Entrevista

Versos de tuíte

a poesia concreta mas nada dura de Guadalupe

a poesia concreta mas nada dura de Guadalupe

A poeta Ana Guadalupe arranca sarcásticas epifanias de posts, memes e até do chorume da internet

Sorry guys, mas daqui uns anos qualquer crítico literário astuto observará que a mais original poesia brasileira dos anos 10 foi oxigenada por jovens mulheres: Angélica Freitas, Ana Martins Marques, Bruna Beber, Alice Sant’Anna, Marília Garcia, Laura Liuzzi e um longo e belo etc. A este casting poderia se juntar a londrinense Ana Guadalupe, 30. Responsável por um perfil no Twitter cheio de chistes — seu lema é a frase-de-vovó “divirtam-se por mim” —, Ana, que é redatora de publicidade e redes sociais, lança Não Conheço Ninguém Que Não Seja Artista (Confeitaria).

Sua linguagem tem a espontaneidade de um tuíte, mas atenção — por trás dos versos melancólicos há uma ironia maliciosamente calculada, como em “Quem lê viaja”:

“Viajar pra quê/ se tem na internet/ se já tiraram foto pra você/ se é impossível guardar na memória/ por mais de 3 anos/ se o lugar não volta nas malas/ se haverá gastos e cansaço/ se me causará despeito/ se 80% das pessoas/ descreverão todos os países/ em poucas palavras/ e você poderá usá-las/ sem esforço/ no conforto de casa”.

O formato do livro também é original: dez poemas foram escritos a partir das imagens intrigantes da paulista Camila Svenson, e outros dez foram ilustrados pela fotógrafa, compondo uma obra em que o visual sublinha ou amplifica o texto, e vice-versa. Enquanto rebatuca o terceiro livro de poesia, a ser lançado ainda este ano, Ana conversou com este Impostor. Saiba mais sobre o livro aqui.

um livro em que a poesia conversa com a fotografia ou vice-versa

um livro em que a poesia conversa com a fotografia ou vice-versa

Como foi escrever partindo de imagens? Foi diferente do que costumo fazer. As fotos traziam informações que quis usar de forma indireta e bem livre, sem tentar costurar tanto as duas coisas. Mudou principalmente porque sentia que precisava valorizar (?) as fotos sem escrever o óbvio. tinha um compromisso que não costumo ter quando escrevo sozinha, do nada.

Seus poemas são despretensiosos, minicrônicas sobre conselhos, redes sociais, reality shows, fila de hospital, um caminhão baú ou memes do Dollynho. É fácil achar poesia em territórios antipoéticos? Talvez seja o caminho mais fácil pra mim, tento fugir dos grandes temas poéticos. Não aguento mais ler poema de amor, por exemplo. Como leitora, gosto da poesia que “surpreende” com imagens inusitadas e temas “menores”, daí o carinho por esses territórios antipoéticos.

Em poesia pede-se que o autor tenha ‘uma voz’. Seus textos têm uma voz irônica, melancólica, nonsense sobre fatos banais; sua pontuação rarefeita lembra um ‘pensar em voz baixa’ sobre um assunto qualquer, sem tentar juízo final. Como foi chegar a essa dicção? O Jeffrey McDaniel é um poeta americano que me influenciou, e sempre me identifiquei com a Alice Sant’Anna e a Bruna Beber. Descobri a Adília Lopes tarde, e percebi que tinha me influenciado sem que soubesse. Também li Ana Cristina Cesar, Leminski, Waly, Piva. Enxergo umas manias que vêm crescendo; quando indicam essa “dicção”, sinto que meu eu lírico é um pouco excêntrico (rs).

[Originalmente publicado na seção Entrelinhas, da revista Status.]

Um pensamento sobre “Versos de tuíte

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