Crítica/Entrevista

E se…?

Mais provocativo autor contemporâneo de ficção-científica, o inglês China Miéville chega ao Brasil com um romance policial que fala sobre duas cidades que estão e não estão no mesmo lugar

Miéville, um dos astros da New Weird

Miéville, um dos astros da New Weird

Duas cidades-estado partilham o mesmo estreito território, só que os habitantes de uma não vêem a outra, e vice-versa: desde crianças são treinados para “desver” seus vizinhos — que falam línguas diferentes, usam outras roupas, se portam de maneira diversa, têm uma cultura oposta. Não se trata de Israel e Palestina, e sim de Beszel e Ul Qoma, verdadeiras protagonistas de A Cidade & A Cidade, romance do inglês China Miéville (Boitempo, 290 págs.) publicado em 2009 que agora chega ao Brasil na tradução competente de Fábio Fernandes.

De fato as tretas entre as cidades lembram as eternas escaramuças entre palestinos e israelenses —mas, como em toda boa ficção científica, o autor não procede a uma leitura realista da realidade, e sim a modifica, a exagera. Em conversa por e-mail ao Valor, Miéville refuta essa comparação. “Há ressonâncias metafóricas, não apenas com a Palestina, mas vários outros lugares, mas esta é uma leitura redutora. Pegue a Palestina como exemplo: o problema não é que os israelenses ‘desvejam’ os palestinos — e sim que ‘vejam demais’, não importa quão politicida seja este horizonte para o estado de Israel”, argumenta Miéville.

“Prefiro pensar que o livro trata de uma extrapolação de dinâmicas sociais em muitas sociedades”, afirma. À medida em que o estranhamento das convenções do romance vai se dissipando, outros exemplos ocorrem ao leitor — dos conflitos multiétnicos em Sarajevo a sociedades capitalistas “convencionais” como São Paulo, onde há pessoas que viveram a vida toda na periferia e jamais viram a avenida Paulista e seres diferenciados de bairros nobres nunca enxergam os sem-teto do outro lado da rua. Em A Cidade & A Cidade refletimos como ver o outro não passa de convenção: nosso olhar jamais está destituído de preconceitos.

Falou-se de ficção científica, mas o termo não é correto. Miéville é o mais premiado representante do New Weird, movimento surgido na literatura europeia dos anos 90 propondo uma revitalização da weird fiction, ou literatura bizarra — filhos do gótico, como HP Lovecraft, Edgar Allan Poe, ETA Hoffmann e Sheridan Le Fanu, que misturavam o horror, o macabro, a fantasia, o policial e até a ficção científica (FC). O New Weird mergulha o gótico no realismo urbano, extraindo estranheza da linguagem e uma visão provocadora da realidade imediata — no Brasil, o escritor que mais se aproxima desta estética é o carioca Fausto Fawcett (que, aliás, teve seus Santa Clara Poltergeist e Básico Instinto recentemente reeditados pela editora paranaense Encrenca).

Transgênero por excelência, o New Weird se aproxima da FC, do pornô, do horror ou do policial — como é o caso deste livro de Miéville. Afinal, seu narrador é o detetive Borlú, que, ao investigar o assassinato de uma mulher em Beszel, descobre que, além de se tratar de uma arqueóloga estrangeira morando em Ul Qoma, ela teria descoberto uma passagem secreta entre as cidades — levando a uma terceira: Orciny. Porém, sua investigação é detida por uma enigmática organização chamada Brecha, que vigia implacavelmente os habitantes de cada cidade, impedindo que se relacionem com seus vizinhos — “fazer brecha”, expressão usada para quando um cidadão de Beszel interage com um de Ul Qoma, ou vice-versa, é crime passível de pena capital.

Arte de Fabio Cobiaco para a capa do romance editado pela Boitempo

Arte de Fabio Cobiaco para a capa do romance editado pela Boitempo

Outros mundos possíveis

Como se pode perceber, política é o eixo deste romance — não surpreende, tendo em vista o ativismo político de Miéville. Antropólogo com formação em direito internacional na neoliberal London School of Economics, Miéville é marxista até a raiz de seus zerados cabelos, e um dos fundadores do Left Unity — mais combativo partido de esquerda inglês, liderado por gente como o cineasta Ken Loach. Em artigo publicado na revista Margem Esquerda número 23, Miéville esboça uma tese original: enquanto gêneros que questionam a realidade, a fantasia, a ficção-científica e o fantástico propõem “outros mundos possíveis” fora do capitalismo.

“Ao construir uma totalidade internamente coerente mas efetivamente impossível, a literatura fantástica mimetiza o ‘absurdo’ da modernidade capitalista”, escreve. Mas, tendo em vista os bilhões de dólares que provêm de franquias como Guerra nas Estrelas ou de todo o Universo Marvel, a FC, a fantasia e o fantástico não seriam os mais pró-capitalistas dos gêneros?

“Minha tese”, responde Miéville, “sugere que o fantástico oscila ao redor de estranhamentos em relação ao cotidiano, apontando a ideia de que o cotidiano ‘real’ não é a única verdade. Isso pode obviamente combinar-se com ideias radicais — mesmo naquelas formas mais lucrativamente transformadas em commodities —, mas não de modo automático.” De forma análoga, argumenta Miéville, boa parte da FC não trata do amor pela tecnologia — que se converte em um fascinante motor para o capitalismo —, e sim seu contrário: uma fobia terrível em relação à inexorável marcha das máquinas sem alma.

“O sentido de FC em um autor como JG Ballard“, diz Miéville, referindo-se ao autor de Crash, a quem é frequentemente comparado, “tem mais a ver com uma paisagem sociológica obsessiva e alucinada do que com um mínimo interesse em tecnologia — que não passam de brinquedos. É o prisma da ficção não-realista que me interessa”.

Nesta direção, um livro como A Cidade & A Cidade, mais do que propor um diagnóstico sombrio de uma realidade atual — como seria o caso de amor e ódio eterno entre Israel e Palestina —, se impõe como uma rebelião do pensamento. Ele tem a coragem de fazer a pergunta impertinente de todo grande livro de ficção-científica, de 1984 a Admirável Mundo Novo: e se…? “Independentemente do grau de mercantilização e domesticação ao qual o fantástico esteja sujeito, precisamos da fantasia para pensar o mundo. E transformá-lo”, conclui.

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