Crítica

Mil outonos

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Após uma longa primavera e um doloroso verão, o Impostor volta a trazer dicas de leitura

FICÇÃO GRINGA

Hiper-romance
Jacob de Zoet, de David Mitchell (trad. Daniel Galera), Companhia das Letras

Parece um livro de aventura, mas é um tratado sobre a corrupção. Parece uma história de amor, mas é uma trama policial. Parece um romance histórico, mas há liberdades ficcionais em relação ao registro da História. Parece um romance de formação, mas traz conhecimentos de medicina, botânica, religião e outros campos jamais sonhados por David Copperfield ou Holden Caufield — até por seu protagonista ser mais velho, embora sua engenhosidade seja velada por muita ingenuidade. São várias as camadas deste livro do inglês David Mitchell, 46 anos e autor de 7 caudalosos romances (como Atlas de Nuvens) que o colocam, por sua multiplicidade de ambições, como um dos principais autores pós-modernos. O tipo de livrão cuja originalidade e peso são tão flagrantes que você pode dar na cabeça daquele crítico ranzinza que insiste na mofada tese do “fim do romance”.

Jacob de Zoet é um humilde contador que tem a missão de revisar os livros da Companhia Holandesa das Índias Orientais locada na curiosa Dejima, ilha artificial situada em Nagasaki, único ponto de contato do fechado Japão com o mundo em 1799. Zoet, que sonha em amealhar fortuna para poder se casar com a amada Anna em sua Holanda natal, precisa descobrir quem está roubando a Companhia e embolsando os lucros — mas, como sabem os detetives da Operação Lava Jato, a corrupção é um monstro tentacular, e a missão não será fácil. Certinho e calvinista até a medula, e proibido de professar sua religião, Zoet, que nunca se permite frequentar o perigoso prostíbulo de Dejima, pra piorar sua solitária situação acaba por se apaixonar por Aibagawa Orito, uma talentosa médica que trabalha como parteira (a abertura do romance, descrevendo Orito oficiando um parto complicado, é por si uma peça primorosa).

O escritor Daniel Galera levou sete meses para verter ao português a límpida prosa de Mitchell. Craque da descrição e seguro construtor de cenas dramáticas, divertindo-se com as variadas nacionalidades dos personagens Mitchell passeia por diversos registros: da narração na terceira pessoa aos monólogos internos do adorável Zoet, a malandrice do cozinheiro holandês Arie Grote, as enigmáticas elocuções do intérprete samurai Ogawa Uazemon e do abade Enomoto, as barrocas construções verbais do homem da renascença Dr. Marinus, sem contar o misterioso javanês Oost, o colérico alemão Fischer, os sacripantas neerlandeses Van Cleef e Vortensboch — cujas tramoias ruborizariam os delatores premiados Costa & Youssef. Personagens memoráveis que tornam o livrão um peso-leve.

Muito chili na cabeça
Cantiga de findar, de Julián Herbert (trad. Miguel del Castillo), Rocco

Se eu te contar que este romance trata da relação entre um filho amoroso e sua progenitora dilacerada por uma leucemia terminal, você poderá entender se tratar de uma xaropice digna de novela mexicana. Mas, embora de fato seja chicano, Julián Herbert tem uma escrita longe de qualquer lenga-lenga, e a história que concebe é atual, original e afiadíssima. Autobiográfico, Julián retrata a vida de um personagem extraordinário — sua mãe, a prostituta Guadalupe Chávez, que teve muitos nomes diferentes e levou seu filho a muitos lugares e apresentou o pobre coitado a muitos homens (a maioria narcotraficantes), até que ele enfim se livrou do incômodo status de filho-da-puta e se tornou um escritor premiado — e cocainômano. Herbert tem um texto quente como um bom chili: “Quando a leucemia começou a corroer o organismo da minha mãe, contaminou também, de maneira superficial e pestilenta, o organismo invisível dentro do qual eu e minha mulher flutuávamos. Se você se dedica a cuidar de uma pesso doente, corre o risco de viver no interior de um cadáver. Então Mônica falou aquilo sobre o bebê”. Como não prosseguir a leitura?

Patrick Modiano
Remissão da Pena (trad. Maria de Fátima Oliva do Coutto), Flores da Ruína (trad. Maria de Fátima Oliva do Coutto), Record; Uma Rua de Roma (trad. Herbert Daniel e Cláudio Mesquita), Ronda da Noite (trad. Herbert Daniel), Dora Bruder (trad. Márcia Cavalcanti Ribas Vieira), Rocco

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Nascido no final da Segunda Guerra, em 1945, Patrick Modiano tem uma obsessão: aqueles quatro anos antes de seu nascimento quando a França foi invadida por Hitler e colaborou com o regime nazista. Uma época tenebrosa, em que judeus eram perseguidos e enviados para campos de concentração e até mesmo o lema Liberdade, Igualdade, Fraternidade foi trocado por Pétain pelo ridículo Trabalho, Família, Pátria. Uma época nebulosa, em que não se sabia quem era herói e quem era vilão, quem era amigo e quem era traidor — uma época de que a França se envergonha e procura esconder. Mas não adianta: Patrick Modiano, um Proust das sombras, é implacável ao lembrar daquele período soterrado na História e trazer de volta narrativas reveladoras — sua ficção é toda ela um “retorno do recalcado” do inconsciente gaulês. Ao estrear em ficção em 1968, com 23 anos (Place de l’Étoile), Modiano já detinha o estilo econômico, claro, fluente e objetivo que marcaria toda a sua obra. Parece que ele leva mais tempo planejando seus romances do que exibindo torneios verbais e pirotecnias de linguagem ao escrevê-los — o que, em um projeto literário tão ambicioso quanto é resgatar a pouco confiável memória de um mundo ambíguo, acaba por transmitir uma unidade engenhosa a seus livros.

Prêmio Nobel em 2014, tinha somente um livro traduzido ao português (o infanto-juvenil Filomena Firmeza, editado pela Cosac Naify); após a honraria, seus mais de 30 títulos começaram a ser disputados por editoras brasileiras. A Record lança a chamada Trilogia Essencial. O primeiro a sair é o melancólico Remissão da Pena (1988) — nele, dois irmãos de 10 anos esperam que seus pais (ela atriz, ele empresário) voltem para buscá-los enquanto passam um tempo com as tias. As raras memórias da mãe comediante belga e do pai judeu italiano dão as cartas aqui. O livro seguinte, Flores da Ruína, de 1991 é mais intrigante: um narrador bastante aparentado a Modiano investiga o que teria acontecido a um jovem casal, em 1933, que certa noite saiu para dançar, trouxe mais dois casais de amigos para casa, discutiram com eles, que saíram — e logo em seguinte cometeram suicídio. O terceiro volume é Primavera de Cão (1993), a sair em março.

Já a Rocco preferiu escolher três títulos bastante distantes na obra de Modiano. Rua de Roma (que tirou a graça do título original, Rue des Boutiques Obscures, Rua das Lojas Obscuras, uma rua em Roma que fazia parte do gueto judaico) se passa em 1965 e ganhou o grande prêmio da Academia Francesa. Tem um argumento intrigante: o narrador, Guy Roland, é um detetive que sofre de amnésia. Teria sofrido um trauma durante a Ocupação. Flertando com o romance policial, Modiano traz uma estrutura labiríntica à narrativa, cheia de pistas falsas e becos sem saída. Talvez seja o livro que melhor adere ao projeto do autor — demonstrando a elasticidade do tempo, fluindo para a frente e para trás sem se fixar em lugar algum. Já Ronda da Noite é o segundo romance do francês, publicado em 1969, e integra a chamada Trilogia da Ocupação, de que também fazem parte Place de l’Étoile e Les Boulevards de Ceinture. O narrador tem dois apelidos: Lamballe e Swing Troubadour. Trata-se de um agente duplo, trabalhando tanto para os nazistas quanto para os heróis da Resistência, e, ambiguamente, sem saber como se portar, acaba por trair simultaneamente ambos os pólos (“não sou senão uma mariposa enlouquecida voando entre uma lâmpada e outra e queimando cada vez mais as suas asas”, reflete o protagonista). É um livro curto e impactante, escrito quando o autor tinha somente 23 anos, mas já manejava todos os seus temas com segurança: a Ocupação, a memória, a História, a identidade, a moral de cada um.

Dora Bruder, de 1997, se parece bastante com Flores da Ruína. Modiano investiga um anúncio colhido em uma edição de 31 de janeiro de 1941 do Paris-Soir que pedia notícias de uma jovem desaparecida: “Dora Bruder, 15 anos, 1,55m, rosto oval, olhos marrom-acinzentados, casacão cinza, suéter bordô, saia e chapéu azul-marinho, sapatos marrons”. A busca do autor, que começa em 1965 e vai até os anos 90, revelou que tanto a jovem quanto o pai foram enviados a Auschwitz. Mas, claro, o mais interessante aqui, como de resto em todos os seus livros, não é o destino final da odisseia — e sim todas as peças com que Modiano vai criando seu patchwork de emoções e sensações recolhidas do fundo da memória, revelações dolorosas e pequenas iluminações em meio à escuridão.

Os anos dourados de Locombia
Viva a música!, de Andrés Caicedo (trad. Luis Reyes Gil), Rádio Londres

Caicedo caindo na manguaça

Caicedo caindo na manguaça

Andrés Caicedo não se perdeu pelo nome: matou-se aos 25 anos. E não chegou sequer a ver este livro, que, por conta do espantoso gesto, tornou o autor uma espécie de Kurt Cobain hispânico. Não só pela morte prematura, porém: o romance é uma paulada. “Eu sempre me soube dotada de espírito para a festa e nada mais, e além disso não sei explicar a mim mesma de quem puxei isso. Minha poderosíssima energia não frustra os homens que não conseguem me ver, porque de tanto me olhar ficam conscientes da exata razão pela qual não me merecem”, define-se María del Carmen, uma garota louca por salsa, rock, garotos, garotas, álcool e drogas, mas sobretudo louca por dançar e por viver a vida até a última gota. O texto apaixonante de Caicedo narra, como se fosse um road movie noir infinito, o périplo de María por boates, bares e camas de Cali nos anos 70; a voz, na primeira pessoa, mixa-se a letras de música (o título é tirado de uma canção do percussionista portoriquenho Ray Barretto) e às vozes dos homens e mulheres que atravessam seu caminho sem jamais capturá-la em sua louca escapada rumo à autodestruição. O livro marca a estreia da Rádio Londres, editora com olho vivo para clássicos perdidos — como esta mitológica viagem de Caicedo.

Vander Vil
Sudário, de John Banville (trad. Cássio Arantes Leites), Biblioteca Azul

John Banville na FLIP

John Banville na FLIP

Alex Vander é daqueles personagens nojentos, filho bastardo de uma trepada homérica entre Céline e Dostoiévski, por quem sentimos um misto de horror e fascínio: como é possível ser tão vil? Enorme, manco, vaidoso, pernóstico, elitista, mentiroso e autosuficiente, o velho professor, intelectual festejado pela vasta erudição e linguagem carnavalesca, viúvo de uma mulher a quem humilhava por esporte, tem seus crimes do passado descobertos por Cassandra, uma jovem doente. Então Vander viaja do conforto de sua californiana Arcady para a misteriosa Turim, onde está guardado seu segredo bem como o suposto sudário de Jesus Cristo. O objeto, tão sagrado quanto não-confiável, é uma das muitas analogias e metáforas nas quais John Banville deita e rola — a mais evidente, talvez, seria a semelhança de Vander com o intelectual Paul de Man, o scholar revelado postumamente como autor de panfletos antisemitas. A obsessão de Vander por Cassandra transforma-se em um mórbido caso de amor — a que assistimos ao mesmo tempo enojados e hipnotizados.

DuK
Sete anos bons, de Etgar Keret (trad. Maira Parula), Rocco

Etgar Keret © Beowulf Sheehan/PEN American Center. All rights reserved. Please contact media@pen.org for usage and rights.

Etgar Keret © Beowulf Sheehan/PEN American Center. All rights reserved. Please contact media@pen.org for usage and rights.

Ler Keret é recuperar a crença na humanidade dos israelenses, bravos cidadãos que apoiam um genocida no poder. Ler Keret também é recuperar a crença no gênero conto como motor da melhor literatura que se produz no mundo — ao contrário do que rezam os editores míopes. E, ao contrário do que possa parecer, essas questões estão intimamente ligadas: basta abrir a Bíblia para reconhecer o talento ficcional dos nascidos na Palestina há 4 mil anos. Como um contador de histórias de uma tribo perdida na Terra Santa, o israelense Keret não se cansa de desfiar todo tipo de aventura, uma após a outra — engraçadas, sarcásticas, ácidas, mas sempre em tom leve: sua escrita tem uma simplicidade engenhosa ao tratar dos assuntos mais pesados, como a eterna guerra com os irmãos palestinos, ameaças de bombas iranianas, a violência oculta nos mínimos gestos da sociedade israelense. E, ao contrário das ficções breves do maravilhoso De repente, uma batida na porta, estes textos curtos são autobiográficos, vagando entre o relato de viagem e a crônica, todos situados entre o nascimento de seu filho e seu sétimo aniversário. O mundo às avessas seria melhor se narrado por Keret.

Diário sem datas
Um ano, de Juan Emar (trad. Pablo Cardellino Soto), Rocco

Juan Emar também foi pintor

Juan Emar também foi pintor

Um bom livro deve ser capaz de fazer você perder o rumo de casa, perguntar-se: como vim parar aqui? Diário feito de somente doze anotações no primeiro dia de cada mês, Um ano narra situações inusitadas, inexplicáveis e abstratas — ao ponto de Juan Emar ser chamado de “o Kafka chileno” por Pablo Neruda. Conforme César Aira conta no posfácio, Emar joga no time de gente como Gombrowicz, Lautréamont, Macedonio Fernández — escritores absurdistas que flertam com o surrealismo e, por serem muito formalistas, transgridem as normas da boa literatura e suas convenções de personagem, narrador, espaço, tempo etc. Nesta singular obra de 1935, Emar consegue prodígios como observar durante horas uma única onda e dar-lhe consistência animal, humana, metafísica: “A onda única, como ser único em sua monstruosa enormidade, não existia (…) era somente um resumo de destinos diferentes unidos por um desígnio superior, desígnio sem corpo, sem materialidade, sem cabeça (…) uma marcha, uma vontade, uma abstração”. Uma das coisas que fazem deste livrinho uma coleção de meditações tão líricas quando transcendentes; esqueça a bússola.

FICÇÃO BRASILEIRA

Dama indecorosa
Pornô Chic, Hilda Hilst (Biblioteca Azul)

Hilda na Casa do Sol

Hilda na Casa do Sol

Uma doce menininha de oito anos é prostituída pelos próprios pais — e ainda relata minuciosamente seus encontros. Eis a sinopse do infame Caderninho Rosa de Lori Lamb, que, ao ser lançado, em 1990, deixou boquiabertos público — que, até então, nunca tinha ouvido falar em Hilda Hilst — e crítica, acostumada a tratá-la como uma das grandes escritoras do Brasil. “Estou cansada de não ser lida; vou escrever pornografia”, justificou, à época, aos 60 anos, conforme contam Humberto Werneck e Caio Fernando Abreu na fortuna crítica de Pornô Chic. O chiquerrérrimo volume abrange o delicioso, divertido e, sim, ainda assustador Caderninho da minilolita, Contos D’Escárnio/Textos Grotescos e Cartas de um Sedutor, sua trilogia tresandando a sexo de todos os gêneros imagináveis. Apesar do escândalo, Hilda não virou best-seller — só viu sua fama de autora maldita consolidada, e esta prosa ganhou sua etiqueta de praxe: altíssima literatura. Completam esta safada seleta textos de sacanagem menos conhecidos, ensaios de Eliane Robert Moraes, Jorge Coli, João Adolfo Hansen & Alcir Pécora, bem como ilustrações de Millôr Fernandes, Jaguar, Laura Teixeira e Veridiana Scarpelli.

Luta ao luto
O Brilho do Bronze, de Boris Fausto (Cosac Naify)

Boris Fausto, historiador, em sua casa em SP. SP15.02.06 foto:© BEL PEDROSA

Boris Fausto, historiador, em sua casa em SP.
SP15.02.06
foto:© BEL PEDROSA

O que fazer quando você é um historiador e precisa enfrentar a morte da mulher com quem dividiu 50 anos? Se você é Boris Fausto, enxuga as lágrimas e começa a escrever um diário. É este o mote de O Brilho do Bronze, que, embora pudesse ser depressivo ou melancólico, é uma ode ao amor e ao humor. “Nesta vida, morrer não é difícil/ Difícil é viver e seu ofício”, escreveu o suicida Maiakóvski em versos lembrados por Fausto para se referir à força que o move frente à ausência deixada pela mulher com quem conviveu por quatro décadas. Autor de obras incontornáveis sobre o Brasil, o velho historiador paulista abandona o tom professoral para encontrar um registro de contador de causos, às vezes assaltado pela melancolia e pela ausência, ora espantado ora deliciado com a realidade absurda que o cerca, os descaminhos da memória, sua relação com a história.

POESIA

Fogo-fátuo
Blume, de Felipe Nepomuceno, 7Letras

Felipe

Blume é “substância sólida ou volátil produzida por decomposição ou volatização”, explica a abertura do novo livro do poeta e cineasta carioca Felipe Nepomuceno. Também poderia, como metáfora, igualar-se ao último clarão da vela antes de apagar-se. Pois é do último clarão da paixão amorosa, as sobras de um relacionamento, que surgem as mínimas reflexões deste livro, impostas em versos curtíssimos, dicção prosaica e perfurados por elipses e imagens velozes, típicos do autor (como na bela coletânea Mapoteca). “É o fim:/ ar livre”, sugere “O quadro feito de chuva”. Ou no explícito “As meias solitárias”: “Caminham juntas/ em pés separados”. Epigramático: “Enterrada viva, naquele/ tempo distante, perdido,/ presa num comprimido:/ toda memória é suspiro”. Viagens, como em livros anteriores, retornam: “Na antiga União Soviética,/ dentro de um/ abraço aquático,/ esta certeza/ em pedaços:/ o verdadeiro amor/ é mesmo um raio.” Laranjópolis, Buenos Aires, Madureira e outros lugares quase símbolos gráficos indicam o deambular sonâmbulo do poeta. Seu passeio pode ser para perto, para dentro da literatura, como em “Isto não é um sonho”: “Eu também sei voar,/ um dia consegui./ Não no ar, lá no alto,/ mas aqui: verdadeiro/ super,/ bem rente ao chão,/ entre a estante:/ como um balão”. Fazer o leitor voar com tão rarefeitos elementos pode parecer um dom fugaz — mas as imagens de Nepomuceno permanecem acesas na memória; não é pouco.

INFANTO-JUVENIL

Ecos da infância
Os Rios Morrem de Sede e O Menino e o Pinto do Menino, de Wander Piroli (ilustr. Lelis), Cosac Naify

Piroli, um homenzarrão fofoleto

Piroli, um homenzarrão fofoleto

Wander Piroli foi pioneiro. “Direto, incisivo, incapaz de cultivar aflições estéticas nem existenciais, pertence ao que está mais embaixo, junto com os outros, preocupado com os problemas rasteiros das sobrevivência”, disse dele João Antônio — a quem Piroli era tão comparado a ponto de ser chamado de “o João Antônio mineiro”. De fato: com o olho afiado para o submundo e o lado selvagem da vida — conforme se nota em livros como Mnha Bela Putana, histórias de amor no baixo meretrício em BH —, em sua literatura infanto-juvenil Piroli também se destacou pelo olhar crítico e pela aguda consciência social. A Cosac Naify vem relançando toda a sua obra, que marcou os anos 70, agora ilustrada por Lelis, premiado artista e quadrinista mineiro responsável por levar à editora a obra do conterrâneo. O Menino e o Pinto do Menino, um dos grandes clássicos da literatura infanto-juvenil brasileira, traduzido para vários países e há tempos esgotado, provocou a ira dos moralistas quando de seu lançamento, em 1975. Mas, por trás do título safado, Piroli apenas narrava uma original história sobre sustentabiidade ao descrever como um menino moderno pode criar um pintinho dentro de um apartamento. Na mesma linha ecológica, Os Rios Morrem de Sede conta a história de um pai que leva o filho para pescar no mesmo rio em que ele lançou seus anzóis, 40 anos antes — só que então o curso d’água está totalmente poluído. O tom crítico é temperado pelo comovente drama pai-filho — esta agridoce contradição que marca toda a obra do grande Piroli.

Sem tatibitate
Esqueci como se chama, de Daniil Kharms (Cosac Naify)

Ilustração de Gonçalo Viana para Daniil Kharms em linda edição

Ilustração de Gonçalo Viana para Daniil Kharms em linda edição

Fazer uma criança de três anos pronunciar direitinho Karl Ivánovitch Shusterling é a menor das proezas de Kharms, um dos segredos mais bem-guardados da literatura russa do começo do século 20. Absurdista e anárquico, teve sua carreira eclipsada pelo realismo socialista imposto pela nascente URSS. Os continhos aqui ilustrados pelo premiado artista português Gonçalo Viana são a sua solução se você quer fugir da habitual babaquice consumista dos livros infantis e quer divertir crianças com alta literatura: na melhor tradição antilógica de Lewis Carroll, Kharms (que também assinava como Shusterling, personagem recorrente) distorcia os contos de fada em favor do nonsense e de uma incorretíssima visão da realidade.

QUADRINHOS

Paraíso em HQ
Portas do Éden, de Kioskerman (Lote 42)

Kioskerman

A inventiva microeditora independente Lote 42 traz nova preciosidade. Sempre em busca de uma epifania sutil, as tiras do cartunista argentino — um quadradão dividido por quatro quadros — transitam em um espaço raro para o tradicional formato, se aproximando da poesia: em lugar do humor, ele prefere o onírico, o surreal, o metafísico e o filosófico, narrando minicenas insólitas que se passam no mágico Éden.

Quadrinho político
Apocalipse Nau, de Guazzelli (Nós)

Je suis Guazzelli

Je suis Guazzelli

Sob o impacto do massacre na revista satírica francesa Charlie Hebdo, o cartunista gaúcho Eloar Guazzelli desenhou esta espécie de pensata em quadrinhos sobre o lugar do artista enquanto agente político de um mundo em que há cada vez mais forças em confronto. O prolífico Guazzelli, que deve publicar uma meia-dúzia de álbuns por ano, escolheu uma linguagem veloz para traduzir seu espanto com a chacina: o thumbnail, aquele rascunho usado por quadrinistas como primeiro tratamento de seus roteiros. Memórias de um filho de advogado de presos políticos, relatos de um pai em pânico por não saber apresentar o apocalipse aos filhos, o livrinho é um ensaio desenhado durante uma viagem a Santa Catarina e consegue combinar placidez com assombro.

[Textos originalmente publicados no Guia da Folha Livros Discos Filmes e revista Status.]

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