Púbico e público

De vida curta e obra transbordante, Ana Cristina Cesar moveu-se na estreita linha que divide a existência e sua encenação

A poesia como diário íntimo, a musa como mesa de bar, a academia como biombo para o canto de sereia das viagens e dos amores expressos — eis aí alguns paradoxos que cercam este mistério chamado Ana Cristina Cesar. A homenageada desta Festa Literária Internacional de Paraty teve somente quatro pequenos livros lançados durante a breve existência, mas a influência destes e dos que foram publicados postumamente, bem como sua própria trajetória, é cada vez mais ampla sobre a poesia brasileira. Lançado ano passado, Poética (Companhia das Letras), que abarca a produção em em prosa e verso, caminha para a quarta tiragem; feito raro para a poesia, o calhamaço vendeu 15 mil exemplares.

Vários paradoxos iluminam a posto incomum de Ana C. Sua escrita incorpora a dicção antiliterária da “poesia marginal” do começo dos anos 70 (Chacal, Cacaso, Chico Alvim), que buscavam o tiro certeiro da poesia-minuto (presente em Oswald de Andrade) e o tom coloquial (sobretudo em Manuel Bandeira), mas ao mesmo tempo dialoga com uma sólida formação literária, em que coabitam a tradição moderna (Baudelaire), a poética da citação (T.S. Eliot) e uma curiosa “lírica do transbordamento”, que ela mesma desenhou na linha que liga Walt Whitman a Álvaro de Campos e a Allen Ginsberg. Ao lado de sua caudalosa produção poética, Ana C. produziu ensaios sobre cinema e literatura, temas que nortearam densas correspondências com amigos como Armando Freitas Filho e Caio Fernando Abreu. Sua atividade acadêmica, presente em dois mestrados, em aulas universitárias e na escrita incessante de artigos, não afastava o pendor para a boemia e as viagens, bem como a investigação de amores livres de compromisso de qualquer gênero. Ainda que não fosse militante feminista, é evidente o comprometimento de sua escrita com a pesquisa das especifidades femininas. Por fim, sua morte precoce a conecta a uma tradição de poetas suicidas como a russa Maria Tsvetaeva e a norte-americana Sylvia Plath (que aliás Ana C. traduziu), e sabemos o fascínio que provoca este fato perturbador.

Ana Cristina Cesar nasceu no Rio de Janeiro a dois de junho de 1952. Era loura e tinha os olhos de um azul profundo. Antes mesmo de escrever já fazia poesia, ditando versos para a mãe Maria Luiza. Estudou inglês no colégio Bennet e anotava furiosamente seus livros, conversando com o autor; seu exemplar de A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector, contém sugestões e críticas.  Adolescente, escreveria poemas e para eles criaria livrinhos caseiros. Aos 17 anos partiu para a Inglaterra; de sua estada europeia, dizia que o legado mais importante era ter deixado de acreditar em Deus. Não foi pouco desbunde, tendo em vista que seus pais eram evangélicos — o pai Waldo comandou a Confederação Evangélica do Brasil. Formou-se em Letras pela PUC/RJ em 1975; enquanto dava aulas de português e inglês, escrevia em lugares como o Opinião, mais importante e combativo veículo da imprensa alternativa da época. Em 1976 foi incluída na impactante antologia 26 Poetas Hoje (Aeroplano), organizada pela amiga Heloísa Buarque de Holanda, figurando ao lado de gente como Cacaso, Chacal, Francisco Alvim, Waly Salomão: a chamada “geração mimeógrafo” ou “geração marginal”, por estar tanto à margem do mercado editorial quanto margear os costumes vigentes com seus ares contraculturais e sua dissonância direta porém distante em relação à ditadura e à censura. Mestrou-se em comunicação pela UFRJ em 1979 com um ensaio relacionando literatura a cinema e rumou à Universidade de Essex, onde receberia o master of arts em tradução literária com o conto “Bliss”, de Katharine Mansfield, outra influência forte, ao lado de Emily Dickinson.

“Era encantadora, dona de um sotaque carioca aveludado e de uma prosa tão elegante que fazia meu vinho ou conhaque parecerem um interminável chá das cinco”, descreve-a Reinaldo Moraes, que a conheceu enquanto ela passava férias em Paris. “Eis que no meio do blá a cabeça da poeta desperta no horizonte do mezanino. Loira, cabelos frisados formando uma espécie de halo ou moldura em volta do rosto. Olhos azuis repletos de sono. ‘Te acordamos, Lígia?’ pergunta Sylvana com voz tão malemoleca que eu já imagino que as duas… ‘Não…’ responde Lígia, esfregando os olhinhos avermelhados. Só quero fazer xixi”. É assim que Ana Cristina Cesar (Lígia) aparece em Tanto Faz. Moraes perdeu a conta das vezes em que teve de responder que não namorou a poeta, que lhe deu palpites certeiros na construção do romance.

“Sou uma mulher do século XIX/ disfarçada em século XX”: apesar do flerte com os marginais, o comportamento de Ana C. estava mais para universidade que licenciosidade. “Quanto a drogas, Ana Cristina nunca foi adepta”, conta Italo Moriconi em Sangue de Uma Poeta (Relume Dumará). Nem maconha, nem bebida, nem a cocaína onipresente no Rio dos anos 80: preferia “chás, remédios homeopáticos, iogas e ginásticas alternativas (…) Não se permitia desativar seu louco giroscópio de lucidez”. Entanto, Ana C. não dispensava a muvuca dos desbundados que grassavam no Baixo Leblon, aparecendo com seu “chapelão de palha, o casaquinho jeans, os olhos sempre alertas atrás das lentes escrutinadoras e a meiguice que ela sabia reservar sem poupanças para aqueles de quem gostava”, descreve Moriconi.

Só não curtia longas discussões políticas. Quando o papo enveredava pra esse lado, deixava os olhos azuis passearem vagamente pelo teto e pelas paredes, fazendo com a mão aquele gesto típico dela de quem parecia sempre estar escrevendo. Era era uma marca registrada de Ana C, conta o poeta e professor. “Gesto de escrever com a mão vazia, fechada sobre si mesma como se empunhasse o lápis, percorrendo a superfície mais próxima, mesa de bar, espaldar da cadeira, as próprias pernas. Mesmo atenta ao interlocutor, a mão desviava, perdia-se em arabescos cegos, fingindo escrever.” Caso a ideia que lhe acorria à mente de fato valesse a pena, Ana C. abria a bolsa, tirava de lá um caderninho, uma agenda, um caderno de capa dura com cadeado, e anotava um comentário-pílula — que mais tarde certamente cairia para dentro de um poema.

Se fugia da política partidária, Ana C. nunca se esquivava de opiniões provocadoras sobre comportamento. Alimentando-se de teorias feministas, ela compreendeu que a tarefa político-cultural colocada para as mulheres localizava-se nas alianças intelectuais, nas redes de solidariedade e nas linhagens de transmissão femininas. Ao lado de sua sororidade com professoras como Vilma Arêas, Clara Alvim e Cecília Londres, Ana C. desenvolveu rica relação de mestra-discípula com Heloísa Buarque de Holanda. Nem por isso recheou o discurso de obviedades: preferia o relâmpago da dúvida ao apagão do fundamentalismo. Em Antigos e Soltos — Poemas e Prosas da Pasta Rosa, compilação de textos inéditos feita por Armando Freitas Filho, há esta sugestão radical: “Despoetizar a escrita feminina. Suprimir o mito do sexto sentido, da doce e inefável poesia feminina. A falsa grávida com gazes. — Estrutura histérica!, grita a fada madrinha. Assinado embaixo: Nós do outro sexo, do sexto sexo.”

Questão importante em sua escrita, o gênero assoma dialético em um verso célebre: “Posso ouvir minha voz feminina: estou cansada de ser homem”. Seria uma negação do discurso do patriarcado? Para Italo Moriconi, em Ana C. “a identidade se constrói, se desconstrói e se reconstrói num processo interminável de negociação e conflito entre masculino e feminino”. O que diria ela do interminável debate sobre a existência da “literatura feminina”? Assim ela reagiu, em 1983, durante um debate sobre seu livro A Teus Pés:

            “Acho que existe sim um tipo de sensibilidade feminina, que é uma sensibilidade meio caótica, é uma sensibilidade mais sutil, é mais desorganizada. Ela é uma sensibilidade talvez meio histérica. A mulher é histérica por definição. Mulher histérica é uma figura do século 19, não? Inclusive histero quer dizer ‘útero’, em grego. Quer dizer, mulher é aquela que histeriza o tempo todo, aquela que joga no corpo, aquela que fala com o corpo.”

Um conceito que Ana C. usava para confundir defensores ou detratores da ideia de “literatura feminina” é o da interlocução. Segundo ela, o caráter de interlocução seria o traço textual que define o feminino na escrita. Então sugeria que o “feminino” de Guimarães Rosa estaria mais no fato de Riobaldo dirigir-se a um interlocutor do que em sua paixão ambígua por Diadorim. A inclusão do leitor na narrativa, para Ana C., derruba o narrador onisciente característico do discurso patriarcal. Talvez daí nasceria a propriedade feminina de seu texto, sempre tão confessional e íntimo: “Além de interpelar-se, interpelava quem lia, transformando o leitor em seu interlocutor, pois o que era dito confidencialmente se abria para todos sem se entregar por completo”, diz Armando Freitas Filho.

Publicado aos 27 anos, em 1979, em pequena tiragem, seu primeiro livro é Cenas de Abril — o título pisca o olho para a “The Waste Land” de T.S. Eliot (“Abril é o mais cruel dos meses”). Como o poema de Eilot — em que a primavera faz as raízes das árvores ferir os corpos dos mortos —, o outono de Ana C. é uma despedida da adolescência: “É sempre mais difícil/ ancorar um navio no espaço”, diz o poema de abertura. No microconto “Arpejos”, três cenas sucedem o susto do desejo: uma suspeita coceira no hímen; um imprevisto beijo na boca de uma amiga; e um passeio “insensato” de bicicleta até o Arpoador — como se a poeta, ao liberar o desejo de amarras, tocasse o pedale-se. O livro inaugura um procedimento clássico: o falso diário íntimo. Embora magrinha, a estreia incomoda tanto por incorporar textos em prosa quanto por se distanciar dos poemas-piada típicos da geração mimeógrafo de que era contemporânea.

O livro seguinte é o minúsculo Correspondência Completa, longa carta de uma incerta Júlia para alguém não nomeado; o texto, um “jogo de esconde-esconde”, tem como personagens onipresentes Mary e Gil (que seriam Heloisa Barque de Holanda e Armando Freitas Filho). O próximo livro, Luvas de Pelica, foi parido na Inglaterra, assinado como Ana Cristina C. “Um texto híbrido, flutuante, mal saído do rascunho, que conjuga com perfeição o poema, a prosa, o diário, a carta, a anotação para ser usada ou não, pitadas de ensaio”, dele diz Armando. Enfim numa editora grande, a Brasiliense, em 1982 ela volta a publicar com o nome completo sob o título A Teus Pés, que reúne os anteriores e uma coletânea inédita. “A mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo” busca versos mais longos e a prosa. Há também iluminações curtíssimas, como “as mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios” ou o estranho “preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios”.

Não deu tempo de degustar a boa repercussão de A Teus Pés, que rendeu uma segunda tiragem no ano seguinte ao lançamento. Depois de uma tentativa de suicídio no mar, Ana Cristina Cesar finalizava suas crises de depressão atirando-se da janela do oitavo andar do apartamento em que morava com os pais, em Copacabana, em 29 de outubro de 1983. “Astro trágico e excepcional de sua geração, gozou daquela ascendência saturnina que é sinal de destino incomum, e talvez por isso tenha desaparecido tão cedo, ao 31 anos, para que mais uma vez se cumprisse a lei que Menandro enunciou: ‘Morrem jovem os que os deuses amam’. Marginal entre marginais, como o solitário Saturno afastado dos outros planetas, deixou uma obra absolutamente singular”, escreve Joana Matos Frias.

Morta, seu mito só fez crescer à medida em que se sucederam edições póstumas. Em 1985 saiu Inéditos e Dispersos: Poesia/Prosa, organizado pelo amigo Armando Freitas Filho; em 2008 vêm à luz os poemas da famosa pasta rosa guardada pelos pais. Em tudo persiste a sensação de uma poeta que só vivia na medida em que escrevia e só vivia na medida em se sentisse a poesia no próprio corpo — desvendando este percurso ao leitor como se encessasse uma peça de teatro. “I. Enquanto leio meus seios estão a descoberto. É difícil concentrar-me ao ver seus bicos. Então rabisco as folhas deste álbum. Poética quebrada pelo meio. II. Enquanto leio meus textos se fazem descobertos. É difícil escondê-los no meio dessas letras. Então me nutro das tetas dos poetas pensados no meu seio.”

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*originalmente publicada na Revista da Cultura de julho de 2016

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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