A ressurreição d’O Natimorto


“Tem um negócio aí que eu escrevi, mas tá ruim… Melhor deixar na gaveta. São só 10 páginas mesmo”, esquivou-se Lourenço ao telefone. “Mandae, pô”, insisti. Com Joca Terron, Marcelino Freire e Nelson de Oliveira, estava envolvido na criação da Risco:Ruído, coleção de livros provocadores velhos & novíssimos, vivos & mortos, que a DBA lançou há uns 4 anos.

Apenas 2 semanas depois, Lourenço Mutarelli enviou o arquivo de O Natimorto. É óbvio que, como da outra vez, quando achou que O cheiro do ralo era só uma diversão de um cartunista meio de saco cheio de desenhar, ele estava errado. O Natimorto era ainda melhor que O cheiro – porque mais conciso, mais preciso, mais orgânico, mais denso, com diálogos mais afiados e mais ampla possibilidade de leituras em sua estrutura, que aproximava os balões das HQs a frases minimais quase poemas. Publicamos, lógico.

Anos depois, Mário Bortolotto decidiu levar a obra ao teatro, em peça que estreou ano passado e reestréia amanhã, 3a, 6 de maio, no Parlapatões, às 21h30, ficando até dia 28. Marião leu Mutarelli com inteligência, trazendo o Beckett de periferia mutarelliano perto do estilo punk do dramaturgo. O grande mérito da montagem, a meu ver, foi limar passagens que ao vivo soariam desnecessárias e enxugar o texto ao osso. De todas as montagens que vi do Marião, certamente é das mais clássicas: do seco cenário à trilha hardcore passando pelo figurino monocromático, nada parece fora de lugar.

A performance dos atores também é exata. Nilton Bicudo, o verborrágico Agente, está assustadoramente parecido com o Lourenço, e tem uma dicção impressionante – encara uns bifes enormes sem nos deixar perder o sentido das histórias dentro da história. Martha Nowill, a Esposa, faz uma megera assustadora e hilariante, a mulher castradora, possessiva, perversa, infiel e no limite da assassina [Na estréia da peça rolou uma coisa bizarra: na cena em que investe contra Niltinho com uma faca de cozinha, Martha chegou a tocá-lo de verdade, acima da sobrancelha. Niltinho depois me disse que a culpa foi dele, porque estava um passo à frente da marcação – mas que tudo bem: sangrar em cena dá sorte, segundo reza a lenda atrás dos filós].

Maria Manoella, no papel da Voz, traz uma densidade insuspeitada no texto original. No livro, a Voz é pouco mais que uma mulher diáfana, ideal, a fuga perfeita para a vida medíocre do Agente. Em cena, Manu é tudo isso, mas também uma arrivista, uma doce irmã, uma aproveitadora, uma sedutora, uma mãe amorosa – e talvez não mais do que um fantasma. Assim, sua personagem vertigina uma mera comédia de humor negro na direção do drama moderno de um homem perdido nos labirintos do Feminino.

Semana que vem, o texto de Mutarelli entra em nova dimensão: o cinema. Porém, se na mão de Bortolotto o livro se transformou em comédia noir, para Paulo Machline, o diretor [em seu primeiro longa], O Natimorto será um drama psicológico, um romance de humor negro – afinal, se trata a princípio da história de amor entre um Agente que não age e uma Voz que não canta. No filme prestes a ser rodado, a Voz será vivida por Simone Spoladore, e Beth Goiffman encara a Esposa. Já o Agente é uma total surpresa – e, creio, absolutamente inédito: será o próprio Lourenço Mutarelli. Não me lembro de nenhum outro filme que tenha sido estrelado pelo autor do romance que originou a produção.

O escritor, que n’ O cheiro foi o esquisito assistente de Selton Mello e revelou dispor de mais um talento – a famosa camera appeal, a qualidade de fazer com que o espectador só queira olhar pra ele [algo parecido com o que acontece com o Paulo Miklos n’O Invasor], pela primeira vez será protagonista – e de uma obra em que o protagonista ocupa 90% das cenas. Como é que ele vai se sair? Por enquanto, só jogando tarô – ou lendo os versos dos maços de cigarros – para saber. Nada mal para um texto que estava no fundo da gaveta, hein?

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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