Mare tenebris

ilustra: Eva Uviedo

Usando dinheiro intangível para comprar um escudo invisível que o torna anônimo para daí navegar em um navio fantasma por um oceano cego: assim funciona a Dark Web

Se você usa a internet para navegar por links como Google, YouTube, Facebook, Amazon, portais, jornais, revistas, blogs e sites culturais, de bens e serviços, saiba que esta é só a ponta do iceberg. Somente cerca de 4% da internet permanece na superfície, a chamada Surface Web, ou cerca de 4 bilhões de links. Mais para baixo entramos em domínios não indexados, ou seja, não mapeados por sites de busca como Google, Bing e Yahoo!. Estamos na Deep Web, cujo tamanho é de aproximadamente 500 vezes o da internet visível. Aí está tudo o que não foi indexado por um buscador. São todos os dados por trás de firewalls. Pense em gigantescas bases de dados: e-mails, fóruns, intranets para negócios, sites protegidos por senhas, serviços oferecidos por streaming, conteúdos governamentais, todo tipo de arquivo guardado por uma empresa – dos dados da NASA a previsões do tempo, passando por diretórios com informações de bancos, universidades, organizações públicas, games, aplicativos etc etc. Cerca de 90% da Deep Web é acessível.

Já a Dark Web é um pequeno território da Deep Web, somente acessível através de um navegador Tor, que permite a você navegar anonimamente. Acrônimo de The Onion Router, criado por militantes pela internet anônima e livre, o Tor é capaz de entrar em que sites não indexados pelo Google ou outros buscadores, os domínios .onion (aqui se usa a metáfora da cebola, porque as redes ficam escondidas através de camadas e mais camadas, dificultando o rastreamento). Para baixo da superfície, voltamos à internet dos bons e velhos tempos, quando não havia portais ou blogs ou redes sociais, e o navegante precisava ficar caçando listas de links para chegar no que o interessava.

Não há nada ilegal em usar o Tor. Ali, o buscador mais usado é o DuckDuckGo, que também garante uma busca anônima – e jura que não vai vender suas pesquisas para outras empresas, como faz o Google. Os sites dentro do Tor usam o sufixo .onion, daí este espaço ser apelidado Onionland. Cerca de 10% da Dark Web é segura. Ok, você pode querer só dar uma espiada no movimento. Mas, dependendo de como e onde você se movimentar, é possível de fato ultrapassar os limites da legalidade. Há links úteis a quem necessite manter o anonimato que mantém uma proximidade com a visão libertária que a internet detinha em seu princípio. Como o Sci-Hub, plataforma que armazena e disponibiliza cerca de 50 milhões de pesquisas cientificas do mundo inteiro. Ou a ProPublica, uma agência de jornalismo investigativo já premiada pelo Pulitzer; na mesma linha existe o site The Intercept, liderado pelo jornalista britânico Glenn Greenwald. E há enciclopédias como a HiddenWiki, com os links para conteúdos controversos que não se encontram na WikiPedia.

Ziguezagueando por sobre a fronteira da Dark Web, você pode fazer coisas ilegais – mas que são moralmente defensáveis. Como acessar o Twitter no Irã, onde a rede de microblogs é travada pelo governo: o VPN usado para ativar o Tor torna possível a navegação em sites bloqueados. Ou se conectar ao Facebook na China – pois é, apesar de todo o verniz capitalista, a China continua sendo uma ditadura. Se você é um ativista, pode usar a Dark Web para criar redes entre whistleblowers com o objetivo de vazar documentos para provar a corrupção de governos ou empresas opressores, conforme atuou o WikiLeaks. Pode acessar redes de mensagens entre perseguidos, refugiados, militantes políticos ou religiosos, jornalistas e dissidentes que correm risco de morte. Pode até, ali no limite do ilegal, baixar, através de serviços como Netflix, Hulu ou Amazon, filmes inacessíveis em seu país. No hacktivismo, prega-se o livre acesso a toda e qualquer informação; por este viés, ver filmes piratas não deveria ser um delito que o levasse à cadeia.

A próxima fronteira

A Dark Web existe desde o início da internet, nos anos 70 – quando estudantes da Universidade de Stanford e do MIT usavam a então chamada ARPANET para traficar maconha. Sempre é bom lembrar que a internet foi criada por cientistas e militares dos EUA como um meio de comunicação indestrutível depois que uma eventual Terceira Guerra impossibilitasse todas os outros meios. Portanto a rede obscura existiu desde sempre – e provavelmente existirá para sempre. Calcula-se haver entre 10 e 100 mil sites ativos na Dark Web.

Somente desde 2006 passaram a funcionar na Dark Web os mercados negros da pesada – tudo evidentemente turbinado a bitcoins e a outras moedas eletrônicas como litecoin, monero e ethereum. É preciso lembrar o leitor de que a Dark Web é o playground favorito dos hackers, seu hábitat natural, portanto todo cuidado é pouco: apague todos os seus traços, nunca passe informações pessoais que possam deixá-lo descoberto, não confie em ninguém, e, claro, jamais forneça nenhum dado financeiro real. As negociações em bitcoins seguem protocolos próprios – como, por exemplo, transferir seus bitcoins para uma carteira segura, e não diretamente para a conta da pessoa com quem se negocia.

Caso esteja interessado em take a walk at the wild side, você necessita uma navegação 100% anônima e segura. Para começar, faça como nosso amigo Mark Zuckerberg: desligue e bloqueie o microfone e a câmera de seu computador. E nem pense em navegar nesse submundo via rede Wi-Fi pública: o hacker mais vagabundo entra em qualquer objeto ligado a uma rede aberta. Recentemente um hacker entediado que estava preso em um engarrafamento monitorou, de seu carro, um outdoor eletrônico próximo da rodovia – para transmitir filmes pornôs. Os motoristas agradeceram.

Até a rede da sua casa pode ser facilmente infiltrada. Assim, quem precisa garantir privacidade e segurança tem de adquirir uma rede VPN, virtual private network, antes mesmo de entrar no Tor. Para assegurar mais privacidade, a compra da VPN deve ser feita em bitcoins. Em outras palavras: você usa um dinheiro invisível para comprar um escudo que o torna anônimo e daí navega em um navio fantasma por um oceano cego. Com tais proteções, o navegante pirata só será detectado por gente como Elliot Alderson, o genial hacker de Mr. Robot, série da Amazon.

Partindo de um buscador específico para domínios .onion como o Torch, ou através de uma pesquisa em sites-espelho da HiddenWiki, em três ou quatro cliques você acha sites que vendem todo tipo de substância – e entregam onde você quiser. Plantas medicinais quase impossíveis de obter, vegetais psicoativos, fármacos criados em laboratório para toda sorte de efeito (do mais terapêutico ao mais estupefaciente), drogas legais mas de venda controlada, drogas ilegais – e até mesmo aquilo que você tem até vergonha de pensar.

Contudo, depois que a Silk Road, principal mercado negro, foi desmantelada em 2013 pelo FBI, e seu criador, Ross Ulbricht, colocado no corredor da morte por causa de uma suspeita contratação de matador de aluguel, os mercados negros mudam de endereço quase todos os dias. Como um pântano, a Dark Web está constantemente mudando, com sites surgindo e sumindo o tempo todo. Cada site tem protocolos específicos para suas transações, uma vez que há muitos policiais, espiões, hackers e bandidos prontos para cair em cima de um usuário distraído. Pode ser muito menos perigoso ir direto até a boca de fumo da favela mais próxima do que receber uma visitinha do Japonês da Federal.

Não são as drogas, porém, as estrelas dos mercados negros. É possível comprar documentos, autorizações, cartões de seguridade social, vistos, passaportes, contas bancárias, números de cartões de crédito, cédulas e placas de automóvel, senhas para acessar PCs corporativos… Em um par de cliques você forja toda uma nova identidade, pagando somente um dólar. Contas reais de eBay, PayPal, Facebook, Netflix, Amazon e Uber com meses ou anos no histórico são oferecidas por trezentos dólares. Armas, é claro, são as mercadorias mais procuradas. E não estamos falando apenas em códigos e serviços que providenciam ciberataques, softwares maliciosos e qualquer gênero de vírus. Armas de verdade: de uma garrucha do século 18 até bazucas, passando por rifles, metralhadoras, granadas e drones somente usados pelas Forças Armadas de Israel, da Rússia ou dos EUA. Algumas peças são entregues em partes, separadamente, e outras podem chegar às suas mãos através de um portador. Tudo depende de quanto bitcoin você tem para gastar.

Você está preso

Se você pode comprar armas, por que não poderia contratar um assassino? Matadores de aluguel existem desde os primórdios da humanidade – somente mudaram os métodos para a contratação. A maioria dos sites que anuncia assassinos é fake, obviamente, e o leva direto para a polícia ou para espertinhos que vão depenar você. Os hitmen são encontráveis via boca-a-boca eletrônico, através de links escondidos em fóruns de discussões anônimas (chans) ou em sites de mercado negro só acessíveis depois que você se provar um cliente cauteloso.

Dois anos atrás, o site Besa Mafia, supostamente ligado à máfia albanesa, foi denunciado como um site fake: era uma armadilha da polícia para capturar criminosos. De homicídios comuns para o terrorismo é um clique. Mão-de-obra para terroristas do ISIS é facilmente cooptada, por exemplo, em fóruns de teorias de conspiração. Aliás, teoria de conspiração na Dark Web é mato. Aqui floresceram maluquices como a crença nos Illuminatti e na Terra Plana; a cada esquina de um fórum você tromba com uma religião ou seita política diferente. Este é o lugar favorito para trocas de figurinhas entre os virjões chaneiros, ou incels – “celibatários involuntários” que glorificam massacres de serial killers de extrema direita, como Anders Breivik.

Drogas, armas, assassinato, terrorismo, religião, e, por fim, sexo. Em todos os formatos possíveis e acessíveis se encontram coisas que deixariam o Marquês de Sade encabulado. Nomeie uma perversão e lá estará, em cores – e, às vezes, ao vivo, transmitida por uma webcam. O que nos leva a pensar que, se a Surface Web se aproxima do mundo virtual, a Dark Web se apropria cada vez mais do mundo real. Além da venda de imagens e vídeos das mais estranhas práticas sexuais – o que inclui as não-consensuais, como abuso, tortura, estupro e homicídio -, o navegante acha modos fáceis de tomar contato com experiências reais. Lá estão os parceiros no crime, por assim dizer.

Isso quer dizer acesso imediato a prostituição ilegal, tráfico de órgãos e de pessoas, e práticas extremas, como pedofilia, canibalismo e assassinato contratados em tempo real. É nos chans do cibersubmundo que se encontram as histórias reais e terrivelmente tristes relatadas na série Darknet, da Netflix. Quanto mais real, mais caro, mas nada é impossível: a Dark Web é o portal entre o mais bizarro online para o mais perigoso offline. Tudo depende dos riscos que você topar – e de quanto tempo conseguir se esconder. Até ser pego.

 

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*Artigo originalmente publicado na revista The President

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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