Emicida: “Sei de nada”

CORRERIA

O álbum O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui levou o rapper paulistano Emicida para EUA, Europa e África. Por trás do sucesso, uma palavra: independência

Capítulo 1

FAMINTO

De como um garoto órfão quase não comeu o pão que o diabo amassou — por falta de pão — até se sentar à mesa com os maiorais do rap brasileiro

            A mãe de Leandro, Jacira de Oliveira, trabalhava como empregada doméstica. Leandro e o irmão Evandro não tinham grana pra nada. À tarde, o que tinha pra comer eram dois pãezinhos; cada irmão cortava no meio e comia a sua metade. Um dia Leandro comia e assistia TV quando Afrodite surrupiou sua metade num bocado só. Leandro ficou tão revoltado que puxou sua cadelinha e lhe tascou uma mordida.

            “Mano, que situação: morder um cachorro porque comeu o único pedaço de pão que eu tinha! Graças a Deus virou piada, mas na hora foi foda. Por isso dei esse nome pra minha primeira mixtape“, contou, sempre em sua voz suave, grave e veloz, o magrelo Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, durante um rolê pelo Red Bull Station em junho de 2014. Felizmente a hora do almoço já tinha passado e o rapper ostentava uma aparência muito suave em um figurino normalíssimo: de tênis, moletom, jeans, relógio e óculos, parecia um cara que tivesse acabado de sair de um sebo de livros ou vinis, não um rapper superstar de partida para turnês por Europa e África.

            O conteúdo da mixtape Pra Quem Já Mordeu Cachorro Por Comida Eu Até Que Cheguei Longe certamente consta da primeiras turnês europeia e africana que Emicida se preparava pra abraçar, pouco antes deste papo. Afinal aquela mixtape lançada em 2009 tinha detonado um processo irreversível que colocou o esfomeado Leandro à cabeceira da restrita mesa onde jantam os principais nomes do hip hop no Brasil — Criolo, Marcelo D2, MV Bill, Racionais MCs. Em seguida veio a segunda mixtape, Emicídio, que, somada aos singles, somaram 30 mil CDs vendidos de modo independente e artesanal.

            Então o primeiro álbum, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, mostrou que o apetite de Emicida não se restringia ao rap — há flertes com o samba, o rock, o funk e até o jazz — e o tornaria um astro da nova música pop brasileira. Atualmente Emicida tem 216 mil seguidores no Instagram, 500 mil no Twitter e 2 milhões e 700 mil no Facebook — o último álbum teve 1 milhão de visualizações no YouTube; seus hits, como “Então toma”, foram assistidos em média 2 milhões de vezes. Antes de embarcar para Europa e África, Emicida já havia entrado em outro clube para sócios seletos: em 2011, foi o primeiro rapper da nossa quebrada a tocar no festival californiano de rock Coachella.

            A fome do paulistano Emicida por música o fez afrontar vários mandamentos do hip hop. Nascido há 28 anos no Tucuruvi, extrema zona norte paulistana, Emicida se revelou improvisador em batalhas de rap freestyle por vários pontos de São Paulo: pela rapidez de raciocínio e rima, ganhou o codinome de “matador de MCs”, daí assumido no sagaz trocadilho Emicida. As mixtapes produzidas no esquema punk do-it-yourself sedimentaram sua música até o estouro com o primeiro álbum de estúdio — que, além do auxílio constante do DJ, também conta com banda, algo raro no rap nacional.

            Outro ponto que o diferencia da geração anterior é o approach maduro e profissional em relação a mídia e marketing. Mesmo que pipoquem aqui e ali os reacionários lhe tagueando como “traidor do rap” ou “rapper de playboy”, as alcunhas ficam para trás quanto mais Emicida quebra tabus e faz o hip hop brasileiro escalar novos degraus.

            Convites de impacto midiático — os mesmos negados por Mano Brown e os Racionais MCs — são aceitos na boa. O rapper transitou em territórios até então pouco visitados. Ser capa da revista Trip, figurinha carimbada nas listas de melhores da MTV ou da Rolling Stone, beber na canequinha do Jô Soares, gravar com roqueiros como NX Zero ou Pitty, participar de um clipe com o funkeiro-ostentação MC Guimé, formar trio com músicos cultuados como Thiago França e Rodrigo Campos tocando para uma plateia de só 40 pagantes, tocar no Baixo Augusta para 500 hipsters, tocar na Virada Cultural para milhares de pessoas, frequentar a anarco-socialista Casa Fora do Eixo, fazer propaganda para corporações de tecnologia, dar pico de audiência no Programa do Ratinho, desbaratinar simultaneamente misóginos e feministas, escrever carta aberta detonando o programa de humor Zorra Total, ter música na novela, ser treinado pelo “mestre do kung fu” Neymar em um clipe, dar uma longa entrevista para o site de uma marca global? No cardápio de Emicida, tudo rima — desde que seu recado esteja embalado.

            E que recado é este? Com tanta correria pra baixo e pra cima na escala social, poucos rappers são tão indicados a assinar seu slogan:

            “A rua é nóiz”

Capítulo 2

INDIE

De como um estudante de design virou lenda das rimas nas ruas de São Paulo — e dominou o processo de produção da música do começo ao fim

            Na infância, primeiro no Tucuruvi e depois do Jardim Fontales, Emicida sempre foi um garoto tirador de onda. O humor girou quando o pai — que foi DJ, depois metalúrgico — faleceu, por complicações de saúde ligadas ao alcoolismo. Até que a mãe Jacira se casasse de novo, ficava em casa sozinho com o irmão Evandro — o Fióti, hoje seu empresário e produtor. “Não caiu a ficha. Fiquei reservadão“, lembra.

            Emicida emudeceu. Chegava na escola e ficava com o olhar distante. Daí começou a se fechar no desenho. As histórias em quadrinhos o acalmavam, o faziam viajar para outros lugares. Ali criava mundos e contava histórias. Mas o pai, mesmo falecido, o fez ter seu primeiro contato com a música — seu rico acervo de vinis de black music foi a trilha sonora da infância. A história está contada de modo emocionante em “Crisântemo“, uma das mais belas faixas de seu álbum.

            Tinha muito grupo de samba tocando nas ruas do Jardim Fontales. Em uma daquelas quebradas também escutou o primeiro rap, “Nomes de menina”: “Fiquei sabendo que tem um tal de Pepeu/ que canta rap bem melhor do que eu”. Pepeu, espécie de Grandmaster Flash nacional, ele redescobriu fuçando nos vinis do pai. A mãe, evangélica, se assustou quando viu o filho passar tardes escutando aquela “música de bandido”. Da teoria à prática, logo Emicida começou a inventar músicas com o irmão. Adolescente, aprendeu a usar um gravador para fazer camas de loopings com batidas, e sobre elas deitava a voz por horas e horas.

            Daí vieram as batalhas de MCs, no começo de 2000. Ponto importante nessa correria foi a estação de metrô Santa Cruz, zona sul de São Paulo. O freestyle já era mais que brincadeira: era meio de vida. “Nunca ganhei batalhas na zica, na sorte“, conta Emicida. “Estava fazendo rap já tinha uns dez anos… Ganhava uma batalha na Santa Cruz, outra na calçada da Olido, daí numa casa de hip hop em Diadema, então na frente de um show de rap, e em outro point da zona sul… quando vi, estava todo dia fazendo rap, cada dia em um lugar diferente da cidade”, lembra. Começou o zum-zum-zum: “Você matou o cara, acabou com o cara”. Aí ele dizia: “Se só mato MC, então sou o Emicida”. Colou. Rivais e público passaram a filmar as rinhas de MCs e jogar no YouTube.

            “Vagabundo filmava todas as batalhas. Quando a gente foi ver, minhas rimas tinham mais de um milhão de views. A tecnologia foi uma facilitadora. Não fosse a internet, não estaria aqui.”

            Não que ele faturasse muito com isso. Cada batalha rendia um troco para sanduba e busão de volta para a ZN, de onde sairia no dia seguinte de manhã rumo às aulas de design gráfico, na Escola Arte São Paulo. Então um amigo falou sobre uma batalha de rap que rolava no Rio de Janeiro, a Liga dos MCs. “Ninguém dava nada pra mim. Só falavam que eu era paulista, magrelo, feio. Mas isso eu já tinha cansado de ouvir nas batalhas de SP… Foi mole. Fui só passando a manteiga…” Na final contra o rapper Gil, que já tinho a Liga, arregaçou. Foi ovacionado pela plateia.

            “Mas comecei a me achar redundante“, lembra. “Repetia as respostas porque todo mundo me fazia as mesmas perguntas. E resolvi dar um breque nas batalhas.” A história das batalhas de MCs está contada em “Triunfo”, cujo refrão, “A rua é nóiz“, foi criada no metrô Santa Cruz — o refrão funciona hoje como sua tagline. Marco do rap brasileiro, a canção tornou Emicida conhecido no país todo. Mas ele queria mais. Ouviu uma entrevista do DJ Zegon em que o DJ dizia que para ser rapper só bastava uma MPC — um sampler controlador que facilita o trabalho de quem cria música sozinho. “Achei um videogame, pirei no bagulho, fazia várias batidas”, descreve.

            “Liguei pra um amigo que tinha um estúdio e ia lá gravar. Demorava três horas pra chegar — todo o dinheiro que tinha gastava com condução.”

            Chamou o irmão para prensar duas mil cópias e eles mesmos criaram as capas e encartes dos CDs: recortava o papel reciclado, carimbava com uma ilustração, um a um. Não sabendo que era impossível, foram lá e fizeram: sem nenhuma referência do mercado fonográfico, a dupla de irmãos vendeu mil cópias em dois dias. E assim Pra Quem Já Mordeu Cachorro esgotou 12 mil cópias.

            A segunda mixtape, Emicídio, teve capa mais no capricho, mas os CDs seguiam produzidos um a um — e, além da produção artesanal, a dupla de manos também abraçou a causa do marketing e dos eventos. Eles mesmos foram às ruas para colar dez mil lambe-lambes anuciando o primeiro show. A correria deu certo. Esgotaram os ingressos para o primeiro show uma semana antes. Como talismã para apresentação, Emicida levou o lendário Pepeu. No susto, KL Jay, dos Racionais, apareceu com um disco de ouro para Emicida nesse show: tinham vendido 10 mil cópias da segunda mixtape. Emicida desandou a chorar. A plateia desabou junto.

            Dali em diante, a demanda por shows se multiplicava por dez.

           “Minha mixtape foi muito colaborativa e com o processo aberto, revolucionáro, por causa da internet

            “Entendi que, em vez de prensar um CD e esperar que mil pessoas fossem na galeria esgotar o disco, tinha que fazer minha música ir atrás das pessoas“. As pessoas já estavam sendo bombardeadas pela informação, e ele precisava entender a internet. “O mercado perdeu o timing de fazer isso”, reflete.

            Donos de uma gravadora própria, a Cosa Nostra, os Racionais MCs inspiraram a correria de Emicida. Mas também outras referências: os fanzines das histórias em quadrinhos e o modus operandi do punk. “A favela nunca teve gestão para dar esse passo à frente. Tem muita coisa que abomino nas gravadoras, mas muita coisa funciona; precisamos levar esse conhecimento pro campo onde as pessoas são mais idealistas do que burocráticas“, ensina.

            Ser indie o coloca na posição — e na pressão — de pensar em música 24 horas por dia.

            “Sou viciado no frio na barriga do ‘vai dar merda, fudeu!‘”

Capítulo 3

NERD

De como o mergulho nas histórias em quadrinhos tornou Emicida um dos rappers mais sofisticados do país e o fez criar um flow único

            “Sou viciado em quadrinhos. Na verdade a música é meu plano B“, brinca Emicida no Red Bull Station. As HQs o fizeram inclusive vencer algumas exposições de arte. Emicida já na adolescência fazia zines. O nome de sua produtora/gravadora/loja, Laboratório Fantasma, vem da influência do Motoqueiro Fantasma, personagem da Marvel: dentro da internet, espectros se reuniam para derrubar o sistema vigente, e seu ponto de encontro era Oficina Fantasma.

            “Sou nerd pra caralho“, assume. “Gostava de ler, mas não o que a escola dava. Tinha grana pra comprar uma revista mas não duas, então eu mesmo continuava a história.” Até que conheceu os mangás: Osamu Tesuka, Akira Toriyama, Katsuhiro Otomo — os mestres. “Achava louco como as revistas eram publicadas no Japão, 500 páginas por semana, tudo em papel reciclado”, conta. “Isso me deu a ideia de ter um papel de qualidade inferior no CD pra ficar mais acessível”, explica. Nessa época desenhou e escreveu A Revolução Através das Palavras — HQ que conta a história do rap nos EUA e no Brasil, e que o fez levar um concurso, em 2001. Editores, se mexam: a HQ segue inédita.

            “Vai explicar na favela pra sua mãe que você quer fazer quadrinhos. Você tem que ser idealista. Na favela, seu plano de carreira é a selva: o que aparecer você caça“, emenda este leitor de Sun Tzu. No curso de design gráfico na Escola Arte São Paulo, via os colegas desenharem sapato e logotipo e queria morrer, pois só pensava em HQ — e em hip hop. As batalhas de MCs tinham começado a desestruturar seu eixo do visual para o sonoro.

            Mas o literário segue sendo um foco constante. Embora um entusiasta da rede, como rato de sebo de livro e vinil Emicida olha os computadores com outros olhos — literalmente. O mergulho pesado na telinha lhe deu 1,5 grau de astigmatismo.

            “A internet também emburrece. As pessoas entram na internet pra ver o de sempre. Conversando com um vendedor no sebo, você descobre coisas que não procurava. A internet mata essa dimensão humana”, reflete. Como sempre acontece no flow fluido e fácil de Emicida, um assunto leva a outro que leva a outro — que levam a uma revelação e a uma frase de efeito.

            “Teu feeling na internet não pode ser o que você pode ter — e sim o que você precisa ter. Você não tem braço pra pegar tudo. Aí que viver no século 21 é especialmente saber do que você não precisa

Capítulo 4

ENGENHEIRO

De como um rapper pode construir pontes entre o hip hop, o samba, o rock, o funk ostentação, o jazz e a música africana

            Quando teoriza sobre sua música, Emicida se vê como um construtor de pontes. Alguém que detesta se sentir em um gueto fechado; sua fome de mundo faz com que a música avance sobre caminhos cada vez mais insuspeitos. “O jazz só cruzou a fronteira quando foi dialogar com outro lado. E se não fosse um Carlos Lyra, talvez um Zé Keti não teria cruzado a favela pra ir cantar com uma Nara Leão. Esse tipo de história me inspira”, exemplifica.

            Mas hoje o julgamento sobre o hip hop persiste, ele pondera. Daí talvez ser criticado por querer aproximar públicos. “Se você pegar uma bio do Louis Armstrong, vê que foi criticado porque tocou em lugares de brancos. Mas tem que passar por outras etapas pra operar em um campo maior.” O empreededorismo de Emicida contamina seu fazer artístico? “Não me considero empreendedor: sou idealista, curioso e teimoso“, refuta. Apesar disso, uma palavra que volta e meia surge em suas canções é “sonho“. Esse apelo ao mágico não o torna diferente das gerações anteriores do hip hop, marcadas pela crítica social, o que talvez as tenham tornado refratárias a outros públicos?

            Emicida saca logo com quem está sendo comparado. “Você vê que louco: os Racionais são pra mim a maior banda de rap do mundo e também falavam de sonho, como ‘Vida é desafio’. Mas ficaram marcados por serem pesados”, lembra. “Talvez por causa do Sobrevivendo do Inferno, a banda ficou séria — isso apesar do ‘Em qual mentira eu vou acreditar?’, que é um rap meio comédia”, desenvolve. Entanto, Emicida contemporiza: sua perspectiva de mundo é outra. “Falo muito de sonho porque penso em sonho como um projeto sério“, fixa.

            Mas como estabelecer diálogos entre diferentes públicos, usando o rap como plataforma? “Naquele livro Zicartola, do Maurício de Castro, o Elton Medeiros diz uma frase fantástica. Quando o Zicartola, que era o restaurante do Cartola com a dona Zica, faliu, ele disse: ‘De nada adianta nossa ideologia se a gente não é competente para vencer dentro do capitalismo’. O capitalismo não é o ideal, mas é onde a gente mora. Se a gente não sobreviver no capitalismo, a ideologia que a gente representa vai morrer“, finaliza.

            Esse pensamento tem a ver com o prestígio de Emicida junto ao funk ostentação — gênero detonado por 9 entre 10 rappers brasileiros.  “Mano, não sou bombeiro; tento chegar antes que a coisa pegue fogo!”, ri. “Sou o mediador, tá ligado? Tem funk que fala de coisa da hora e tem rap que fala bosta. E não dá pra negar que o funk carioca foi revolucionário: pegou um beat americano, misturou com batida de macumba e falou da sua realidade… É contraditório o rap odiar o funk, os dois vêm do mesmo lugar: a favela“, sintetiza.

            Emicida lembra divertido de como foi curiosa a sua aproximação com o MC Guimé — ele participa do clipe “País do futebol”, ao lado de um ídolo comum a ambos os santistas: Neymar. Eles se conheceram de um jeito engraçado. Guimé sampleou uma música de Emicida, “Então toma”, e fez um funk em cima. “Passei um rádio e dei um salve pro Guimé. Mas a gente fala cheio de gíria, e o cara que atendeu achou que a gente queria matar eles!” Como assim?

            “Mandei na lata: ‘Mano, ceis cataram meu bagulho!”, e o cara lá: “Ae Jão, quer matar nós por causa disso?” Foi o maior debate! Tenso!”, gargalha Emicida. “Só quando entenderam que eu falava que tinham catado um teco da minha música é que suavizou”, ri.

            “Sou feliz por ser meio responsável em juntar rap e funk

Capítulo 5

TEÓRICO

De como leituras e audições confluem nas ruas e nas rimas de Emicida

            Na estante de Emicida dividem espaço a biografia de Will Eisner, 1968 — O Ano que Não Terminou, de Zuenir Ventura, a coletânea Contos Negreiros, de Marcelino Freire, Desde Que o Samba é Samba, de Paulo Lins, e Caminhos de Mandela, de Richard Stengel, biografia do líder sul-africano. Ele lê várias coisas ao mesmo tempo porque finalmente consegue ter acesso. “Muita gente trabalha pra sermos colocados pra baixo, e isso contamina as pessoas “, conta. “Na favela o cara que lê é alguém que se acha mais que os outros. Escutei muito disso“, revela.

            Quando juntou uma grana, Emicida fez com livro o que funkeiro faz com carro: mandou descer tudo. “É em livro que eu sou viciado“, conta o rapper — que, aliás, não fuma nem bebe. Fiel à pacifista filosofia ubuntu, que conheceu pelos escritos de Desmond Tutu, também tem lido muito sobre jazz, samba e candomblé — apesar de ter sido criado sob a cultura evangélica.

            Tudo repercute nas letras que escreve simultaneamente — e claro que, como bom freestyler, muita coisa que faz ao vivo ele agrega às canções em que trabalha depois. “Quando você senta pra fazer rap, pensa em como vai repercutir nos irmãos da favela, em como conversa com os raps que vieram antes… Queria me desligar disso, mas não dá: não sou o flautista de Hamelim pra levar os moleques pro bueiro Não penso em música como entretenimento“, afasta.

            E o que o homem do microfone tem na playlist? Prestes a entrar em turnê no fim de junho, quando passaria por Alemanha, Dinamarca, Portugal e Inglaterra para depois seguir pela África (Angola, Senegal, Moçambique), Emicida estava empolgado. “Primeira vez na África vai ser foda. Vou querer gravar lá também. Estou viciado na Osibisa, gosto do Mulatu Astatke, e, claro, ouvi muito Fela Kuti. Tenho curtido o Kendric Lamarr —  é um cara meio sambista, né? Tem um cara de Osasco que é o Raphão Alafim, firmeza. E muito vinil: Geraldo Filme, Itamar Assumpção, Germano Mathias, Osvaldinho da Cuíca, Toniquinho Batuqueiro, e Adoniram Barbosa, lógico”, enumera o rapper.

            “Gostaria muito de fazer um rap tipo “Alvorada no morro'”, sonha. E logo se lembra de outros nomes: Moacir Santos, Wilson das Neves, Cartola… “Adoro O Canto dos Escravos, de Geraldo Filme, Tia Doca e Clementina de Jesus. Não fosse esse disco, muitas músicas podiam ter se perdido. Nossos antigos eram escravos ou filhos de escravos. A escravidão não está distante: tem 100 anos. Não podemos esquecer dela só porque terminou em reticências“, avisa.

            E da música para os conflitos sociais, tudo é um pulo na voz grave e rápida de Emicida. “Tem duas desigualdades no Brasil que ganharam reticências em vez de ponto final: a escravidão e a ditadura. A polícia mata igual a ditadura matava e muitas coisas que a gente vê conservam o modus operandi da escravidão. Você maltratar o zelador, a empregada, o gari, o porteiro, tá tudo bem? Nisso você vê que a escravidão não acabou”, detona.

            Conforme se dá conta de que seu discurso zanzou da música para o comentário social, o rapper afirma que tudo está interconectado — o também pode ser um problema. “A frase que nos definia no século 20 era ‘Sei de nada’, do Sócrates, saca?“, ri Emicida. E que frase nos define no século 21? “É ‘Tô ligado’, assim, dita com um certo desdém — tipo ‘já vi, já conheço’, uma frase fria, de colecionador”, sorri. “Nunca se escutou tanta música — e nunca se escutou tão pouco. As pessoas se desconectam de contar uma história. A gente lançou um álbum pra recuperar a ideia de narrativa. Se você não busca entender contextos, acredita que música é consumo: é mais uma no player. Não sai do umbigo. E o individualismo é nocivo porque contém a ideia de que você pode ser mais importante do que eu”, filosofa — em outra reflexão que ecoa a sabedoria ubuntu.

            “Mano, minha música é só uma passagem que dou nas mãos das pessoas dizendo: ‘vai lá e olha com seus olhos’. Tá ligado?”


[Entrevista para Red Bull em 2014]

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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