As janelas indiscretas de Dave Eggers

Na cola de George Orwell e Aldous Huxley, O Círculo, novo romance de Dave Eggers, imagina um mundo transparente. Mas já estamos vivendo nele

Passear nu pela rua pode ser um pesadelo para muitos — mas está mais perto da realidade do que se imagina. No romance O Círculo (Companhia das Letras, 521 págs.), Dave Eggers cria um mundo em que a transparência é total. Ali é impossível ter segredos. Ali segredos são mentiras. Compartilhar é cuidar. Privacidade é roubo.

Caso tenha lembrado dos slogans de George Orwell, está em casa: embora narrado com leveza, O Círculo é uma distopia tão terrível quanto 1984, porque também usa a linguagem como centro catalisador da opressão. Como você se lembra, Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão e Ignorância é Força são os lemas que movem a realidade de 1984 (de 1948), em que todos os habitantes são vigiados por teletelas e governados pelo Grande Irmão. A sacada de Eggers, no entanto, está em temperar Orwell com o Aldous Huxley de Admirável Mundo Novo (de 1932). Ao contrário da horrorosa realidade de Orwell (que bebeu muito no modo como Kafka enxergava o totalitarismo), Huxley imaginou uma distopia invertida — em que todos são felizes, geniais, lindos e poderosos. E é o que faz Eggers neste romance, a começar pela primeira linha: “Meu Deus, pensou Mae. É o paraíso”. Ali, a transparência total não é imposta: é desejada.

O paraíso funciona em um cidade da Califórnia, tal como a maioria das empresas que nos vigiam — ou que usamos para vigiar os outros. O Círculo cria gadgets como a microcâmera SeeChange, poderosa, barata e de bateria quase ilimitada: as pessoas a espalham por todo o planeta (pense nos smartphones da Apple); lança-se a desafios quase inverossímeis, como contar os grãos de areia do Saara (tal como o Google Street View está documentando o norte africano); e monetiza as postagens dos usuários de sua rede social, aumentando os lucros do próprio negócio, ao sugerir que as pessoas espontaneamente trabalhem de graça — ao mesmo tempo em que monitora seus hábitos de consumo (oi, Mark Zuckerberg). Em suma, o Círculo reúne as mais poderosas corporações do Vale do Silício, as start-ups mais arrojadas e as mentes mais empreendedoras. O Círculo é animado pela elite planetária, trabalhar lá é como estudar em Oxford ou Harvard; não por acaso a empresa também é chamada de campus e oferece aos funcionários mais esforçados alojamentos confortáveis — porque uma hora é natural que se pergunte: “Mas pra que vou pra casa mesmo?”. No Círculo, as fronteiras entre público e privado são encorajadas a desaparecerem.

 

Voz do Big Brother

A protagonista Mae é uma garota de vinte e poucos anos que entra no Círculo tanto por brilhantismo quanto por ser amiga de Annie, que integra o grupo dos 40 profissionais mais ambiciosos do Círculo. Doce, ingênua, esforçada, caipira e insegura, Mae é o espelho inverso de Annie — rica, ambiciosa, sarcástica, autocrática e aristocrática. Annie é tudo o que Mae quer ser, e, para isso, não hesitará em dobrar sua psicologia ao avesso. Lá pelo meio do romance, Mae se torna a primeira pessoa “transparente” do mundo: cobaia do Círculo, passa a usar uma SeeChange em um pingente pendurado no pescoço e vira uma supercelebridade global. O pingente é um computador vestível (termo inventado pelo cientista Steve Mann, hoje aplicado tanto ao Google Glass quanto ao iWatch, relógio da Apple) que transmite ao público tudo o que ela está fazendo. Tudo mesmo.

O esquematismo desta ficção científica especulativa (subgênero em que a realidade imediata é exagerada e ambientada em um futuro próximo) é seu trunfo e seu problema. Todo narrado na terceira pessoa, o romance de Eggers é vítima de sua perspectiva. A voz neutra de Eggers é o Big Brother particular que “transmite” o romance; neste texto transparente, não há vestígio de ironia. Por sabermos tudo o que se passa no corpo e na mente de Mae, não guardamos suficiente distância de sua psicologia — e ela se torna uma personagem previsível, opaca, oca. Portanto, longe de se aproximar de visionários como Huxley e Orwell, O Círculo parece mais um documentário realista do mundo que já vivemos.

Há uma cena chocante em que, sem querer, com a microcâmera no pescoço, Mae publica um vídeo pornô. Mas casais já registram a si mesmos em momentos pós-coito no Instagram e sobem suas transas no PornoTube: é questão de tempo compartilharem carícias no Facebook ou gravarem pornôs caseiros para espantarem com os amigos o tédio dos domingos (na verdade já deve ter gente fazendo isso, e não falo da sextape de Kim Kardashian e Kanye West). Num capítulo assistimos a uma morte ser produzida ao vivo. Mas quantos snuffie movies não estão sendo divulgados nos portais neste exato instante? Para quem gosta de espiar as câmeras espalhadas pela cidade, logo chegará o momento em que será possível assistir a atropelamentos, homicídos e outros crimes ao vivo (Ballard adoraria). A morte, este tabu que guardávamos em segredo, nunca foi tão pública — ninguém mais liga se você fizer uma selfie em um velório ou enterro. Em outro momento, o Círculo sugere que todos os políticos fiquem “transparentes”, afinal de coisa não devem ter nada a esconder, e que todas as pessoas votem usando o perfil de sua rede social. Mas nas últimas eleições notamos o quão espontaneamente os eleitores divulgaram nas redes seus votos, antes secretos, ou mesmo clicaram e instagamaram suas urnas. Não deve demorar muito para que a Justiça Eleitoral seja terceirizada para o Facebook.

 

Gaiolas de vidro

Em 1921, o escritor russo Eugene Zamiatin descreveu o Estado Único, a sociedade transparente do romance distópico Nós (Anima, 1987, esgotado). Zamiatin viveu a Revolução de Outubro e tinha muita imaginação para o totalitarismo emergente na URSS: “Derrubaremos todas as paredes para deixar a aragem renovadora soprar livremente de um extremo a outro da Terra”. No Estado Único, os prédios são transparentes e os moradores só têm permissão para fechar cortinas durante os encontros íntimos — no que lembram tanto a gaiola de vidro onde Billy Pilgrim é mantido pelos tralfamadorianos de Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, quanto o Panóptico, aquele centro penitenciário ideal desenhado pelo filósofo Jeremy Bentham em 1785, cuja arquitetura permite ao vigilante, que permanece em um centro invisível, observar todos os prisioneiros sem que estes possam saber se estão ou não sendo observados.

Vários edifícios do Círculo têm paredes de vidro. Evidentemente tanto Eggers quanto Vonnegut, Orwell e Huxley beberam no texto fundador de Zamiatin para escreverem suas distopias. Afinal, não só para eles quanto também para gente como Ray Bradbury (em Fahreinheit 451, de 1953, publicado aqui pela Globo), JG Ballard (em The Atrocity Exhibiton, de 1960) e Margaret Atwood (O Conto da Aia, de 1985, editado pela Rocco), a falta de privacidade é o maior pesadelo em uma distopia totalitária. Tanto que vemos o personagem D-503, de Nós, tornar-se paulatinamente um idiota, Winston Smith, protagonista de 1984, um ser lobotomizado, e assistimos à heroína Mae, de O Círculo, desintegrar sob a pressão do escrutínio público até virar uma serviçal obediente e sem personalidade, cujo sonho é vasculhar os pensamentos de uma pessoa em estado de coma. Conforme Margaret Atwood afirmou sobre nossa sociedade do espetáculo: “Viver inteiramente em público é uma das mais solitárias formas de confinamento”. Ou ainda, como reflete Julien Sorel em O Vermelho e o Negro, de Stendhal: “A pior coisa na prisão é não poder fechar a porta”.

Outro livro contemporâneo sobre a vida sem privacidade é Meatspace, de Nikesh Shukla (lançado em 2014, sem tradução no Brasil), que segue a vida de um escritor solitário cujo único escape é o submundo da internet. “A primeira e última coisa que faço todo dia”, começa o livro, “é ver o que os estranhos estão falando de mim”. Meatspace, “o território da carne”, na terminologia criada por William Gibson, o autor de Neuromancer, é o mundo real, a realidade imediata, onde as coisas de fato acontecem (ou costumavam acontecer… vai saber). Nossa era tem visto uma quase completa diluição das esferas a que chamávamos privado e secreto. A ideia de vergonha se arrastou do secreto para o privado; assim, tudo aquilo que for mantido fora do domínio público pode ser percebido como suspeito, feio. Por isso o ato de defecar é tão usado como exemplo máximo da esfera privada (ups). Fazer sexo e fazer cocô são as únicas ações que as autoridades no Estado Único de Zamiatin permitiam fazer privadamente. No romance de Eggers também: mesmo ao urinar, Mae precisa manter a câmera ligada; a ela só é permitido desligar o som — afinal, a câmera aponta para a porta fechada do reservado no banheiro público do Círculo.

 

Território da intimidade

A polícia do pensamento de Orwell, exagerada na autoexposição de Eggers, é magnificada no conto The Minority Report, de Philip K. Dick (de 1956, saiu no Brasil pela Record), que deu origem ao filme homônimo de Steven Spielberg. Ali, as câmeras da polícia — através de agentes telepatas chamados precogs — devassam a mente de todos os seres humanos, possibilitando identificar os criminosos antes mesmo que eles venham a cometer crimes. Outro clássico da invasão da privacidade é The Atrocity Exhibition, de JG Ballard (nunca traduzido no Brasil), coletânea de contos que descrevem como os meios de comunicação em massa invadem a mente dos indivíduos. Sofrendo de uma crise nervosa, o protagonista, um médico psicótico, não dissocia os episódios de sua vida — quando tenta matar a própria mulher — de eventos da “vida real”, como a corrida espacial, o suicídio de Marilyn Monroe e o assassinato de Kennedy. A ideia de Ballard é que a contaminação da mente pelo hiper-real exposto na mídia acabe por destruir a ideia de um self privado, dissolvendo os limites entre indivíduo e sociedade. As fantasmagorias da indústria de celebridades seriam mais reais que sua vida pessoal. Soou familiar para você?

The Private Life — Why We Remain in the Dark (2013, sem tradução no Brasil), do crítico literário e psicanalista Josh Cohen, é um ensaio sobre a natureza mutante da privacidade na era do Facebook e das supercelebridades. Indo de Freud a Lydia Davis, Cohen fala da desesperada batalha da cultura dominante contra o self privado. Seu argumento é que tanto a fome por fofocas quanto as ineficazes tentativas dos mais ricos em proteger sua privacidade têm tornado a vida privada uma fonte de vergonha. As exposições dos tablóides reduzem a vida privada aos segredos mais sujos atrás da porta. Segundo ele, o que nem a imprensa nem os advogados de Jennifer Lawrence (ou de Carolina Dieckmann) reconhecerão, por tratar a privacidade como uma “propriedade” que pode ser “invadida” como uma casa — algo que pode ser possuído, roubado e revelado — , é a impossibilidade de conhecermos a real natureza do privado. Cohen lembra que a romancista George Eliot definia o privado como “o incartografável território dentro de nós”.  Em certa passagem, afirma: “Ao tentarmos ‘invadir’ a privacidade de alguém, seja através de um binóculo, seja hackeando seus emails, somos confundidos pela fantasia de flagrar o mais invisível self do outro. Mas o frustrante é que só conseguimos obter uma foto, uma imagem visível desse self — uma mera sombra da real substância que queremos ver. O self mais privado deve ser como uma fotografia em negativo que se apaga quando exposta à luz”.

No epílogo do clássico La Dolce Vita, de Fellini, Marcello — já transformado, de jornalista angustiado, com pretensão a ser escritor, em um publicitário amoral — observa uma enorme arraia ser capturada por pescadores. Ele fica fascinado ao observar que, mesmo morto, o animal ainda parece observá-lo. No entanto, ao ser chamado por uma linda menina na praia — ela o reconhece do tempo em que tentou ser escritor —, não consegue ouvir o que ela diz e vai embora. Na praia felliniana, a luz é quase branca. Superexposto à luz ofuscante, Marcello não consegue mais ver a beleza da menina nem sequer reconhecer a si mesmo. A grande arte sussurra que a transparência total poderá nos tornar invisíveis — mas só chegando lá é que poderemos ver esta realidade com nossos próprios olhos.

 

 

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* originalmente publicado na Revista da Cultura de dezembro de 2014

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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