Germana e o Diabo Verde na terra do pastel de carne-de-sol

Chapa quente: atrás do balcão da Mercearia São Pedro, 40, só não bebe quem já morreu. Saiba como o pé-sujo mais clássico da Vila Madalena se tornou o epicentro da vida artística paulistana. Perfil da Mercearia São Pedro na Serafina

mercearia-2

Sou um zangão que mora em uma garrafa peluda. Uma garrafa peluda de cachaça Germana, estacionada a três metros do solo. Uma garrafa peluda entre tantas garrafas peludas nas últimas prateleiras do bar. Os pêlos são formados por décadas de acúmulo de pó e partículas não-identificadas sobre a superfície oleosa das garrafas que adornam as prateleiras acima do balcão, da caixa registradora e da chapa da Mercearia São Pedro. O álcool me conserva bem: pela quantidade de coisas que passaram por meus cinco olhos, imagino que devo ter uns 40 anos.

Cheguei depois de muito zanzar pelas lombas da Vila Madalena – era bom ficar no alto desse morro, na rua Rodésia; repare, os nomes das ruas da Madalena são quase todos assim, curtos e hippies como os vestidos das suas moças, Wizard, Harmonia, Girassol, Purpurina, Simpatia. Daquela lomba, vizinha da Escola Maximiliano dos Santos, do Fórum de Pinheiros e de algumas psicodélicas praças em que já vi cada coisa que nem te conto, se domina toda a Vila. Quando aqui me aferrei, a Mercearia era só a venda tocada pelo seu Pedro, descendente de sírios. Ele nunca imaginou que seria o bar mais tradicional do mais boêmio dos bairros de São Paulo.

Lembro quando o menino Marcos Issa Benuthe, hoje com 50, ficava aporrinhando seu Pedro, que queria usar o terreno da rua Rodésia, 34, para uma casa de materiais de construção. Seu Pedro lotou a venda de privadas, canos, azulejos e uns bagulhos esquisitos. O moleque, então com 10 anos, batia o pé: o espaço seria mais bacana se freqüentado pela vizinhança, não só por pedreiros e mestres de obras. Pouco a pouco, a vendinha seria dominada mais pelos molhados que pelos secos. Finado seu Pedro em 1996, hoje Marquinhos responde pela noite e o irmão Pedrão toca o dia, ladeados pelo atlético primo Marcelo, o gerente afobadinho Neto e mais 22 profissionais.

O garçom mais velho é o França, “o menor garçom do mundo”, para o escritor Joca Reiners Terron: está ali há uns 20 anos e, segundo Marquinhos, “não se sabe muito bem quando nem de onde surgiu, deve ter vindo dentro de alguma garrafa de uísque paraguaio”. Tirando o piauiense cinéfilo França e o cozinheiro pernambucano Antonio, todos os outros garçons são – como preza a média paulistana – torcedores do Corinthians. O bar é dos mais assediados durante clássicos ou jogos da Seleção; na Copa de 2002, houve uma mesa em que se entornou por vinte horas seguidas, das 6h às 2h. Quando Sócrates baixa por lá, em geral antes ou depois de ir fazer seu programa na TV Cultura, é tratado com mesuras de chefe de estado. Certa vez, quebrando o pau com o plácido irmão Raí (o tricolor bebe muito menos que o alvinegro), ao tentar convencê-lo de que não entendia nada de futebol Sócrates apelou ao cúmulo anacrônico de citar o mito da caverna de Platão. Agora você entende por que os comentários do Magrão são tão surpreendentes no Cartão Verde.

Geração Nojenta
O bar assistiu a um monte de modas boêmias desfilarem e continua exatamente igual, quiçá com os mesmos amendoins e grãos de bico de 40 anos atrás. O chopp sem colarinho, o strogonoff com Chateau Duvalier, o vinho alemão de garrafa azul, a meia-de-seda, o trio rúcula-mozzarela de búfala-tomate seco, o pseudobotequim carioca, invenção paulista, agora copiado pelos próprios cariocas… tudo foi soprado pelo vento dos insuperáveis pastéis de carne-de-sol, hoje sob a espátula de seu Antonio, o chapa-quente mais sério da área (“nossa envergadura moral”, assevera Marquinhos).

Do mesmo modo, daqui de cima das ampolas peludas vi uma série de ondas culturais virem e irem. A primeira das bandas a bater ponto foi a Raízes de América, uma das favoritas da intelectualidade pé-sujo da Vila nos anos 70, quando o bairro ainda era habitado principalmente por estudantes da USP, professores e artistas plásticos, e sequer imaginava ser invadido por playboys em busca de bistrôs descolês ou ateliês de design que vendem uma cadeira ao preço de uma cozinha.

O cinema pré-Collor, ainda nos 80, foi a segunda onda: a Vila Madalena propunha-se berço de várias produtoras e Marquinhos, cinemaníaco programador do extinto Cineclube Oscarito, exibia filmes como Frankenstein punk, de Cao Hamburger, tendo o bar como audiência e o paredão da escola em frente como tela. O cineasta alemão Peter Sempel (Flamenco mi vida), amigo de Nick Cave, era outro que vivia mostrando a fachada. Os cartazes de cinema que ornam as paredes e as resistentes VHS datam dessa época. “Sempre aparece um cliente que precisa alimentar seu velho videocassete”, diz Marquinhos.

É, Nick Cave foi fiel habituê durante o par de anos que morou em SP. Um vídeo fofo no Youtube mostra o compositor australiano embalando o filho brasileiro num bucólico fim de tarde dos anos 80, quando a Madalena parecia vila do interior [update: o vídeo foi misteriosamente retirado do YT]. Hoje quem esvazia engradados ali são músicos como Otto, Junio Barreto, Nação Zumbi, Instituto, Cidadão Instigado, Hurtmold, Orquestra Imperial, Vanguart – que freqüentam o bar tanto na modalidade esquenta quanto na afterhours.

O fechamento oficial é 2h, mas meus cinco olhos já viram a luz do sol pegar muita gente de calça curta. Lembro quando o cineasta Paulo Caldas ouviu a pesada porta de ferro se desenrolando e teve um flashback de quando ia rebocar o pai em um risca-faca em Pernambuco, “meu próximo filme vai terminar com uma porta de ferro baixando e batendo assim!”. Caldas entornou o caldo e lágrimas de memória ainda por muito tempo, e Marcelo Rubens Paiva, Beto Brant e Lírio Ferreira foram alguns que assistiram à cena – do lado de dentro da porta. Pois é: às vezes o bar fecha, mas a conta, não. E a régua demora pra passar.

Cineastas, músicos, artistas plásticos, jornalistas, fotógrafos e carreiristas à parte, o lugar é mesmo território de escribas. Muito por conta de a Mercearia, além de videolocadora e armazém, ser sobretudo uma das livrarias essenciais de São Paulo. Os primeiros a desaguarem no convés capitaneado por Marquinhos foram Reinaldo Moraes e Matthew Shirts, final dos 80. Na década seguinte, autores da (mal) falada Geração Noventa juntaram-se aos bons, levados por Joca Terron e Marcelino Freire após tentativas de unir a nascente cena literária em botecos como o Platibanda e o X, pizzarias como a Mandrágora, livrarias como a Da Vila e um extinto Fran’s Café da Fradique Coutinho, onde hoje funciona a editora Hedra.

Pegou: em 2003, Joca lançou HotelHell pela editora gaúcha Livros do Mal, de Daniel Pellizzari e Daniel Galera, que mais tarde também estreariam livros entre aquelas mesas. Pelo menos uns 100 livros tiveram ali sua primeira vez, tomando do bar Balcão a primazia de botequim literário e devolvendo o estatuto de esbórnia à noite de autógrafos – esse evento que recende a vinho de segunda e parece festa de aniversário comemorada em cartório.

A Noventa, também nomeada Nojenta por detratores (abstêmios, lógico), arrastou aos domínios da pinga com pernil autores de todo o país, além de gringos como o cubano Pedro Juan Gutiérrez, o mexicano Guillermo Arriaga e o colombiano Efraim Medina Reyes. Há quem se recorde da notória mesa do Algonquin novaiorquino presidida por Dorothy Parker, nos anos 20, quando assiste à milenar cena em que França serve cerveja no copo americano da agridoce Ivana Arruda Leite reinando em uma mesa de dúzias de escritores. O Prêmio Jabuti de Marcelino [pelos Contos negreiros] é um dos troféus que adornam as prateleiras, entre uma caixa de charutos e um pacote de giletes da década de 70.

Memórias bêbadas
Na perigosamente infinita fila do banheiro, entre os bebuns que abundam no mesmo metro quadrado, uns reclamando do serviço (reclamar só piora… na Merça, é você quem corre atrás dos garçons), lembro quando as poderosas moças do teatro da Praça Roosevelt invadiram o cenário e, ao som de “Te amo espanhola”, botaram pra correr o enxame de marias-teclado que ziguezagueavam atrás de uma história perdida ou um escritor achado.

Enquanto polinizo uma embalagem de Diabo Verde, lembro quando certa dama casada foi encurralada entre a geladeira de sorvete e a de cerveja por um autor na febre do rato e escapuliu com as vestes tintas de Chicabom. Lembro de uma neurótica que arrancou a camisa e deu com o sutiã na cara de um fulano: “Marquinhos foi até lá e disse pra ela, com toda a sua fleuma síria – ‘Minha filha, não quer um chicotinho não? Tenho uns ótimos aí pra vender’”, conforme narra Reinaldo Moraes em “Privada”, um dos contos de Uma antologia bêbada – Fábulas da Mercearia, livro todo ele escrito e acontecido ali.

Lembro quando o poeta carioca-paraguaio Douglas Diegues e o artista El Domador de Jakarés lançaram o movimento do Portuñol Selbaje; lembro quando Wander Wildner, Paulo César Pereio e Mário Bortolotto cantaram totalmente bêbados “sou quase um alcoólatra” em um show que rendeu a Marquinhos a multa de R$ 24 mil (maldita Lei do Psiu); lembro quando Antonio Prata vislumbrou um Aleph na prateleira de detergentes, entre os de maçã e os de limão. Lembro quando o cartunista Jaguar me ensinou que o segredo para jamais ter ressaca era nunca parar de beber, enquanto aprendia que, para os sócios, o bar se chama A Merça – como o apelidam Rafa Coutinho, Rafael Grampá, Fábio Moon & Gabriel Bá, a jovem guarda do cartum. E lembro quando Xico Sá vituperou contra o excesso de frescura dos jornalistas mauricinhos, ébrios de prudência, cool jazz e vinho com ecos amadeirados e toques de cassis, pouco antes de se atirar aos pés de uma deusa calipígea e de lá só voltar depois de decorar-lhe com a língua o esmalte, a geografia e o perfume.

Lembro até dos desmancha-rodinha que chafurdaram na desgraça: do cantor que foi confundido com um galhofeiro que cantava a mulher do dramaturgo e teve de catar um molar debaixo de um carro estacionado em frente; do cronista sustentado pela mãe que de tanto arrotar seu pretenso talento foi ficando cada vez mais só e fanho numa mesa de canto… destino das malas é sempre partir. Os causos são inumeráveis: nomes? Passo; o espaço acabou. Humilde zangão, não vou dedurar tudo o que vi e arriscar o lugar cativo na minha peluda, doce garrafa peluda. Só quando as garrafas passarem pela depil total, aí sim é sinal de voar atrás de outro bar.

________
* Ronaldo Bressane, 39, é escritor; lançou Céu de Lúcifer em 2003 – na Merça

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

4 pensamentos

  1. Alo alo Ronaldo! Mande-nos, pliz, la bersione em portunhol selvátiko deste perfile de la Merza! Bamos publicar por Yiyi Jambo! Esta semana seguem Íntima Canzón y Los Cibermonos de Locombia ya publicados com tapas del domatore! Avanti!

  2. Sou de Bh e sempre quis dar um pulo na Merça… Dia desses, tava em Sampa, uma amiga jornalista cismou de me levar prum bar qualquer.. Pra minha surpresa, mesmo comigo permancendo quieto como um mineiro, acabamos na Merça. Uma constelação de escribas, desses que vez ou outra põe a cara no Entrelinhas, tava lá. Bacana demais a Merça. Só não é bacana defender tanto a Noventa.

    vô nessa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s