Cadão grandão

Marsha Cottrell. Under the Illuminating Hydrogen 2012  (detail), iron oxide on mulberry paper, 62 x 105” (157 x 266.5 cm).

Marsha Cottrell. Under the Illuminating Hydrogen 2012 (detail), iron oxide on mulberry paper, 62 x 105” (157 x 266.5 cm).

Um dos artistas mais versáteis surgidos nos anos 80, o músico, jornalista, ilustrador e contista Cadão Volpato lança hoje, quarta-feira 15-5, seu primeiro romance. Perfil para o Valor Econômico

Rivoli é um arquiteto paulistano, mas mais parece um sueco que tivesse saído de um filme de Jacques Tati: altão, louro e de olhos azuis, tem uma aura permanente de bebê espantado. Seu escudeiro, Tortoni, é o oposto: baixinho, troncudo, o taxista portenho é solícito e esperto. Ambos se irmanam nesse ar distraído, de clochard, de quem está fora do lugar. E estão: perdidos no meio da Argentina, procuram um incerto “hotel do fim do mundo” na Patagônia. Mesmo antípodas, criam uma amizade que lhes será cara, mais tarde, quando as ditaduras de ambos os países começarem a pegar pesado. Estamos nos anos 70, no romance Pessoas Que Passam Pelos Sonhos, que mostra outra faceta da caleidoscópica obra de Cadão Volpato.

A trajetória do artista começa na cena independente do rock dos anos 80, liderando a banda mais cultuada do período, Fellini, que gravou seis álbuns pouco vendidos, mas inspirou dúzias de músicos — entre eles, Chico Science. Anos depois, aquele roqueiro meio nonsense notabilizou-se como apresentador de TV (Metrópolis) e colaborador de vários veículos (como este Valor). Talvez música e jornalismo tenham ocultado seu coté contista, que rendeu quatro livros, todos habitados por um embate entre leveza e peso: Dezembro de um verão maravilhoso, Ronda noturna, Questionário, Relógio sem sol. Os caminhos paralelos no realismo na reportagem e no surrealismo da arte cruzam-se neste primeiro livrão de Cadão, uma narrativa de 300 páginas.

Escrevi o livro em um mês“, conta Cadão, fatiando um filé à parmegiana no Ugue’s, lendário boteco de Santa Cecília, bairro onde tem um escritório em uma sala dividida em co-working com outros artistas. “É uma história de homens distraídos. Aliás, esta é uma característica bem masculina: já reparou como as mulheres sempre reclamam que nós homens somos distraídos?“, ri. Convidado pela editora Babel para publicar um livro, Cadão deu-se o deadline de quatro páginas por dia, até que, aos poucos, aquele artista feito nas formas breves do conto, da canção e do desenho viu sua narrativa capturada por um fôlego maior. E estruturou um romance em imagens e cenas, sutis como os desenhos de Sempé ou Saul Steinberg. Influências sentidas, aliás, nas ilustrações de seu infanto-juvenil Meu Filho Meu Besouro e nas imagens que em breve reunirá em uma exposição em São Paulo (algumas podem ser vistas em seu site).

Livro entregue, a editora Babel cumpriu o destino prefigurado em seu ambicioso nome e esfacelou-se. Felizmente o autor salvou o rebento da tragédia e o reencaminhou às mãos da Cosac Naify, que envelopou a história no belo projeto gráfico de Flávia Castanheira, usando as “constelações imaginadas” da artista Marsha Cottrell. Trata-se de “uma epopeia fantasmagórica” conforme o crítico de arte Rodrigo Naves etiqueta o livro na orelha: à força de descorporificar seus personagens, a narrativa os volatiliza no limite do traço, aparições, como “pessoas que passam pelos sonhos“.

Narrando na terceira pessoa, a câmera de Cadão acompanha os personagens com a estranheza de um Google Street View, perto e longe, a uma altura flutuante, mantendo seus rostos visíveis o suficiente para que com eles nos familiarizemos, mas borrados, para que não possam ser reconhecidos de bate-pronto. “A natureza dos fantasmas é muito fluida“, insinua o narrador. Apesar de inexistir tensão ou conflito evidentes, aos poucos nota-se que o embate na trama se dá entre leveza e peso. “Por delicadeza perdi minha vida“, diria Rimbaud, definindo estes personagens ligeiros demais para enfrentar o Leviatã: as ditaduras que estremeceram Argentina e Brasil nos anos 70. A violência é mais espessa por não ser vista. Para uma criança, militantes que apanham em um corredor polonês podem parecer como recém-casados que protegem a cabeça ao receber o arroz na saída da igreja. Assim, uma ternura mediterrânea, meio doida, meio tola, atravessa essas vidas sem pendão para o épico: de Lao, o estudante de arquitetura escalpelado pelos milicos; Gábi, a botticelliana adolescente que enlouquece uma cidadezinha paulista; Asia, a enigmática mulher do arquiteto peruano; Francesco, o carente craque canhoto; e…

Há um segredo no livro“, sugere Cadão. “Está escondido, não chamo a atenção pra ele. Vou te dizer, mas você não pode escrever sobre, hein?“, pede. O segredo de que fala é o que torna a narrativa tão angustiante — uma realidade assustadora que pode deixar sem chão o leitor, ao desvendá-la. Seu tom aproxima a escrita do terreno de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, e Conversa na Sicília, de Elio Vittorini. E também distancia o livro de duas tendências arraigadas na literatura contemporânea: o realismo e a autoficção.

Talvez por ser jornalista, Cadão guarda alguma repulsa pela “vontade de exaurir a fisicalidade” de descrições e psicologia, como supõe o realismo, e a “mania de falar de si mesmo” presente na autoficção. “Gosto de deixar um espaço para a imaginação do leitor“, explica, já pedindo o segundo café. A despeito de sua viagem pelas ditaduras latino-americanas ter muito de verdade, não há no livro pontes imediatas com “fatos reais” nem com a experiência do autor. Sim, Cadão foi militante da Libelu, movimento estudantil trotskista. Mas é outra vertente de sua vida que atravessa as páginas de Pessoas Que Passam Pelos Sonhos: o surrealismo. O mesmo que o fez encarnar, em um seminário concorridíssimo na USP dos anos 1980, o cineasta suíço Jean-Luc Godard — que, estranhamente, só falava em português.

Ou quem sabe fosse mesmo Godard, de passagem por algum sonho de Cadão. Mas esta já é outra história.

Amor = Humor


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Estão juntos há 3 anos, se conhecem desde os 11 e não param de trabalhar juntos (e muito). O casal Clarice Falcão e Gregorio Duvivier são a coisa mais engraçada e graciosa do novo humor brasileiro. Perfil duplo para a revista Bravo! do mês de abril

Enquanto pesquisava vídeos e performances de Gregorio Duvivier na internet, o repórter recebeu uma chamada no celular. Coincidência: era Gregorio Duvivier. No entanto, após algumas tentativas de comunicação, o repórter notou que não era Gregorio Duvivier quem o havia chamado — e sim, o bolso dele. Sem querer o ator tinha resvalado em “ligações recentes” e o smartphone, smart demais, chamava o repórter (que pouco antes havia combinado uma entrevista para o dia seguinte). Mas, apesar de não se dirigir ao repórter, a voz de Gregorio Duvivier soava. Plena meia-noite de domingo, Gregorio Duvivier ensaiava para a peça que estrearia dali a uma semana, o musical Como Vencer na Vida Sem Fazer Força.

Teatro, internet, TV fechada, TV aberta, literatura — e até no celular alheio: Gregorio Duvivier está em todos os lugares. Claro que sua musa estaria à altura de tanta atividade: é Clarice Falcão, atriz, cantora, roteirista, parceira de vários esquetes no Porta dos Fundos, a produtora de vídeos de humor que já soma 72 milhões de visualizações em seu canal no YouTube. O casal ultrajovem (26 ele, 23 ela) é responsável por alguns dos esquetes mais nonsense do canal: “O homem que não sabia mentir“, em que Gregorio não consegue forjar desculpas esfarrapadas a Clarice e é traído por uma voz bizarra denunciando o que fazia de verdade; “Barata no banheiro“, em que Clarice pede para Gregorio matar uma barata no banheiro mas a tarefa se revela impossível; “Versão brasileira“, em que Gregorio assusta Clarice ao acordar com a voz dublada como em um seriado americano; “Setor de RH“, em que os Supergêmeos do desenho animado são despedidos da liga de super-heróis; e “Essa é pra você“, em que Clarice, cantando uma canção folk, revela para Gregorio que o engana com o porteiro.

Os esquetes da dupla consagram a química aprovada na minissérie O Fantástico Mundo de Gregorio, um falso reality show estrelado por ambos, e na peça Inbox, escrita pelos dois, sobre John e Clara, um casal que se apaixona via internet. “A gente queria entender como é esse lugar que ocupa na vida das pessoas o virtual, esse lugar que é verdade mas não é“, diz Gregorio, em conversa com Bravo! em um café do Leblon. “E existe um suspense porque um personagem pode ser uma mentira, e a personagem também, porque o virtual é cheio de máscaras, um mundo de fantasia e ficção“, emenda Clarice (sim, eles são o tipo de casal em que um começa uma frase e o outro termina). O processo de criação da peça, que ficou em cartaz em 2011, foi curioso: escreviam juntos a escaleta — enredo básico, descrevendo cenas — e depois cada um escrevia os diálogos separadamente; às vezes, Clarice escrevia as falas de John, e Gregorio, as de Clara.

Mundo comédia

Tanto o falso reality quanto os esquetes do Porta dos Fundos expõem a paixão do casal pelo humor feito através do documental, presente no sitcom Curb Your Enthusiasm de Larry David, no seriado The Office ou na literatura de Miranda July e no trabalho de Mike Berbiglia. “As comédias de antigamente tinham aqueles diálogos tão espertos que pareciam inventados, um tom farsesco. Mas a gente gosta desse tipo de situação em que os atores gaguejam, em tom realista“, diz Clarice. “No Brasil tem um problema: o ‘tom de comédia’, ‘música de comédia’, ‘direção de arte de comédia’, como se fosse só se pudesse rir em um outro universo, onde as pessoas reagem de uma maneira diferente“, diz Gregorio.

Estereótipos, música sublinhando a piada, sabe? Fo fo fo fonnnnn“, explica Clarice. “Nossa briga é juntar uma coisa de verdade, algo de improviso, com um texto forte por trás. Mas na TV você não pode contar com a cumplicidade da plateia como acontece em um show de improviso como no Zenas Emprovisadas“, diz Clarice, se referindo ao show de humor de que Gregorio participa há 10 anos, ao lado de nomes como Marcelo Adnet, Fernando Caruso e Rafael Queiroga.

Além de brigar contra estereótipos, os dois detestam tanto a correção política quanto a falsa incorreção política — aquela que, para demonstrar independência, se permite fazer piadas reforçando velhos clichês, algo muito presente no stand up. “Fazer stand up nunca foi minha praia“, conta Gregorio. “É chato porque nos EUA é feita pra boteco, e no Brasil ocupou espaço de teatro — e não vejo sentido dar um palco enorme pra um ator; como um cara que adora teatro, acho meio exagerado“, diz, criticando o excesso de stand ups que invadiu o teatro brasileiro. “Aqui no Rio parecia igreja evangélica: ‘Caralho, perdemos mais um teatro pro stand up!’“, ri — relevando que a importância do stand up foi revelar novos autores.

Falso politicamente correto

Mas tem críticas ao formato. “Me irrita ver as pessoas falando o mesmo texto: ‘Ah, sabe uma coisa que eu não entendo? Estava vindo pra cá e…’ É tipo mesa-redonda de futebol: você quer que o sujeito lá em cima fale o que você acha. Vejo o público ir ao stand up para verem seus estereótipos serem confirmados pelo cara ali em cima. Vira comício, palanque; não é humor. E os comediantes acabam escravos da plateia que querem agradar e dão coisas fáceis, tipo ‘a Preta Gil é gorda’, ‘gaúcho é viado’…“, analisa Gregorio. Clarice atalha: “E as piadas politicamente incorretas que pretendem demonstrar independência em relação ao politicamente correto usam coisas tipo ‘preto é igual macaco’, que, poxa, são totalmente reacionárias, fazem há mil anos“, afirma.

Porém, o politicamente incorretíssimo é a praia do Porta dos Fundos. Em “Confessionário“, um padre confessava a um colega que abusava de um menor que já era abusado pelo primeiro, só para lhe provocar ciúme; em “KKKKKK“, um desastrado membro da Ku Klux Klan convidava negros para participar de uma manifestação. “Acho importante que o riso recaia sobre o mais forte. Nesse esquete o riso está sobre os padres pedófilos. No ‘KKKKKK’, ridículos não são os negros, e sim os racistas“, diz Clarice. “A gente tenta fazer piadas que ainda não fizeram“, afirma Gregorio. “Se tiver um esquete com um português, ele não vai ser burro. No Mundo do Gregório, havia uma situação em que um anão ganhava de mim em um teste. Queremos o humor de inversão“, conclui.

Para um casal de criadores tão autoconscientes do que fazem, parece estranho ouvi-los criticar um procedimento por excelência do humor sofisticado: a ironia. “A gente está no processo de se livrar da ironia, do blasé“, diz Clarice. Gregorio rebate: “O YouTube gerou essa indústria de pessoas rindo dos outros: é a indústria do schadenfreude, da videocassetada, de zoar a pessoa se fodendo“, diz. Clarice defende: “Pega supermal aparentar ser ingênuo, e criou-se essa bancada do Twitter, do Facebook, de comentadores de sites, de gente que não produz nada e só ridiculariza. Esses ‘haters’ são juízes. Fico agoniada com a internet porque às vezes você percebe uma energia ruim em coisas que lê“, confessa Clarice, que sempre tromba com os “haters” por conta da megaexposição de seu canal no YouTube: ali, o curta “Laços“, escrito por sua mãe, a dramaturga Adriana Falcão, foi um dos mais vistos em todos os tempos — e a canção “Monomania“, dedicada à sua obsessão por Gregorio, já alcançou mais de dois milhões de visualizações.

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Por falar em laços, o casal, além de super enturmado em uma enorme trupe de talentos que inclui o cineasta-prodígio Matheus Souza, e os outros membros do Porta dos Fundos, como Fábio Porchat e Antônio Tabet, está cercada de artistas na própria família. Clarice é filha dos roteiristas Adriana e João Falcão; Gregorio, do músico e escultor Edgar Duvivier e da compositora Olívia Byington, e enteado do diretor e produtor Daniel Filho. Ajudam ou atrapalham?

Na verdade, a gente adora trabalhar em família“, diz Clarice. “Mas, por meus pais seram tão criativos na escrita, fui por caminhos diferentes, tentei a música, por exemplo.” Gregório concorda: “Meu pai toca 15 instrumentos, esculpe e pinta, minha mãe tem o ouvido absoluto… é uma concorrência desleal. Mas é uma coisa meio circense… a gente vem de estruturas que também são familiares profissionalmente, então é natural todo mundo trabalhar junto“, diz.

TV pra quê?

Cinema está nos planos da dupla dinâmica. Querem tanto escrever uma comédia romântica quanto fazer um longa-metragem para o Porta dos Fundos — que também tem sido assediado pela Globo. Gregorio hesita a respeito de entregar o capital somado pelo coletivo de humor na internet à televisão ou ao cinema. “Na TV aberta a gente não vai poder fazer uma série de coisas: tem que domar palavrões, não pode brincar com marcas, por exemplo“, diz. “E no cinema corre-se o risco de fazer uma longa piada sem graça ou juntar vários esquetes desconexos, que não dá certo, como se viu nos filmes do Casseta & Planeta. Estamos pensando nessas opções com calma“, afirma Gregorio, que tem equilibrado aplausos pela atuação surpreendente no musical Como Vencer na Vida, e encarado críticas à comédia Vai que Dá Certo, de Maurício Farias (que, apesar das resenhas negativas, faturou a décima maior abertura do cinema brasileiro pós-retomada).

Misturar amor e trabalho não desanda na receita da dupla, é o que dizem. Embora na fase do namoro — Clarice mora com os pais e Gregorio vive sozinho na Gávea — , os dois dizem que o relacionamento só bambeia quando ficam longe demais um do outro. “Quando a gente briga, e não briga muito, em geral é porque a gente não está trabalhando junto“, diz Clarice. É uma história que vem de longe: Gregorio conheceu Clarice pois ela era fazia jazz com a irmã — ela estava com 11 anos, ele com 14. Depois Gregorio trabalhou com o sogrão João Falcão, aos 17, e a amizade seguiu via MSN. Encontraram-se de novo na PUC, quando ela começava a estudar cinema e ele terminava letras (sua TCC rendeu o livro de poemas A Partir de Amanhã Eu Juro Que a Vida Vai Ser Agora, elogiado por Millôr Fernandes e Paulo Henriques Britto). O namoro só engatou depois de uma sessão do Confissões de Adolescente, que Clarice fazia com Matheus Souza: os dois ficaram e nunca mais desgrudaram.

O primeiro filme protagonizado por Gregorio, o elogiado Apenas o Fim, dirigido por Matheus, era para ter sido estrelado por Clarice — mas ela se recusou a refilmar uma cena e acabou cortada. Mas, no segundo longa de Matheus, Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo da Minha Vida, a ganhar as telas em maio, é Clarice a estrela, personificando uma garota que enquanto não decide se vai cursar medicina fica matando aula e conhece um rapaz interessante (não, não é o Gregorio; neste filme ele faz só uma ponta). O longa de Clarice, aliás, deve estrear na mesma época em que a talentosa garota sai em turnê de lançamento do primeiro álbum, reunindo as canções viralizadas pelo YouTube e mais uma meia dúzia de inéditas, sempre em seu estilo voz-e-violão temperado com muita fofura freak agridoce. “Fofura freak agridoce“: eis uma boa definição para este adorável casal.

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Ladeira Tim Maia


O pai leva a filha nos ombros
A mãe puxa o piá pela orelha
Bicicletas descem apeadas
Motocicletas sobem no gás
A vó apanha do guardachuva
O bebum tropica zuzo bem
A gata zoa em ziguezague
Diaristas carregam compras
Operários perdem havaianas
O lóqui solta o caô pra gata
Daqui se vai pro metrô?
Entre árvore e construção
Vedada para automóveis
Aberta para os grafites
Quem será que vai descer
Quem será que vai subir
Levando a minha memória
Levando o meu desencanto
Levando Sísifo nas costas
A Ladeira Tim Maia não pára
Mais e mais lépida e faceira
Ensina a lição que importa
Tudo é tudo e nada é nada

Zed, o antropófago

Zed Nesti em seu ateliê na Santa Cecília

Zed Nesti em seu ateliê na Santa Cecília

Zed Nesti, pós-realista? Release para a expo do amigo Zed, em cartaz toda sexta e sábado das 17h à 0h, até 29 de junho no Club Noir, na rua Augusta 331

“Arte não é coisa que se pendure na sala de jantar.” Desde sempre essa é a minha definição de arte — ao ver uma obra em que sinta alta densidade de caô, de begismo ou de fru-fru, surge certeira a dúvida: “Colocaria esta obra na minha sala de jantar?”. À resposta positiva, já saberia: não, não é arte — é bonito, é bacana, mas não é arte.

(Fru-fru eu definiria como excesso de decorativismo; begismo é o movimento cultural parido pela cor bege, fornecendo produtos artísticos assemelhados às roupas íntimas das nossas avós e tias; e caô é tudo aquilo que tem cheiro de arte, parece arte, fala como arte… mas não é arte — caô é como carisma: você não sabe definir o que é, mas sabe o que é quando vê.)

Ok, sei que minha concepção de arte é bastante simplista — afinal, despida de todos aqueles torneios sintáticos e ornamentos teóricos que lemos nas resenhas das obras dos principais artistas do jet-set. “Meu amor me ensinou a ser simples. Como um largo de igreja. Onde não há nem um sino. Nem um lápis. Nem uma sensualidade”, diria Oswald de Andrade. Olhar direto as coisas, que nos parecem bastante complicadas só de ver, parece ser uma das lições trazidas pela arte de Zed Nesti. Que, vejam só, quando perguntado por mim qual seria sua concepção de arte, me disse, na lata: “Arte não é coisa que se pendure na sala de jantar”. Já tinha gostado da sua arte; ao escutar isso, passei a respeitar o artista (que, além de pintor, ilustra para revistas e jornais e, fora embalar o jovem Joaquim, ainda arranja tempo para tocar guitarra e praticar esgrima).

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Talvez porque à grande arte não se permita a digestão fácil. Não se almoça enquanto se observa um massacre, não se janta enquanto se presencia um redenção, não se mergulha um croissant no café enquanto se apaixona. A grande arte prende o estômago, prende a respiração, prende o olhar. A grande arte de Zed Nesti prende os sonhos. Os seus sonhos, os sonhos da sociedade consumista, os nossos sonhos consumidos. As obras desta exposição, Pinturas 2011—2013, foram concebidas e concluídas em um período difícil para Zed. Tempo de perdas pessoais, de mortes, mas também de nascimentos: despediram-se seus pais, lhe deu as boas-vindas seu filho Joaquim. Um período em que a realidade bambeou sob os pés do artista (como em Homem Levitando I e II e Mulher Levitando com Mesa). “Realidade”, disse Philip K. Dick, “é aquilo que sobra quando você para de acreditar nela”. Entre 2011 e 2013 Zed foi assombrado pela natureza por vezes incrível e inversossímil da realidade. O artista respondeu à perturbação trazida pela realidade apropriando-se dela, e lhe devolvendo em forma dos quadros desta exposição.

Apropriação é um conceito cental em sua obra. Obcecado pelos painéis publicitários que ainda havia espalhados por São Paulo antes da Lei Cidade Limpa (que varreu a publicidade do mapa paulistano expondo sua feiúra), Zed apropriou-se de imagens das propagandas da Calvin Klein para transpô-las em grandes quadros a óleo, concebendo a obra CK (2005-2007) — uma das peças chegou a levar um ano e meio para ser pintada. Em Celebs, exposição que levou sua arte ao Japão em 2009, Zed apropriou-se de imagens conhecidas de artistas famosos (feitas por grandes fotógrafos) como Heath Ledger, Angelina Jolie, Iggy Pop, Scarlet Johanson, em uma série de quadros a óleo de 22,8 por 30,5 cm. Em The Book of Faces of Facebook, Zed apropriou-se de dezenas de rostos do catálogo de amigos de seu perfil no Facebook e os desenhou a carvão em cadernos de papel reciclado no tamanho 14 x 22 cm.

Embora seja direto seu olhar para a realidade — da publicidade, da fotografia ou da rede social — , a arte de Zed não faz uma cópia direta da realidade. Ao buscar uma transposição exata das cores dos originais para a cópia em óleo sobre tela ou carvão sobre papel, o artista impõe-se um procedimento irônico, crítico, e ao mesmo tempo com a ambição de verossimilhança — talvez, uma certa nostalgia — na observação da realidade. Afinal, sua técnica consiste basicamente roubar uma imagem, trabalhá-la através do Photoshop, e em seguida projetar a imagem roubada sobre uma superfície lisa, para daí mapear-lhe as cores, dividindo-a em centenas de pequenos quadrados, até encontrar o tom certo de tinta para cada um deles. Usar uma técnica tão antiga quanto a pintura a óleo para reproduzir com exatidão uma imagem feita para vender jeans, e nisso demorar-se anos, como na série CK, é uma tremenda ironia em relação ao capitalismo e à sociedade de consumo: aquilo que poderia ser objeto de consumo rápido passa a ser objeto de longa maturação.

O mesmo procedimento irônico se dá em relação aos retratos. Síntese de identidade, sequestro da alma, o retrato do rosto resume a personalidade. Em um primeiro estágio, o rosto de cada celebridade é fotografado com excelência. Em um segundo estágio, é multiplicado milhões de vezes em todos os meios possíveis, impressos ou eletrônicos. E, então, através da curiosa operação de deslocamento de valores estéticos administrada por Zed em suas pinturas e desenhos, o retrato, ao passar da imagem multiplicada bilhões de vezes para uma solitária peça de arte, volta a ter um valor único. Tanto em Celebs quanto em Facebook, temos ainda um terceiro elemento, vital para o funcionamento da sociedade pós-capitalista: a acumulação. O desfilar inumerável de celebridades e rostos comuns brinca tanto com nosso desejo (em relação a essas imagens) quanto com o desejo delas em relação a nós (das celebridades e dos amigos do Facebook; do mercado da cultura e do mercado da amizade).

Keith, roubado de Annie Leibovitz, roubado de Rembrandt, roubado de Caravaggio

Keith, roubado de Annie Leibovitz, roubado de Rembrandt, roubado de Caravaggio

Para dar o exemplo de como funciona o processo de apropriação através de uma das peças de sua nova mostra, tome-se Keith Richards. O quadro baseia-se numa propaganda da Louis Vuitton cuja fotografia do lendário guitarrista é assinada por Annie Leibovitz. A união Keith+Vuitton+Leibovitz por si só é uma joint venture de ícones da cultura, da arte, do pop, da moda — e do capitalismo. Rolling Stones é a banda de rock que mais faturou na história; Louis Vuitton é a marca de acessórios de viagem mais cara e desejada; Annie Leibovitz, a principal fotógrafa das capas das revistas Rolling Stone e Vanity Fair. Leibovitz usou o chiaroscuro de Caravaggio para que Keith vendesse malas. Caravaggio usava assassinos para retratar santos. Zed, que tem Rembrandt (seguidor de Caravaggio) como uma das maiores inspirações, usou a imagem de Leibovitz para ressignificar o santo maldito Keith Richards. Sequestrou a alma do stone do império das malas de volta aos domínios da arte. Através da pintura a óleo, o olhar de assassino de Keith sai da perspectiva do pop — assimilável, multiplicável, consumível — e ganha de novo o real. Corporificado no óleo, Keith Richards volta a ser perturbador, perigoso, instável — como a realidade. O que era multiplicado aos milhares passa a ser novamente único.

Ao lado dessa apropriação crítica, na arte de Zed um novo procedimento surge nesta exposição: a colagem. Nas principais peças de Pinturas 2011—2013, é como se o artista roubasse para sua obra dois dos principais conceitos psicanalísticos de Freud: o deslocamento e a condensação. Em Freud, os sonhos seriam essencialmente a tentativa de realização de um desejo reprimido alojado no inconsciente — um desejo primordialmente sexual, proibido pela moral. O sonho é, segundo a psicanálise, formado pelo deslocamento e pela condensação. O deslocamento é a obra de censura — em que um elemento do sonho, no nível latente (a realidade a olhos abertos), é substituído por seu todo, ou em um cenário modificado, ou por seus fragmentos constituintes.

Já a condensação é o resumo das ideias que têm pontos em comum, uma analogia entre si, fundindo elementos do nível latente com traços comuns, em um só. A condensação estabelece uma relação entre o conteúdo manifesto (a lembrança) e o latente: propõe um jogo entre o nível do conteúdo, onde existem ideais, conceitos, sensações, e o nível do manifesto, onde existem imagens. Nesse processo, pode ocorrer uma transferência de uma ideia para outra totalmente diversa. O desejo inconsciente pode não vir à consciência, por conta de convenções sociais, culturais, morais — e, se o inconsciente busca o prazer, a censura impede a sua realização. Então, esses desejos surgem nos sonhos como relâmpagos, disfarçados através da condensação, que junta no sonho parte das vivências do cotidiano com vivências censuradas.

O mecanismo da condensação omite elementos dos pensamentos inconscientes, e permite que apenas fragmentos do conteúdo oculto apareçam no sonho — ali, vai combinar elementos do conteúdo oculto em um só conteúdo manifesto. Por outro lado, o mecanismo do deslocamento muda a ênfase de um elemento relevante, que pode ter importância no inconsciente, para algum outro elemento, sem importância — com o intuito de disfarçar o desejo oculto. Ambos os mecanismos operam de forma cruzada; daí ser tão complexa a interpretação dos sonhos.

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É complexa a interpretação dos sonhos de Zed, expressos em suas pinturas, e esta tarefa deixo a espectadores e críticos. Só quero chamar atenção, aqui, em como ambos os mecanismos psicanalíticos podem ser aplicados à sua arte: a apropriação, através do deslocamento, e a colagem, através da condensação. Porque nesta exposição também temos apropriações de imagens da propaganda (como modelos e editoriais de moda), retratos de artistas (como o tropicalista Zé Celso), imagens icônicas (amplificadores Marshall, latas de Heineken, edifícios paulistanos) e até mesmo editoriais (como reportagens sobre os desastres de Chernobyl). É possível que o inconsciente de Zed, assim como o nosso, seja assombrado não somente por seus fantasmas pessoais, mas também pela fantasmagoria que nos coloniza a indústria da mídia, da moda, da cultura pop.

Tais fontes comparecem em um estranho trabalho de colagem, uma vez que estão justapostas ora em cenas aparentemente realistas, ora marcadamente anti-realistas, uma vez que não há nelas uma necessidade de uma perspectiva única. Em obras excepcionais como Mesa Branca, Rifaina e Queimada, seres muito grandes coexistem com seres menores; criaturas de épocas diferentes compartilham o mesmo quadro; cenários urbanos e da natureza agregam-se sob o mesmo ponto de vista. Nelas, a meu ver, além dos citados Rembrandt e Caravaggio, podem ser vislumbrados no percurso que Zed percorreu em sua obra os nomes de Goya, Velásquez, Francis Bacon, Lucien Freud, Chaim Soutine e Neo Rauch — todos artistas que pautam sua obra por imagens figurativas em que o corpo humano tem evidente protagonismo. Mas aí também consigo ver reflexos do anti-realismo de Hyeronomus Bosch, tanto por sua renúncia a uma perspectiva única quanto por seu apreço a um simbolismo de hermética interpretação. Se as escuras cores de Zed estivessem em exposição no início do século 20, o teríamos um antropofágico modernista; se Zed estivesse expondo durante os 60, seria o mais sombrio dos tropicalistas. Nos anos 10, trata-se de um melancólico anti-realista — que, por ironia, é obcecado pelas técnicas da pintura realista. Um pós-realista?

Talvez, melhor que rotular ou interpretar a arte do esgrimista Zed Nesti seja deixar-se ser perturbado por ela. “As pessoas da sala de jantar/ são ocupadas em nascer e morrer”, cantavam os Mutantes. Na sombria antropofagia de Zed Nesti, mais que simplesmente nascer, morrer e jantar, importam os sonhos — e os sonhos que dos sonhos nascem.

— Bar do Fuad, São Paulo, março de 2013

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100 dias de Haddad

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Tae kwon do, violão clássico, marxismo moderno e política olho no olho: alguns dos temas articulados por Fernando Haddad, o prefeito mais surpreendente produzido por São Paulo. Perfil de capa da revista Poder de março

Seu Fernando abre a porta com a cara amassada, cabelo revolto, camisa amarrotada, olhos vermelhos. Sorri, jeitão despachado: “Que coisa, gente… capotei numa soneca, desculpem. Entrem, querem uma água, um café?“, oferece. Um cão velho, meio labrador, meio golden retriever, vem sorrindo com o rabo e senta-se aos pés de Seu Fernando, que parece atordoado no sofá da sala de seu apartamento. “Sentem, por favor. Começamos pela foto ou pela conversa?” O fotógrafo sussurra que, como a imagem de Seu Fernando vai parar na capa da revista, talvez fosse interessante trocar de camisa. Dois minutos depois e Seu Fernando volta numa camisa listrada clara, para fora da calça, o jeitão ainda despachado —porém os olhos agora estão alertas e o cabelo, impecável. “Podemos começar?

Seu Fernando é assim chamado pelo porteiro do prédio onde vive, no Paraíso — um desses edifícios dos anos 70 de pé-direito alto e arquitetura tão despretensiosa que passam batidos; sua vista é para outros edifícios de classe média, sem céu, skyline tipicamente paulistano. A reportagem de PODER fica intrigada: cadê a segurança da prefeitura? “Não tem segurança“, afirma Fernando Haddad, 49, mandatário da sexta mais populosa cidade do mundo, que concentra o décimo PIB entre as cidades do planeta e 13% de todo o PIB brasileiro. “A segurança da prefeitura se queixa, mas não quero guarda-costas pra passear com o cachorro e andar de bicicleta com minha filha no Ibirapuera. O prefeito tem que sair na rua, explicar às pessoas o que acontece. A segurança diz que é perigoso: a gente compra briga, demite, corta contrato de empresa poderosa… deve ter gente que não gosta de mim. Mas prefiro assim.

De fato, embora Haddad seja elegante no trato com o prefeito anterior — afinal, o PSD de Gilberto Kassab pertence à base aliada do governo federal —, seus atos em seus primeiros cem dias não deixam dúvida para com a impressionante mudança no estilo de governar. Uma das brigas que comprou é com a empresa Controlar, responsável pela inspeção veicular em São Paulo. Segundo Haddad, por conta dessa taxa a cidade perde cerca de R$ 250 milhões anuais em IPVA — os motoristas preferem emplacar o carro nas cidades vizinhas para fugir da taxa —, e além disso, a Controlar é uma “empresa ficha-suja“. O prefeito também afastou 400 pessoas em pleno Carnaval: todos funcionários ligados à gestão Kassab, a quem o prefeito evita criticar diretamente — mas, para bom entendedor, os recados são claros.

No mesmo dia da entrevista, um sábado, Haddad tinha dado o pontapé inicial em uma gigantesca obra na região sul, na avenida M’Boi Mirim, que combina piscinões e novas avenidas que custarão cerca de R$ 400 milhões. Na inauguração, destacou: “Em menos de 60 dias, conseguimos uma licença ambiental que estava parada há mais de ano”. Só nos primeiros 50 dias de governo o prefeito participou muito mais de reuniões com o secretariado e circulou muito menos do que Kassab, que ia a um evento por dia: foi a 25 eventos públicos, passou o boné em visita à presidenta Dilma Rousseff e fez 82 reuniões.

Ele adora reunião“, diz um funcionário da prefeitura que prefere não se identificar. “Costuma até fazer reunião enquanto almoça no gabinete.” Outro funcionário diz que Haddad é uma mistura de Lula com Dilma. “Tem a capacidade de negociar do primeiro, mas é durão como a presidenta. Só que ele tem um diferencial: cobra direto, não delega. E tem boa memória. Cobra uma tarefa, duas, três vezes, mas se na quarta o cara não fez, ele mesmo manda ver. Não chega a ser ríspido, mas é severo.” Haddad comprou brigas em seu próprio partido ao nomear funcionários de escalões inferiores identificados com Serra e Kassab: seguindo sua gestão à frente do MEC, o prefeito afirma contratar de acordo com o currículo.

O jeitão Haddad é o mesmo envergado à época do MEC, onde esteve à frente por oito anos: irrita-se com atrasos, tem horror a seguranças, nunca se senta à cabeceira de mesas — e volta e meia incorre em termos inusuais, ora de jargão técnico ora acadêmicos, que intimidam os interlocutores. “Ele tem uma mania de falar em ‘clivagem‘, ninguém entende…“, brinca um outro funcionário da prefeitura. Traços de uma formação inusual também na política. Nunca houve um prefeito de São Paulo com formação acadêmica tão extensa quanto a de Haddad, autor de cinco livros de filosofia política.

Conciliando os estudos com o trabalho ao lado do pai, o libanês Khalil Haddad, dono da Mercantil Paulista, loja de tecidos na rua 25 de Março (onde, diz, pegaria o gosto por falar olhando no olho e desenvolveria a intuição para adivinhar bons pagadores e caloteiros), Haddad formou-se em direito no Largo de São Francisco, depois mestrou-se em economia e doutorou-se em filosofia, sempre na USP. No começo dessa trajetória foi presidente do diretório acadêmico, sucedendo um de seus melhores amigos, Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás. “Fernando era estudioso e tinha um ativismo acentuado: militava forte, mas tinha um tino de administrador impressionante.”

Fernando Haddad é a grande incógnita da política brasileira“, afirma o editor e historiador Milton Ohata. “Sua vitória usou o emblema do ‘novo’ e tanto a composição de parte de seu secretariado quanto seus atos de governo sugerem que ele busca confirmar esta marca. Mas, praticando até agora uma hábil política de coalizão, Haddad fez concessões ao ‘velho’“, pondera Ohata, mencionando a célebre imagem do então candidato do PT entre risos e abraços com Lula e Maluf. Chocante à primeira vista — um antigo inimigo do PT oferecia dois minutos na campanha de TV em troca de cargos —, a imagem deve ser vista em perspectiva hoje.

Pragmático, Haddad repete uma velha justificativa — “o PP é um partido da base aliada” —, mas, na prática, deu um golpe de mestre. A secretaria de Habitação, um dos principais focos de suspeitas de corrupção na gestão de Kassab, foi uma exigência de Maluf para fechar o apoio a Haddad, descontentando setores do PT ligados a movimentos pela moradia. Só que, antes de ceder a Maluf, Haddad desidratou a secretaria, transferindo a atribuição pela aprovação de empreendimentos, alvo de muitas suspeitas, para a secretaria de Controle Urbano; além disso, 98% do orçamento da secretaria do PP, cerca de R$ 1 bilhão, foram congelados — manobra astuta que recebeu críticas da oposição tucana.

Da várzea ao Municipal

Fernando Haddad cresceu no Planalto Paulista, zona sul, onde costumava jogar bola em campos de várzea — é são-paulino. Conhecido como “Dandão” quando jovem — tem 1,83m e calça 45 —, fez o ensino médio no Colégio Bandeirantes. No terceiro ano da faculdade de direito iniciou sua atuação na militância estudantil: presidente do centro acadêmico, participou do movimento Diretas Já. Casado com a dentista Ana Estela Haddad desde 1988, é pai de Frederico e Ana Carolina. Professor de ciência política na USP, como consultor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) criou a tabela Fipe, principal regulador dos preços de veículos no mercado nacional — embora deteste dirigir. Começou na política como chefe de gabinete da Secretaria de Finanças, de 2001 a 2003, na gestão Marta Suplicy — onde criou os CEUs —, e em 2003, passou a integrar a equipe do Ministério do Planejamento, como assessor especial, onde inventou as PPPs, parcerias público-privadas. Na época em que foi ministro da Educação de Lula e Dilma Rousseff, entre 2005 e 2012, aprendeu a lutar tae kwon do.

A arte marcial tem sido cada vez mais trocada pelo xadrez político, onde o prefeito vem se esforçando por unir o discurso socialista à ação direta. “A ‘novidade’ de Haddad talvez esteja na tentativa de unir a teoria e a prática, algo que nos últimos anos andou esquecido pela esquerda“, analisa Ohata. Esquerda, sim: o termo, que a alguns parece ter perdido o sentido e a outros ainda atemoriza, a Haddad é cara — passada a campanha, em que todo radicalismo poderia assustar o eleitor, ele se declara socialista sem o menor medo.

O filósofo prefeito ainda crê que o socialismo é o horizonte a não perder de vista. Mas a filosofia, ao menos por enquanto, tem se dado no plano prático; o excesso de trabalho faz com que o prefeito tenha menos tempo para reler seus filósofos de predileção, Habermas e Adorno, e restrinja as horas livres ao cinema (gostou de Argo e Lincoln) e aos prazeres da mesa (bate ponto no Rubayat, Gero e Pomodori, e se confessa chocólatra). Workaholic, Haddad tenta manter o estilo de vida de professor — o que inclui o ócio criativo, reservando à prefeitura apenas o horário das oito às oito. Na sala, um violão acompanha o songbook de Chico Buarque e a partitura de um rondó de música clássica. Uma hora depois da entrevista, este fanático por Beatles compareceria à abertura da temporada do Teatro Municipal, em cujo programa constava Tristão e Isolda, de Wagner, sob a batuta de John Neschling.

Se, no mesmo dia, presencia-se um prefeito conjugar no mesmo discurso os termos M’Boi Mirim, Habermas, Paul McCartney, Wagner e soneca — sem contar alguns palavrões dirigidos ao pastor-psicólogo pentecostal Silas Malafaia, que o atacou duramente na campanha —, pode-se afirmar que a cidade vive ares bem diferentes. “Nosso prefeito nasceu sob o signo dos idealistas aquarianos, seres sociáveis abertos a novas ideias“, afirma a horoscopista da Folha de S.Paulo, Barbara Abramo. “E, embora tenha de lidar com grupos econômicos e políticos poderosos, poderá vir a ser governador de SP por sua obra durante a prefeitura“: assim estaria escrito no mapa astral de um prefeito nascido aos dois minutos do dia de aniversário de São Paulo, 25 de janeiro. No momento, ele afasta essa possibilidade. Mas não nega. Como filósofo e político, o sério porém afável Seu Fernando entende que dialética é a arte de dizer nem sim nem não, muito antes pelo contrário — e ainda assim, fazer sentido. Continuar lendo

Jornalismo Cultural X Jornalismo Autoral


Hunter Thompson dando duro em seu escritório em Puerto Rico

Hunter Thompson dando duro em seu escritório em Puerto Rico

A partir de técnicas do jornalismo literário, o curso propõe caminhos para praticar o jornalismo cultural – tendo como foco a mídia impressa: o jornalismo praticado em revista, suplemento cultural e livro. Serão discutidos todos os formatos clássicos do jornalismo impresso, dando ênfase aos principais: perfil e reportagem.

O ponto de partida das aulas é o desenvolvimento de um projeto: a classe será organizada como em uma redação, para que seja criada uma revista ou blog, tendo como base pautas, histórias e personagens que passam pelo b_arco.

Ao fim de cada mês, será convidado um profissional para um bate-papo com os alunos. Estão previstos para a programação: Fred Melo Paiva (O Infiltrado, da History Channel), Cassiano Elek Machado (Folha de S.Paulo), Ivan Marsiglia (O Estado de S.Paulo) e Bruno Torturra (Pós-TV).

Bibliografia sugerida: coleção Jornalismo Literário da editora Companhia das Letras.

- Espera-se dos alunos a leitura de revistas e jornais reconhecidos pela criatividade de seu jornalismo — no Brasil, Piauí, Trip, Bravo!; e do exterior, Slate, Salon, Les Inrockuptibles, Vanity Fair, Rolling Stone, além dos suplementos culturais dos jornais New York Times, The Guardian, El País.

- Levar lápis e papel – ou computador.

Indicado para jornalistas, estudantes de jornalismo, blogueiros e escritores.

Carga horária total: 36 horas

Saiba mais detalhes em: http://barco.art.br/jornalismo-cultural-x-jornalismo-autoral/

Os impostores


Renato, Alê, André, RB e Ulissão: Faith No More... Cover

Renato, Alê, André, RB e Ulissão: Faith No More… Cover


Nos anos 80/90, de ônibus, as bandas cover cruzavam o país levando aos rincões mais longínquos do Brasil Profundo o rock que só era visto na TV

Sim, meus caros, também tive meus dias de pop star — melhor dizendo, de pobre star. Fim dos anos 80, ressaca do rock nacional, o Brasil foi infestado por uma doença chamada bandas cover. Na época, nenhum grupo de rock importante visitava o Brasil, Collor tinha roubado todas nossas economias, não havia internet, ninguém sabia direito como se comportavam os rockstars em tempo real, e o acesso às novidades do pop era muito limitado. Pra ficar sabendo das coisas antes, por exemplo, eu costumava jogar fitas cassetes (lembra?) na mão de um vendedor de discos da Galeria do Rock, que a cada seis meses voltava de Londres com os hits. E hoje você se irrita se o hit daquela banda de pós-rock filipino que um amigo falou de manhã no Twitter demora mais que dez minutos pra baixar.

Voltemos ao meu pobre-estrelato. Como as bandas não visitavam o Brasil, a gambiarra foi inventá-las aqui mesmo. A coisa já havia sido criada com as dezenas de grupos que tocavam o repertório dos Beatles, os milhares de sósias de Elvis e as bandas-tributo a Doors, Stones etc. E assim surgiram o U2 Cover, o Rush Cover, o Billy Idol Cover, o The Cult Cover (cujo vocalista era o saudoso Redson, líder do Cólera), o Gun’s Cover… e a Faith No More Cover, onde este cronista foi tecladista (também fiz uns frilas como o “sexto membro” da Guns’n'Roses Cover).

Ao contrário da maioria, o FNMCover era em nada parecido com sua matriz. Ao contrário: fazíamos questão em não nos parecer com os originais, embora tocássemos, de fato, muito bem (os caras do Sepultura e Ratos do Porão sempre apareciam nos nossos ensaios e volta e meia tocavam conosco). Renato, o histriônico vocalista, longe de exibir o esquizo-sex appeal de Mike Patton, era um índio de 2 metros de altura, 17 anos e longos cabelos abaixo da linha cintura (no busão, nosso lar, o chamávamos de Perla, a cantora paraguaia). Ulissão, o líder e nosso guitar hero, era um gordinho cabeludo-careca (tapava o cocuruto com uma bandana) vagamente parecido com Jim Martin. O multiinstrumentista André Namur, o baixista, tinha uns 30 centímetros a menos que sua fonte Billy Gould e gostava de praticar stage diving a bordo do… case do seu baixo. O baterista, Alê, não headbangeava os dreadlokcs como Mike Bordin: tímido e superfocado, era gago e, ao contrário da maioria dos bateristas que vão se cansando durante as apresentações, ao final do show já tocava duas vezes mais rápido (embora fanático por thrash metal, também frilava para uma banda de axé). Diferentemente do tecladista Roddy Bottum (tive de googlar agora pra lembrar o nome dele — fiquei anos sem conseguir ouvir FNM), minha trademark não era o chapéu de cowboy, e sim wayfarer pretos – nossos fãs tinham certeza de que eu era cego. Um de nossos números era encerrar o show com “Epic” emendando com o triste pianinho da música-tema do seriado Hulk; enquanto o resto da banda saía do palco, eu era abandonado sozinho, com as mãos no vazio, até que o roadie — Ki Chi, hoje dono do restaurante Cão Véio — me resgatasse. Isso sempre fazia sucesso com as fãs mais caridosas.

Sim, FÃS. Muitos fãs. Em 1990, o FNM havia estourado na MTV com “Epic” e nossa chegada a Jundiaí teria contornos de beatlemania não tivéssemos viajado de ônibus de linha – contudo, a chegada foi triunfal, com direito a tietes nos rasgando camisas e cuecas e invadindo o camarim atrás de atenção e carinho. Antes de entrar no busão para voltar a SP, meia-dúzia de moleques me cercou: queriam porque queriam autógrafos. Mas como, se eu não era o Roddy Bottum? No começo me recusava a assinar, mas percebia que os fãs se chateavam com isso — uma vez ouvi que eu era “mascarado”, creiam. Resolvi assinar só RB, iniciais em comum com o “outro”, o que me tirava um pouco a culpa pela impostura.

E, juro, foram muitos autógrafos. Éramos excelentes imitadores, embora todos da banda achassem ridículo copiar roupas e trejeitos da banda matriz, como os outros cover. Éverson, o vocalista da U2 Cover, só falava em inglês no dia do show e realmente acreditava ser o líder da banda irlandesa; no fim de carreira, juntando canções de U2 e Legião fez um combo Bono—Renato Russo… pague por um mala e leve dois. Ganhou muita grana com isso; o máximo que consegui foi juntar 300 dólares para descolar uma jaqueta italiana Perfecto (genuína). Assim cruzamos o país para levar a mensagem de metal, psicodelia e anarquia da banda de San Francisco. No sul, completamente chapados, tocamos o repertório inteiro do FNM em ritmo reggae; revoltados, os fãs nos deram uma surra de latinhas de cerveja e garrafas de pinga, mas ficamos firme arreggueando todas as canções até o fim. Claro, atravessamos o país sempre de ônibus, ao contrário das outras cover, que faturavam bem mais e viajavam de avião. Uma das raras trips pelo ar foi para Aracaju, conforme registrada aí acima, no camarim de uma boate cujo nome me escapa.

Em Adamantina (SP), cidade rota da cocaína, a qual recém havíamos descoberto, nosso ônibus foi parado pela polícia e minuciosamente revistado – encontraram holofotes que nosso baixista bebum tinha surrupiado da casa de shows, além de dois litros de Fanta Uva muquiados na mochila do Ulissão. Em Machado (MG), onde perdi as lentes de contato (precisei ser levado ao palco pelos companheiros, daí nasceu a fama de cego), tive um interlúdio romântico com uma garota que encontrei na minha poltrona – e mais tarde o motorista teve de driblar a polícia da cidade, que perseguia o ônibus, para largar a mocinha em casa: ela era filha do prefeito e muitos anos mais nova do que havia sussurrado ao tecladista cegueta. No interior do Paraná, fomos atirados pra fora do bumba por causa de nossa insistência em fumar e cantar clássicos do punk. Em Campinas, participando do Festival Cover, tocamos para 20 mil pessoas e destruímos os quartos das concorrentes Rush Cover e Guns’n'Cover, hospedados no mesmo hotel que a gente mas mauricinhos demais pro nosso gosto. No Olympia, quando as clássicas cortinas do palco da finada casa de shows se fecharam, derrubaram meu pesadíssimo sintetizador Mirage Ensoniq (eu tocava sempre à frente, à Jon Lord) na cabeça de um fã, que teve de ser levado ao hospital. Em Apiaí (SP), nosso vocalista adolescente comemorou seu primeiro porre em pleno palco, mandando um “Boa noite, Jundiaí!“. Apesar das gafes, Renato era o maior galã da banda; sua companhia favorita era Pulga Joe, o cabeleireiro anão famoso por emular Billy Idol: certa vez encontramos os dois trancados no camarim em uma suruba com seis meninas. Em Alagoas, fomos cercados por agroboys filhos de pistoleiros, que correram atrás da banda na praia disparando o conteúdo de seus três-oitões em nossos calcanhares. Talvez estivessem ainda magoados com nossa versão de “War pigs”, cover do cover (FNM também tocava o clássico do Black Sabbath): no primeiro acorde, um mizão monumental, Ulissão sem querer mandou um ré — e ainda teve a cara de pau de chutar o seu Marshall, colocando a culpa da desafinação no amplificador.

O ônibus, nosso lar semanal, era espaço para profundas discussões filosóficas. Certa vez, o gigante Renato, fascinado pelas tatuagens dos integrantes do Mötley Crüe, tomou vários cascudos de nosso líder Ulisses, sessenta centímetros mais baixo: “Pára com essa babaquice, porra! Tu não é homem? O importante é a música, seu cusão!“. Sempre recordo esse importante mandamento quando vejo uma banda de visual espalhafatoso. E até hoje lembro do impacto que foi ouvir pela primeira vez “Smells like teen spirit”, do Nirvana, que escutamos dezenas de vezes seguidas no bumba; apesar da lição do Ulissão, na semana seguinte todos estávamos usando camisas xadrez pra pegar as gatinhas do New York, então o bar dos roqueiros descolês de SP. E foi de ônibus que a banda foi ver, afinal, ao histórico show do Faith No More no Rock in Rio, em janeiro de 1991. Na volta, decidimos parar com aquela palhaçada e arrumar um emprego. Não fazia sentido: ao vivo, o original tocava muito pior que a cover. Para demonstrar nossa falta de profissionalismo, abaixo tem um vídeo da antológica apresentação no Programa Livre do Serginho Groissmann. Como se pode notar na ridícula entrevista, éramos somente músicos — sem a menor manha para o caô habitual aos pop stars.