pai dos Burros – dicionário de lugares-comuns e frases feitas de Humberto Werneck (Arquipélago). Mineiro como Werneck, Carlos de Brito e Mello usa um espertíssimo fantasma como principal sombra narrativa em A passagem tensa dos corpos (Companhia das Letras, 249 págs.). Ainda na linha do colunista de Outlook e tantos outros autores mineiros, cuja formação no lendário colégio Caraça trouxe ao texto de Minas uma vocação para a riqueza vernacular conjugada à clareza de pensamento, Brito e Mello ataca com precisão uma narrativa bem esquisita.

Em 156 capítulos, alguns curtíssimos, A Passagem apresenta um narrador que comenta suas relações entre mortes ocorridas em centenas de cidades mineiras. Devagar o narrador se acerca de um defunto especial: um tal C., que teria sido assassinado e tornado múmia. Com voz astuciosa para tema tão árido, o narrador nos convoca a um mórbido reality show cuja cena principal é o morto sentado eternamente à mesma mesa em que jantam a sensual esposa e a filha casamenteira (o filho oculta-se num quarto e jamais aparece). A narrativa é entrecortada pelas descrições de mortes bizarras em minúsculos municípios e o trabalho da Indesejada em si – um protagonista possível para este romance de estréia de Brito e Mello, 34 anos, vencedor do Prêmio Governo de Minas 2008.

As inquietantes cavilações do invisível narrador são ditas com uma escrita tão límpida quanto fresca, sempre à procura da imagem exata, única: “Em um entroncamento da galhada de uma goiabeira, posicionada no centro do quintal florido, virente e frutuoso, um homem foi crucificado” – eis a abertura do romance. Antirealista, a escrita de Brito e Mello atrai sedutoramente o leitor para o primado da linguagem pura: “Eu sou uma forma possível para a perda. E a violência que origina toda nomeação/ em minha infância, abateu-se sobre o conjunto de fonemas organizados para designar-me/ meu nome também não se pronuncia“.

Brito e Mello, cujo apelido é Trovão, dá aula de cinema e jornalismo no Centro Universitário UNA, em BH. Também faz formação psicanalítica desde 2007 no Círculo Psicanalítico de Minas Gerais. Fez parte de um ateliê com os artistas Marcelino Peixoto e Margarida Campos, trabalhando especialmente com desenho e pintura. Com Peixoto e Viviane Gandra, integra o coletivo Xepa, que aposta em intervenções urbanas, ações, performances e se preocupa bastante com um trabalho permanente de reflexão sobre a arte e a representação. A seguir, a entrevista que fiz por e-mail com o nada sinistro Trovão.

Por que essa obsessão com a morte, presente desde o seu primeiro livro? A morte apresenta-se como um limite insuperável não só para a existência, mas também para nossa compreensão. Acho que tenho uma relação de horror e de fascínio com ela (sobretudo de horror…). Às vezes, tentamos contorná-la, com o emprego de nossos precários recursos simbólicos – como fazemos nos velórios, rodeando o caixão – ou transformá-la em uma promessa de redenção, por meio das crenças religiosas. Acredito que a palavra literária possa se tornar, dependendo da maneira como é elaborada, uma forma de sustentar essa zona de indeterminação configurada pela morte e expressá-la no campo da linguagem. Nesse sentido, a aproximação da morte significaria também uma exacerbação da palavra, mas sempre de uma palavra agônica, uma vez que ela tem que suportar a ameaça de seu próprio desaparecimento. Em A passagem tensa dos corpos, a morte surge como força propulsora da palavra que o próprio narrador constrói. Então, talvez, para mim, a presença da morte como um tema recorrente na produção literária marque o princípio de toda narrativa.

Não tenho, aliás, o seu livro de contos aqui – poderia falar um pouco sobre ele? O cadáver ri dos seus despojos, lançado em 2007 pela Editora Scriptum, de Belo Horizonte, foi elaborado a partir de contos produzidos ao longo de um período longo (coisa de dez anos…). Reuni um conjunto de textos e percebi que a morte – sob a figura do cadáver – estabelecia um eixo de leitura e compreensão para eles. No livro, houve uma clara tentativa de fazer da neutralidade do morto uma forma de ação: ele perturba, ele assombra, ele afronta, ele subtrai. Houve também uma preocupação em se fazer da linguagem um campo de experimentações. Algumas delas, melhor desenvolvidas, foram retomadas em A passagem tensa dos corpos.

Você ganhou uma bela bolsa para escrevê-lo, ou seja, o melhor dos mundos para um autor. Como foi o processo de trabalho? O total da bolsa – como resultado do prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2008, categoria Jovem Escritor Mineiro, era de R$ 42 mil reais, mas, com os impostos, esse valor foi reduzido a algo em torno de R$ 30 mil reais. Pelas determinações da Secretaria de Estado da Cultura, previstas no edital, eu tinha seis meses para concluir o romance. Determinei uma rotina de trabalho para aproveitar bem o tempo. Sou professor e, naquela época, dava aulas apenas à noite. Então aproveitava as manhãs e parte das tardes para escrever, ler e pesquisar temas relativos ao que escrevia. Também reduzi um pouco o ritmo da formação psicanalítica que estava fazendo – e ainda estou – para que a produção literária tivesse prioridade. Foi incrível. Ao final de seis meses, o livro estava pronto.

Os processos da morte são cuidadosamente expostos em seu romance. Como foi a pesquisa? Sobre a morte do narrador, procurei informações em bibliografia médica especializada. Todas as outras mortes foram inventadas.

Quando teve a idéia de cortar as frases, separando-as como se fossem pequenos versos, o que acaba dando um ritmo todo próprio à narrativa? A forma do texto – com capítulos curtos, cortes nas frases, composição em blocos – foi resultado do próprio processo de escrever, e a sensação que tenho é que, para mim, pelo menos neste momento, não cabe outra forma. Além disso, eu pretendia recuperar, no romance, por meio dos capítulos curtos, a concentração dramática que o conto normalmente tem. O corte nas frases e o emprego de blocos de texto foram recursos experimentados em dois contos de O cadáver ri dos seus despojos. Mas no romance tiveram papel decisivo: ao lado da paragrafação, da impossibilidade de nomear os personagens e da formulação de um narrador incorpóreo, foram modos pelos quais morrer – sob as figurações do vazio, do silêncio, do inominável, da invisibilidade – tornou-se um elemento central de composição do próprio texto.

Seu livro não se parece com nada na literatura brasileira atual. Se sente próximo de algum autor contemporâneo? Acho que eu não saberia fazer essa avaliação. Mas posso citar um autor brasileiro que especialmente admiro – mesmo reconhecendo as diferenças entre os nossos textos – que é o Lourenço Mutarelli.

Minas Gerais, que foi o epicentro da vida literária do país por tanto tempo, anda meio quieta. Fora o teu livro, o que é que vocês andam tramando? Quais são os mineiros contemporâneos em quem precisamos ter atenção? Você tem razão sobre a impressão de quietude do lado de cá. Mas é que a produção daqui tem muita dificuldade para sair e aparecer. Muita gente boa e interessante, entretanto, tem feito obras incríveis: Frederico Alberti é escritor e editor. Ao lado da também escritora e editora Christina Castilho, tenta reunir autores e seus textos, desenvolvendo projetos de estímulo e visibilidade para a literatura mineira, evitando que ela fique dispersa (dois contos meus, inclusive, foram publicados em coletâneas que eles organizaram). Raphael Romanizio é poeta dos bons e tem um projeto interessante: ao desenvolver um livro, faz uma só e exclusiva impressão, que destina a uma pessoa em especial, que poderá escolher o que fazer com o livro: queimá-lo, divulgá-lo, traduzi-lo, falsificá-lo… A Maria Esther Maciel teve seu O livro dos nomes muito bem lido e avaliado fora de Minas. Marcílio França Castro lançou em novembro um livro de contos chamado A casa dos outros (7 Letras), que está ótimo. Ele ganhou uma bolsa da Funarte de Criação Literária e podemos esperar outra obra boa. A poeta Ana Martins Marques, lançou este ano A vida submarina (Scriptum), que tem sido muito – muito! – elogiado.

Me fale um pouco de sua história como escritor: os livros marcantes, os primeiros passos. Parte da minha história de escritor está ligada às experiências escolares: muita leitura, boas professoras e aulas cheias de interesse e prazer com a língua portuguesa. Também está ligada à minha casa e à minha família, que foi sempre cheia de livros e de leitores. Comecei a escrever tomando a escrita como um projeto de todo dia, mas também um projeto de futuro, na faculdade. Eu e o Raphael Romanizio (que mencionei acima) fundamos um impresso de poesia chamado Súcia, que produzíamos de modo improvisado, mas com qualidade de texto. E criamos O Gato que Pesca, uma espécie de grupo/movimento literário de duas pessoas. O conto foi meu primeiro gênero de trabalho, e foi com “A cunhada” que ganhei, em 1998, o prêmio Casa da América Latina, oferecido pela Rádio França Internacional. Entre todos os autores que admiro imensamente, gostaria de destacar dois que, de certo modo, me emprestaram um pouquinho de suas sombras durante a produção de A passagem tensa dos corpos: Lúcio Cardoso e Edgar Allan Poe.

Já tem um próximo livro no alvo? Tenho dois projetos, além de um livro iniciado. É também um romance, que ainda está por se desenhar melhor. Há novamente a figura da morte, mas agora ela se articula de maneira mais refinada com a experiência amorosa e, talvez, com a experiência política – uma política do corpo, do afeto, uma política de homens ordinários. Mas, como eu descobri com A passagem tensa dos corpos, a obra se resolve em curso, a escrita cria suas próprias possibilidades.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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