O Conto de Natal de Auggie Wren

25 de dezembro tem outro sentido pra este velho ateu vindo de uma família tão fragmentada quanto um arquipélago

Pra mim o que importa é passar este dia ao lado de boas pessoas e boas comidas e boas histórias (de preferência, histórias não piegas). Ou simplesmente passar sozinho, de boinhas, como já escrevi em Foda-se o Natal: você não é obrigado a compartilhar a felicidade obrigatória que metade do planeta impinge nesta época. Mas enfim. Para a última proposta do meu curso de ficções breves, traduzi este conto do Paul Auster, um judeu que não liga muito para o nascimento do Messias — mas não a ponto de não cometer uma obra-prima do gênero “conto de Natal”.

Em 1995, Wayne Wang transformou o continho no belo Smoke (Cortina de Fumaça), que teve uma sequência genial, Blue in the Face (Sem Fôlego). Os créditos finais do filme são justamente o conto de Auster, porém sem palavras — a não ser as palavras cantadas por Tom Waits em uma de suas canções mais poderosas. Compartilho conto e clipe com vocês (e compartilhar é partir o pão com). Ho ho ho.

Quem me contou essa história foi o próprio Auggie Wren. Já que o Auggie não faz um papel muito bonito na história, ou pelo menos não tão bonito como gostaria, me pediu que não usasse o nome dele. Fora isso, todo aquele negócio de carteira perdida e cega e jantar de Natal é igualzinho o que contou.

Conheço o Auggie já faz uns onze anos. Ele trabalha numa tabacaria que vende charutos em Court Street, no centro de Brooklyn, e como é a única loja que tem as cigarrilhas holandesas que adoro fumar, vou lá bastante. Durante muito tempo não prestei atenção no Auggie Wren. Era aquele figura esquisito que usava moletom azul de capuz e me vendia charutos e revistas, o típico engraçadinho irônico que sempre conta alguma piada sobre o tempo ou os Mets ou os políticos de Washington, e não passava disso.

Aí, uns anos atrás, ele folheava uma revista na loja e caiu na resenha de um livro meu. Soube que era eu porque a resenha era acompanhada de uma foto; depois disso as coisas mudaram entre nós. Eu não era mais só um cliente pro Auggie, tinha virado um cara famoso. A maioria das pessoas não dá a menor importância a livros e a escritores, só que o Auggie se considerava um artista. Agora que tinha descoberto o meu segredo, me viu como um aliado, um confidente, um irmão em armas. Pra dizer a verdade, isto me deixava meio sem graça. Assim, quase inevitavelmente, chegou o momento em que me perguntou se eu gostaria de ver suas fotos. Parecia tão entusiasmado e tão contente que não tive como recusar.

Só Deus sabe o que eu esperava. No mínimo, não era bem o que Auggie me mostrou no dia seguinte. Num quartinho sem janela no fundo da loja, abriu uma caixa de papelão e tirou doze álbuns de fotografias, todos iguais, pretos. Era a obra da vida dele, disse, e não lhe tomava mais de cinco minutos por dia. Todas as manhãs dos últimos doze anos ele se postava na esquina da Atlantic Avenue com a Clinton Street, exatamente às sete horas, e tirava uma única fotografia colorida, exatamente no mesmo lugar. O projeto já reunia mais de quatro mil fotos. Cada álbum representava um ano diferente, e as fotos estavam ordenadas em sequência, do primeiro de janeiro a 31 de dezembro, com as datas cuidadosamente registradas por baixo de cada uma delas.

Folheando os álbuns, começando a estudar o trabalho de Auggie, não sabia em que pensar. Minha primeira impressão foi de que era a coisa mais bizarra e desconcertante que eu já tinha visto. As fotografias eram todas iguais. O projeto era um ataque feroz e anestesiante da repetição, sempre a mesma rua e sempre os mesmos prédios, um delírio firme e constante de imagens redundantes. Não consegui pensar em nada que pudesse dizer a Auggie, por isso continuei a virar as folhas, mexendo a cabeça numa admiração fingida. O Auggie parecia imperturbável, me observando com um sorriso enorme, mas depois de eu passar uns minutos vendo aquilo me interrompeu de repente:

– Você está indo depressa demais. Assim nunca vai entender, tem que ir devagar. — E tinha razão, claro. Se não detivermos o olhar, nunca veremos nada. Peguei outro álbum e me obriguei a percorrê-lo lentamente. Dei mais atenção aos detalhes, reparei nas mudanças do tempo, procurei ver os ângulos mutáveis da luz à medida em que as estações avançavam. E acabei mesmo por conseguir detectar diferenças sutis no fluxo do trânsito, prever o ritmo dos vários dias (a confusão das manhãs dos dias úteis, a calmaria relativa dos fins de semana, o contraste entre os sábados e os domingos). E depois, pouco a pouco, comecei a reconhecer os rostos das pessoas ao fundo, os passantes a caminho do emprego, as mesmas pessoas no mesmo lugar toda manhã, vivendo um instante das suas vidas no campo de visão da máquina de Auggie.

Depois de conhecê-los, passei a lhes estudar a postura, a atitude de seus corpos de uma manhã para a seguinte, tentando desvendar seus estados de espírito a partir destas indicações superficiais, como se pudesse imaginar histórias para eles, como se pudesse penetrar nos dramas invisíveis fechados em seus corpos. Peguei outro álbum. Já não me chateava, nem me deixava perplexo, como no começo. O Auggie fotografava o tempo, percebi, tanto o tempo natural como o humano, e o fazia postando-se numa esquina minúscula do mundo e se apropriando dela pela vontade, montando guarda no espaço que tinha escolhido para si próprio. Me observando estudar seu trabalho, Auggie continuava a sorrir de prazer. Depois, quase como se lesse meu pensamento, começou a recitar um verso de Shakespeare. “Amanhã e amanhã e amanhã”, disse baixo, “rasteja o tempo, em seu pequeno passo”. Aí saquei que ele sabia exatamente o que fazia.

Isso foi há mais de duas mil fotos. Desde esse dia eu e Auggie temos conversado muitas vezes sobre seu trabalho, mas foi só a semana passada que soube como tinha descolado a máquina e começado a tirar fotos. Foi esse o assunto da história que me contou, e ainda agora não sei muito bem que sentido esconde.

Antes, nessa mesma semana, um homem do New York Times me ligou e me perguntou se eu queria escrever um conto para o jornal publicar na manhã de Natal. Meu primeiro impulso foi dizer que não, mas o homem era sedutor e insistente, e, no final da conversa, disse pra ele que tentaria. Assim que desliguei o telefone, no entanto, caí num pânico profundo. Que é que eu sabia sobre o Natal?, me perguntei. E como escreveria um conto sob encomenda?

Passei os dias seguintes desesperado, lutando contra os fantasmas de Dickens, O. Henry e outros mestres do espírito natalino. A própria expressão “conto de Natal” tinha para mim associações desagradáveis, evocando medonhas exibições de pieguice hipócrita e melosa. No seu melhor, os contos de Natal não passavam de sonhos que realizam desejos, contos de fadas para adultos, e euseria um vagabundo se alguma vez me permitisse escrever coisas desse naipe. Porém, como alguém se propõe escrever uma história de Natal que não seja sentimental? Era uma contradição em termos, uma impossibilidade, o pior tipo de quebra-cabeças. Tipo imaginar um cavalo de corrida sem patas, um pardal sem asas.

Não rolava. Quinta-feira saí para dar um belo passeio a pé, na esperança de que um golpe de ar me desanuviasse a cabeça. Passava um tanto do meio-dia quando parei na tabacaria para me reabastecer, e o Auggie estava atrás do balcão como sempre. Me perguntou como é que eu estava. Sem ter essa intenção, acabei choramingado minhas dúvidas. “Uma história de Natal?”, disse, quando acabei. “Só isso? Se me levar pra almoçar, meu amigo, te conto a melhor história de Natal que você já ouviu. E te garanto que é 100% verdadeira”.

Fomos até ao fim da rua, no Jack’s, uma lanchonete lotada e barulhenta, que tinha ótimos sanduíches de pastrami, na parede fotos de velhos times dos Dodgers. Arranjamos uma mesa no fundão, pedimos nossos pratos e o Auggie começou a história.

– Foi no verão de 1972, disse. Uma manhã entrou um carinha na loja e logo começou a roubar coisas. Devia ter aí uns dezenove, vinte anos, e acho que nunca vi na vida um ladrão tão desastrado. Ficava ali perto do expositor de livros de bolso, na parede do fundo, e ia lotando de livros os bolsos do casaco. Nessa altura tinha gente pra caramba no balcão, eu ainda não o tinha visto. Mas assim que notei o que estava tramando, soltei uns berros. Ele disparou a correr feito um coelho e quando consegui sair de trás do balcão, ele já tinha desembestado Atlantic Avenue abaixo. Fui atrás dele até o meio do quarteirão, mas desisti. Ele tinha deixado cair qualquer coisa no caminho, e como eu não tinha fôlego pra correr, abaixei pra ver.

Acontece que era a carteira dele. Não tinha dinheiro, mas estavam lá a carteira de motorista e mais umas três ou quatro fotos. Eu podia ter chamado a polícia e mandado atrás dele. Tinha o nome e o endereço na carteira de motorista, mas meio que me deu pena. Era um zé-mané, a cara toda marcada de bexiga, e foi só olhar pras fotos da carteira que minha raiva passou. Robert Goodwin era o nome. Numa das fotografias estava em pé, o braço por cima dos ombros da mãe, ou da avó. Noutra, estava sentado, com nove ou dez anos, num uniforme completo de beisebol, sorrisão na cara. Perdi a coragem. Agora devia estar usando alguma droga, imaginei. Um carinha pobre do Brooklyn sem futuro, que importância teriam dois míseros livros de bolso?

Assim, fiquei com a carteira. De vez em quando sentia uma certa vontade de mandá-la pra ele, mas fui sempre adiando, e nunca fiz nada. Daí o Natal chegou e eu estava meio de bobeira. O patrão costumava me convidar a ir pra sua casa no Natal e passar o dia, só que nesse ano ele tinha ido com a família para a Flórida, visitar uns parentes. E estou em casa, de manhã, meio baixo-astral, me sentindo um merda, quando vejo a carteira do Robert Goodwin numa prateleira da cozinha. Pensei, beleza, que coisa, por que não fazer uma boa ação, só desta vez, aí peguei o casaco e saí pra devolver a carteira.

O endereço era Boerum Hill, perto da área dos condomínios sociais. Estava um frio de rachar, e lembrei que me perdi umas vezes procurando o prédio. Aquilo parece tudo igual, você fica andando em círculos no mesmo lugar e pensa que já está em outro. Mas pronto, finalmente cheguei no bloco que procurava e toquei a campainha. Não acontece nada. Pensei que não tivesse ninguém em casa, mas toquei outra vez, só pra ter certeza. Esperei mais um pouquinho e quando já estava desistindo ouvi alguém arrastando os pés até a porta. Uma voz de velha pergunta quem é, aí falo que estou procurando Robert Goodwin.

– É você, Robert? — a velha disse, girando umas trocentas fechaduras até abrir a porta. Devia ter no mínimo uns oitenta anos, vai ver uns noventa: a primeira coisa que reparei é que era cega. — Tinha certeza que você vinha, Robert — diz. — Sabia que não ia esquecer da tua avó Ethel no Natal. — E abriu os braços como se fosse me abraçar.

Não tive muito tempo pra pensar, entende? Tive que dizer logo qualquer coisa, e antes de tomar consciência do que estava acontecendo, ouvi as palavras me saírem da boca.

– É mesmo, vó Ethel — disse. — Voltei para te ver no Natal. — Não me pergunte por que fiz isso. Não faço a menor ideia. Vai ver eu não queria dar uma de estraga-prazeres, não sei. Foi o que saiu, e de repente eu e a velhinha nos abraçamos ali na porta.

Não disse exatamente que eu era o neto dela. Ou pelo menos não disse com todas as letras, mas ficou implícito. Não estava tentando enganá-la. Era uma espécie de jogo que tínhamos decidido jogar os dois — sem discutir as regras. Ou seja, a mulher sabia que eu não era o neto dela, o Robert. Estava velha e meio totoca da cabeça, mas ainda não tinha passado tanto assim pro outro lado a ponto de não sacar a diferença entre um estranho e a carne da sua carne. Mas estava toda contente fingindo, e já que eu não tinha nada de melhor pra fazer, também achei melhor entrar na dela.

Assim, entramos no apartamento e passamos o dia juntos. Te falo de cara que a casa estava um lixo completo, mas não se pode esperar outra coisa de uma cega que limpa a sua casa. Toda vez que me perguntava o que eu fazia da vida, eu mentia. Disse que tinha arrumado um emprego numa tabacaria, que ia casar, contei uma pá de histórias bonitas, e ela fazia de conta que acreditava em tudo.

– Que bom, Robert! -, dizia, acenando com a cabeça e sorrindo. — Sempre soube que você ia se sair bem.

Daí a pouco comecei a ficar cheio de fome. Não parecia ter muita comida em casa, então fui numa loja ali do bairro e trouxe um monte de coisas. Um frango pronto, uma sopa de legumes, uma embalagem com salada de batata, um bolo de chocolate, toda uma cesta básica. A Ethel tinha duas garrafas de vinho muquiadas no quarto e juntando tudo levantamos um jantar de Natal de responsa. Ficamos os dois meio breacos com o vinho, lembro, e quando acabamos de comer fomos pra sala, onde as cadeiras eram mais confortáveis. Tive de ir mijar, pedi licença e fui ao banheiro no fim do corredor. Foi aí que as coisas deram outra reviravolta. Já era um baita despropósito estar ali pagando de neto da Ethel, mas o que eu fiz na sequência foi completamente louco. E nunca me perdoei.

Entrei no banheiro e vi umas seis ou sete máquinas fotográficas meio que mocozadas na parede do lado do chuveiro. Câmeras de trinta e cinco milímetros novinhas em folha, ainda nas caixas, mercadoria de primeira. De cara saquei que deve ter sido trabalho do verdadeiro Robert, o lugar onde guardou seus roubos mais recentes. Nunca tinha tirado uma foto na vida, e nunca na vida tinha pensado em roubar alguma coisa, mas, assim que vi as máquinas no banheiro, resolvi que queria uma para mim. Assim, sem essa nem aquela. E sem parar pra pensar, meti uma caixa debaixo do braço e voltei pra sala.

Não demorei mais que uns minutos, e nesse tempo a vovó Ethel tinha cochilado na cadeira. Chianti demais, pensei. Fui pra cozinha lavar os pratos e ela continuou a dormir com aquela barulheira toda, roncando feito bebê. Não vi razão para incomodar a velhinha, e decidi sair fora. Nem podia escrever um bilhetinho de despedida, já que ela era cega, assim fui embora sem falar nada. Deixei a carteira do neto dela em cima da mesa, peguei a máquina e saí do apartamento. E assim acaba a história.

– Voltou lá alguma vez, para vê-la?, perguntei.

– Uma vez — disse ele, — uns três ou quatro meses depois. Me senti tão mal por ter roubado a máquina que nem mesmo a tinha usado ainda. No fim, resolvi devolver, mas a Ethel não morava mais lá. Não sei o que aconteceu, só que alguém tinha se mudado pro apartamento e não me soube dizer pra onde ela tinha ido.

– Vai ver que morreu.

– Sim, deve ter sido isso.

– O que quer dizer que ela passou seu último Natal com você.

– Acho que sim. Nunca tinha pensado nisso.

– Foi uma boa ação, Auggie. Foi uma coisa boa que você fez por ela.

– Menti pra ela e depois roubei! Como é que você pode chamar isso de boa ação…

– Você fez a velhinha feliz. E, de todo modo, a máquina já tinha sido roubada. Não é a mesma coisa como se você tivesse roubado do dono.

– Tudo pela arte, não é, Paul?

– Não diria tanto. Mas pelo menos você deu um bom uso pra máquina.

– E agora você já tem a sua história de Natal, né?

– É — disse. — Acho que sim.

Fiz uma pausa, observando Auggie, enquanto um sorriso malandro se espalhava pela sua cara. Não pude ter certeza, mas a expressão em seus olhos nesse momento era tão misteriosa, tão cheia do brilho de um deleite interior, que de repente me ocorreu que ele tivesse inventado aquilo tudo. E ia perguntar pra ele se estava de sacanagem comigo, mas de cara entendi que ele jamais me diria. Tinha sido levado ao engano, ao acreditar nele, e essa era a única coisa que importava. Desde que exista uma pessoa que acredite, não há história que não possa ser verdadeira.

– Bela história, Auggie — disse. — Obrigado pela ajuda.

– Às ordens -, respondeu, me olhando ainda com aquela luz maníaca nos olhos. — Afinal, se não se pode contar os segredos aos amigos, pra que ter amigos?

– Fico te devendo um favor.

– Não, não fica. Escreve lá tudo como eu te contei, e não me deve nada.

– Só o almoço.

– É isso. Só o almoço.

Retribuí a risada do Auggie com um sorriso, chamei o garçom e pedi a conta.

[tradução RB]

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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