Capoeira, capoeiras

Foto: Pierre Fatumbi Verger

De onde surgiu e para onde vai a arte marcial mais famosa do Brasil?


            Existem muitas capoeiras, camará. Como arte marcial, ela já começou no meio do furacão, criada a partir de embates. Até se tornar a primeira arte marcial brasileira mais exportada para o mundo todo — a segunda, sabe-se, é o jiu-jitsu recriado aqui pela família Gracie —, a capoeira levou muita porrada. Hoje é bacaninha vestir uma roupa branca, dar rasteira, segurar um berimbau e cantar cantigas de marinheiro. Mas quem manja dos paranauê sabe que uma das mais folclóricas expressões nacionais oculta uma história de muita luta, perseguição, preconceito e violência.

            Tradicionalmente se diz que há duas capoeiras, ambas criadas em Salvador: a (de) Angola e a (luta) Regional (baiana). Nem sempre foi assim. A massificação e a folclorização da capoeira hoje sugere uma nova vertente, a contemporânea, que seria um mix da Angola e da Regional. Mas há controvérsia mesmo sobre o surgimento real da capoeira na capital baiana: quando se alastraram pelo resto do país, especialmente Rio de Janeiro, Recife, São Luís e Belém — todas cidades portuárias que recebiam muitos negros escravos no século 19 —, já havia muitos outros estilos sendo jogados. Até meados do século 20, só existem registros orais da história da capoeira, o que dificulta o trabalho de investigação. Outras dúvidas persistem: ela realmente apareceu no Brasil ou já era praticada na África? Surgiu na área rural ou no litoral? Existem outras capoeiras fora as da Bahia? Por que foi considerada subversiva? Por que foi marginalizada e combatida pelo Estado? É uma arte rebelde, revolucionária ou de negociação? É um jogo, uma luta ou uma dança? Deve ser vista como arte negra ou esporte branco?

            Entre 1808 e 1821, cerca de 500 mil homens negros foram trazidos da África para serem escravizados no Rio de Janeiro, a cidade que teve mais escravos nas Américas — 3 milhões e 600 mil africanos chegaram vivos ao Brasil, desde o século 16; estes são os dados oficiais, que não citam os escravos vindos após a proibição do tráfico, em 1830. Entre os muitos tipos de escravos — os africanos (recém-chegados), os crioulos (nascidos no Brasil), os libertos ou forros (que haviam ganho a liberdade) e os livres (nascidos já sem grilhão), havia os chamados escravos de ganho, que costumavam ter um trabalho próprio em suas horas de folga. São justamente estes os primeiros praticantes da capoeira: lutavam para se defender, a princípio, da competição com outros escravos de ganho. É bom lembrar que no início do reinado de Dom João IV não havia polícia ou outro tipo de poder público coercitivo, mas milícias e seguranças particulares. Nas cidades, ao contrário do meio rural, os escravos de ganho quase nunca viviam perto de seus senhores. “Podiam ser artesãos, músicos, amantes”, conta o historiador Bruno Rodolfo Martins na excelente tese Raízes étnicas da capoeira. Nos momentos em que esperavam por trabalho, estavam “vadiando” — o verbo usado para a prática da capoeira.       

            Capoeira, aliás, era como se chamava o escravo que trabalhava como carregador, que portava um cesto. “Capoeiragem” significava bagunça. Mas o termo não veio da África. Capo, do tupi-guarani, quer dizer mato ralo, um lugar aberto na floresta, uma clareira perfeita para ser usada como ringue (e o termo tem este significado até hoje). Só que caapo, também do guarani, quer dizer cesto de palha trançada — daí o carregador de cesto virar o capoeira. No começo do século 19 a capoeira não estava sistematizada — nem mesmo tinha esse nome. Daí um dos aspectos mais intrigantes da capoeira: “ela é uma negaça, ela nega antes de afirmar. Ela não é, ela finge ser”, diz Martins. Daí também ter surgido — conforme a escassa historiografia sugere — como jogo, depois evoluir como dança, para adquirir sentido de luta, “e luta violenta”, como afirma categoricamente mestre Pastinha no já clássico Capoeira Angola (1968).

            Segundo o caudaloso e fundamental estudo de Carlos Líbano Soares, A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (2004), a vitimização dos capoeiras foi fundamental para a disseminação, a síntese, a estetização da capoeira: boa parte dos escravos presos ou perseguidos pela polícia ou por seguranças particulares eram capoeiras, ou seja, eram arruaceiros que brigavam entre si. Detidos e ajuntados à força na cadeia, trocavam saberes e técnicas e aperfeiçoavam suas artes marciais. Paulo Lins, autor de Cidade de Deus (que, a propósito, meu de a dica do livro de Líbano), sugere que algo semelhante ocorreu nos anos 60 e 70, na aproximação entre os guerrilheiros de esquerda e a bandidagem mais esperta que fez amizade no presídio da Ilha Grande, dando origem ao Comando Vermelho, pioneiro no crime organizado no país. Como se percebe, o tempo é sábio: ensina que repressão e prisão não são solução.

            Mas de onde vinham esses escravos arruaceiros? Especialmente da banda centro-ocidental africana, onde hoje é Congo, Angola, e alguns orientais, de Moçambique. Embora seja adequado inferir que a capoeira tenha nascido em um contexto da etnia banto, é complicado afirmar que a capoeira tenha surgido de uma nação africana específica, pois os escravos eram nomeados de acordo com o porto em que teriam embarcado, e não na terra em que teria nascido. O que se pode dizer é que, praticada ou não por negros escravos, a capoeira sempre foi relacionada à pobreza — e daí para ser estigmatizada socialmente é um pulo, ou melhor, uma rasteira.

            Para muitos dos povos africanos que vieram escravizados, o sagrado e o profano estavam imbricados; não havia diferenciação — deuses do candomblé, os orixás têm características humanas: são imperfeitos e mutantes, muito mais complexos que os monolíticos deuses nascidos no deserto, como Jeová, Alá e Jesus. Com o mesmo se passa na capoeira, que, em comum com o candomblé, tem movimentos ritualísticos ritmodependentes. Fundamentos do candomblé como o respeito aos mais velhos, a solidariedade e a consciência da missão individual, também são valores de todo capoeirista. Têm ainda em comum com o candomblé a presença de número três (tambores, em lugar dos berimbaus), a prática em roda, a ginga, as estruturas e melodias dos pontos (músicas de louvação). Tanto a ritualística do candomblé quanto a da capoeira só se desenrola com trilha sonora (as cantigas do candomblé de Angola são em tudo semelhantes às cantigas de capoeira). Afinal, os terreiros de candomblé e de umbanda eram defendidos pelos capoeiristas — e continuam sendo, visto que muitos fiéis neopentescostais têm perseguido e dificultado a vida dos seguidores de religiões afro, em especial nas favelas cariocas (as coisas só piorararam para o lado dos capoeiristas com a aproximação de líderes do narcotráfico com pastores neopentescostais; mas esta é outra história). No entanto, rodas e ritmos não são expressões comuns: só foram introduzidos pelos mestres Bimba e Pastinha a partir do século 20 — ou seja, foi o candomblé a influência original da capoeira. Apesar disso, alguns elementos da capoeira atual já eram conhecidos no século 19. É o caso do oricongo ou urucango, um ancestral do berimbau usado tanto para os escravos de ganho chamarem a atenção dos compradores quanto para se comunicarem com os mortos em rituais fúnebres. O berimbau parece ser um componente desenvolvido no Brasil, pois não era conhecido na África, ao contrário dos atabaques, tocados em várias partes do continente africano.

            A unificação de saberes e técnicas que aproxima a capoeira com o que ela é hoje teria sido efetuada por Mestre Bimba, um ex-estivador nascido em Salvador em 1900 — portanto, livre. Capoeirista desde jovem, foi chamado a ser inspetor de polícia mas declinou, por conta da perseguição que a polícia fazia aos capoeiristas: autointitulou-se educador e foi a primeira figura a ensinar capoeira no Brasil, além do samba de roda, a puxada de rede e o maculelê. Precursor da capoeira Regional, Bimba morreu em 1974. Seu contemporâneo, o elegante Mestre Pastinha foi a maior lenda da capoeira de Angola; morreu aos 93 anos, em 1981. Ambos eram célebres pelo temperamento correto e pela visão da capoeira como molde ético do cidadão: Pastinha propunha o capoeirista como sujeito “digno, honrado, decente”, conforme depoimento de Jorge Amado. Apesar de primeiros responsáveis pela institucionalização e posterior folclorização da capoeira, morreram quase esquecidos — tão pobres como nasceram.

            Antes deste chamado “período clássico” da capoeira, conforme diz mestre Decânio, um grande capoeirista de hoje, houve uma repressiva campanha contra as manifestações afro entre fins do século 19 e começo do século 20 — aí incluídos o samba, o candomblé e qualquer coisa que tivesse um batuque. O Código Penal da República, executado por Marechal Deodoro da Fonseca em 1890, expressamente proibia “exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem (…) Aos chefes e cabeças de bandos ou maltas de capoeiras, se imporá a pena em dobro”. Duas das gangues mais violentas do Rio de Janeiro, na época, eram as dos Guaiamuns e dos Nagoas. Os Nagoas serviam ao Partido Conservador e os Guaiamuns ao Liberal. Ou seja: mesmo reprimida pelo Estado, a capoeira era usada politicamente pela elite branca — algo parecido aconteceu com o samba e outras expressões artísticas da negritude. A punição para quem praticasse capoeira em público variava entre 300 açoites com sal e cachaça até a deportação para o presídio de trabalhos forçados em Fernando de Noronha, a partir de 1893. Na Bahia, quem fosse pego na vadiação da capoeira era mandado para a linha de frente da guerra do Paraguai. As gangues do Recife só foram extintas em 1912 — foi a partir desta data que a capoeira passou a ser considerada brincadeira e acabou dando origem ao frevo; mesmo hoje, blocos de carnaval famosos como o Homem da Meia-Noite, de Olinda, têm capoeiristas entre seus líderes.

            Só em 1940 é que a capoeira foi enquadrada como uma espécie de ginástica nacional — porém, por vias tortas, sob uma ótica militarista, disciplinadora e eugenizadora: era proibido jogar capoeira fora dos devidos lugares. Para retirar a capoeira da marginalidade, sob o governo Vargas os mestres Bimba e Pastinha criaram códigos de conduta, uso de uniformes, hierarquias, nomenclatura de golpes, campeonatos, associações e federações, muito estranhas à prática original — a não ser no quesito dos lenços e de laços coloridos que marcavam esta ou aquela malta de capoeiras no século 19. Há relatos de Getúlio Vargas orientando o Exército brasileiro a divulgar a capoeira nos quartéis. Segundo mestre Nilo, o primeiro presidente da associação dos capoeiristas cariocas, Vargas queria “que o exército dele ficasse fera na capoeira, em briga de rua, defesa pessoal, pra segurar a população sem precisar pegar em armas”. (Fica a dica para a truculenta polícia militar do governo paulista de Geraldo Alckmin.) Vargas só liberou a capoeira para “pessoas idôneas, que não tivessem passagem pela polícia, profissionais liberais, estudantes”. Neste momento se deu a cisão entre as capoeiras: a oficial, de elite, Regional, e a do povo, marginal, dos excluídos, a Angola. Outras diferenças entre as capoeiras, conforme o mestre baiano Anzol: a Regional é mais técnica e disciplinada, a Angola mais improvisada e inventiva. Sobre preconceito, mestre Anzol lembra que nos anos 70 prefeitos e outros chefes comunitários davam bolas para as crianças para estimulá-los a jogar futebol e não praticar capoeira.

            A “reafricanização” da capoeira só viria a acontecer depois do período da ditadura militar, com o surgimento de mestres que fundiam as linguagens Regional e Angola, buscavam saberes diversos, e a levaram ao exterior, onde a capoeira começou a misturar-se com outras artes marciais, como o judô, o karatê e o jiu-jitsu. Hoje a capoeira é praticada por seis milhões de pessoas no Brasil e mais de 150 países têm associações de capoeiristas. Diz-se que os povos bantos, originários primeiros habitantes de Congo e Angola, são famosos por uma grande capacidade de absorção da cultura alheia (algo parecido tinham os romanos, que engoliram conhecimentos egípcios, gregos, bárbaros etc). Esta capacidade da absorção e reorganização de tradições alheias — que na cultura brasileira foi fundamental para movimentos artísticos como a Antropofagia dos anos 20, a Tropicália dos anos 60 e o Manguebeat dos anos 90 — pode ter sido a responsável por fazer da capoeira esta original suma de técnicas e saberes. E, dada a popularidade que a capoeira ganhou, esta qualidade pode fazer com que, daqui a cem anos, vejamos uma dança ou jogo ou luta muito diferente da que se pratica nas rodas do Brasil e do mundo de hoje, camará.

[Publicada originalmente na revista The President]

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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