Resenhas: poemas, contos, romances

Mélanie Laurent esquece os nazistas para relaxar com Le Saint dans New York, pulp fiction de Leslie Charteris que traz as aventuras do detetive Simon Templar, o Santo
Mélanie Laurent esquece os nazistas para relaxar com Le Saint dans New York, pulp fiction de Leslie Charteris que traz as aventuras do detetive Simon Templar, o Santo

Os olhos cansaram de tanto que você os prendeu na timeline do Twitter e do Facebook atrás de notícias sobre os protestos pelo Brasil? Descanse retinas, mentes (ou pés, no caso de você ser um manifestante) com páginas estáticas para reoxigenar o espírito. Os textos a seguir foram publicados originalmente no Guia da Folha Livros Discos Filmes.

Verde-amarelismo no projeto gráfico simples e eficiente de Tiago Gonçalves
Verde-amarelismo no projeto gráfico simples e eficiente de Tiago Gonçalves

TODA ANTOLOGIA SERÁ CASTIGADA
> Poesia.br, org. Sergio Cohn. Azougue, 10 volumes

Antes, o porém: as ausências estridentes. Muito do que importa ficou fora desta bela caixinha. Seja pelos critérios peculiares do editor indie Sergio Cohn, seja por razões pessoais (poetas que desautorizaram a reedição de poemas, como Carlito Azevedo), seja por razões pecúnio-familiares (editoras e herdeiros que amesquinharam a publicação de Mário Faustino, Manuel Bandeira, José Paulo Paes, Oswald de Andrade etc). Não à toa os termos antologia e antolho se assemelham: também são instrumentos que inibem olhar para determinados cantos.Toda antologia será castigada — é do jogo.

Isto posto, vamos à caixa. Resultado do heroico trabalho do também poeta Cohn, o homem por trás da revista literária Azougue, Poesia.br tem a missão de fazer circular o mais nobre e menos lido dos gêneros literários; daí ter um olho na acessibilidade (ótimo preço) e outro na portabilidade (são 10 volumes de bolso).

Começa com uma boa surpresa: a compilação dos cantos ameríndios, de tribos como kashinawá, bororo e guarani — forte demonstração de que a poesia já existia aqui bem antes de Caminha. Seguem-no os volumes Colonial, Romantismo/Pós-Romantismo, Modernismo, e daí por décadas: 1940/1950, 1960, 1970, 1980, 1990. Tomando os buracos deixados pelos nomões como vantagem, Cohn ilumina obras pouco conhecidas, nada canonizadas e raramente lidas na academia. Mesmo nos volumes 1990 e 2000, onde é mais pesado o pega-pra-capar entre os que entraram e os que ficaram de fora, as escolhas promovem boa discussão sobre as muitas formas da poesia contemporânea — que, sob o olhar do editor, pontuam três qualidades referenciais: a leveza, a irreverência, o humor. Não por acaso, características que pairam sobre esta incontornável antologia.

Na capa forte de Flávia Castanheira, aves de rapina sobrevoam as mulheres de Ndiaye
Na capa forte de Flávia Castanheira, aves de rapina sobrevoam as mulheres de Ndiaye

ZONA DE CONFRONTO
> Três Mulheres Fortes, de Marie Ndiaye (trad. Paulo Neves). Cosac Naify, 298 págs.

A desgastada expressão “zona de conforto” nunca se aplica à literatura de Marie Ndiaye. Suas narrativas habitam a zona de confronto: moral, político, espiritual. Para cutucar os demônios do leitor, a premiada autora francesa de 46 anos maneja uma escrita límpida e uma perspectiva muito próxima de cada personagem — é craque no discurso indireto livre. Amplificando o que havia perpretado no tenso Coração Apertado, neste romance ela acompanha não uma, mas três mulheres acossada por situações insustentáveis. Na primeira história, Norah visita o pai, um sujeito áspero e intratável, e descobre que o irmão está preso; na segunda, Fanta, uma professora admirada, é menosprezada pelo marido, o medíocre e covarde narrador, que a faz perder o prestígio; na terceira, Khady perde o marido e, por não ter engravidado dele, é despejada pela família dele. Tempos desesperados exigem mulheres possantes — e nenhuma concessão a bons sentimentos.

A bela ediçãozinha conta com ilustraçõees de Antonio Seguí
A bela ediçãozinha conta com ilustraçõees de Antonio Seguí

MINHA GEOGRAFIA MUDOU
> Histórias de Paris, de Mario Benedetti (trad. Ari Roitmann e Paulina Yacht). Biblioteca Azul, 64 págs.

“Bobagens que você inventa no exílio para tentar se convencer de que não está ficando sem paisagem, sem gente, sem céu, sem país.” A sentença abre o delicioso conto “Geografias”, em que dois uruguaios exilados em Paris tentam descrever em detalhes um lugar específico de Montevidéu — até que um deles se envolve com uma compatriota que acabou de chegar à França, após um período na prisão. Levíssima, a história culmina com uma dolorosa descoberta: “Todas as paisagens mudaram, em toda parte há andaimes, em toda parte há escombros. Minha geografia também mudou”. Seguem-se mais três narrativas em que o autor flagra situações vividas por uruguaios que, como ele, foram obrigados a fugir da ditadura militar dos anos 70: viver na Cidade-Luz pode ser bem mais difícil do que parece. Com sua recusa ao discurso político fácil e o apreço às singularidades de cada personagem, descritas com suavidade e humor, com maestria Benedetti emula a dor excruciante de quem foi empurrado para fora de seu país. A bela ediçãozinha contém ilustrações de Antonio Seguí.

O desejo é púrpura na visão sóbria de João Baptista da Costa Aguiar
O desejo é púrpura na visão sóbria de João Baptista da Costa Aguiar

TARAS E ATRITOS
O Professor do Desejo, de Philip Roth (trad. Jório Dauster). Companhia das Letras, 251 págs.

O que é o desejo? De onde vem? Para onde vai? Com base em sua obsessão por sexo e literatura — e suas infalíveis intersecções —, Philip Roth escreveu um de seus melhores romances, O Professor do Desejo. Aqui, David Kepesh é um professor de literatura às voltas com suas taras e seus atritos com a moral enquanto bem-posto membro (ops) da sociedade carola norte-americana. A fachada impoluta do professor começa a desmoronar quando sua esposa é detida por tráfico de drogas e ele percebe que seu casamento era uma farsa. O reprimido Kepesh tem a possibilidade de abraçar o hedonismo quando conhece Claire e visita o túmulo do ídolo, o mais que reprimido Franz Kafka. Claro que as coisas não serão assim tão redentoras — como se pode ver nos outros romances estrelados por Kepesh, o surreal O Seio e o melancólico O Animal Agonizante.

Maravilhosa edição de Flávia Castanheira e Tereza Bettinardi
Maravilhosa edição de Flávia Castanheira e Tereza Bettinardi

ALTA LITERATURA, ARRAIA-MIÚDA
> Contos Reunidos, de João Antônio. Cosac Naify, 604 págs.

Recentemente a pesquisadora Regina Dalcastagnè publicou uma denúncia impactante em Literatura brasileira contemporânea: um território contestado (Editora Horizonte): na literatura brasileira contemporânea, 80% dos personagens são homens brancos, 57% de classe média, 20% escritores, jornalistas ou artistas. A estatística seria bem diferente se aplicada à obra de João Antônio, um dos raros escritores brasileiros egressos das classes populares que jamais abandonou seu objeto (e seu berço) de origem. Retratados-falados segundo sua sintaxe, prosódia, dicção e jargão muito particular, malandros sinuqueiros, prostitutas carinhosas, malandros e otários, boleiros, camelôs, guardadores de carro e outros tipos da arraia-miúda desfilam por seus textos — também eles OVNIS na nossa literatura, posto que adensaram e fragmentaram a potência do gênero conto aproximando-o da reportagem, da crônica, da prosa poética e até da saga. A belíssima edição tem prefácio do escritor (e editor) Rodrigo Lacerda, além do curioso caderninho Vocabulário das Ruas, com gírias e termos recolhidos pelo genial autor paulistano.

Acredite: o conteúdo tem muito mais inspiração do que esta capa
Acredite: o conteúdo tem muito mais inspiração do que esta capa

DUPLO FRACASSO DA ARTE
> Pulso, de Julian Barnes (trad. Christina Baum). Rocco, 237 págs.

Quem conhece a eficiência narrativa presentes nos romances de Julian Barnes — elegantes, polidos e confiáveis como um relógio inglês — terá a agradável surpresa de percebê-la em escala menor nos contos de Pulso. “Todos os que entendem de arte sabem que ela nunca correspondeu ao sonho de seu criador. A arte nunca atinge o objetivo, e o artista, longe de salvar algo do desastre da existência, estava condenado a um duplo fracasso.” A lapidar sentença, pensada por uma escritora e escrita em discurso indireto livre, talvez reflita o pensamento do próprio autor — um sagaz observador das mesquinharias, vaidades, fantasias e vilanias de personagens da classe média, sejam eles escritores consagrados sejam corretores de imóveis. Se o objetivo de Barnes foi o de retratar com humor e desconsolo o vazio e o fracasso dessas existências, a meta foi plenamente atingida nessas narrativas curtas e comoventes.

Uma capa pouco imaginativa, porém forte, para esta reedição
Uma capa pouco imaginativa, porém forte, para esta reedição


INCENDIÁRIA INDEPENDÊNCIA
A Voz do Fogo, de Alan Moore (trad. Ludmila Hashimoto). Veneta, 335 págs.

Ter um olho no tempo do mito e o pulso na estranheza dos dias que correm é uma marca de Alan Moore em toda a sua produção (que, nunca é demais repetir, passa por obras-primas como os roteiros de Watchmen, V de Vingança e a saga do Monstro do Pântano, as quais tornaram seu nome incontornável na HQ contemporânea). A sensação de ser parte de uma trama — típica nas narrativas paranoicas e nas teorias de conspiração — repete-se no romance A Voz do Fogo, ambientado em Northampton (cidade onde o autor nasceu e vive) entre 4 mil a.C. e 1995 d.C. O fôlego narrativo de Moore dá voz a bruxas, guerreiros, poetas, rebeldes e místicos de toda ordem — como o próprio autor, que narra o último capítulo. Bruxuleante, a linguagem vaga do tatibitate lírico de um caçador ao texto moderno de um vendedor de lingerie, passando pela dicção medieval de um templário, tendo como ingredientes humor mórbido e feroz crítica social — conforme se espera de quem deu as costas a Hollywood em nome de uma incendiária independência.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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