Quinhentos anos de bundas

foto: Autumn Sonnhchsen

Quinhentos anos de bundas

Ou, ao menos, entre 1955 e 2015: de Adele Fátima a Zezé Motta

            Olhai as bundas de antanho: elas não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão, em toda a sua glória, foi tão poderoso quanto qualquer item da lista que ora segue; se Deus, pois, assim veste a beleza do mundo que hoje existe, e amanhã a lançará aos leões e aos paparazzi, aos photoshops e aos hidrogéis, às maledicências e aos ostracismos, o que não acontecerá a vós, homens de pouca fé? Uma bunda resume a dor e a beleza do efêmero: olha lá, hum, está indo, e vai, ih, vai, eita, já foi, putz, sumiu na neblina, você viu, cara, nuooossa, você viu aquela bunda?

            De Adele Fátima a Zezé Motta, passando pelos montes das Oliveiras de Luma a Paolla, estes olhos que a terra há de comer já comeram muitas bundas. Sim, bunda, b-u-n-d-a. Até os anos 70 se dizia acanhadamente “posterior”, “traseiro” ou, se a censura anal-retentiva deixasse, “bumbum”. Tal como o poeta Drummond, já nos anos 80 (“A bunda/ que engraçada/ está sempre sorrindo/ nunca é trágica/ se diverte por conta própria”), felizmente já soletramos em texto impresso o sinônimo para nádegas imputado pelos angolanos e caboverdianos quando aqui chegaram, no século 17, para oferecer seus lombos à sanha escravocrata lusa.

Povos bantos, também eram chamados bundos, e falavam o idioma ambundo ou quimbundo. A portuguesada se referia a estes africanos como “povo bundo de Angola”; sua língua era simplesmente a “língua bunda”. Daí a alcunhar qualquer fala dos povos africanos de “bunda” foi uma mera rebolada. Os bundos, sabe-se, orgulhavam-se de seus glúteos bem mais sólidos, calipígeos e tanajúricos que os esqueléticos popôs branquelos, fedidos e abafados sob anáguas e pudores católicos.

Assim, ô pá, no que bamboleava uma representante dos bundos, babava o gajo mais gaiato: “Que buuunda!”. Isca da miscigenação, a metonímia formou do todo de uma raça a porção mais nobre e sensual do homo — e principalmente femina — brasiliensis, vocábulo registrado em papel desde 1836, bem como a expressão carnal da alma nacional (só pra rimar com anal).

            Uma olhadela nessa lista talvez ajude a desvendar nossa obsessão. Por certo, o comportamento nostálgico dos antepassados, inventores da palavra saudade, melancólicos observadores das glórias que ficaram para trás desde Dom Sebastião começou a perder o Império e as calças. Mas avancemos até os anos 50, quando a bunda que mais fazia a cabeça dos marmanjos era, pasmem, de homem. Um sujeito de pseudônimo Carlos Zéfiro; maior e mais misterioso desenhista de quadrinhos pornôs do Brasil, educou gerações de punheteiros com seus “catecismos”, como eram chamadas as revistinhas de sacanagem vendidas aos milhares nas bancas entre 1950 e 1991.

Sua identidade foi revelada por Juca Kfouri na finada revista Playboy: era Alcides Caminha, obscuro funcionário público, boêmio, músico, putanheiro e coautor do imortal samba “A flor e o espinho”, gravado por Nelson Cavaquinho. Embora quase sempre brancas, em traço PB ultrarealista, as buzanfas de Zéfiro eram redondinhas e elegantes — adornadas com deliciosas “covinhas de Vênus” — , e nada exageradas, menores que as magníficas nádegas desenhadas pelo italiano Milo Manara.

Das Certinhas do Lalau às pornochanchadas

            Verso do corpo, a bunda sempre será controversa. Vale lembrar que nos anos 50 o sexo anal, mesmo que probido pela Igreja por ser “antinatural”, era a opção número 1 dos namorados afoitos, pois as moças ainda faziam questão de se casar virgens “na frente”. Nos anos 60, o amor livre e a pílula anticoncepcional liberaram o coito xoxotal, o amor de ré voltou a ser o número 2 — um Parnaso a se conquistar, prêmio supremo das provas de amor, praticado por aqui desde quibundas eras. Como canta Mr Catra, imortal da Academia Brasileira de Letras, “a gente só invade/ depois que a gata pisca/ bumbum não se pede/ bumbum se conquista”.

            Tão revolucionária e misteriosa era a bunda nos anos 50 que raramente ela dava as caras nas seções dos jornais destinadas às nossas musas: a seleção de “enxutas” do Escrete Todo Azul, publicada no Última Hora, e as Certinhas do Lalau, que saíam no Diário da Noite. Entre as enxutas — que sempre eram onze, formando um time de futebol — figura a recém-morta Odete Lara, que mais tarde bateria um bolão com a parceira Norma Bengell no clássico Noite Vazia, filme pioneiro em mostrar um ménage à trois, em pleno 1964.

Do mesmo ano é a primeira versão para o cinema de Bonitinha Mas Ordinária, estrelado também por Odete. Só que foi a versão de 1981 que entrou para a história do cinema, com a fantástica cena em que, em frente ao próprio pai, uma virginal Lucélia Santos, em um pelourinho, é currada por trás pelo Cadelão e seus amigos — e gosta, reproduzindo o maior terror do branco brasileiro classe média. Nelson Rodrigues sabia das coisas quando escreveu a linha “Me fode, negro!”.

            Mas voltando aos anos 50, tanto Odete Lara quanto Norma Bengell foram eleitas Certinhas do Lalau — que era, aliás, pseudônimo do famoso cronista Stanislaw Ponte Preta, uma espécie de Xico Sá do seu tempo. As Certinhas também eram publicadas na revista O Cruzeiro — quase sempre de frente, contudo, o que fazia gemer a imaginação dos marmanjos bundófilos. Havia exceções, como a empinadíssima vedete Sandra Sandré, Certinha de 1960 — o que leva a crer que, além do preconceito para com o posterior, as bundas das moçoilas permaneciam ocultas também por conta de sua derrota para a gravidade. Pois quem tem, tem medo que caia: uma hora cai, é triste constatar, minha cara Andressa Urach.

            Os ânus 60 (ok, é a última vez que faço esse trocadalho), além das supraexcitadas Odete & Norma, tinha outras mulheres à frente de seu tempo, e nós atrás tentando entender o seu tiquetaque. Como Leila Diniz, em seu biquíni clarinho, fazendo um castelo de areia em Copacabana sendo assediada por Paulo José e Ivan de Albuquerque ao mesmo tempo, desconcertando todo mundo que ainda acreditava naquele papo de garota pra casar e garota pra namorar.

Em 1967, Leila era de certo modo a antítese de outra musa de 1962, Helô Pinheiro, “que vem e que passa”, doce heroína das bossas dos barquinhos e tardinhas. Leila estava mais próxima e bumbuns perfumados cortejados por poetas, artistas e escritores, como a atriz Tonia Carrero (musa de Rubem Braga), Clarice Lispector (de Paulo Mendes Campos) ou Hilda Hilst (de quem dos seus abismos não tivesse medo).

A morte da musa libertária, em 1972, uma mulher tão forte cuja entrevista famosa ao Pasquim, cheia de palavrões, fez com que o regime militar criasse a lei de censura prévia a jornais e revistas — a chamada Lei Leila Diniz —, de certa forma deslocou o eixo das grandes mulheres para as pornochanchadas.

            As décadas de 70 e 80 nos deram uma sucessão incrível de musas desbundadas. Foram anos e anos de repressão sexual, apenas aliviada nas salas de cinema da Boca do Lixo. Curiosamente o cinema de massa da época, embora tosco e mal-acabado, parecia mais ousado que o cinema bunda-mole globificado que hoje grassa sem graça nos multiplex da vida. Grosso modo, a pornochanchada mantinha um ar inocente e ao mesmo tempo cafajeste, em que as bundinhas eram passivas e até românticas, embora estapeadas por enredos machistas. Estrelas da revistas Status e Playboy e dos cineminhas safados, dominavam geral a atriz e escritora Nicole Puzzi (cujo primeiro filme se chama Escola Penal de Meninas Violentadas), a morenaça símbolo sexual Angelina Muniz (Inseto do Amor), a lindíssima ruiva gaúcha Aldine Müller (Convite ao Prazer), e, acima de todas, Helena Ramos (uma bunda alegre em um rosto triste).

É a década das chacretes, mulheres fantásticas surgidas da mente tropicalista de Abelardo Barbosa: Índia Amazonense, Sandra Pérola Negra, Vera Mon Amour, Vera Furacão, Érica Selvagem, Cléo Toda Pura, Fátima Boa Viagem, Leda Zepelim, Sandra Veneno, Roseli Dinamite, e, soberana, Rita Cadillac.

Mulatas-exportação e bundas televisivas

            A deusa calipígea já deixou expressa ordem para que, quando enterrada, o fosse com o posterior pra cima, pois assim queria ser velada pelo povo que tanto a louvou. Musa dos presidiários, atuou com Sabotage em Carandiru, de Hector Babenco, e criou o mais característicos dos gestos a acompanhar uma das músicas-tema do Programa do Chacrinha: “Roda, roda e avisa/ um minuto de comercial/ Alô, alô Teresinha”.

Em entrevista à Tpm, certa vez Rita me disse que, quando movia o dedo indicador devagarzinho, em movimento íntimo e mínimo, olhando direto nos olhos do telespectador, como se pedisse algo, pensava no jeito como gostava de ser tocada “ali”. Sempre desconfiei. Outro combo de mulheres famoso nos anos 70 são as Mulatas de Oswaldo Sargentelli, radialista mulatólogo que inventou o modelo “mulata-exportação”, como se fosse um produto tipo café e futebol, reforçando nossa vocação de colônia machista e racista. Sua mais famosa pupila foi Solange Couto, depois atriz de TV.

            Mas também tenho lá meu lado mulatólogo e aponto Adele Fátima como o maior rabo de foguete dos anos 70. A finíssima beldade, uma das mulheres mais bonitas de seu tempo, tesouro nacional brasileiro, filha de mulata e alemão, participou até de um dos filmes do agente James Bond — justamente o 007 contra o Foguete da Morte. No entanto, talvez o grande marco da carreira de Adele tenha sido a sua participação no comercial do enlatado Sardinhas 88 — em que a sensacional mulata sambava alucinantemente enquanto a câmera passeava por suas curvas — até mostrar o número 88 estampado na parte de trás da tanga do biquíni.

Musa de Oscar Niemeyer — que desenhou o Sambódromo em homenagem à então rainha de bateria da Mocidade Independente — é dona de uma bunda esfericamente perfeita, nascida para a cadência bonita do samba; uma bunda competindo com um sorriso devastador por nossa atenção até que morremos numa batucada de bambas. (Cheguei a ganhar no bicho uma vez com o palpite 88. Deu pra comprar um Chicabon, o que não deixava de ser um adequado prêmio de consolação.)

No quesito é impossível esquecer da longilínea, crocante e cremosa Marina Montini, deusa inspiradora de pintores como Di Cavalcanti, a mulata-exportação primordial, estrela de shows musicais na Europa e de capas de revista como Manchete e Playboy, detentora de uma empinadinha em formato de coração. Só para finalizar o assunto (por enquanto), inescapável dos anos 70 é a bunda preta 100% de Zezé Motta, a rainha de Jorge Ben em Xica da Silva. A linha evolutiva da mulata prossegue na musa do carnaval televisionado, Valéria Valenssa, cujo pandeiro ostentou por anos o título de Mulata Globeleza.

            (Espere: lembrei de Sonia Braga subindo no telhado do Bar Vesúvio na novela Gabriela Cravo e Canela — uma bunda que conjugava ao mesmo tempo graça, ingenuidade, tesão, leveza acima de tudo, pois que Sonia subia atrás de uma pipa, e para sempre ficaria levitando sua mignonette perfeita como uma lenda da mulher feminina a nos confiar as costas, espécie de Nossa Senhora da Bunda, indefinidamente em ascensão, e em seu louvor se reserva este parágrafo como um nicho de relicário.)

            Os anos 80, que tiveram seu lado mala na Geração Saúde, viram a ascensão do fio dental, ou melhor diria, o seu desaparecimento, entre as curvas da modelo e atriz Magda Cotrofe (uma das mulheres mais gostosas da história, capa da Playboy três vezes, fez um ensaio outro dia aos 51 anos que eu vou te contar). Magda surgiu como sósia de Luiza Brunet, uma das primeiras supermodelos brasileiras, cujo bumbum ficou célebre ao ornar os jeans em uma campanha publicitária.

Os popozões começaram a explodir em proporção geométrica nos anos 80, como se eletrificados pelos surtos de cocaína da época. Xuxa, Luciana Vendramini, Isadora Ribeiro… as bundas televisivas eram majestosas. Namoradinha do Brasil na TV, a ninfeta Lidia Brondi mostrou um popozinho chocante sob a franja adolescente na Playboy e surpreendeu no filme Beijo no Asfalto, outro Nelson Rodrigues. Houve também bundas politizadas, sambando na cara dos poderes estabelecidos. Nenhuma mais indefectível do que Christiane Torloni, uma ex-Certinha do Lalau (no revival do concurso, em 1978) que se tornou Musa das Diretas Já em 1983 e mostrou uma redondez quase insuportável em famoso ensaio na Playboy.

Abundância musical

            Há bundas musicais além do samba, claro. As ruivas Denise Bandeira, musa da pornochanchada e herdeira do forró pernambucano, e Debora Bloch, estrela de “Beth Balanço”, o clássico do Barão Vermelho que deu nome ao filme. A ruiva Rita Lee, que já rebolava seu posterior britânico desde os anos 60, mixava o casamento com o carnaval em “Lança-perfume”, uma das mais indefectíveis metáforas do sexo anal (“Me deixa de quatro no ato/ me enche de amor”), mais tarde enfatizada por outra musa do rock oitentista, a loura Fernanda Toller (“fazer amor de madrugada/ amor com jeito de virada”), e anos depois, pela pneumática morena Fernanda Abreu, que regravaria uma das canções máximas da sensualidade carioca, “Kátia Flávia”, de Fausto Fawcett — a que fugia por Copacabana só de calcinha “Exocet”.

Os anos 90 ainda seriam marcados pela bunda sobrenatural de Luma de Oliveira — que sambou na cara de um empresário bundão mais preocupado com pedras preciosas do que em cuidar do tesouro ali na cama. “Para quem perdeu a Luma de Oliveira, perder alguns tostões não é nada”, disse de Eike Batista o escritor Carlos Heitor Cony. Verdade: o tombo financeiro já estava prefigurado no ponto X de Luma.

Cachorras do Funk e Pós-Popôs

            A partir dos anos 90, o starsystem brasileiro saiu da lama relegada pelas décadas de inflação e, com a economia de novo em expansão, houve uma explosão atômica de rabos por todos os lados. O homem comum vê-se hoje desesperadamente ilhado por bundas-celebridades, e, em movimento iniciado por Rita Cadillac e Gretchen, rainhas do rebolado nos anos 70 e 80, as próprias bundas tomaram as rédeas do status quo e se descolam de suas donas, como se fossem seres à parte. Temos aí as acrobáticas bundas do axé, lideradas pelas Sheilas Loura e Morena, além de Carla Perez, bundas que só faltam falar — qual aquele personagem famoso do escritor William S. Burroughs em Junkie, um ator que perdia o domínio de sua boca para o cu, que aprendia a cantar e já começava a criar dentes.

            Dialéticas, as cachorras do funk roubaram para suas bundas o princípio ativo no sadomasoquismo implícito no sexo anal e, depois de assumir o amor pela arte da palmada em clássicos como “Um tapinha não dói”, logo multiplicaram nos bailes as “surras de bunda”, em que um pobre espectador instado a enfiar o nariz onde não deveria ter sido chamado toma uns bons petelecos de musculosas nádegas.

Da Gaiola das Popozudas saiu Valesca, hoje uma das maiores show women do país, lançadora de funk que se tornou o ícone visual bem-humorado e nobre para a expressão “cagando e andando”, o “Beijinho no ombro”. A superioridade bundal de Valesca tem afirmativa direção feminista, como sugere o disco Tá Pra Nascer Homem que Vai Mandar em Mim e sua participação em pagodes como “Mama”, de Mr Catra: “Quando eu te vi de patrão, de cordão, de R1 e camisa azul/ Logo encharcou minha xota e ali percebi que piscou o meu cu/ Eu sei que você já é casado, mas me diz o que fazer/ Porque quando a piroca tem dona é que vem a vontade de fuder”.

            Nem todas as bundas têm essa agressividade transante de Valesca, de uns anos para cá. Há espaço para todo tipo de popô. Bundas infantosádicas, como a de Tiazinha, brandindo seu chicotinho parecendo no fundo pedir um castigo. As das elegantes neomulatas Camila Pitanga, Taís Araújo e Juliana Alves. A da despudorada ex-BBB (segmento à parte) e comediante (idem) Sabrina Sato, que mulatizou o Japão e liderou o movimento das nádegas televisivas com as Panicats, de Nicole Bahls e seus rabos falsamente burros — burros somos nós, claro. A da dourada Juliana Paes e sua esfera feliz, a desafiar a gravidade, o Sol e as estrelas, herdeira legítima de Sonia Braga, e criadora, ao lado da gatinha loura diabolicamente exata Deborah Secco, de um novo patamar na beleza suburbana.

A da country ninfeta Sandy, que escancarou o amor pelo sexo anal em entrevista inquietante. Bundas não-bundas, como as de Gisele Bündchen, Fernanda Lima e as Angels, supermodelos internacionais que se anglicizaram e emagreceram o ass-unto. Bundas enigmáticas — não por acaso esfíncter lembra Esfinge —, em que o terceiro sexo se mixa com o segundo e desconcerta o primeiro a ponto de repensar seu próprio terceiro olho, como as de Roberta Close, Ariadna, Amanda Sampaio, Léa T. As bundas das garotas next-door desta Trip, todas memoráveis e namoráveis, que se podem resumir na insolência solar de Luana Piovani. E bundas-cabeça como a de Paula Braun, que em Cheiro do Ralo encarnou nada menos do que o personagem Bunda, levando o protagonista à ruína.

           São tantos popozões que qualquer um se perde, nocauteado como este modesto bundófilo, com a cara sambada e atropelada por toda uma escola de musas. Mas há que se eleger um ponto, ou melhor, um asterisco final e rendemos graças à epifania trazida por Paolla Oliveira — até o momento em que este texto é escrito, dona da bunda mais cantada em 2015. Bunda ambígua, polígama, bissexual como sua personagem Danny Bond em Felizes Para Sempre, sofisticada garota de programa que se envolve com políticos corruptos e mulheres entediadas, é acessível à dupla penetração e ao beijo grego e a todas as promessas de felicidade contidas em uma bunda — e eis que são infinitas.

O cronista Joaquim Ferreira dos Santos magnetizou-se com o sorriso de Paolla: “A aurora boreal em forma de mulher (…) simboliza, pelo avesso de sua estupefaciente rigidez muscular, o Brasil da delação premiada, de gente caída fazendo coisa feia. Há muito não se vê na TV, de frente ou verso, um país de sorriso tão cínico e revelador”, escreveu. Uma bunda mágica, em seu pendor levitante sobre um mínimo fio dental — mas, sim, Drummond, uma bunda trágica, uma bunda-bomba, a espalhar, além de prazer, morte e destruição para os homens e mulhers que a tocassem, a penetrassem e a lambessem e ali habitassem; bunda mítica como Atlântida, ocultando mistérios no fundo do oceano, tentador abismo do pré-sal e outras maravilhas.

Rezo para que 2015 tenha ao cabo sorte mais alvissareira que a de Danny, que termina a minissérie caída no chão de Brasília de quina para a lua. A longa, redonda, carnuda, cremosa e crocante tradição das bundas brasileiras merece — e a ela agradecemos, de joelhos, glória às mulheres de boa vontade, amém.

[Publicado na revista Trip de março de 2015 – um tempo em que perdíamos tempo falando essas bobagens]

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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