Marcelino, Villalobos, Vila-Matas, Maroh

Ah, o verão
Ah, o verão

Lançamentos nacionais, gringos e de quadrinhos para sujar de caipirinha, areia e filtro solar

—> Ficção brasileira

Vinicius, Braga, PMC e Chico
Vinicius, Braga, PMC e Chico

A volta do boêmio
O mais estranho dos países / O amor acaba (Cia das Letras) e Diário da Tarde (IMS), de Paulo Mendes Campos

Depois que sua obra foi bater na Companhia das Letras, o mais lírico dos cronistas dos anos 60 é de novo lido como se deve: com atenção — e classe. Em O mais estranho dos países, Paulo Mendes Campos exalta o Brasil que vê nascer a bossa nova, o cinema novo, quando a arquitetura e o futebol encantavam o mundo. Também há textos sobre o processo de criação do realista-fantástico Murilo Rubião, que levou 26 anos para finalizar um conto, ou a memória da obscura revista Comício, que estrelou em sua redação nada menos que Rubem Braga, Vinicius de Morais, Millôr Fernandes, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Antonio Maria e Sergio Porto. E também exemplares finos da arte do perfil — como aquele em que sintetiza Ari Barroso assim: “Não foi tão assíduo quanto Antônio Maria no Ministério da Noite, mas não chegou a ser um funcionário relapso“. Já O amor acaba reúne algumas de suas mais famosas crônicas, em que a prosa encontra a poesia em sua busca pelo instante precioso, a frase iluminadora e a cena que define o seu supremo amor pela vida – e seu ódio ao tédio.

Para arrematar, o Instituto Moreira Salles relançou Diário da tarde, edição especial que foge ao formato tradicional do livro e estampa artigos, crônicas, colunas e sacadas de um livro de 1981 em formato de jornal tabloide, com projeto gráfico de Daniel Trench e ilustrações de Veridiana Scarpelli. Jornal imaginário e pessoal, em 20 edições com oito seções fixas, o Diário traz textos que vão do futebol ao melhor da literatura brasileira e universal. Assim como frases curtas, poemas e aforismos que revelam seu humor, sua erudição e seu lirismo. Há perfis fantásticos de Didi, Pelé e Garrincha, traduções de poemas de Walt Whitman e Philip Larkin, ensaios sobre Fernando Pessoa, Joseph Conrad, Juan Ramón Jimenez e muito mais. Como modestamente PMC resume seu sofisticado blog: “Um livro a ser folheado num lindo dia de chuva, à falta de uma boa pilha de revistas“.

Marcelino

Nós que aqui estamos
Nossos ossos, de Marcelino Freire (Record), 128 págs.

Dono de um estilo único, em que uma voz muito pessoal é atravessada por ecos, frases curtas, tiradas sarcásticas e ritmo ágil, em seu primeiro romance (denominado ‘prosa longa’) Marcelino Freire alterou drasticamente o registro de sua escrita para um tom menor, e em cadência de romance policial: o narrador, um sorumbático ator já entrado em anos, precisa levar o esqueleto de um ex-namorado, um garoto de programa, à terra da cidade natal, no sertão de Pernambuco. Antes disso, porém, ele precisa descobrir quem matou o ex, de que modo levar os ossos – e nesse processo acaba encontrando algumas verdades bastante dolorosas, entre elas como passou a vida atuando para os outros – e também para si mesmo. As famosas rimas internas foram dissolvidas no uso randômico de assonâncias e aliterações, e o humor praticamente desapareceu. Mas não a acidez e o sarcasmo habituais do autor pernambucano, que trata do universo homossexual e do amor em particular sem dó nem piedade muito menos pieguismo.

anapaulamaia

Meat is murder
De gados e homens, de Ana Paula Maia, Record, 127 págs.

Veganos, mulherzinhas, frágeis de coração e fãs do Morrissey, afastai-vos. A vida não é moleza nos livros da carioca Ana Paula Maia — a mais inventiva herdeira do brutalismo de Rubem Fonseca, pela agudeza na linguagem e nitidez na observação da natureza animalesca do homem (há ecos de “Relato de ocorrência“, conto de 1967 de Fonseca, bem como de Graciliano Ramos, JJ Veiga e John Steinbeck). É infernal o cotidiano do Vale dos Ruminantes, banhado pelo Rio das Moscas, mas o cenário comporta sutilezas — como Bronco Gil, que distribui pedaços de carne podre aos miseráveis, que os disputam com cães; como o cristão Edgar, que, por não suportar a crueldade contra as vacas, faz justiça com os homens — ele trabalha em um matadouro de bois mas nunca comeu um hambúrguer, pelo qual pagaria o valor de dez reses, já que recebe centavos para cada animal que abate. E coisas estranhas acontecem: vacas se suicidam; um matador fatura apostando quanto tempo prende a respiração; um matador toma chá de cogumelo e acredita ser uma rena. A narrativa fica irrespirável à medida em que o romance avança. Eu avisei.

—> Ficção gringa

Normal

De perto ninguém é
Se vivêssemos em um lugar normal, Juan Pablo Vilalobos (trad. Andreia Moroni), Companhia das Letras, 153 págs.

“Vai tomar no cu duma vez, seu filho da puta! Vai à merda!” Eis a famosa abertura deste que é o segundo livro da trilogia de Juan Pablo Villalobos sobre o México, série iniciada com o também hilário Festa no covil. O dono de tão doces palavras é o pai do narrador, um professor falido (perdõe o pleonasmo) que, se por um lado preocupa-se com uma educação clássica de altos padrões éticos (todos os filhos têm nomes gregos), por outro tem como hobby escarrapachar-se em frente à TV e xingar enlouquecido qualquer político que apareça. Orestes, o narrador, como filho do meio de uma série de sete irmãos, é o questionador da ideia de uma “normalidade” impossível em um país destruído pela hiperinflação, pelo tráfico de drogas e pela especulação imobiliária, nos anos 80. Para piorar uma situação já terrível, a casa apertada em que vivem, no Morro da Puta que Pariu, corre o risco de ser incorporada pelo vizinho, um polonês milionário; os gêmeos Castor e Pólux desaparecem; o irmão mais velho é um psicopata que acredita em OVNIS; e Orestes descobre um controle remoto mágico que só lhe traz desgraças. Curioso é no meio de tanta loucura o narrador aind conseguir manter-se tão, hum, normal.

Koch

Bom apetite
O jantar, de Herman Koch (trad. Alexandre Martins), Intrínseca, 256 págs.

O timo de cordeiro foi marinado em azeite de Sardenha com rúcula“, anuncia o gerente no restaurante onde tem lugar O Jantar, best-seller do holandês Herman Koch. A frase lembra o balzaquiano mote “a condessa saiu de casa às cinco da tarde“, síntese da literatura prosaica e classe-média cujo expoente contemporâneo é Jonathan Franzen. Felizmente Koch tem consciência dos clichês da linguagem e da etiqueta e a sentença acima, usada com óbvia ironia, aponta o sintoma de uma civilização que oculta suas doenças morais por trás de convenções ridículas. A tal ceia é repartida entre os irmãos Lohman e suas respectivas; um Lohman é o narrador, o outro é um político narcisista e enochato, do tipo que harmoniza o vinho com a cor da meia. Estão ali para discutir um ato terrível cometido por ambos os filhos de 15 anos — porém ocultam suas perturbações com frases espirituosas sobre a comida. O medo de enfrentar o tema indigesto alimenta a tensão da narrativa e demonstra: em uma sociedade sofisticada como a holandesa, a linguagem inócua é a mesa onde se serve a violência. Traduzido para 33 idiomas, o livro vendeu um milhão de exemplares e está sendo adaptado ao cinema por Cate Blanchet, em sua estreia como diretora. A bela capa é de Rafael Coutinho.

exploradores_abismo

Metaficção
Exploradores do abismo, de Enrique Vila-Matas (trad. Joselly Vianna Baptista). Cosac Naify, 320 págs.

Metaliterário, transgênero, o espanhol Vila-Matas está em seu elemento neste livro de contos: a construção em abismo. São textos que oscilam entre ficção e ensaio, ficções que partem de personagens literários e citações, como se o autor não conseguisse escrever sem deixar de observar a si mesmo escrevendo e lendo. Alguns dos exploradores: um ladrão de frases do ônibus 24 de Barcelona, um Vila-Matas tentando sair de seu estilo metaliterário, um autista apaixonado por Kumiko Duvidú, Maria Turner (personagem de Paul Auster inspirado em Sophie Calle), Rita Malu (imitadora marselhesa de Sophie Calle), Sophie Calle (Sophie Calle) etc etc. A mania de brincar o tempo todo com citações se deve à crença vila-matiana de que alguém escreve sempre depois de outros; os que não citam não fazem mais que repetir o passado sem saber nem querer. Ou seja, modificando as citações e as recontextualizando insolitamente, V-M tenta ampliar seu sentido através do que chama “poética da simulação“. Ou uma literatura em que o superego pirou.

pileques

Hic!
Pileques, de F. Scott Fitzgerald (trad. Donaldson M. Garshwagen), Companhia das Letras, 112 págs.

Literatura e álcool estão juntos desde o Velho Testamento (quiçá antes). Fitzgerald mergulhou em ambos com idêntica avidez; infelizmente, o segundo tema o impediu de se aprofundar no primeiro — não concluiu O último magnata, talvez sua obra-prima. Não o impediu, porém, de demonstrar pleno equilíbro em uma escrita tão desgraçadamente elegante que deixava até um narcisista como o amigo Hemingway morrer de inveja – conforme se nota no recém-republicado Paris é uma festa (Bertrand Brasil). Aqui foram reunidos contos, textos, cartas e notas desvendando os anos loucos em que Fitzgerald varava noites em Nova York, Paris e Londres — dois haviam saído em uma seleta de 1969 da Civilização Brasileira: o tocante “Minha cidade perdida“, que descreve a ainda provinciana Nova York dos anos 10, e “Colapso nervoso“, com a famosa abertura: “É claro que a vida é um processo de ruptura, mas os golpes que fazem a parte dramática do trabalho (…) não mostram de imediato o seu efeito. Existe outro tipo de golpe que vem de dentro (…) e acontece sem que a gente note, mas sua percepção vem de um momento para o outro“. Leia bebericando um negroni.

Gangue_Asakusa

Zen pompa
A gangue escarlate de Asakusa, Yasunari Kawabata (trad. Meiko Shimon), Estação Liberdade, 217 págs.

Com paciência oriental, devagarinho a Estação Liberdade vai mapeando a clássica literatura nipônica e trazendo boas surpresas. Como este segundo livro de Yasunari Kawabata, prêmio Nobel autor do belíssimo A casa das belas adormecidas. Este romance é bem distante daquela narrativa leve, lírica e epidérmica: em tom de folhetim, traz uma velocidade, uma agitação nas descrições e uma vivacidade no ritmo que demonstram a volúpia do autor por retratar o Japão dos anos 30 sem o excessivo sentimentalismo e solenidade da literatura oficial que se praticava então — no que o aproxima de renovadores como Akutagawa e Tanizaki. A tal gangue de malandros exerce um fascínio temerário no narrador, que busca conhecer um de seus membros enquanto flana pelo boêmio bairro de Asakuza. Lá ele conhece uma mocinha de cabeça raspada que sonha em encontrar o homem pelo qual sua irmã se apaixonou, um homem que come através de uma boca aberta em sua barriga e um sujeito que come comida de carpa. Divertido.

—> Histórias em quadrinhos

Bleu

Torch song
Azul é a cor mais quente, de Julie Maroh (trad. Marcelo Mori), Martins Fontes, 158 págs.

Esqueça o famoso 69 de sete minutos entre Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, e esqueça também a moral “você pode mandar bem no cunilinguus e fazer um ótimo molho bolonhesa mas isso não vale nada se não souber a diferença entre Schiele e Klimt“, presentes no filme homônimo Azul é a cor mais quente, de Abdelatif Kechiche (primeira adaptação de uma HQ a vencer a Palma de Ouro em Cannes). Na trama original, escrita e desenhada pela francesa Julie Maroh, o buraco é mais em cima: o registro do romance entre a adolescente Clémentine (no filme, Adèle) e a artista Emma (de cabelo azul) é menos naturalista e mais torch song — aquela melodia melodramática sobre um amor que se foi, à la Angela Ro Ro. Contrasta-o a leveza do traço de Maroh, em especial a sabedoria no trato com o silêncio e as cores, que impressiona em artista tão jovem (desenhou o livro entre seus 19 e 24 anos). A narrativa é bem diferente do filme e se estrutura nos diários de Emma, que teve morte súbita — única explicação para o fim de um amor tão incendiário. Pela ousadia e ao mesmo tempo sutileza no trato com o amor sáfico, a graphic novel teve imensa repercussão e se tornou um manifesto gráfico do movimento LGBT.

Friquinique

A gilete da Mulher-Barbada
Friquenique, coletivo Beleléu
Que a cena independente de HQ era mais profusa do que dava conta a vazão das editoras já se sabia. tanto é que no último FIQ, em Belo Horizonte, foram lançadas nada menos do que 200 obras, entre graphic novels, gibis e zines. O que não se conhecia era a capacidade indie em produzir obras de alta qualidade editorial — como esta fantástica Friquinique, do coletivo carioca Beleléu. Com muito humor negro (deve ser o nanquim), Rafael Sica, Thiago Elcerdo, Stêvz e Eduardo Medeiros tratam do cotidiano dos freaks de um jeito perturbador e ao mesmo tempo muito criativo: um quadrinista lança um mote, que é glosado pelo cartunista seguinte em uma história maior, e assim por diante. Há tanto parcerias entre os quadrinistas quanto histórias autorais, o que traz uma grande dinâmica estilística ao livro, ao mesmo tempo em que ele não perde a unidade. O clima é, como sugere o título, de um piquenique em um cabuloso parque de diversões. Certamente um dos melhores lançamentos da HQ brasileira em 2013.

Crumb

Meu pipi no seu popô
A mente suja de Robert Crumb (trad. Alexandre Boide e Marieta Baderna), Veneta, 232 págs.

Esta é a ideia fixa de Robert Crumb: bundas grandes de mulheres grandes, e como chegar lá. Em A mente suja, a novíssima editora Veneta, de Rogério de Campos (ex-Conrad) recolhe os piores, quer dizer, melhores exemplos da carreira deste sujeito sem pudores nem mimimis. Aqui estão presentes momentos antológicos de personagens provocadores como Krazy Kat e Mr. Natural; histórias que tratam de racismo, sadomasoquismo, homossexualidade, uso de drogas — bem como a infame “Joe Blow“, de 1969, sobre uma família em que os pais transam com os filhos, que resultou em um dos mais famosos casos judiciais envolvendo quadrinhos. Talvez, se tivesse surgido hoje, em tempos que flanam do politicamente correto fofoleto ao politicamente incorreto reaça, o gênio dos quadrinhos tivesse de levar suas obsessões sexuais ao divã e apanhasse na rua de feministas e conservadores sem humor. Como surgiu nos psicodélicos anos 60, botou pra quebrar com traço hiperbólico e detalhista, demonstrando — tal como o senhor Snoid, que vive dentro do posterior de uma deusa calipígea — que a melhor maneira de destruir os tabus é mergulhando fundo neles.

forming

Os deuses devem estar loucos
Forming, de Jesse Moynihan (trad. Thiago Gomide Nasser), A Bolha Editora, 112 págs.

De onde viemos? Para onde vamos? De que matérias somos feitos? Já tinha alguém publicando fanzines aqui antes do Big Bang? Todos nos fizemos essas terríveis questões, incluindo Jesse Moynihan, músico da Filadélfia que deixou seu traço primitivo nas revistas The Believer e Vice e faz parte do time da Cartoon Network. Neste primeiro capítulo de uma trilogia de graphic novels, Forming cria uma épica e absurda batalha entre deuses alienígenas, titãs gregos, androides interplanetários e até mesmo seres humanos. A ficção científica em tom de comédia narra a tomada de consciência do planeta Terra, a começar pela Atlântida de 10 mil anos a.C. Enviado à Terra para colonizar o planeta para seu pai no planeta Dogon, Mithras dá uma de D. Pedro I e declara independência — e começa a ter relacionamentos interespécies com Gaia, produzindo os disfuncionais titãs e ciclopes. O que Mithras não sabe é que Gaia o trai com um hippie cabeludo. A este dissabor soma-se o fato de Mithras ser perseguido por seus conterrâneos, liderados pelo hermafrodita Serapis — que, por sua vez, diverte-se manipulando telepaticamente Adão e Eva. Outro lançamento sagaz desta editora underground carioca sediada no topo da antiga fábrica da Behring.

[Resenhas originalmente publicadas no Guia da Folha e na revista Poder.]

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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