Soltando as cachorras

A violência nasce da palavra 'bastardo'
A violência nasce da palavra 'bastardo'

Sabia que ia render. Fazia tempo estava na cola de uma conversa com Mr. Catra, o autor de “Vacilão” e outras gemas do funk relato [dito proibidão]. Allan Sieber e Arnaldo Branco tinham tocado uma entrevista hilária pra saudosa F. André Maleronka mandou uma matéria inusitada sobre as visitas do Negão ao Clube Paris, na EleEla [aqui também um rolê com o funkeiro pela Baixada Santista]. E recentemente Matias Maxx desenrolou um ótimo perfil na sempre esperta +Soma. Faltavam umas Páginas Pretas.

Quando soubemos que ele passaria por SP mês atrás, não ficamos de vacilação. O lugar do apontamento era sinistro: o hotel Shelton, centro. Lá, vi Kakau, que tinha chegado pro makin’of, tirando uma fumaça das idéias do cidadão carioca – e a preparada logo entrou no bonde da entrevista. Morrendo de sono por ter virado a noite e depois guiar do Rio a SP, Mr. Catra não se fazia de fazido e posava pro clic de Marcelo Naddeo quase despencando: antes de tirar a camisa, anunciou a barriga “máquina de lavar” [“embaixo tem uma mangueira, tá ligado?”] e mandou ver a pançola, na base do foda-se.

Fotos feitas, o funkeiro nos convidou pra sua suíte – bem mais simples que a usada no ensaio -, onde se esparramava enrolado na lady Raiane, uma japa loura de 20 e poucos anos. A entrevista era volta e meia cortada por visitas bizarras como as de MC Creide e seus assistentes anões, fãs, filhos e o serviço de quarto, que trouxe um big burger, fritas e coca traçados em minutos. Mas tranki. Em geral é difícil conduzir uma conversa como a Negras, em que se trata de todo tipo de assunto, da primeira vez à morte da bezerra. Enfumaçado e zuado de sono, o Negão fazia tudo parecer fácil.

Muita gente boa veio me reclamar das Negras [aqui no site da Trip estão na íntegra], na minha humble opinion uma das melhores entrevistas que fiz. “Pra que dar um espaço tão grande a um boçal desses?” é a indignação constante. Defendo talvez 10% das idéias de Mr Catra. Não comungo do seu machismo, do seu monarquismo nem de seu confuso ideário religioso – embora assine embaixo de sua tese sobre o comércio de drogas [“libera e controla tudo”], algo que nos 21 anos das Páginas Negras da Trip nenhum entrevistado teve cojones pra defender [isso sem falar na lista de artistas ou intelectuais que na hora do microfone malocam o flagrante].

Jornalisticamente, porém, isso não quer dizer nada: um bom entrevistado se basta pelo que fala. Desse ângulo, Mr. Catra é o personagem ideal. Tem histórias pra contar e idéias pra defender. E assume tudo no seu nome. Entertainer nato, um frasista de fina verve, cada sentença sua nasce talhada pra ser olho, intertítulo, chamada de capa. Muito medalhão por aí você dechava sete horas e não trincha um statement nem torcendo o papo [o grande Fernando Paiva já dizia: “Jornalismo é a arte de fazer imbecis soarem inteligentes”]. Alma de Chacrinha no biotipo de Mano Brown, Mr. Catra sintetiza as contradições do Brasil. É um gênio e uma besta ao mesmo tempo. Numa boa: sua figura é seu discurso.

Nas 12 horas que passamos, manteve o mesmo espírito fanfarrão e nervoso, paizão e canalha. Sem deixar cair a peteca do risco: no percurso de 100 km por três bailes da perifa paulistana, ele dirigia o próprio carro [pra não atrasar os shows, deu picos de 150 km/h ali na Jacu-Pêssego], fazendo com que tivéssemos que segui-lo literalmente pelo cheiro. Nesse mundo do showbiz conheço pouca gente que consegue ser a mesma pessoa o tempo todo. Pro bem ou pro mal, Mr. Catra é 100% de verdade. Daquele jeito.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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