Reportagem

Cheiro de livro

Hummm

Hummm

Razões alquímicas do mais divino dos aromas

Sempre que me pedem as três coisas que levaria para uma ilha deserta, penso em três cheiros: o cangote do recém-nascido, a vulva da mulher amada e as páginas de um livro — tanto faz se novo ou velho. Sim, poderia levar diretamente o bebê, a amada e a biblioteca, só que o bebê cresceria e viraria um adolescente pentelho, a mulher cedo se aborreceria com minhas manias e críariamos idiossincrassias grossas e os livros seriam corroídos pela maresia e pelo desespero náufrago.

De modo que, a crer-se na possibilidade de manter um aroma indelével e indistintamente, eu meteria na bagagem de Robinson Crusoé três garrafinhas com tais aromas — ou quem sabe os salvaria em um e-mail enviado para mim mesmo (se já existem estudos para mandar odores pela internet, por que não se pode manter um cheiro pra sempre, reservado na Nuvem?).

Pensando melhor, só levaria o próprio cheiro de livro, que em si contém todos os outros cheiros; e, quando chovesse em minha ilha, o conjugaria com outro odor sagrado: petrichor — cheiro da terra molhada de chuva e uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa. Não sei exatamente quando ganhei o hábito — certamente antes do surgimento das vulvas e dos bebês — de enfiar o nariz entre as páginas de um livro e aspirar fundo, com os olhos fechados; minha memória mais antiga indica as lindas lâminas plásticas de anatomia entre um volume da Encyclopedia Britannica (onde muita gente também teve seu primeiro, e às vezes último, contato com vulvas), que fazia com que aquele livrão tivesse um odor ainda mais único.

Anos depois, os cheiros de livros seriam intrinsecamente relacionados à ideia de prazer, fuga, aventura, exílio, delírio, angústia ou transcendência ou tudo o que estivesse relacionado entre a capa e a contracapa — contos policiais, épicos, poesia, quadrinhos, fotos, catecismos de sacanagem. Sim, um cheiro de livro pode conter tudo, como um Aleph de passadas e futuras cafungadas, suspiraria Jorge Luis Borges.

Fungos alucinantes do século 19

É comum o cheiro do livro instigar o espírito literário. Literatura, arte que na verdade se pratica com a bunda — mais especificamente a capacidade de ficar sentado por horas (à parte ascetas como Ernest Hemingway ou Philip Roth, que escreviam em pé) — , é filha do corpo, antes que do espírito. O cerebral Marcel Proust não teria escrito sua saga Em Busca do Tempo Perdido caso se esquecesse do gosto de uma madeleine provada na infância; metade da crônica de Nelson Rodrigues desmoronaria sem os palitos de um Chicabon de chocolate; mas, ao contrário, Borges, que praticamente viveu dentro de uma biblioteca e enxergava mal, só reconhecia o cheiro do pampa por ter lido sua descrição nas páginas do Martín Fierro.

“Desde pequeno me interessei por livros e uma de minhas primeiras lembranças era pegá-los, não para lê-los, porque não sabia, mas para ver-lhe as estampas e, principalmente, para cheirá-los”, contou certa vez o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro (Sargento Getúlio). “Conservo esse hábito até hoje e cheguei a ler livros não tanto por seu conteúdo, mas pelo seu cheiro. Aprecio muito dicionários velhos, que me parecem terem um odor exclusivo. Sou capaz de ficar cheirando livros durante horas, com breves intervalos para uma leiturazinha de alguns minutos.”

O escritor e designer Joca Reiners Terron (Do Fundo do Poço Se Vê a Lua) também relaciona seu amor à literatura ao odor da leitura:

“Fui exposto ainda na infância aos fungos alucinógenos que nascem no meio das páginas de livros e gibis velhos. São fungos altamente tóxicos, minúsculos, que nascem da tinta impressa na microtextura das páginas úmidas e contaminam o leitor. Mais poderosos que o LSD, proporcionam viagens inesquecíveis. Tem um problema: viciam”, alerta Terron.

E o bibliófilo e poeta Antonio Carlos Secchin (Todos os Ventos) vai além:
“A atração se dá pela conjugação do cheiro bom e acolhedor da madeira antiga, o das estantes, e o transformado em folha de livro…”, explica. “Diria que o cheiro melhor não é de livro, mas de um século: o dezenove. São volumes que, em geral, sensorialmente me agradam, não apenas pelo olfato: fazem bem à visão e ao tato. Se a isso somarmos o discreto ruído no ato de virar as páginas, só faltaria comê-los”, exagera Secchin.

É compreensível quem prefira o cheiro de livros antigos, ou usados — embora seja complexo determinar o uso de um livro — ao dos recém-saídos do forno das gráficas, como o jornalista Ricardo Lombardi, proprietário do sebo Desculpe a Poeira. “Prefiro o cheiro de uma biblioteca pública ao cheiro de uma livraria de shopping center — então, pensando bem, devo gostar mais do cheiro de livros velhos”, diz. “Quando penso em cheiro de livro, vem à mente o cheiro de naftalina e mofo da minha enciclopédia Britânica da adolescência (que está à venda, inclusive)”, anuncia o sommelier de livros. Para o fotógrafo e escritor JR Duran (Cidade Sem Sombras), só se adquire um livro após toda uma experiência sensorial.

“Toda vez que abro um livro, cheiro. Pego o livro na livraria, sinto o peso, pois tem que ser bem balanceado entre as páginas de dentro, a capa e a contracapa. Percebo se tem guarda boa, espaço bom pra ler, como é a tipografia, e só aí enfio o nariz nas páginas do livro para ver se é um objeto digno da minha companhia. Há livros mais e menos agradáveis, assim como os seres humanos: podem nascer limpos, depois com o tempo podem feder”, intriga o fotógrafo-escritor.

Buquê místico e crises de espirro

E, de fato, há quem reclame do cheiro dos livros novos, e até deixe de comprá-los por causa do aroma. Consideradas por este modesto bibliômano como detentoras dos buquês mais exuberantes nas livrarias nacionais, as revistas Zum e Serrote — na verdade livros de arte, pelo cuidado editorial — já receberam muitas críticas de leitores.

“A Serrote volta e meia é alvo de reclamações: um sujeito tinha crises de espirro toda vez que abria a revista e cancelou a assinatura por conta disso”, revela Daniel Trench, diretor de arte do Instituto Moreira Salles, que edita a publicação especializada em ensaio e ficção. “Como os queijos, há uma ação do tempo e suas bactérias misteriosas que dão aquele buquê místico de sebo sobre os livros”, poetiza a outra editora de arte do IMS, Elisa von Randow, responsável pela bela e cheirosa revista fotográfica Zum. “Quanto mais novo, mais cheiro de gráfica… Quando a tinta perde sua predominância volátil, talvez o papel siga trabalhando, absorvendo ao longo dos anos tinta, cola, pó… e ácaros.”

Trench lembra que o papel também é peça importante nessa equação. “A Serrote varia muito seu cheiro a depender da quantidade de pólen que usamos: quanto mais poroso, mais intenso e duradouro é esse cheiro inicial — que vai mudando com o tempo.” Grande parte da origem do cheiro dos livros é atribuída ao papel.

“Livros de texto, que quase não tem tinta impressa sobre o papel, só cheiram mesmo à composição do papel e são mais suaves do que os super cobertos com tinta”, afirma Aline Valli, produtora gráfica da Cosac Naify — editora que pariu vários volumes olorosos, no sentido alquímico do termo (estive em seu estoque e quase desmaiei devido aos orgasmos olfativos múltiplos). “São os que mais me remetem ao primeiro dia de aula: os livros novos chegando pra começar o ano escolar”, ri. “ Você percebe facilmente a diferença de qualidade quando cheira um livro com papel couché (papel revestido e liso) e quando cheira algum livro com papel não revestido, como os papéis chamados offset”, dedura também Lilia Góes, produtora gráfica do Instituto Moreira Salles.

“O papel responde por 3/4 do cheiro do livro. Quando o miolo do livro é feito em papel offset pólen de boa qualidade, e a maior parte das impressões são de textos, ele se candidata a ter um cheiro agradável”, aponta Jorge Figueiredo, colorista da gráfica Geográfica. Ele diz que os livros com maiores áreas gráficas impressas tem o cheiro da tinta em evidência: bons exemplos são os livros em couché com imagens ou fotos. No papel offset polén, observa-se um papel mais poroso, com fibras expostas, que resulta no cheiro de papel de verdade; já o papel couché leva, no processo de acabamento final, um revestimento de cargas minerais que o deixa com aparência brilhante ou fosca. “Este revestimento isola as fibras do papel, deixando o livro com cheiro artificial — pois o cheiro em destaque será do revestimento e das tintas”, completa.

E por que algumas publicações cheiram tão mal?

“Há tintas com cheiro, para lembrar sabores, por exemplo, ou perfumadas. Mas o comum são os tipos de solventes (ou gordura), essas fedem. Papel reciclado cheira mal por causa dos solventes. Em jornais ou revistas o determinante dos cheiros são as tintas”, conta Vanderley Mendonça, poeta (Iluminuras), produtor gráfico e editor dos selos Demônio Negro e Edith, de baixa tiragem e acabamento artesanal. Revistas que usam papel reciclado costumam ser criticadas pelo odor sulfúrico que empesteia a leitura.

“Curioso perceber o quanto a Veja é catinguenta”, brinca Trench.

“O cheiro é resultante dos processos químicos, por isso vão do agradável ao fedido”, explica Mendonça. “No processo de impressão em rotogravura as tintas são líquidas, voláteis e inflamáveis, as resinas são solúveis em solventes orgânicos, o que resultará tinta com cheiro de Thinner. Em revistas de alta tiragem, como a Veja, o miolo é impresso no sistema de rotogravura, o que deixa o impresso com um cheiro forte proveniente do solvente orgânico retido no impresso na hora da cura da tinta”, explica o colorista Figueiredo. “Há tintas com solventes a base de álcoois, gorduras e água. É possivel acrescentar aromas. Uma publicação inglesa de design pôs o cheiro do Vick Vaporub na capa, pois tinha um anúncio deste produto. Ficou anos”, conta o poeta Mendonça.

“Podemos concluir que, com um bom papel offset, tintas livres de solventes orgânicos e um pouco da ação do tempo, teremos como consequência o bom cheiro do livro”, diz Figueiredo — que, embora elogie o aroma dos livros da Cosac Naify, prefira mesmo comprar livros em sebos. “Depois de algum tempo o cheiro melhora, existe algo diferente neles, não sei explicar…”, sugere o colorista. Apesar de bibliófilo, Mendonça diz nunca ter comprado um livro só pelo cheiro. “Só compro se for raro, que tenha design e obviamente conteúdo”, afirma. Já o fotógrafo Duran torce o nariz para livros fedidos:

“Livro com cheiro de mofo, livro que ficou muito tempo na casa de praia, livro que lembra empadinha velha… não dá”.

As tintas, outras responsáveis pelo cheiro do livro, comparecem de maneira diversa na formação do aroma, revela Lilia Góes. Se você pegar uma lata de tinta offset, abrir a tampa e cheirar, sentirá um cheiro característico de tinta. Nada forte: a tinta offset cheira menos que uma tinta serigráfica ou tintas sintéticas (esmaltes). “Mas o papel é o verdadeiro vilão da história”, dedura a produtora Lilia. Ela atribui este odor aos processos que o papel passa, do corte das árvores às calandras (rolos prensadores) que dão forma e secagem, até o fim da linha de produção: inúmeros cozimentos, muitas vezes temperados de produtos químicos para dar melhor qualidade.

O papel revestido tem sobre sua superfície uma camada de cobertura, tipo gesso — algumas empresas usam até amido para fazer esta camada — que confere lisura e maior printabilidade. Sobre estes papéis tem-se uma definição melhor das imagens e das cores. “Acho que esta cobertura ajude a inibir o cheiro forte do papel”, desenvolve a produtora. Os papéis offset (não revestidos) não têm tal cobertura, por isso seus odores ficam mais expostos. A cola da encadernação também tem um cheiro forte, mas passa com o tempo.

“A cena mais comum no meu dia a dia é a do cliente recebendo e cheirando o livro que acaba de nascer!”, felicita-se a produtora gráfica Lilia Góes.

Marketing, branding e odores naturais

O branding, claro, já chegou ao reino dos odores mais intangíveis — como de resto todos os demais domínios sagrados da arte. De olho nos consumidores de e-books saudosos de uma boa velharia, a DuroSports Electronics criou aerosóis com cheiro de livro (nas fragrâncias Livro Novo, Clássico Envelhecido, Perfume da Sensibilidade, Perfume de Engordurado de Bacon, para os que comem lendo, e Eca, para os donos de gatos — com cheiro de livro que virou assento de gato). Entanto, o órgão norte-americano Authors Guild interpelou judicialmente a empresa — o produto feriria os “direitos autorais olfativos” dos autores de livros — , e conseguiu retirar o aerosol das lojas. A pendenga ainda fede nos tribunais.

A moda, claro, não ficaria incólume à intoxicação bibliófila: acaba de chegar às prateleiras o perfume Paper Passion. O editor alemão Gerhard Steidl teve a ideia, e, a convite da revista Wallpaper, trabalhou com a perfumista Geza Schoen para engarrafar esse cheiro particular de tinta no papel. A dupla se concentrou na simplicidade e usou só cinco ingredientes para fazer a essência, com tons de madeira — um vidro normal tem no mínimo 20 itens e pode chegar a reunir 100 elementos.

“O cheiro do papel é seco e pesado, não são notas fáceis de se trabalhar”, analisa Steidl. O editor convidou o amigo Karl Lagerfeld para produzir a caixa. O Kaiser da Chanel, para quem “um livro que acabou de ser impresso é a melhor fragrância do mundo”, desenhou um volume como embalagem; dentro, textos de Lagerfeld, o Nobel alemão Günther Grass e Tony Chambers, editor da Wallpaper; virada a contra-capa, surge um compartimento secreto com um recorte no meio das páginas para colocar o frasco (cerca de R$ 200). Os alemães têm um particular dom em recriar odores. É também germânico o perfume Vulva, cuja modelo de fragrância dispensa apresentações (o perfume pode ser encontrado em três versões: Vulva Origin, Vulva 18 e Vulva Exotic e custa 70 reais). Infelizmente a reportagem não teve acesso à substância. Fica para outro artigo; um cheiro de cada vez, ordem nas narinas, diriam os velhos alfarrabistas.

Escreveu Patrick Süskind em Perfume — História de um Assassino:

“As pessoas podem fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podem tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podem escapar do aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. Com esta, ele penetra nas pessoas, elas não podem lhe escapar caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominar os odores dominará o coração das pessoas.”

Hummm.

[Reportagem publicada originalmente na revista The President.]

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