Crítica

Rir — por último

Sim, é uma bandana

Sim, é uma bandana

Afinal é lançada no Brasil Graça Infinita, a obra-prima de David Foster Wallace,

Depois da coletânea de não ficção Ficando Longe do Fato de Estar Meio Que Longe de Tudo e dos contos de Breves Entrevistas com Homens Hediondos, finalmente é lançado o livro que demonstra de modo mais eloquente a centralidade da prosa de David Foster Wallace na literatura contemporânea. Graça Infinita (Companhia das Letras) se passa no futuro próximo, especificamente no Ano da Fralda Geriátrica Depend, ou seja, a uns 18 anos da época do lançamento deste romance, 1996 — bem, mais ou menos hoje.

Em “nossos” dias, como você sabe e DFW já sabia, os EUA se tornaram parte da ONAN, Organização das Nações da América do Norte, federação que inclui Canadá e México; a maior parte da Nova Inglaterra foi transformada em um depósito de lixo tóxico; o presidente Limbaugh foi assassinado; e o calendário foi vendido a uma megacorporação que privatizou cada ano — daí o Ano do Emplastro Medicinal Tucks, o Ano do Frango-Maravilha Perduc, o Ano dos Laticínios do Coração da América e daí por diante.

Esta sátira, que retira o título de uma citação de Shakespere — Hamlet se refere a Yorick como um bobo da corte de “infinita graça” — é estruturada em múltiplas narrativas e massas pesadas de detalhes cotidianos minuciosamente descritos (dez páginas apenas para mostrar como desarrumar uma cama, feito que erotizaria um maníaco por detalhes domésticos como Karl Ove Knåusgard). Inscreve-se portanto na linhagem dos hiper-romances pós-modernos, ao lado de 2666, de Roberto Bolaño, O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon, ou A Vida Modo de Usar, de Georges Perec — fosse vivo, Italo Calvino aplaudiria o modo como DFW aplicou seu conceito “multiplicidade”, uma das provocações que o escritor italiano lançou, em 1985, à arte deste milênio.

Metaficção, metalinguagem, autorreferência e histórias em cascatas são a matéria-prima destas 1146 páginas — as quais são adornadas com nada menos que 400 notas de rodapé (uma delas com 12 páginas) — malandramente vertidas ao português por Caetano W. Galindo, tradutor de Pynchon e Joyce. É o tipo de livrão que pode arruinar ou tornar inesquecíveis suas férias (cuidado com a LER; talvez seja melhor ler em e-book) ou virar adorno de mesa-de-centro na casa de hipsters metidos.

Quem driblar o fetiche da mercadoria cult e mergulhar sem medo no pântano de narrativas dentro-de-parênteses terá de presente um livro engraçadíssimo — ou tristíssimo, dependendo do ângulo da abordagem: é conhecido o duelo que DFW mantinha com a ironia e o sarcasmo. O escritor norte-americano, comparsa de outros supernarradores como Jeffrey Eugenides (o genial protagonista de A Trama do Casamento é inspirado nele) ou Jonathan Franzen (que conta como foi lidar com as cinzas do cadáver do amigo em lindo ensaio de Como Ficar Sozinho), conforme se sabe levava o compromisso com a literatura muito a sério. Sofrendo de depressão, DFW também levava a vida a sério, tanto que colocou um fim nela enforcando-se em 2008.

Os microcosmos desta narrativa não-linear cheia de idas e vindas no tempo são a Academia de Tênis Enfield, instituição de Boston fundada pelo gênio louco James Incandenza, cuja família de prodígios atléticos e acadêmicos mora ali (no que lembra tanto os Excêntricos Tennenbaums de Wes Anderson quanto o clã Glass de JD Salinger), e o Ennet, centro de reabilitação de dependentes em drogas. James, ex-tenista invencível (o esporte é outra obsessão de DFW, leia-se o magnífico perfil de Roger Federer na coletânea de não-ficção Ficando Longe…), além de cineasta e oculista, matou-se colocando a cabeça em um forno de microondas, deixando órfãos o jogador de futebol americano Orin, o superdotado Hal e Mario, que tem problemas de cognição. Já o cotidiano dos dependentes do Ennet está entre as passagens mais delirantes do livro, que demonstram a quase sobrenatural erudição do maníaco-depressivo DFW sobre todo tipo de transtorno e medicação, lícita ou ilícita.

Recuperando-se de uma dependência em freebase está Joelle van Dyne, que teria participado de um perigoso cartucho (= filme) dirigido por James Incandenza: também intitulado Graça Infinita, o snuff movie é tão hipnótico que, diz-se, quem conseguiu assisti-lo não quer fazer mais nada da vida. Um terrorista canadense que não tem as pernas — severo crítico da demoníaca fixação norte-americana pela busca da felicidade (aliás o eixo central do livro) — procura Joelle para localizar a cópia master do filme de Incandenza, que seria uma arma indestrutível.

No universo de DFW, todo mundo é dependente de algo ou está entrando em recuperação de sua dependência — bem, não é tão diferente assim deste universo aqui. Ao final do livro, se é que não destroncou o pulso ou o cérebro, o leitor verá que a tentativa de um dependente em recuperar prazeres simples da existência obscurece as pirotecnias atléticas, intelectuais e masturbatórias dos outros geniais personagens — fazendo deste romance algo mais do que uma piada interminável: talvez DFW estivesse tão-somente nos enviando um pedido de socorro.

[Comentário originalmente publicado no Guia da Folha Livros Discos Filmes.]

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