Laerte a ver coronavios

A quase septuagenária cartunista trans fala de coronavírus, de seu assombro com a política brasileira, de sexualidade na terceira idade, da calmaria tensa durante a solitária quarentena e revela: está desenhando uma gigantesca autobiografia

Laerte vai fazer 69. Caramba! Dezenove anos atrás, levei a (então o) cartunista para uma aventura: ele pegaria sua primeira onda, em uma longboard, na praia de Juquehy, litoral norte paulista, para comemorar o aniversário de 50 anos. Registrei o fato histórico para a revista Trip, e desde então fizemos várias outras entrevistas; acabamos amigos. Anos depois, foi num clima de #sextou que chamei a mais amada cartunista do país para um Zoom regado a vinho tinto que durou umas quatro horas. Ela só pediu pra terminar o papo porque gosta de deitar cedo e, cumprindo recomendações do doutor Drauzio Varella, não fica olhando telas antes de dormir: prefere mergulhar num livro de Cortázar, de Olga Tokarczuk ou até mesmo a Bíblia – apesar de se garantir ateia. Quarentenada já há muitos anos, a desenhista não sai do sobrado no Butantã, São Paulo, onde vive com a gata Muriel e desenha todo dia. Além das tiras infalíveis e desconcertantes, Laerte está desenhando a autobiografia, um livro infantil e organizando o acervo de 15 mil tiras: mal tem tempo para entrar em pânico com a pandemia e com o pandemônio político. Socialista convicta, confessa ser difícil fazer humor com um governo onde abundam personagens que flertam com a caricatura, tão chocantes são seus atos e atuações.

Metamorfose é o processo em que o objeto permanece o mesmo e já é um outro: com seu raciocínio flutuante e ao mesmo tempo lúcido, a artista que mudou de gênero depois dos 50 segue surpreendendo quem espera dela a resposta mais simples. Para Laerte, ter esperança é não ter esperança: “Não posso trair minha compreensão da realidade. O que está acontecendo é muito grave e a gente caminha para uma catástrofe sem tamanho. Mas, por conta disso, não precisamos ser pessimistas”. Ela encerrou a entrevista revelando que adora desenhar no box enquanto toma banho. “Fiz vários coronavios nos azulejos… sabe aquele navio que vai sumindo no horizonte, até ficar só a chaminé…? Aí lembrei da expressão ‘ficar a ver navios’… Porque é isso, estamos a ver coronavios!” Parece nonsense, mas faz todo o sentido.

Cidade dos Piratas chegou à TV. Como tem sido a recepção do filme? Demorou 20 e tantos desde a primeira conversa. Não foi um processo de trabalho homogêneo, ininterrupto, porque o Otto estava fazendo o filme A Fuga da Esbórnia. E a partir de 2010 passei a viver como mulher, o que levou meu trabalho e minha relação com o mundo a outros lugares. Como o Otto também passou por crises, ele achou que tinha que mexer na concepção original do filme. As duas vertentes foram misturadas, daí tem um alto grau de informação, e tem essa coisa, quanto mais informação, menos comunicação, McLuhan básico. Muitas pessoas se surpreendem agradavelmente com o filme. Mas o fato de o filme lidar com a questão LGBT, particularmente a questão trans, de forma não muito didática, sem se prestar a ser peça de propaganda, talvez incomode. O processo de transgeneridade tem altos e baixos, e o movimento demanda posições firmes e unívocas. E o filme é mais fiel aos meus processos do que a um processo de consciência da população LGBT. É um discurso veemente, mas meio anárquico. Tem gente que acha transgressor, mas tem gente que preferia ver meus quadrinhos como eram no jornal.

A última vez que fizemos uma entrevista, em 2012, você pensava em colocar seios e tirar a bolsa escrotal. E agora? Uma das coisas que me marcava quando comecei o movimento – não falo de transição, porque parece que vou de um ponto pra outro – , e movimento não tem um ponto de chegada muito claro. Não vou fazer nenhuma modificação no meu corpo. No início eu tinha projetos, colocar peito, tirar os testículos, trabalhar hormônios etc. Essas coisas estão mais tranquilas pra mim. Estou satisfeita fisicamente, e ao mesmo tempo estou ficando velha, o que tem efeitos inegáveis, hahaha. A pessoa velha tá muito próxima do bigênero, como os bebês. Você não vê um bebê e fala que é homem! Dá pra confundir gênero. Véio também, hahahah. Já a bolsa escrotal eu sempre achei feia, inclusive a palavra, mas como tá eu vou. Bola pra frente (risos).

Acha que dentro do no movimento LGBT tem rolado uma flexibilização da ideia de ser trans? Sim. As pessoas falavam: se não põe peito, não é trans. E isso não é verdade. A realidade é mais ampla do que a gente quer. O sentimento da transgeneridade é muito forte e claro, mas a forma como se expressa é variada. Você vê os trans aparecendo agora o tempo todo, cada um ou uma de um jeito. Tem sido comum. Na polícia, haha, tem uma delegada de Santa Catarina que transitou de homem pra mulher sem sair da profissão. Tá havendo na sociedade uma mudança sobre o que é ser transgênero. E as discussões sobre gênero, preconceitos, violência, tem mudado. Infelizmente a gente vive sob uma égide de uma ideia de que falar direito é impor a ideologia de gênero. Que é uma imbecilidade. Olha, Ronaldo… é uma fase infernal. (Parece cansada.) Cada latido desses caras dói. (Vai ficando triste.) Destrói alguma coisa do nosso edifício de direitos e saberes e experiências que a gente pacientemente vem construindo. Uma frase da Damares demole uma torre inteira. (Incredulidade.) Deram um ministério pra ela! Esse povo galgou uma importância… (Esgar de repúdio.) Sabe? (Careta de repulsa.) Ernesto Araújo… esse sujeito é um chanceler… (Emula uma expressão entre o desespero, o nojo e o horror, mas sempre de modo engraçado) Pra não falar no próprio presidente, né.

Você tinha um flerte com o Partidão nos anos 70… Não tinha flerte, eu era do Partidão, eu dava pro Partidão (gargalhada). Só não tinha carteirinha. Mas não acho que estamos voltando àquele tempo. Esta situação é inédita. E não só por causa da pandemia. Os generais de 64, junto com aquele movimento civil, se impuseram. Agora foram 57 milhões  de pessoas que escolharam votar no pior ser humano que existe, e que nunca escondeu que era isso… ninguém votou pensando que podia ser diferente. Foi um voto suicida mesmo. Bolsonaro eleito está cumprindo o que declarou, é um ditadorzinho autoritário, e que só funciona quando tem uma base de apoio pra ele, uma claque. Essa situação me assombra muito. Por que isso aconteceu justo no Brasil, e comigo dentro? É completamente novo da ditadura, não é a mesma coisa.

Você sofreu durante a ditadura? Nunca me senti cerceada no início dos anos 70. Aos 20, no Médici, a parte principal da minha vida estava se expressando de muitas formas. Eu não estava ainda no campo profissional. Comecei a publicar em 73. Ainda existia censura mas logo em seguida começou a se esboroar essa estrutura muito repressiva. O marco foi a morte do Herzog. Um antes e depois claríssimo. Lenta, gradual, progressiva… não… progressiva era a escova? Hahaha. Quando existiam partidos e o AI-5, eu tava preocupada com teatro, arte, minha sexualidade etc. Convivi com a repressão mas nunca fui censurada, nem presa. Quando chegou perto de mim, fiquei um tempo fora de São Paulo. Voltei quando a sociedade estava recuperando o território artístico. Tive vários amigos que passaram por momentos terríveis.É estranho dar entrevista assim, né?

Ninguém consegue falar direito pelo Zoom. Se eu olhar pra você, eu não olho pra você. É impossível olhar no seu olho. E se olhar pra câmara eu não vejo você. A pessoa está ali mas está em outro lugar. Outra sensação curiosa é você poder desligar as pessoas. Eu já achava bárbaro isso no filme 2001, não achava que viveria pra ver isso. As ideias de futuro são muito engraçadas.

Como viver uma distopia no meio de uma pandemia? Às vezes a gente não se dá conta, fica nos padrões, faz compra online, lava, fala com alguém, trabalha e perde o momento de perceber o que a gente está vivendo. Quanta gente está vivendo assim? É um mundo inteiro. Hoje houve um massacre no morro do Alemão. O que está acontecendo na favela aqui em frente? O que está acontecendo com as pessoas que estão sem água? Como eu faria sem água? Como eu faria sem internet? Isso virou uma coisa normal. Ninguém conta com ficar sem internet. Há um tempo atrás era o rol de preocupações ligadas ao trabalho. Atualmente ficar sme internet é… fazer o quê? Dormir. Drauzio Varella diz que não é legal ficar em tela antes de dormir, prejudica lá o sistema, e seu sono prejudica. Melhor é ler um livro.

O que você tem lido? Tem uns que nunca sei se já li ou se estou lendo pela primeira vez, são dois do Cortázar, O Último Round e A Volta Ao Dia em Oitenta Mundos, é maravilhoso, não é feito pra acabar. Leio como se fosse inédito sempre. Ele tinha um jeito de abordar as coisas muito estupefaciente. É insuperável no tempo. Parece sempre novo.

Viver sem internet hoje é impossível. O que te faria muita falta pra viver? Minha gata? Estou contemplando a possibilidade da Muriel morrer, ela 16 anos e 25% dos rins. Se ela morrer, morro também. Já perdi três gatos. Aquela da HQ é a Celina.

É a HQ mais triste que já foi desenhada. (Risos.) Gostei muito de fazer porque fiquei muito surpresa quando fiz. Fui fazendo, são várias tiras separadas em alguns dias. O rumo que a coisa tomou me assustou, e quando isso acontece eu fico maravilhada. Como é possível se autosurpreender, com um desenho, uma foto, você fazer uma coisa que você mesmo não estava esperando? Não me acontece muito não. É raro. É por isso que é valioso, precioso. (Bebe vinho.) Isso acontece bem no momento em que eu estou desenhando. Hoje estava fazendo uma imagem que me interessa muito, que são vermes dentro de uma carne apodrecendo. Aquela cor de carne podre.

É o Brasil? (Risos.) Não. Algo que gera repulsa, mas é vida. Os vermes estão no processo de fazer algo degustável pelas plantas, pela natureza, nesse processo nojento e fedido. Estava lidando com isso e queria algo interessante. Não queria fazer uma piada, tipo “você vem sempre aqui?”, ou “dois vermes entram num bar”. E se tivesse um carinha ali no meio, com um copo, como se estivesse em uma festa? E aí um verme chega e fala pra ele “você não é um verme”? E se o cara disse: “prove!”? (Gargalhadas gerais.) Isso não é uma piada. Eu só estava fugindo de uma saída fácil. A coisa vem de um lado que você não esperava vagamente, porque você sempre produz e conhece de onde as ideias vem, mas quando aquilo se organiza, parece que outra pessoa fez, então é muito legal. Tem um momento da recusa por uma coisa fácil, mesmo não sabendo exatamente pra onde ia.

Ayrton, Rafael e Zero Cinco entram em um bar… (Risos.) É muito difícil fazer piada com esse governo. Tá tudo dado, claro. Talvez seja até um sinal que o Greg News estar cada vez mais sério. O Gregório é engraçado, mas é sempre sério, e o programa tem se tornado um libelo. Um ponto de denúncia, de marcar posição, abrir possibilidades. O programa sobre o Enem me deixou preocupada a ponto de focar nesse problema na charge que fiz na segunda: uma mão segurando um celular com um monte de parafernália tecnológica, com uma propaganda do governo, e do lado uma mãozinha com um celular velho e uma bateria quase no fim. O problema do Bolsonaro é que torna a situação obrigatória. Como o risco de perda de direitos é dramático, muito grande, você não consegue desviar do assunto. E a pandemia vem acentuar a ideia que tudo o que você produzir vai ser sob esse filtro. Tenho feito esta experiência de republicar tiras de 10 anos atrás no Twitter: são sempre relidas sob esse novo prisma. O que a gente está passando é muito dominante.

É uma situação totalmente inédita. O AI-5 foi um marco de destruição: a charge foi liquidada na época. No Estado Novo, o DIP abafou uma geração de cartunistas críticos no Brasil. J. Carlos, Fritz, Calixto, grandes desenhistas. Em 1968 uma turma de chargistas pujantes foi  pega, Ziraldo, Claudius, Fortuna, Jaguar. Foram pro Pasquim e sumiram da grande imprensa. Hoje vivemos algo inédito. Minha mãe tem 94 anos, viveu guerras e acha que não foi assim. Meu neto Francisco tá aprendendo a usar o computador, hahaha, ele nem vai lembrar. Mas meus netos são crianças sob cuidado, não vivem grandes traumas, migrações pelo mundo, dormir debaixo de viaduto… Tudo isso uma grande parte da população está vivendo e já vivia. É impossível que a gente volte pro mesmo lugar. Tem uma experiência social muito transformadora. Não no sentido revolucionário, mas vivemos coisas profundas… não sei se fecundas. Eu não vou nem pegar ônibus mais!

Qual o seu ritmo de trabalho? Ouvi dizer que você está fazendo uma autobiografia… Faço uma tira ou duas por dia. Charge, uma vez por semana. E o quadrão, que é uma história mensal. Na autobiografia, a ideia era percorrer quatro décadas. Mas já fiz 400 páginas e parei em 1971 (risos). A história impõs uma outra dinâmica. Uma página é assim, toda quadriculada em 9 quadrinhos. Fiz 400 como esta. De vez em quando vou abrir uns quadros maiores, então provavelmente vão dar 500 páginas. Mas estou reorganizando tudo. Porque quando a história fez sentido e parava de pé, eu achava que não era o que eu queria. Comecei a usar o material dessa história para elaborar outra história. Eram 4 anos, de 1967 até 1971, sem ser muito precisa, em respeito ao processo dos personagens, fui deixando eles livres: eles vão numa passeata, alguém é preso, ele entra no festival da canção… Agora vou condensar tudo em 1968. E não vai ser mais um só protagonista, serão três ou quatro pessoas, amigos cujas vivências se entrecruzam. O protagonista não era eu, mas calcado na minha experiência. Não é um cartunista. Estou reorganizando os piões no tabuleiro. Aconteceram umas coisas muito legais no processo, o Cortázar fala isso: uma ideia te coloca numa tensão, você vira um funil, tudo começa a cair naquela lógica. Mas não vou contar mais. Tenho um mecanismo de autosabotagem. Sabe, se você fica contando muito parece que você já fez, né? E tá resolvido, e aí você não faz nada. É igual anotar sonho. Pra que, você vai sonhar de novo? Não tem sido simples, porque estou acostumada a escrever histórias curtas. Mais de dez páginas é muito raro. Tenho um traço, mas também sei fazer vários outros traços, vários modos de proceder. Numa tira é uma liberdade de busca diferente. Em uma coisa grande eu posso fazer um universo de experiências, e não tenho a segurança do Daniel Clowes, que desenha cada página de um jeito naquele Daniel Boring… É fascinante.

O que você tem visto de legal nos quadrinhos? Tem muitos autores e autoras. Nem consigo citar, vou ser injusta. Acompanho pelo Twitter, pelo livro é difícil. Gosto de Silva João, HQ de Briga. Leandro Assis e a Tricila Oliveira, naquelas séries Os Santos e a Confinada. Muito bom! Pablito Aguiar, umas histórias-reportagem… A maior parte ainda são meninos cis, mas tem uma população bem legal de gays. Alguns trans já, mas pouco. Tem a Luiza Lemos, da Transistorizada, e a Alice Pereira, da Pequenas Felicidades Trans. A LoveLoveSix é outra boa autora mulher gay jovem, entra em três colunas (risos). É uma pena que tinha um movimento florescente de PerifaCon, ButantãCon, outros Cons por aí, bombando, movimentos nas fábricas de cultura rolando, um agito começando a efervescer, e daí pá. Es una lastima.

É ruim ficar confinada? Há anos tenho uma rotina dentro de casa mas sim, gosto de sair. De vez em quando cinema, eventos. Mas, a partir do momento em que me tornei solteira, sozinha em casa, a dinâmica de sair reduziu. Celibato dá ideia de que não estou transando. Eu tava, mas não exigia uma atividade permanente fora de casa. Não nessa época de aplicativo… credo! (Gargalhada.) Eu tentei de tudo (risos). O Tinder foi uma experiência decepcionante, não rendeu nada. O Grindr eu coloquei meu nome e minha cara e disseram que era perfil fake (gargalhadas gerais). Botei um nome falso e uma foto sem minha cara mas… (bufa) não foi produtivo. Mas já estou em uma fase de baixa produção sexual. Que mais… Dispensei faxineira, mas sigo pagando. Tem bastante coisa pra fazer. E sou muito desorganizada. Faço compras online. Eu gosto de fazer compra olhando, então é estranho, falando com uma pessoa do outro lado. Manter a casa limpa, fazer meu trabalho, fazer compras e pensar é o dia inteiro. Não tenho tido tantos momentos de vazio, tipo e agora? Durmo cedo, vejo um filme, leio um livro, pra obedecer o Drauzio Varella, e é isso. Converso com meus netos e filhos por whatsapp, tenho torcido pra que continuem funcionando meu fluxo de trabalho, minha internet.

Daqui a pouco você faz 70 anos. Como é envelhecer? Eu não tinha uma vida intensa de vó e pai. Virei uma pessoa reclusa nessa quadra da vida. Ficar sem notícias deles é preocupante. Mas eu já estava habituada a uma solidão. O ponto principal foi não ter mais uma vida conjugal, e foi uma conquista, é liberdade. Era uma hipótese difícil pra mim. Ou era casado ou era namorando fixo, com um ritmo de sair, restaurante, cinema etc. Tenho tido momentos de pânico, mas não por ficar sozinha ou sem gente por perto pra me relacionar. O pânico que vem no meio da noite, o da insônia, é da insegurança, medo que tudo vá pro espaço, medo que o mínimo de solidez que eu conquistei se perca. Trabalho, dinheiro, situação de moradia, pessoas amigas e queridas morrendo, e pra onde eu vou? Essa ideia de desamparo é muito perturbadora pra mim, e fico fudida pensando que tem pessoas pra quem essa situação é a corriqueira.

Você se vê em um grupo de risco? Eeeeeu? Mas e meu histórico de atleta? Vamos levar em consideração isso. (Gargalhadas.) Fiz judô, natação, surfei. Tenho 68 anos mas não tenho outras condições que me fragilizem. Não tenho diabetes, cardiopatia, apesar de ter fumado que nem uma louca até os 50, parei. isso vem produzindo bons efeitos. Fiz checkup anos atrás e tava tudo bonitinho. Envelhecer é chato! Mas meus dois pais estão vivos, meu pai tem 96. Quando penso na minha situação de velha, penso neles. Não era comum na minha idade ter pais vivos, é um fato moderno. Eles estão velhos, eu não. Eu ainda sou a filha deles. E nós filhos cuidamos deles, o que nos coloca em outra perspectiva. Curtimos nossos pais e é legal eles estarem vivos, mas a vida humana tem um limite. Eu sinto um pouco de falta do meu corpinho (risos).

É difícil fazer humor em plena pandemia? Essa situação é limitadora pois afunila todas as leituras. O Fortuna uma vez me deu um texto da Nadine Gordimer em que ela dizia como os jovens escritores negros da África do Sul não tinham como não escrever sobre o apartheid na era pré-Mandela. Um jovem artista tinha que obrigatoriamente falar disso, era muito presente. Agora não temos como fingir que outra coisa acontece. É uma realidade que drena tudo. Qualquer coisa que você faça vai ser lida sob esse filtro. Ainda vamos viver um tempo com a energia pré-pandemia. Mas uma hora essa coisa vai se gastar e vamos ter de fazer coisas novas.

É difícil fazer humor sob Bolsonaro? Humor pode ser fácil ou difícil, como dizia o Chico Buarque sobre a arte da contestação. Eu tenho uma relação difícil com meu trabalho. Fico muito insatisfeita com o que faço. É todo dia, isso, Ronaldo (risos). Mas é um problema que me atrai. Porque não quero fazer quadrinhos com personagem, situações clichê. Quando fazia, era tranquilo, a personagem já começa lá da frente, tem todo um repertório de características da personagem, vem um situação e a personagem resolve tudo sozinha. Só que quando a história se auto-resolve é broxante, é desanimador, não é “nossa, olha o que aconteceu aqui”. E eu abandonei isso em 2005 e parti para um outro lado. Desde então é esse problema, porque cada tira é um começo diferente, é uma nova sarna pra se coçar.

Como se inspira? De manhã eu já entro no Twitter: o que aconteceu? Resolvo a tira até meio-dia, e mais uma à tarde, se der. Mas tenho outros livros, estou ilustrando um livro infantil da Maria Rita Kehl. Fiz com ela o Neném Dois. Mas não vou falar, pra não queimar.

O que pode vir do governo Bolsonaro? Revanche. É um projeto de destruição, não de governo. Bolsonaro não estava pensando em construir nada, em campanha ele disse isso com todas as letras: ele veio para destruir. Ele não tem nada para propor. Ele quer desmontar o que existia. Temer também veio pra isso, mas tinha uma sagacidade, mas não queria desmontar o Estado, que é o que está garantindo que a gente não morra como moscas. E um governo Mourão não é uma expectativa animadora, de modo nenhum, Os fatos são muito rápidos, mas a direção é de destruição. Nem com Mourão, nem com Maia, todas as continuações do poder são propostas de destruição. A não ser que se convoquem novas eleições. E não pode acontecer uma hegemonia petista; vai precisar haver um arranjo, um acerto entre pessoas mais ou menos sintonizadas… Só que é difícil pensar nisso no Brasil, os processos de 2010 pra cá são de decomposição. A carne está se decompondo e os vermes estão dançando.

E saindo do armário. São fantasmas perdendo o pudor, falando coisas absurdas. Quando vi a entrevista da Regina Duarte eu caí dura. Apesar dela ser sempre uma reaça, fascista, havia um pudor. Agora é como se uma pessoa viesse te oferecendo cocô e isso fosse tão natural que ela fica brava por que você não está comendo o cocô dela. É tudo muito desnorteador. São 57 milhões de pessoas que votaram nele. Sim, houve erros do PT. Sim, teve o Whatsapp, as fake news. Mas isso dá conta de explicar tudo? Não dá. Torço pra que o processo da pandemia de alguma forma contribua pra dar uma noção da realidade do Brasil. Não só de salários e desigualdade, mas também de Amazônia, soberania, projeto nacional. Espero que a situação contribua pra gente entrar em um astral de lucidez.

Existe uma ideia de que a pandemia pode contribuir para o colapso do capitalismo. O capitalismo não é mais uma forma de vida. É um cadáver. É um zumbi e estamos vivendo dentro dele. E estamos incapacitados de criar uma alternativa nova. A construção do socialismo está tão longínqua quanto… a idade do capitalismo. Essa ideia que estamos morando em uma coisa morta está na minha cabeça… Estamos querendo fazer coisas funcionarem, mas elas não funcionam mais dentro dessa lógica. Como fazer funcionar um plano do Paulo Guedes? Eles nos propõe coisas loucas, parece um idiota numa conferência de imbecis. É de morrer de vergonha. “Vamos vender a porra do Banco do Brasil…” São pessoas ressentidas, parecem uma quinta série. Tudo o que essa gente fala é daí pra baixo. Isso é muito assustador.

Você consegue ser esperançosa? Sim, claro. Acho que eu não vou morrer (risos). Não vamos desistir.  A Eliane Brum, em um texto de uns dois anos atrás, incrível, disse que a gente tem que ter o direito a não ter esperança. E mesmo assim continuar. Não vou me enterrar, me encostar em um canto e me lamuriando, morrendo. Vou continuar a lutar, mas sem esperança. Ter esperança é trair minha compreensão da realidade. O que está acontecendo é muito grave e a gente está caminhando para uma catástrofe sem tamanho. Por conta disso não precisamos ser pessimistas. Ter esperança não é ficar alegre e sorrir. A esperança deve ser vinculada a um plano. Ter uma sociedade socialista, igualitária, um país viável… mas uma consciência que o que se te opõe é o Bolsonaro, é muito forte, algo que ninguém achava que ia acontecer e aconteceu. Você não precisa broxar por causa disso e ir pro seu canto. Precisa construir modos de continuar que não sejam baseados na esperança. A esperança é uma fantasia, um irrealismo. Mas não precisa ser paralisante a ausência de esperança. Quando era jovem e entrei no Partidão, eu achava inexorável o colapso do capitalismo, e o socialismo chegaria como uma lógica, como se fosse uma gincana. Não acho mais que seja assim. Mas podemos ter esse projeto. A possibilidade de o capitalismo ser um projeto gorado existe, podemos transformar nossa existência em um fóssil.

Continua socialista? Sim, sou socialista. Mas não utópica. Não dá pra viver mais nesse modelo de exploração infinita da natureza. Um outro mundo é possível, e a única saída. Mas vai dar um trabalho filho da puta. Não temos um foco gerador dessa ideia tão claro como já existiu no passado. Hoje a ideia socialista é difusa, muitas vezes contraditória. No Occupy era claro, mas se perdeu. Já a frente democrática ampla eu acho que rola. Mas não com o PT à frente, conduzindo o processo – é preciso dividir com outras forças. A mostra que esse arranjo é complicado se deu com a eleição de 2018. Mas eu não participo de nenhum movimento partidário, assim como o movimento LGBT; participo do meu jeito. Nosso problema na pandemia é: como lidar com a política sem a pólis? Não vamos derrubar o Bolsonaro com panelaços.

Você segue vegetariana? Está cozinhando? Outro dia tentei fazer um bolo sem açúcar, mas ficou tão horrível que joguei fora. Cozinho coisas simples, proteína de soja, arroz, legumes no vapor. Não como regularmente bichos desde 2003, porque é uma estupidez o modo como tratamos os animais. Um pouco de peixe, frango, ovo, queijo, mas muito pouco. Não podemos pensar em dar proteína animal para 7 bilhões de pessoas, que evidentemente não a consomem de modo igualitário. É cruel o modo como o humano lida com o bicho, de forma tão disciplinada e escrota.

E os projetos junto com o (seu filho) Rafael Coutinho? Eu e Rafa estamos pensando em um evento para produzir coisas juntos. Fazíamos práticas de modelo vivo, mas tivemos de parar. Ainda não dá pra abrir, mas vai ser um curso online. Rafa é um puta desenhista, bem melhor que eu, inclusive, mas ele nunca entrou nessa coisa de humor. Sempre teve essa força de trabalho, desde muito jovem. Já eu tentei ser música até os 20 e tantos anos, depois é que virei cartunista. Pena, mas não toco tanto quanto tocava antes… Esse aqui é o piano da minha avó, que dava aulas no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, e sobrevivia disso, inclusive comprou até sua casa e vários pianos. Ser professor já foi uma profissão mais bem-remunerada.

O que você tem lido? Gostei muito do livro da Olga Tokarczuk, Sobre Os Ossos dos Mortos. Também leio muito a Bíblia de Jerusalém. Vou do Gênesis ao Apocalipse. É bacana. Continuo ateia, porém. Tenho lido muito sobre religião, que é um assunto muito bacana. O que estraga a religião é… a religião. Eu ia muito em igreja, gostava daquela vidinha. Mas lá pelos 13 anos eu percebi que Deus não existe. Me considero livre para apreciar o mundo. Foi estético também meu rompimento com a igreja. Queria me libertar de uma apreciação acadêmica da arte. Fui aberta à essa revelação por um amigo que tocava Bach ao violão. Tivemos uma conversa decisiva reveladora sobre religião e arte. De vez em quando isso acontece, é uma conversa simples com uma pessoa que você nunca mais viu que gira uma chavinha na sua cabeça. Deus era uma forma correta de entender o mundo, e eu me desvencilhei dessa concepção na juventude. Mas quando eu leio a Bíblia a última coisa que eu penso é em Deus. Quando eu assisti aos Dez Mandamentos a primeira vez, fiquei totalmente tomada por aquilo. Mas não era uma compreensão do divino. Era uma piração com o mar abrindo, os faraós, aquele poder… isso me remetia muito mais a magia do que a espiritualidade. Tipo filme de super-herói. Quando eu vi O Exorcista fiquei uma semana sem dormir, de tanto medo do diabo. Só sosseguei o rabo quando passou de novo Os Dez Mandamentos no cinema. Ou seja, o problema não era Deus, era um confronto de ficções (risos). Gosto da ideia da igreja quando você tem uma comunhão entre elas, não é preciso Deus. Sentimento de pertencimento, busca comum, familiaridade, comunidade. Não precisa de Deus pra isso. Mas eu não sou muito de festa, não saio por aí procurando loucamente uma comunidade. De vez em quando eu tenho vontade fundar uma igreja (risos).

O que te faz sair da cama? É a Muriel (risos). Não tenho uma visão depressiva da vida nem do momento que a gente vive, nem mesmo otimista. Gosto muito do que eu faço. O que me tira da cama e me apresenta um dia possível é a ideia de que eu vou fazer mais essas coisas. Vou continuar fazendo o meu trabalho infinitamente. O que me fez mudar radicalmente meus quadrinhos em 2005 foi saber que eu já tinha completado um ciclo de coisas, com piadas, personagens etc, era algo já pronto. Estou hoje nessa dinâmica, fazendo coisas que não fiz, e que me dão muito mais trabalho, e frustração também. Essa tira dos vermes não é a melhor tira que eu fiz, mas me fez chegar em um outro patamar. É pra isso que eu acordo todo dia. Outro dia fiz uma tira chamada Autofagia, em que o cara sem perna está fritando alguma coisa e olhando um livro de receitas. Nessa linha também fiz o “Sushi de Si”, que é um cara que tira uma fatia do braço. Fiz entre 15 e 20 mil tiras. Comecei em 1983. Mas uma boa parte é ruinzinha. Agora estou reorganizando o meu site. Quero dispor o meu acervo integral. Preciso ir ao banheiro.

Tá, então segue a última pergunta. O que é sorte? Nossa, então acho que vou fazer cocô… (Gargalhadas. Voltando) Talvez seja o mais fácil definir o que é falta de sorte. Eu conheci um sujeito que foi atropelado por um carro sem motorista (risos), isso sem falar dos outros azares dele, nem vou citar porque vamos identificá-lo. Tem gente assim. O que se passa que dá tudo errado? A sorte seria o contrário disso? Me vejo em uma situação muito boa, nasci numa famíia bem equipada, uma situação social invejável, acesso muitas coisas, nada foi proibido pra mim, embora não fosse uma família rica. Estudei, direcionei minha vida pro que eu quis, meus pais me apoiaram, resolvi ter uma vida feminina, meus pais, meus amigos, meus filhos deram joinha… o que é isso, privilégio? Nasci com o cu pra lua? A maior parte das pessoas não tem esse privilégio. A maior parte das trans do Brasil morre com 35 anos. É porque eu sou branca de classe média? Privilégio faz pensar que você está devendo. É injusto ser privilegiado, e me movimento na direção de diminuir isso, mas não porque me sinta privilegiada. Privilégio é a lei privada, o direito sequestrado. As coisas de que me beneficiei deveriam ser universais, e meu esforço é pra que elas sejam universais. Quando penso em sorte, penso em privilégios. Mas uma vez na Mercearia São Pedro eu ganhei um ovo de Páscoa gigante numa rifa. Então talvez eu seja mesmo uma sortuda (risos).

[Entrevista realizada originalmente para o jornal Cândido]

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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