Meia Couto

Resonha pro Estadon de domingo agora. Mal ae, Mia, mas a gente sabe que você faz muito melhor…


Sub-Rosa dá em prosa rosa-chá

Nas fábulas de O fio das missangas, o moçambicano Mia Couto, fã confesso de Guimarães Rosa, dilui sua linguagem inventiva e quase sempre apresenta mais do mesmo

O novo Rosa. Modo grosso, foi o que o povo todo acordou, tão logo o moço moçambicano pôs a lume o luminoso Terra sonâmbula, romance de 1993. Um João Guimarães Rosa de sintaxe mais lisa, de verbosidade mais limpa, de palavras africanas menos crespas; médico como o mineiro, se o nosso viveu em mar de rosa, diplomata, do outro lado do Atlântico António Emílio Leite Couto fazia lente de pedra, da guerra que minou e dividiu o país (porém como jornalista e agora biólogo); em Moçambique, metade do povo sequer sonha lê-lo, por falta de tato com a leitura.

E assim podíamos prosseguir rosetando entre trocadilhos e analogias, entre Cordisburgo e Beira [cidade-natal de Mia Couto], se isso não fosse, por suposto, uma pobre resenha. Mia deve se irritar com a comparação (ou talvez não, posto que já colocou o autor de Grande Sertão: Veredas como estrela-guia), mas não há como não recordar a melopéia do brasileiro neste O fio das missangas. Os contos da antologia ecoam o estilo único das rosianas estórias de Tutaméia – seu último e mais audaz livro – naquilo que têm de mais particular: a linguagem. Há porém um oceano de distâncias.

Ler um autor a partir de outro também não é lá um modo elegante de velejar pela crítica, reconheça-se. Porém, o que pareciam, em Terra Sonâmbula ou nos esplêndidos contos de Cada homem é uma raça, originais visitações aos procedimentos rosianos via cosmogonia africana, atualizada em conteúdos políticos porém sempre sob enunciados mais diretos – Couto prefere frases curtas aos complexos latinórios de Rosa – , em O fio das missangas estabelece-se certa acomodação. Lendo-se Couto a partir dele mesmo, pode-se dizer que ele já foi mais ousado.

O aspecto mais sensível nessa queda é a rarefação dos argumentos. Muito menos que em ações, há histórias todas centradas nas palavras, menos ainda que nas coisas que as palavras nomeiam – e, se muito do encanto de Couto era nutrido pela imposição da magia literária via pesquisa de linguagem, aqui a linguagem ameaça quebrar o conto por excesso de requinte, sem no entanto trazer novidade ao seu conteúdo. Talvez pelo exagerado flerte com a fábula.

Tome-se o primeiro conto, “As três irmãs”: um pai autoritário e ciumento, um forasteiro novo e bonito, e o trio de garotas. Quando se pensa que o pai vai afastar com violência de seu galinheiro o estranho (cuidado, vou contar o fim da história), o desenlace se dá como piada: o velho e o jovem se engalfinham num beijo, “terna e eternamente”. É uma historieta que, por perverter a moral clássica, não deixa também de atualizar a idéia de moral – e, por isso mesmo, reafirma uma estrutura lugar-comum.

A maioria dos contos desenrola-se em algum lugar longe, no tempo e no espaço, o que, se por um lado traz uma aura encantatória, por outro trai certo enfado. Não há personagens: há tipos com nomes literários, tipo Zedmundo Constante, Seis, Sidónio Vidas, Evaristo Quase, Maria Metade. Se a linguagem antepõe-se à narração e instaura um tempo mítico, as analogias e comparações invariavelmente transitam pela natureza (“Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem”; “a manhã é essa, é um caracol”). Se há excelentes neologismos, como “esferográvida”, “homosensuais”, “insdrúxulo” e períodos brilhantes do tipo “Venâncio estava na violência como quem não sai do seu idioma”, Couto cavouca a metáfora e a dilui piorando tudo com um melodramático “O cão se habitua a comer sobras. Como eu me habituei a restos de vida”.

Entre o sentimento do fantástico (uma certa hesitação entre o real e a possibilidade de um obscuro além, presente em Kafka, Cortázar e no melhor Rosa) e o sentimento do maravilhoso (pense em García Marquez), Couto quase sempre se aproxima do segundo tom. Evidente que é complicado contar histórias como a de Zuzézinho, o homem que caía, sem sustentar-se em uma linguagem inventiva. Certamente, porém, uma história dessas poderia vingar sem truques do tipo “tudo isso de um sonho se tratou”, o mais manjado dos coelhos literários.

O resenhista é um mala? Por certo, e este é nosso infame trabalho. Pois se, de um lado é delicioso topar com sacadas como “os pássaros mais sua avegação”, “esse rio é o tempo (…) e as lembranças são peixes nadando ao invés da corrente”, por outro a continuar com “minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem. Vos guio por essa nuvem, minha lembrança” acaba-se por deitar o novo em banho-maria.

E por falar nisso, são femininas muitas das narradoras. Mulheres sofridas, amam sem ser amadas, escondem o amor ou amam manter sua dignidade no malamor, aparentadas à narradora de “O caso do vestido”, de Drummond: “Na minha vila, a única vila do mundo, as mulheres sonhavam com vestidos novos para saírem. Para serem abraçadas pela felicidade” (“A saia almarrotada”). O que também contribui por afastar essas narrativas em um mundo agrário, machista, rude: “Elas desencobriam as pernas para maravilhações. Eu tinha joelhos era para descansar as mãos” – uma declaração bizarra de ser compreendida pela geração Sex and the city.

Talvez o resenhista tenha respirado excessivamente a fumaça da metrópole e não consiga mais enxergar a beleza na terra a girar em volta do sol, simples. Verdade é que a leitura do livro só empolga quando as histórias deixam o campo da fábula e adentrem a concretude de um conto como “O mendigo Sexta-Feira jogando o Mundial”, em que um doido de rua conta ao médico o sonho em jogar uma Copa – aí, quando o mito agrário e o conto urbano se chocam, certamente há um estranhamento, um cheiro de chuva a espantar a lassidão lingüística. Ou quando surge um tal Luizinho Kapa-Kapa, num bar Matakuane (“Os machos lacrimosos”), ou quando certa viúva Estrelua pede, no funeral de seu marido, uma TV (“Enterro televisivo”), ou quando a Vovó Ndzima demonstra a estranheza de hospedar-se num hotel (“A avó, a cidade e o semáforo”).

No capotamento da modernidade sobre o mito e vice-versa, nisso sim não há prosa subrosa nem rosa-chá diluindo a escrita: aí sim ouvimos de novo o velho e bom Mia Couto, inventado, por inventor.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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