Adeus, dasluzete

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Em homenagem à finada Eliana Tranchesi, cuja revista Daslu tantos frilas muito bem pagos bancaram meus aluguéis, botecos e contas, segue um conto escrito por ocasião do já lendário show de Marcelo D2 e Seu Jorge na citada butique – verdadeiro choque de civilizações que rolou ali no meio dos anos 00 [hoje nem parece tão chocante assim]. O texto saiu nas também finadas revistas Simples, Sexta-Feira e Mandi.

Compre o preço.

Acabei de voltar da tal da butique Daslu. Fui lá ver o show do Marcelo D2, tá ligado? Ele memo. O cara tá nos pano, mano. Ele é agora patrocinado por uma grife aí, a Mandi, jão, se liga. Uma roupa de grife que abriu uma loja na Daslu. Eu descolei um convite VIP com um truta meu que trampa na copa. Itaim, certo?

Uma par de quarteirão lotadaço de man in black e Cherokee e Audi e o caralho a quatro. Caipirinha ice na faixa. Bati mó larica. Qual é? Umas paradas à pampa pra comer, umas mina de elite memo, tudo loira, velho, o cabelo num reflexo só, luzes, aqueles pelinho no braço, mó perfume no ar, perfume, perfume. D2 mandou bem. Apareceu o Seu Jorge, na estica. Ele também é artista Mandi. Levou um tanto aí pra desfilar, mais a roupa que ele quiser, o ano inteiro, saca? Os nego se trata. Tinha muito maurício, é lógico, mas cê queria o quê? D2 lembrou que nóis tamos se organizando pra desorganizar, tamo desorganizando pra se organizar. Falou do tal do Chico Science. E do tal do Bezerra da Silva. Tinha um vídeo mostrando o Gracie fazendo os músculo pular. Tinha um vídeo mostrando uns carinhas pegando onda. Eu tiro é onda, manda o D2. E o povo obedece. O povo?

Tinha uma loira de dois metro de altura na minha frente. Uma hora subiu no palco o Thaíde, tá ligado? Que tempo bom, que não volta nunca mais. Ele pediu pra galera agitar a mãozinha dum lado pro outro. Mano, nunca vi tanto Rolex e Bulgari na minha fuça, pra lá, pra cá, pra lá, pra cá, tava pra fazer mó funça naqueles vacilão. De brilho no cabelo e camisa pra dentro da calça com cinto. E uns com cinto. E uns playboy com pano de officeboy. Eu já vi tanta coisa, jão, eu não me impressiono mais com nada. Tá tudo certo. E não é que os playba tava cantano direitinho as parada? D2 falava que representa o pesadelo do hip hop. E os maurício curtia! Qual é? D2 falava que você é você, não importa de onde é. D2 falava VAMO FAZÊ BARULHO?

Outra hora subiu o cara dono da Mandi, tá ligado. O dono da parada subiu no palco e D2 e Seu Jorge pediro pro cara soltar um sambinha. O cara deu uma reboladinha mais ou menos. Mas tá limpo. Foi o batismo dele, né não, jão? O cara curte os movimento, é nóis tamém, por que não, velho? Só porque é playboy? Mó discriminação. E falar em discriminação, pô, aí, não podia fumar cigarro na Daslu, velho. Mas eu vi umas perua fumano. Até tive uma noinha de puxar meu dubom, mas eu que não queria queimar tudo até a última ponta ali, velho, dá licença. Fala sério, jão, uns tiozinho sacando tudo, a Caras, o Estadão, a Folha, o Nizan Guanaes, a Cicarelli, uma par de modelo, uma par de segurança. Eu tiro é onda, mandou o D2. Eu vim do Rio de Janeiro a Nova York levado pelo som, no Andaraí, no Brooklin, só tem sangue-bom, vou te explicar como é que eu faço pra sair dessa merda, eu tô sempre ligado, e mantenho minha mente aberta, com dinheiro é muito fácil, todo mundo é feliz, eu quero vê tira onda sem dinheiro como eu fiz. Tá tudo dominado. Qual é?

Eu tipo tava curtindo o show mas tipo achei meio sinistro, tá ligado. Tipo: num sei, uma hora eu colei numa parede e fiquei meio assim noiado que ia dar um vomitão num terno Armani e ia fazer merda. Eu sempre acho que vou fazer merda uma hora, e aí eu faço. Mas pra desencanar dei uma olhada nos preço dos pano: jaqueta de dez conto. Dez mil conto. Tinha uns caras vendendo apê de 500 metro quadrado. Tinha uma foto do Malcolm X de barão, numa beca muito louca, do lado de umas foto de uns rei, de uns figura elegante, em cima de uma estante onde a gravata mais na moral custava 400 conto. Achei louco o negão ali, tipo símbolo de status pros maurício. Jão, ali, terno, sapato, meia, cristal, charuto, livro, vestido, perfume, carro, tudo tá à venda, jão, tudo à venda. Tinha uma loira de dois metro de altura que ficava tipo me zuando e passando o rabo dela no meu nariz, aqueles sapato me agulhando o pé, foda. E o perfume, velho. Os cara se trata. VAMO FAZÊ BARULHO?

Eu ouvi uns caras falando que era um acontecimento histórico, o D2 na Daslu. Tipo o encontro de dois mundos, jão, mas eu não vi nada disso. Eu não vi porra nenhuma de dois mundos se encontrando e nem que a vaca tussa eu vou acreditar que Marte vai invadir a Terra, tá ligado. Eu vi que as minas da faxina tavam usando roupas de minas da faxina, tá ligado. Então tá tudo certo, tipo. Eu pisei num chiclete que uma loira jogou no chão, mano, e ela me olhou dum jeito como se olha um extintor de incêndio, saca. O D2 deu uns berro contra a MTV, morou. O D2 ganhou 3 VMBs semana passada. O D2 tava nuns panos da hora. Qual é?

Eu fiquei assim meio zuado com aquelas caipirinha ice. Eu queria dar um rolê, mas pra todo lugar que eu ia o chão era cheio de man in black em volta e aqueles maurício com malha em cima do ombro, morou, mano. Eu ouvi um cara dizer pra outro que o Thaíde, o cara não levou nenhum cachê, pra cantar no show do D2, ganhou foi uns 15 conto em roupa que tirou direto na loja. Tá certo, jão. O som tava da hora. Foi me dando um negócio a hora que eu vi, que, porra, na real, tudo ali era igual. Era todo mundo igual aquela merda. Os playba sabia todas as músicas do D2. O D2 lembrou do Sabota, rap é compromisso. O D2 gritava VAMO FAZÊ BARULHO! Mas ninguém fazia barulho, mesmo, na real. Tipo, eu soltei uma bufa, a porra dos salgadinho me fudeu o lombo, mas acho que ninguém sacou, morou. Eu também não vi ninguém tirando uma fumaça, aí fiquei meio na miúda, nem quis acender minha ponta. Na real, eu vi que eu tava sozinho, velho, muito sozinho. Tinha vários retrato na parede, uns rei, umas modelo, um lance assim meio pop, é pop art que fala, eu acho. E tinha aquela foto do Malcolm X em cima de uma gravata Zegna por 497 contos. Todas as roupas tinham preço, tudo ali tem preço, ali você não compra a roupa, compra o preço.

O show acabou, todo mundo curtiu, todo mundo aplaudiu. Os cara foram ali na elite e desenvolveram o discurso. Na rua, eu vi uns figuras combinando de ir comer num japonês. Lógico que a parada dos cara tem a ver com a rua, mas, na boa, qual o pobrema se playboy curte o som dos cara? Eu fui saindo fora de fino e até vi o D2 botando o carrinho do filho dele no porta-malas da Pajero dele. O mano tem vez, a vez chegou, né, jão. A minha, igual, chega também um dia, tá ligado? Tipo. Eu fui andando ali pelo Itaim meio rápido, porque tou ligado que bumba pra quebrada é só até a meia-noite. Fui andando na minha, andano, andano, andano. Até que sentei no ponto e tudo começou a rodar, a rodar, a rodar, e aí meu deu um troço e aí fudeu.

Chamei o hugo memo, velho, vomitei toda a parada dos salgadinho de salmão e das caipirinha ice, gorfei tudo, mano, mó jato, foda, mó nojeira tudo em cima de mim. Tou fudido, jão, é o único pano de balada que eu tenho, minha mãe vai me dar um esporro. Me limpei num jornal. Tá limpo. D2 mas mantenha o respeito. Vou ter que jogar fora e comprar outro. Foda-se. Rap é compromisso, e fudido por um, fudido por mil. Qual é, mano? Acabo de voltar da tal da butique Daslu. Fui lá ver o show do Marcelo D2, tá ligado nos movimento? Ele memo. Na procura da batida perfeita. Se eu descolar outra boiada dessas, vou de novo.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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