O profeta do bundalelê

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Rompam de uma vez por todas com a palavra ‘arte’, assim como com uma outra: ‘artista’. Parem de chafurdar nessas palavras que vocês repetem sem cessar. Não é verdade que cada um de nós tem um pouco de artista? Não é verdade que a humanidade cria arte não somente no papel e na tela, mas em cada momento da vida cotidiana? Quando uma jovem enfia uma flor nos cabelos, quando, numa conversa, escapa-lhes um dito gracioso, quando nos deleitamos diante da beleza de um pôr-do-sol – o que é tudo isso senão a prática da arte? Portanto, para que precisamos dessa estranha e absurda divisão entre ‘artistas’ e o resto da humanidade? Não seria mais sadio se vocês, em vez de se apresentarem orgulhosamente como artistas, dissessem apenas: ‘É possível que eu me ocupe da arte um pouco mais que os outros’?”

“E tem mais: o que lhes traz esse culto e essa adoração pela arte contida nas chamadas ‘obras de arte’? De onde vocês tiraram a ingênua idéia de que os homens admiram tanto as obras de arte que quase desmaiam de prazer ao ouvir uma fuga de Bach? Nunca lhes veio à cabeça quão impuro, opaco e imaturo é esse aspecto da cultura – um aspecto que vocês querem encerrar em sua fraseologia simplista? O erro que vocês cometem, monótona e sistematicamente, reside, em primeiro lugar, no seguinte: vocês reduzem o contato do homem com a arte a algo exclusivamente ligado à emoção estética e, ao mesmo tempo, definem essa comunhão em termos extremamente egoísticos, como se cada um de nós experimentasse a arte sozinho, hermeticamente isolado do resto da humanidade. No entanto, na vida real, lidamos com uma fusão de diversas emoções e com tantas outras pessoas que, interagindo uns com os outros, criamos uma experiência coletiva. […] Parem de paparicar a arte, parem – pelo amor de Deus – com essa mania de engrandecê-la e exaltá-la e, em vez de se saciarem com lendas, deixem os fatos criá-las.”

O polaco Witold Gombrowicz publicou isso em 1937, aos 33 anos. É um trecho do extraordinário Ferdydurke, romance recém editado pela Cia. das Letras que Gombrowicz lançou como provocação ao mesquinho ambiente literário da Polônia no entreguerras. Argumento simples como genial: Joey Kowalski, escritor de 30 anos, é “seqüestrado” por um professor e forçado a voltar a estudar num colégio como se tivesse 13 anos a menos. Em sua anárquica fúria por desmistificar o mundo “adulto” – que Gombrowicz observa no fetiche da “Arte” típico da intelligentsia polonesa e seu complexo de viralatas, de um terceiromundismo muito afeito ao nosso [imagine o que é escrever numa língua esquisita emparedado por impérios como Rússia, Alemanha e França] –, o autor propõe a imaturidade como valor positivo. Gombrowicz/Kowalski é obcecado por bundas [o tradutor Tomasz Barcinski prefere o fofo “bumbum”], utilizando repetidamente o termo que designa o posterior nas maneiras mais variadas – como substantivo, adjetivo, verbo etc –, sugerindo que “bumbumizar” seja o ato de tornar adolescente um adulto.

É como se Gombrowicz/Kowalski estivesse o tempo todo mandando um bundalelê aos ideais da Beleza, Verdade, Arte, Amor. Um rebolado iconoclasta que sugere analogias [epa] sutis com o Holden Caulfield de J.D. Salinger ou o assassino de professores de lógica de Campos de Carvalho. Depois que se ri das situações absurdas criadas pelo autor [um duelo de caretas, um quiproquó envolvendo uma “colegial moderna”, uma luta entre um professor de síntese e um entusiasta da análise, a busca por um camponês maravilhoso…] e se reflete com sua revolta contra qualquer idéia de autoridade [antecipando-se aos totalitarismos do século 20], não se pode deixar de pensar que o mundo às avessas de Ferdydurke é este nosso: em que a juventude, essa palavra gasta, é o grande valor a ser buscado, e a estupidez – proposta por Gombrowicz como reação ao culto à erudição [“Dei vazão à minha estupidez e estou contente por isso”] – é acessível a todos e por todos desejada.

“Pressinto que estamos à beira de um Recuo Geral”, vaticina o autor nascido em 1904, numa família rica de Maloszyce, e morto em 1969 em Vence, França. A um ser psicológico “autêntico”, maduro, o polonês sugeria a esquizofrenia como modelo de comportamento e criação. Na edição portuguesa de seu panfleto Morte a Dante [de 1987, pela & Etc, a partir do texto em francês], há um curioso apêndice com uma auto-entrevista de Gombrowicz. Ali se desnuda o profeta do cínico bundalelê que ora viceja como ideologia dominante – pelo menos na cultura ocidental, ser cool é ser esculhambado. Não tenho dúvida de que, se vivo fosse, o polonês dançaria na boquinha de uma garrafa de Wyborowa, feliz entre Sheilas, enlouquecido de amor por Tati Quebra-Barraco.

“À data de minha estréia, exigia-se do homem que fosse, antes de tudo, autêntico. Provido das verdades e dos ideais com os quais se devia totalmente identificar e até sacrificar a vida… Ora, lembro-me de que, ainda garoto, eu sabia – era um saber espontâneo – que não se podia ser ‘autêntico’ nem ‘definido’. Esta convicção íntima encontra-se em Ferdydurke. Como é o herói do romance? Interiormente, apenas fermento, caos, imaturidade. Para se manifestar exteriormente, e sobretudo face aos outros homens, é que ele tem necessidade da forma [entendo por ‘forma’ todas as maneiras de nos manifestarmos, sejam a palavra, as idéias, os gestos, as decisões, atos etc.]. Mas esta forma limita-o, viola-o, deforma-o. Exprimindo-se através de um aparato já estabelecido de atitudes e maneiras de ser, ele é sempre falso, sente-se um impostor. A forma é o traje que vestimos para tapar a nossa envergonhada nudez!… e sobretudo, para diante dos outros parecermos mais ‘maduros’ do que somos. A nossa forma realiza-se, assim e sobretudo, no inter-humano… chega-se deste modo a uma certa relativização do homem. Com uma pessoa sou nobre, com outra covarde, com uma sábio, com outra estúpido, de modo que se pode dizer que sou em cada instante ‘criado’ por outros.”

“Para os estruturalistas, é coisa completamente diversa: eles buscam as suas estruturas na culturas; eu, na realidade imediata. A minha maneira de ver estava em relação direta com os acontecimentos de então: nazismo, stalinismo, fascismo… Sentia-me fascinado pelas formas grotescas e terríveis que surgiam na esfera do inter-humano, destruindo tudo quanto até então era venerável. Era como se a humanidade transpusesse um certo estágio de desenvolvimento e entrasse noutro: o de uma elaboração consciente de sua forma. O homem podia doravante ‘fazer-se’, fabricavam-se à discrição as verdades, os ideais, os fanatismos e até os sentimentos mais íntimos. O homem surgiu-me como uma abelha, segregando incessantemente não o mel, mas a forma. Modelava-se na vida.”

Qualquer semelhança com perfis do Orkut, o botox dos nossos candidatos ao Executivo ou ao Legislativo, a proliferação em massa de “artistas”, a adultescência das relações amorosas ou o biotipo de Michael Jackson não é mera coincidência. Ferdydurke é o estranho caso de um livro que datou sem ficar anacrônico. Em tempo: a Cia. das Letras breve manda às livrarias Cosmos e Pornografia, livros escritos durante os 24 anos que o polaco viveu na Argentina, na tanga e isolado da pernóstica cena literária portenha [imagina se Borges aturava um sujeito que resolve simplesmente reescrever trechos da Divina Comédia porque considera chato o estilo do autor, como ocorre em Morte a Dante]. Ah, sim: o termo Ferdydurke não quer dizer nada, e jamais aparece no texto. Dizem que era o que o bundófilo Gombrowicz ficava sussurrando enquanto rebolava por botecos da Boca de Buenos Aires à procura de marinheiros fortões, revirando os olhinhos de tanta vodca na cabeça.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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