Ensaio

O homem que veio do futuro

PKD viveu em mundos alternativos, acreditava ser um precog, viajava no tempo, induzia a imersão em realidades paralelas mediante uso de substâncias psicoativas, recebia mensagens de espíritos, de extraterrestres e de entidades de outro espaço-tempo: tinha certeza de ser um sujeito do futuro que narrava a si mesmo o passado

PKD no traço de Robert Crumb

PKD no traço de Robert Crumb

Prefácio a O Homem Que Veio do Futuro, de Anthony Peake (editora Seoman)

Time present and time past
Are both perhaps present in time future,
And time future contained in time past
T.S. Eliot

Você pode ver Philip Kindred Dick (1928-1982) como um dos mais influentes escritores norte-americanos do século 20. Um homem que dedicou a vida a explorar, através do gênero da ficção científica, a natureza da realidade, as questões de identidade, falso e verdadeiro, dos abusos das substâncias alteradoras de percepção, da paranoia, esquizofrenia e psicopatia, bem como experiências transcendentais de todo tipo, usando para isso uma linguagem sofisticada e vários níveis narrativos, que possibilitam ao leitor navegar sem escalas do romance policial às digressões metafísicas, sem jamais cair em armadilhas infantis e fantasiosas. Também pode vê-lo como o prolífico autor de 44 romances e dezenas de histórias curtas que deram origem a filmes tão populares quanto cultuados: Caçador de Androides, O Homem Duplo, O Vingador do Futuro, Minority Report e outros. Pode ainda vê-lo como um profeta: inteligências artificiais sendo confundidas com seres humanos, a realidade virtual, a possibilidade de apagar ou implantar memórias, a internet como território conectado à psique.

Ou pode ver Philip K. Dick como o único escritor de ficção científica que viveu como se a ficção de seus livros fosse a realidade.

A matéria de que a realidade de PKD era feita sempre foi estremecida pela questão “E se…?”. Deste questionamento partem seus livros mais desafiadores, que guardam o poder de nos fazer observar o mundo à volta como se fosse populado por impostores, farsantes, conspiradores, mentirosos. Esta foi a sensação que tive após ler O Homem do Castelo Alto, de 1958. Como bem o sabe o fã de PKD, o livro situa os EUA em um mundo alternativo em que a Segunda Guerra foi vencida pelo Eixo. É uma premissa tão poderosa que, mal a li na contracapa daquela velha edição da Editora Sabiá, já estava na décima página sendo devorado pelo estranho senso de humor — e de horror — da narrativa.

Como talvez não o saiba o fã do escritor norte-americano até ler esta intrigante biografia escrita pelo inglês Anthony Peake, a tal poderosa premissa foi chupada de outro livro. Pois é: o grande PKD também era um grande picareta. Bem, não totalmente um impostor — Eliot dizia que escritores imaturos copiam; os maduros roubam. PKD tinha lido na faculdade um livro sobre a Guerra da Secessão em que o Sul havia vencido o Norte, Bring the Jubilee, de Ward Moore (1953). Este livro já contém uma outra ideia original do Castelo Alto: um romance dentro do romance que demonstra a irrealidade daquela realidade.

Em 11 de abril de 1961, Eichmann estava sendo julgado em Jerusalém e PKD, germanófilo que era, assistia fascinado aos argumentos do nazista, que redundariam no famoso livro de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal. No dia seguinte, aniversário da Guerra Civil, PKD indicou à sua então mulher, Anne, uma leitora voraz, o livro de Moore sobre a Secessão. Ao terminá-lo, Anne afirmou que o mais interessante da trama era uma ideia de romance-dentro-do-romance — justamente o que faz colapsar a questão da realidade. O mash-up Secessão/Eichmann turbinado pela cutucada da mulher foram as faíscas que alimentaram a fornalha de PKD — no usual ritmo febril daqueles dias anfetaminados, ele terminou Castelo Alto em semanas. Sessenta anos depois, o romance de PKD é um clássico e o de Moore mera curiosidade. Contudo, o episódio nos mostra um dado incontornável para compreender a psicologia do escritor: a influência que tiveram em sua vida as mulheres.

Muitas mulheres.

Segundo nos conta Anthony Peake, sendo um notório sociofóbico que detestava festas, reuniões, escritórios e lugares abertos, PKD passou a maior parte dos dias em casa. Mas a condição de ermitão não obnubilou a vocação romântica. Apenas agregou-lhe a profissão de fé no casamento. Foram cinco, povoados por filhos e enteados, sem contar os inúmeros casos a se enrolar na paralela ou ficções platônicas alimentadas durante anos — PKD era desses que acende o fogo da próxima namorada nas brasas da namorada anterior, mas mantém sempre um isqueiro reserva. E foi investigando suas relações com as mulheres que Peake logrou vários insights brilhantes sobre a psicologia perturbada — e perturbadora — de PKD.

Outro ponto a tornar esta leitura instigante é a forma como Peake situa o escritor em sua época, demonstrando-o afinado ao zeitgeist: foi careta, foi beatnik, foi hippie, depois um crítico severo do estilo de vida flower power (no que lembra outro visionário, Hunter S. Thompson) até tornar-se, no fim da vida, um místico supersticioso que refletia os episódios da ficção na própria biografia. A crítica contumaz que se faz às personagens femininas de PKD, por vezes frias, por vezes inacessíveis e por vezes insuportavelmente chatas, guarda ressonâncias com os desastres amorosos de um homem conservador que ficou adulto durante a Segunda Guerra mas que gradativamente foi aderindo aos ideais liberais e progressistas da contracultura dos anos 60, como o amor livre.

PKD tentava entender sua obsessão pelas mulheres — em especial morenas — no livro póstumo The Dark Haired Girl. Em permanente metamorfose psíquica, PKD buscava se entender o tempo todo e até escreveu um livro sobre isso: as milhares de páginas da Exegese, que compilam seus extravagantes diários — de que a biografia de Peake é a primeira interpretação consistente.

Como dito, PKD foi o único escritor de ficção científica que viveu dentro de uma. A comparação com seus colegas o torna uma avis raríssima. JG Ballard teve uma infância gloriosa — exposta em O Império do Sol —, e depois foi piloto de caças supersônicos, mas só virou mesmo escritor de FC quando se tornou um burguês que não saía do subúrbio pois estava imerso na literatura e, viúvo, criava três filhas sozinho. Kurt Vonnegut também teve juventude intrépida — que suscitou a escrita de Matadouro 5 —, mas vivia mais cercado de filhos, enteados e dívidas, como qualquer humano classe média, do que fazendo amizade com ETs. Isaac Asimov era mais um acadêmico divulgador de ciência obcecado pela evolução tecnológica do que um sujeito pessoalmente envolvido com robótica ou viagens interestelares. Arthur C. Clarke estava mais ocupado com passeios com rapazes do Sri Lanka do que com as explorações da NASA (que maldade… ele também foi um grande ativista pró-gorilas). E Ray Bradbury, que me disse não ser um escritor de FC (“a única FC que escrevi foi Fahrenheit 451“, me gritou ao telefone, irritado com as perguntas sobre o Fahrenheit 9/11 de Michael Moore), escreveu livros “mainstream”, policiais, de ensaios e de poesia, e era aquele vovô bonachão que todos sonhamos ter.

PKD não. PKD era doidão mesmo. De dar medo.

PKD viveu DE FATO em mundos alternativos. Acreditava ser um precog. Viajava no tempo. Induzia a imersão em realidades paralelas mediante uso de substâncias psicoativas. Recebia mensagens de espíritos, de extraterrestres e de entidades de outro espaço-tempo. Tinha total certeza de ser um sujeito vindo do futuro que narrava para si mesmo o passado. Todos temas de sua literatura — que PKD tomava a sério para a própria vida.

PKD seria o que hoje chamamos de psiconauta. Um sujeito cuja psique é tão aberta e alerta aos sinais, tão pirada em conspirações, tão prenhe de associações de ideias e fatos e tão autoconsciente dos ecos do futuro no passado que não raro ele a conectava, sem dar seta, ao mundo exterior.

Uma das definições de esquizofrenia é justamente a incapacidade em discernir entre as realidades externa e interna. Porém, como rebateria PKD em sua blague paradoxal, “realidade é aquela coisa que, quando você para de acreditar nela, não desaparece”. Conta Peake que esquizofrenia leve, transtorno bipolar, autismo e Asperger foram cogitados por amores e amigos para explicar o caráter instável de PKD. Mais prosaico, Peake sugere que as odisseias mentais do autor de Fluam Minhas Lágrimas, Disse o Policial eram embaladas por problemas de saúde como pressão baixa, dentes inflamados e outros advindos do uso continuado de anfetaminas. Por seu surpreendente diagnóstico final, jamais saberemos de fato onde estariam os limites entre médico e monstro, entre mágico e louco na vida e na obra de PKD.

E quem é Peake para lançar tal aposta? Trata-se de um cara tão ambivalente e contraditório quanto o próprio PKD. Para começar, o inglês é um estudioso da gnose, em especial do gnosticismo cristão — que designa um conjunto de crenças de natureza filosófica e religiosa muito antigas, influenciadas por Sócrates e Platão, cujo princípio básico assenta-se sobre a ideia de que há em cada humano uma essência imortal que transcende o próprio humano. Neste sentido ser humano é visto como um ser divino que caiu na terra de forma desastrosa — e que só pode se libertar dessa condição através de uma Revelação. De acordo com Peake, PKD foi acometido por diversas revelações, da infância aos últimos dias. Teria até visto a própria morte, “caído no chão entre o sofá e a mesinha de centro”.

Peake é também um pesquisador de experiências de quase-morte e déjà vu, de que se ocupa em Is There Life After Death?: The Extraordinary Science of What Happens When We Die (2009). Nele, o inglês converge gnosticismo, física quântica e a célebre tese de John William Dunne, em que passado, presente e futuro podem coexistir simultaneamente. Segundo a teoria do inventor e filósofo irlandês, o futuro penetra na nossa consciência através dos sonhos; já o passado emerge como uma sequência de déjà vus.

Esta hipótese de Dunne, que encontra ressonâncias em aspectos da cabala e do taoísmo, chegou a influenciar escritores do porte de Jorge Luis Borges — que lança mão da teoria para maquinar o desfecho do magistral conto “O jardim dos caminhos que se bifurcam” (de Ficções). Borges, aliás, foi a quem a grande autora de ficção-científica Ursula LeGuin sempre comparou PKD, ao demonstrar a abrangência da metafísica em sua literatura. De maneira análoga a PKD, Borges e Dunne, Peake clama em seus livros que os seres humanos estão vivendo as mesmas vidas seguidamente — uma versão do eterno retorno similar à confrontada por Bill Murray n’O Dia da Marmota.

Todo fã de PKD sabe que o mais perturbador acontecimento de sua vida é conhecido como 2-3-74 — os meses de fevereiro e março de 1974 quando o escritor foi atingido por um “raio rosa” e teve visões fantásticas. Em uma das alucinações, PKD haveria previsto que o filho teria um problema congênito que o mataria; alarmado, ao levar o filho ao hospital, descobriu que o problema era verdadeiro: se o pai não tivesse interferido, o filho estaria morto. Este episódio fez com que o escritor relesse sua vida inteira à luz de seus supostos talentos precognitivos.

Uma das conclusões a que o escritor chegou é que ainda vivia no tempo dos primeiros cristãos sob o nome de Elias, o profeta. Outra conclusão é de que tudo o que escreveu lhe foi ditado por ele mesmo no futuro. Estas espantosas descobertas estão registradas na caudalosa Exegese. E assinam embaixo da tese de Peake, para quem a mente consciente consiste em duas entidades semi-independentes, e uma delas sabe o que vai acontecer no futuro.

Controverso, Peake tem sido seguidamente confrontado por céticos e cientistas (ele não tem formação em ciências; estudou história, sociologia e depois formou-se na London School of Economics) por suas teses aproximando paranormalidade, xamanismo, física quântica, espiritualismo e gnose, comprovadas por experimentos empíricos e métodos polêmicos. Neste sentido, PKD parece o personagem ideal para confirmar suas hipóteses. Peake também tem um jeito meio picareta: logo no início, sugere que PKD teria previsto que Peake escreveria sua biografia. Seu nome teria sido citado em um romance de 1965, Regresso ao Passado, em que o personagem Anarch Peak lidera um grupo religioso prestes a renascer — e seria uma espécie de Messias; no livro, o tempo corre no sentido reverso (como em O Estranho Caso de Benjamin Button). “Interprete como quiser”, envenena Peake.

“Interprete como quiser” é o que parece sussurrar PKD em sua Exegese ao lançar afirmações, suspeitas, fatos, coincidências, sincronicidades e déjà vus cada vez mais esquisitos para confirmar a tese à que se abraçou ao fim da vida: a de que o futuro está no passado, e vice-versa. A teoria retorna de tempos em tempos, não raro abraçada por cristãos como PKD. O padre Antonio Vieira, em sua História do Futuro, acreditava nisso, propondo que o Novo Testamento fosse um espelho do Velho, e que portanto até fatos de Portugal poderiam ser lidos à luz da Bíblia e mesmo previstos (Dom Sebastião sendo a versão lusitana de Jesus Cristo).

O curioso é que Peake interpreta a Exegese à luz de suas teorias gnósticas — algo até então não realizado na fortuna crítica de PKD — somente para, em sua conclusão, em vez de confirmar a narrativa que o escritor faz da própria vida, lançar sombras, dúvidas e suspeitas sobre as afirmações de PKD. Peake recorre a múltiplos relatos, a livros como a magnífica biografia romanceada de Emmanuel Carrère, Je Suis Vivant et Vous Êtes Morts, além de depoimentos e cartas de ex-mulheres — testemunhas confiáveis dos mais bizarros eventos — para demonstrar que PKD poderia, na realidade, ter agido o tempo todo feito um mitômano ao apresentar-se como um ser do futuro. Tais contradições confirmam PKD como um adorável mentiroso.

Uma das citações favoritas de PKD provém da carta de Paulo aos coríntios: “O que no passado víamos como enigma no futuro veremos através de um espelho, claramente” — citação corrompida no título de O Homem Duplo (A Scanner Darkly): “No futuro veremos tudo através de um scanner, confusamente”.

Ao final da biografia, o leitor poderá escanear o mundo à sua volta e vê-lo povoado por impostores, farsantes, conspiradores, mentirosos — entre eles, o autor de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? e o autor deste livro. Ler Philip Kindred Dick através do espelho distorcido de Anthony Peake torna esta biografia muito mais rica do que a gasta imagem do genial escritor de FC que tinha visões religiosas após ingerir doses cavalares de anfetamina e LSD. Ao contrário de reduzir o personagem, Peake fez de PKD um homem ainda mais intrigante. E perigoso. Cuidado, leitor: a sua própria realidade pode não ser bem o que aparenta.

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