Ficção/Prosa

O último livro do Cinema Nuvem

Marcos Garutti (acrílico sobre madeira e digital)

Marcos Garutti (acrílico sobre madeira e digital)

Talvez estivesse perto da meia-noite
e o fogo soasse como um sino
dentro da fornalha. Este é o meu nome.
Richard Brautigan

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Irmãos de fogo, hoje vou contar uma outra história do fogo, espero que estejam dormindo quando terminar. Já posso ver seus olhos vermelhos por causa da fogueira que nos envolve nessa névoa. Venham, se aqueçam aqui na carroça, aos meus pés: a noite é sempre mais longa pra quem vive no ar livre de concreto armado. Não se incomodem com meu cigarro e meu trago, irmãos de fogo; brinquem com esses ossos.

Lembram daquela caixa de livros que faturei na desocupação do Cinema Nuvem? Até trouxe uns pra nossa fogueira. Na correria da desocupação meu amigo estava preocupado com a família e não teve tempo de guardar livros velhos, só deu a caixa e disse pra eu tomar tento com eles. Dias depois cheguei numa rua muito sossegada e deserta lá na zona sul, um murão comprido e uma calçada limpa, tudo feito pra gente armar a cabaninha e derrubar o esqueleto. Me joguei ali com vocês e dormi até de tarde. Quando acordei olhei na outra calçada a garagem aberta de um sobrado, e na frente um cara deitadão numa cadeira de praia. Em volta dele tinha umas mesas cheias de livros e dentro da garagem estantes e também cartazes e vinis; lá de dentro vinha um som de piano.

O cara parecia dormir: perto dele, num banquinho, uma garrafa pela metade. Ele usava uma barba grande tipo a minha e uma camisa xadrez igual a essa única camisa xadrez azul aqui, e umas calças rasgadas também bem parecidas com as que eu uso, mas as dele estavam limpas e perfumadas. Fiquei falando senhor, senhor, até ele acordar num susto dizendo pois não? Desculpe, cochilei depois do almoço, posso ser útil? Aí disse eu é que posso ser útil, trouxe esses livros pra ver se interessava, rendem um almoço? O cara tirou os óculos e catou uma lente de aumento pra olhar as páginas, ficou um tempão conferindo coisas escritas nelas. Caramba, ele riu, isso é autêntico? Falei sim senhor, quem me deu guardou esses livros a vida toda. Quanto quer por eles?, o cara perguntou. Como eram uns cinco, achei trinta um bom preço. Olha, não vou sacanear você, ele disse; esses livros são primeiras edições de escritores importantes, e estão todos autografados. Pago quinhentos. O cara me disse que apesar de os livros valerem mais só poderia pagar isso por eles. Não entendi como uns livros embolorados poderiam ser tão caros.

Na semana seguinte voltei no sebo e o cara continuava escarrapachado na cadeira de praia, bêbado e roncando com a mesma roupa, aliás a mesma roupa que eu usava. Dessa vez ele me convidou pra um trago: beber de tarde era o único jeito, ele gemeu. Único jeito de quê, perguntei. Único jeito de não lembrar da ex-mulher. Sei como é, suspirei, aceitando o trago. Ele gostava de conversar comigo porque não me conhecia aí poderia confiar em mim, algo impossível com seus amigos, todos uns falsos, e eu não, eu sim um homem de verdade, um cara autêntico. Por que eu sou autêntico?, perguntei, achando graça. Porque você é livre, não obedece a ninguém, é dono do seu tempo, vem do nada e vai pra lugar nenhum. Já eu estou preso nesse porto seguro acreditando que estou a salvo, mais uma mentira, minha vida toda foi uma mentira. E isso ele sentia falta na ex-mulher: ela era de verdade, era livre, só cumpria a sua veneta, se quis ir embora ele não poderia fazer nada. A liberdade tem seu preço, eu comentei. Qual?, o cara perguntou. Outros quinhentos, eu ri, entregando mais livros. Ele ficou tão impressionado com os livros que me pagou o dobro.

O problema, o cara gemia, era agora ele ver a ex em todos os lugares. Ele ia em um bar e, se visse uma mulher com cabelos castanhos lisos, brilhantes feito uma cachoeira de chocolate, sentia o coração apertar e o mundo girar, vontade de fugir ou vomitar ou morrer, porque pensava que poderia ser ela, com outro cara, e isso ele não suportaria, daí saía correndo do bar; por isso já não bebia mais em nenhum bar, só no sebo mesmo. Ela era o seu fantasma de estimação. Ele via a imagem da ex quando saía de casa, quando andava na rua, quando comia, quando lia, quando via um filme, quando transava com outra mulher, quando sonhava, quando acordava — se eu fecho os olhos, ela abre os olhos dentro de mim, ele dizia: uns olhos negros, brilhantes, incandescentes. Uma dor sem tamanho, assim ele sentia, meus irmãos de fogo. Uma dor sem tamanho, o cara repetia, e ele não conseguia explicar isso pra ninguém, porque sua imagem era a de um cara de sucesso, um cara forte e bonito e esperto que tinha tido todas as mulheres e percorrido o mundo inteiro, tinha aberto mão do emprego milionário pra viver a vida independente de chefe; mas na verdade o sebo não passava de um refúgio do passado, um refúgio de refugos, de livros, vinis e cartazes de outras pessoas, afinal o passado é uma coisa mais fácil de entender do que alguém que uma hora diz te amar e outra hora desaparece pra só reaparecer bem quando você já esqueceu: depois que ela foi embora, ele suspirava, ela nunca mais saiu da minha vida.

Eu viajo por toda a cidade e levo coisas de um lugar pro outro e cada dia é diferente mas todo dia é o mesmo, irmãos de fogo. Quando eu ainda lia, gostava de histórias em quadrinhos porque os personagens vivem com as mesmas roupas, mas só agora que me livrei das histórias e dos livros percebi ser um personagem das ruas, já que uso sempre as mesmas roupas e puxo a mesma carroça pintada de vermelho, como se eu fosse um bombeiro do meu próprio incêndio.

Marcos Garutti (acrílico sobre madeira e digital)

Marcos Garutti (acrílico sobre madeira e digital)

Numa outra tarde, perguntei por que ninguém nunca aparecia no sebo. As pessoas não vêm pois compram os livros pela internet, o cara explicou, o sebo só existia pra ele colocar as fotos do sebo e dos livros e dos vinis e dos cartazes e de sua vida inventada na internet pra pessoas acharem que o sebo era de verdade. Provavelmente as pessoas também não leem os livros comprados de mim, só querem fotografar as capas pra colocar na internet e passar a impressão de que vivem aquelas vidas, hoje em dia as pessoas estão onde não estão, e o cara riu muito quando disse isso. E eu conto essa história e percebo os olhos de vocês aos poucos se parecendo com asas de mariposas derretendo no fogo.

Eu também vi a imagem da mulher. Foi no dia em que mostrei os últimos livros da caixa. Ela estava sentada na escrivaninha, escrevendo num computador, e realmente era linda e tinha olhos inteligentes e apaixonados e os cabelos compridos e brilhantes tipo uma cachoeira de chocolate. O cara estava lá, como sempre, deitadão na cadeira, bebendo. Desta vez, quando me pagou, notei lágrimas correndo sob os óculos. Me deu muito dinheiro. Vou fechar o sebo, ele suspirou. Não posso mais viver assim, e me apontou a imagem da mulher, escrevendo no computador sem prestar atenção em nós. O que ela está escrevendo?, perguntei. Ela está escrevendo o seu lado da nossa história, ele disse. Uma dor sem tamanho?, perguntei. Ele desviou os olhos, e me mandei dali.

Depois que recolhia os livros, às seis da tarde, o cara deixava a porta da garagem entreaberta e ficava mais um tempinho lá dentro arrumando as estantes. Devia ficar olhando os livros e os discos e os cartazes velhos e sofrendo com as lembranças trazidas pelo fantasma da mulher, e que será pior que se refugiar com um fantasma que traz os seus próprios refugos?

Só tinha um jeito de salvar o cara, meu irmãos. Desci rápido a porta de ferro, acendi o fósforo no último livro do Cinema Nuvem e joguei lá dentro. Ainda deu tempo de ouvir o cara gemer uma palavra quando tranquei a porta. Engraçado: essa névoa nos envolvendo aqui se parece com aquela névoa saindo por uma fresta na porta do sebo, uma névoa cor de chocolate abafando aos poucos o som do piano. Agora eu sei: só vou conseguir dormir se vocês lamberem minhas cicatrizes de fogo, porque os cães sabem que nem mesmo o fogo é capaz de matar um fantasma.
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[publicado originalmente na Revista E, do Sesc, edição de outubro]

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