Laerte em crise

Passada a controvérsia após assumir seu hábito de travestismo, um dos principais cartunistas em atividade no Brasil agora assume outra crise: com o humor

 

por Ronaldo Bressane

 

Ajude o Laerte a Ter Peitos. Não é piada: Laerte Coutinho, 61, está em crise existencial, artística, sexual – e financeira. Por conta disso, pensa em lançar uma campanha de crowdfunding para bancar suas próteses de silicone. “Eu só preciso de dez paus! Meu filho Rafael precisava de 32 paus para seu projeto O Beijo Adolescente e conseguiu tudo em dois meses. Não quero virar mulher, não tenho desconforto com meu pênis. Mas, além de depilar a barba com laser e pintar as unhas, tenho gostado de usar próteses de seios para usar com sutiã de bojo. O problema é que se mal consigo pagar minhas contas, como vou pagar meus implantes? O jeito é apelar pro crowdfunding…”, ri.

O devaneio foi um dos raros momentos de escracho do papo de Laerte com a Living Alone no café da galeria de arte b_arco, em Pinheiros, São Paulo. É que ele anda meio jururu. Passada a controvérsia com a divulgação de sua onda crossdresser, há dois anos – o que incluiu um escândalo por se declarar favorável ao uso do banheiro feminino –, sua condição exótica parece ter sido bem digerida pela sociedade e pela mídia: “Tive muito mais apoios do que desapoios”, afirma. No entanto, o que tem deixado macambúzio um dos grandes cartunistas em atividade, que fez todo o país rir com as tiras dos Piratas do Tietê, Overman, Deus, Hugo Baracchini, Os Gatos e tantos outros personagens antológicos, é a própria natureza de seu trabalho: o humor.            ]

“Mantenho pra mim o mito de que o humorista é de esquerda, meio socialista”, diz. “Mas tenho visto o contrário. Hoje a dose de reacionarismo dos nossos humoristas me coloca em dúvida se tenho a mesma profissão que eles. Vejo uma armadilha em cima dessa defesa da piada do Rafinha [Bastos, que provocou polêmica ao brincar que ‘comeria ela e o bebê’, referindo-se a Wanessa Camargo e seu então feto]. Claro que ele pode fazer a piada que quiser, sou contra censura. Mas o sujeito se colocar como um incompreendido acima da crítica… não tem graça. Millôr Fernandes, que era um notório homofóbico, externava sua homofobia com frases geniais: dizia que o homossexualismo é questão de ‘furo íntimo’ [risos]. Nosso ambiente é muito machista. Conheço muitos humoristas gays que escondem sua condição a sete chaves”, revela.

Laerte vê na postura de politicamente incorreto de humoristas como Rafinha Bastos uma reação conservadora contra os avanços de minorias sociais. “Sou contra as pessoas que se adequam a um pensamento acomodado”, posiciona-se. “Hoje há um um consenso de que os direitos adquiridos por minorias sociais – negros, gays, mulheres, índios etc – são benéficos. Mas aí aparece o politicamente incorreto oportunista, como o [filósofo e colunista da Folha de S.Paulo] Luiz Felipe Pondé, que ataca esses pequenos avanços se colocando contra esse consenso, e, por causa disso, se afirmando como alguém corajoso – ele se acha o rei da cocada preta! Só que o Pondé não está sendo crítico, e sim um mero conservador, pois quer manter o status quo que havia na sociedade antes dos avanços dos direitos das minorias. Ele propõe a manutenção de velhos preconceitos. A coluna que escreveu sobre aquela agressão contra gays na Paulista é um disfarçado estímulo àquela violência: só faltou ele elogiar os agressores. Felizmente, como não assino mais jornal, parei de ler o Pondé, o João Pereira Coutinho e o Ferreira Gullar”, ri o/a cartunista.

Laerte diz que mesmo em sua história profissional há muitos momentos de humor homofóbico – abandonados ao se afirmar bissexual. “Na verdade, a homossexualidade foi minha primeira descoberta: comecei a vida sexual com um homem”, conta. “Anos depois, escondi qualquer manifestação de tesão por homem. Neguei, neguei… ninguém é gay!”, trocadilha. Assim, quando passou a se vestir de mulher, as piadas homofóbicas acabaram perdendo a graça para ele – a presença de um conteúdo afetivo anula o efeito humorístico: “Se você fizer piada de Alzheimer na casa de alguém que tem Alzheimer, isso não vai ter graça nenhuma”, explica.

Foi o trabalho que guiou Laerte em seu processo de autodescoberta. A crise se abriu com a dupla de persoanagens Hugo Baracchini / Muriel. Publicado no caderno Tec da Folha de S.Paulo, Hugo é um sujeito comum, às voltas com problemas normais – o tamanho do pênis, o computador que trava, a falta de privacidade. Então Hugo passou a experimentar se vestir de mulher – gostou tanto que se transformou na Muriel. “Acabei indo no Brazilian Crossdresser Club porque o Hugo se montava em 2004, e uma leitora me escreveu dizendo: ‘Se você tiver essa vontade, é bem-vindo ao nosso grupo’. Aí, em 2009, me aproximei mesmo”, recorda. A sexualidade ainda é uma questão em processo para o sessentão. “Meus encontros homossexuais sempre foram clandestinos. Racionalmente, sei que é bobagem, mas ainda vejo isso como crime, pecado ou doença. Ao mesmo tempo, tenho uma namorada”, conta. Sua busca pela identidade sexual passa muito pelas palavras que usa para se definir. “Hoje se fala em androfilia, tesão por homem; acho mais preciso, pois você fala do desejo. Do mesmo modo, gosto mais da palavra travesti do que de crossdresser; nos EUA, crossdressers são heterossexuais que se vestem de mulher. Aqui, são pessoas de classe média, diferentes dos travestis que se prostituem. Mas no Brasil os crossdressers são pró-armário, querem se manter socialmente como homens. E resolvi que não quero ficar no armário”, diz.

Sua tomada de atitude espantou fãs, ganhou aplausos, porém gerou muitas críticas – em especial após o episódio em que Laerte se recusou a usar o banheiro masculino da padaria Real, em São Paulo. “Tenho me assombrado com a importância que as pessoas deram a esse tema. Afinal, foi uma coisa bem tardia: não é espantoso que um sujeito se dê ao trabalho de fazer isso agora, aos 60 anos? Fui até pouco corajoso – deveria ter feito isso há 40 anos, quando os desafios eram maiores, enfrentaria filhos pequenos, amigos presentes, trabalho, ir a reuniões de pais e mestres montada…”, ri. Contudo, embora encare as críticas com humor, Laerte se chateou com comentários agressivos. Um jornalista escreveu que ou ele era um oportunista que queria aparecer, ou tinha ficado maluco, após ter perdido o filho Diogo – em 2005, em um acidente de automóvel. “Foi uma perda muito brutal… E no meu caso, não tenho consolo na religião. Fui radicalmente religioso na adolescência, mas perdi a fé aos 15 anos. Porém, a morte do Diogo me deu a possibilidade de perceber a inutilidade de certas demoras e convenções na minha vida. Face à morte, por que hesitar em tomar atitudes? Claro que nada do que vim a radicalizar eu comecei após a sua morte – já havia um processo em curso. Mas talvez a morte do Diogo tenha sido um divisor na minha vida, no sentido de perder o medo de qualquer resolução”, reflete.

Os primeiros dias em que se assumiu como crossdresser foram de muito medo e alvoroço: como enfrentar o assombro e o bullying da sociedade? Laerte também mal sabia como se vestir. Se hoje ela/ele tem seus momentos de drag queen, ao querer se apresentar todo dia publicamente como mulher encontrou dificuldades. Demorou a pintar as unhas de azul, por exemplo. Em 2009, quando começou a ir à padaria montada, usava peças que hoje engavetou. “Mesmo para as mulheres, encontrar seu estilo é um processo de descoberta. Só que eu tive de fazer um intensivão”, ri. Foi positivo para a aceitação da sociedade o fato de aparecer intensamente na mídia? “Sim: na cultura brasileira isso redime uma pessoa – ‘Ah, é artista, tudo bem’, dizem. E em geral as pessoas tiveram muito carinho comigo. O curioso é eu ter ficado mais famosa por causa disso. Todo o patrimônio conquistado com os quadrinhos foi superado através dessa simples atitude. Hoje eu sou considerada uma pessoa que tem uma atitude transgênera, muito mais do que um cartunista”, diz.

O que não deixa de ser estranho – entre leitores, críticos e colegas, é consenso tratar Laerte como uma espécie de Buda do cartum, um Jedi com uma capacidade poética singular em tocar em assuntos difíceis de modo prosaico, surrealista e surpreendente. Gênio é termo recorrente ao descrever o trabalho do autor de Muchacha, graphic novel que publicou recentemente, que ganhou o HQMix, mais importante premiação brasileira nos quadrinhos. Mas ele não se acha um gênio. “A quem me diz isso, replico: você precisa ler mais. Gênio é Caetano Veloso, Millôr Fernandes”, diz este seguidor de Ziraldo, Henfil, Fortuna e Jaguar. Laerte diz querer fazer coisas menos elaboradas, mais simples: está pesquisando ideias que usava quando era adolescente – coisas que abandonou antes de virar profissional. Sonha em desconstruir sua narrativa. “Por exemplo, a Esfinge, uma história que desenhei para a revista Piauí, embora superelogiada, tem um encaminhamento clichê – eu sempre uso aquele everyman, um cara comum, com uma família normal, a quem acontece algo de surpreendente, mas que ele não considera surpreendente. Só que aos poucos tenho percebido que padrão é algo que não existe. Aí tendo a trabalhar com o fantástico”, desenvolve.

Solitário convicto, Laerte – ou Sônia, nome que às vezes usa, dependendo do estado de espírito – acorda leve, de bom humor, assobiando. Faz seu café da manhã e já vai cuidar da Celina, sua gata paraplégica de oito anos. Arruma a casa e só começa a trabalhar lá pelas 10h30. Faz a rotina: abastecer a Folha de tiras – para a diária na Ilustrada, para seu espaço de sábado, a Lola para a Folhinha e o Hugo para o caderno Tec. E toca vários frilas. Diz invejar a capacidade do colega e amigo Angeli, que, mesmo se autodefinindo permanentemente “em crise”, chega a passar 12 horas direto sentado à prancheta. “Sou um preguiçoso: no máximo trabalho umas três horas por dia. Tenho uma inabilidade muito grande em me gerenciar. E o fato é que não tenho grana: com 60 anos, tenho de trabalhar todo dia – não tenho nem plano de saúde! Talvez minha vida de dona de casa me atrapalhe”, brinca. Se bem que ele tem se sentido meio estrangeiro em casa. “Sinto que não tenho um lar há muito tempo, desde quando eu estava casado. Também não me reconheço mais em São Paulo. Acho que a cidade ficou grande demais”, lamenta.

Mas nem tudo é mimimi na vida desse sexygenário. Ele acabou de se tornar avô, ou avó: seu filho Rafael Coutinho, também cartunista – co-autor de Cachalote, considerada uma das melhores HQs dos últimos anos –, acaba de virar pai do Valente. Como o neto vai chamá-lo? “Do que quiser, vô ou vó, tanto faz. É muito legal cuidar de um bebê de outra pessoa. Se bem que meu filho é superdedicado”, coruja. Alguma competição entre pai e filho? “Nenhuma! Gosto demais do trabalho dele. Ele é muito melhor do que eu, tem um volume de trabalho gigante, uma paciência artesanal essencial para um quadrinista, desenhou histórias longuíssimas. Já eu sou muito impaciente com minhas tentativas de histórias mais longas: estou escrevendo uma história para um projeto dele que vai ter 24 páginas, mais longa que A Noite dos Palhaços Mudos [uma de suas histórias mais elogiadas]. Mas é angustiante”, diz. E por que tanta angústia? Afinal, como diria Freud, o que quer Laerte? “Ah, é infernal, né? Me desculpe. Eu mesma não me aguento!”, ri o/a cartunista.

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*originalmente publicado na revista Living Alone de novembro de 2012

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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