Crítica

País do jeitinho

Sabe com quem está falando? É este o título do livro aqui resenhado para a Bravo!.

Leitura indicada para quem for um ET, cair no Brasil e não entender nada a respeito do que as ruas tratam sobre mensalão, CPI de Cachoeira, caixa-preta do transporte público, estádios superfaturados para a Copa ou… ______________(anote aqui o escândalo da estação). É a antologia de contos Você sabe com quem está falando? (Língua Geral), organizada por Luiz Ruffato, com pesquisa de Ramon Mello e Rodrigo Monteiro. O trio pesquisou a literatura brasileira dos últimos 200 anos para oferecer um apanhado de 20 contos, dos quais seis de autores vivos, que versam sobre o jeitinho, a mutreta, a lábia, a fidalguia, o favor, o pachequismo, o puxa-saquismo, o complexo de vira-latas, a síndrome de doutor, o pequeno poder, o autoritarismo de quartel e outras variadas formas sob as quais corruptos e corruptores dão as cartas no Brasil – mas nunca dão as caras na cadeia.

Este compêndio sobre nosso pior lado abre com a célebre “Teoria do Medalhão” – o mais medalhão dos textos clássicos sobre como levar vantagem em tudo, certo? Nele, Machado de Assis expõe um diálogo em que pai ensina ao filho como subir na vida se curvando ante os poderosos. Conselho vital: nunca confie na ironia e fuja da originalidade. (Não é garantia para ficar rico, mas o conselho vale pra um trabalho na maioria das redações jornalísticas.) Na sequência, Artur de Azevedo narra uma anedota divertida sobre os deveres políticos e as obrigações intestinas de um ser humano. De modo cômico, demonstra desde sempre o uso que os políticos faziam da imprensa. Já o conto de José Veríssimo narra a alistagem à força de um matuto na guerra contra o Paraguai. O texto narra a longa peregrinação de uma pobre senhora do interior do Amazonas pedindo que os poderosos locais intercedam para que o filho não seja feito soldado – uma cadeia de favores que, não fosse o texto gorduroso de Veríssimo, coalhado de termos e expressões locais, lembraria anacronicamente Kafka. Como se arranjam voluntários da pátria no Brasil: todos os que não têm a quem recorrer pra se livrar do exército. Vale também para a formação da nossa gentil polícia militar.

Se o texto de Veríssimo parecerá a alguns sub-rosiano de tanto barroquismo e colorido local, o de Alberto Rangel – pai da expressão “inferno verde” para designar a Amazônia – por certo tenderá ao abstrato, a começar pela abertura: “Atravessado de um salto o largo de Santo Antônio, na triangulada breve, o caminhamento seguia em cheio por um vasto teso de terra firme, que devia ser transmontado na mesma deflexão.” Cuma? Depois de muita enrolação, o conto enfoca a história de um pistoleiro de aluguel amazônico. O leitor que lograr atravessar os pedregulhos léxicos e os igarapés semânticos de Rangel terá ao cabo uma história horrorosa de lealdade entre pistoleiro e coronel. Felizmente, o infernal Rangel é seguido pelo fidalgo, João do Rio, cujo conto é uma brisa de ironia ligeira, com seu tom misto de fábula e crônica de costumes, a narrar as tristes peripécias de Antenor, um sujeito que, ao contrário do “bom senso” propalado pelos seus compatriotas, só gostava de dizer a verdade. Por isso, ouvia coisas como esta, verdadeira síntese do medalhão machadiano: “Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando – é vagabundo“. Insatisfeito com a cabeça que só lhe provoca desditas por pensar de modo original, resolve trocá-la por outra de papelão – e é claro que se dá bem.

“Numa, um medíoce”, obra-prima de Lima Barreto, é outra demonstração de como subir na vida sendo ninguém. Com faro venenoso de adivinhar onde estaria o vencedor em qualquer situação – qualidade que lhe vinha da ausência total de emoção, de imaginação; de personalidade forte e orgulhosa –, Numa foi ficando poderoso. Para Lima Barreto, como já o havia demonstrado Machado, a mediocridade é o berço do corrupto. Nem precisa olhar para nosso Congresso ou para alguns de nossos oligarcas para desconfiar disso.

Em chave cômica, o conto de Godofredo Rangel narra a as astúcias de um valentão que bate na mulher em contraponto com um delegado frouxo que toma descomposturas de sua cara-metade. Quando o destacamento do exército vai em peso capturar o mau-caráter, acuado pela atitude hostil resolvem, no lugar deste, prender um mendigo que ali zanzava meio bêbado, satisfazendo assim a sanha de justiça da população. Agora, achado mesmo é “Fifinho autoridade”, de Adelino Magalhães. Trata-se da divertida história de um tal adolfo, que, à custa de seu propalado puxasaquismo, ascende da carreira de ladrão pé-de-chinelo a chefe de gabinete em uma secretaria da polícia (lembrou de alguém?…). Com ironia finíssima, o narrador do conto demonstra sua admiração pelo “grande Fifinho! Como era majestático, heráldico, simbólico, parabólico, hiperbólico… o que de grande haja enfim – naquela sua cadeira de mola, diante daquela mesa larga, ancestral, mesa serviço público, democraticamente severa na sua camurça verde, sitiada por uma fina tarja amarela, de oiro!

Magalhães talvez tenha sido o autor que com mais apuro sintetizou as canalhices nacionais, fundadas, afinal, no favor. É na troca de gentilezas, que mais tarde serão cobradas, dobradas e triplicadas, que se fundamenta a ética do jeitinho, da malemolente servidão do zé-povinho ao poder, e, por que não, vice-versa – a transição do pequeno para o grande poder. Propinas, caixinhas de jogo do bicho, autoritarismo… todos os vícios da ‘repartição pública’ se resumem na falta de caráter de Fifinho. O tom divertido do conto se evidencia no caráter do narrador, ainda mais puxa-saco que o próprio Fifinho: “Certo é que sou apologista entusiasta dessa atitude suprema do gênio “cavador” e acanalhante e mestiço do meu Fifinho, importante autoridade policial hoje e que irá a chefe, e de chefe a ministro e… E acabará presidente da República!“. Hein?

Dois dedos” merece atenção por ser de autoria de um funcionário público tão conhecido por sua retidão que chegava a devolver o dinheiro que não usava para o orçamento da prefeitura que comandava, em Palmeira dos Índios, Alagoas: Graciliano Ramos. Narrando a visita de um humilde médico a uma repartição pública, onde trabalha um amigo que não vê há vinte anos. Craque na observação psicológica dos pequenos tipos esmagados por um poder que não compreendem, Graciliano demonstra o embate feroz interno entre a profissão de fé na humildade do médico e seu fascínio pela imponente coleção de volumes grossos do Diário Oficial, que nunca teria dinheiro para comprar. O médico hesita entre ater-se à mera visita de cortesia ao amigo importante, quando recordariam episódios de juventude, e a possibilidade de garantir algum favor. O desfecho oferece a fatalista visão de mundo de Graciliano, em que os pobres sempre acabam corrompidos por sua ambição pequena e o ideal de ética inapelavelmente é triturado pela visita cruel do tempo.

Para ler o presente e sacar o futuro, nada melhor do que espiar o passado. O conto de Alcântara Machado é prova. Narra o duelo municipal entre partidários do PRP e a oposição, que, curiosamente, também faz parte do mesmo partido, mas em esfera estadual – no que faz lembrar as tenebrosas transações de alianças políticas do governo atual de Dilma Rousseff, que em um estado é ligado à oposição de um partido, e em outro é inimigo da mesma agremiação, demonstrando inexistente ligação entre partido político e um mesmo conjunto de ideias. O pano de fundo é a Revolução de 30, que fulmina as pequenas ambições da cidadezinha e seus conflitos de outro mundo entre o padre Zoroastro e uma família de fé espírita. O resultado é um quiproquó que não faria feio no horário das 9 na TV Globo, com direito a diálogos engraçadíssimos, escrito no estilo ágil e moderno de Alcântara; um roteiro pronto.

O conto de Érico Verissimo versa sobre o tema do outono do patriarca – no caso, um general da reserva na cidade de Jacarecanga. Lembra com saudade de velhos embates entre maragatos e chimangos e do tempo em que mandava um diretor de jornal engolir literalmente a matéria que havia escrito atacandno o militar. O velho é acossado por Petronilho, seu criado negro, cujo pai foi morto pelo próprio general – o criado delicia-se em assistir aos últimos dias da besta fera. O belo desfecho, porém, encerra uma vingança que ilumina a relação sadomasoquista entre o sanguinário general e o insinuante criado. Em sua narrativa, Marques Rebelo situa, através das intrigas políticas de uma cidadezinha mineira, o golpe de 64. Violenta, a narrativa descreve o transe de loucura que assola o prefeito Zéfredo, perseguindo seus inimigos, empastelando jornais, dissolvendo a câmara dos vereadores e queimando livrarias. Com a chegada de um pretenso destacamento de militares revolucionários, ocorre uma reviravolta – e a grande ironia do texto é demonstrar como a ordem prometida pela nova ditadura na verdade nada mais é do que a anarquia.

Capinha feinha, mas resolve

Capinha feinha, mas resolve

Também é uma derivação do subgênero “o outono do patriarca” o conto de Otto Lara Resende, que acompanha, na precisa linguagem própria do mineiro, a ascensão fulminante de um indivíduo sem talento a não ser aquele de fazer-se notar pela absoluta isenção política – o cara que não se compromete, o homem que não estava lá, como essência do ser político (lembre de Marco Maciel, Gilberto Kassab…) – até se tornar ditador de seu país, e, em seguida a uma trama palaciana, ter de partir para o exílio. Exemplar solitário no gênero realismo fantástico, “Seminário dos ratos” é uma das melhores narrativas de Lygia Fagundes Telles, um dos seis autores vivos presentes na coletânea. Trata da praga da burocracia, aqui representada por funcionários da Ratesp, que pretende eliminar os cada vez mais numerosos ratos da república. Claro que o trabalho só faz gerar mais ratos (mais ou menos como a indústria da seca no Nordeste produz mais esfaimados e os bilhões despejados em projetos de despoluição do rio Tietê nunca resolvem de fato o problema). O conto, cuja progressão de pesadelo evoca “A casa tomada” de Julio Cortázar, é todo fundado em diálogos divertidos pelo que têm de absurdo – menos para quem os fala.

Também todo fundado em diálogos hilários é o conto de Marcos Rey, centrado na política paulista, então dividida entre partidários de Jânio Quadros e de Adhemar de Barros. Alguém lembra do legado de tais ilustres políticos? À luz dos embates de hoje, velhas polêmicas bairristas parecem ainda mais ridículas do que na época – somente se assemelham aos mesmos métodos, como Rey detalha o processo de curral eleitoral até hoje dando as cartas. Tramoias eleitorais são ainda o cerne da narrativa de João Ubaldo Ribeiro, narrado por um correligionário puxa-saco de um coronel – num artifício de ironia inconsciente parecido com o conto de Godofredo Rangel.

Escrita com distanciamento brechtiano, a narrativa de Sérgio Sant’Anna narra a conversa estranha entre um marechal e um senador em um restaurante – contado por um “poeta e cronista“, o texto, longe de retratar os políticos com altivez, mostra o quanto são pequenos e medíocres, meros personagens a serviço de uma narrativa maior que desconhecem (o próprio narrador a desconhece). Possivelmente o maior dialoguista do Brasil (roteiristas de cinema precisam urgentemente descobri-lo), Luiz Vilela constrói uma narrativa toda no papo entre correligionários e um candidato a prefeito cujo caminhão de comício acabou atropelando boias-frias; no desdém pela morte de uns pobres coitados que só serviriam para eleitores, Vilela exibe a mesquinharia miúda do poder – o final é de uma ambiguidade antológica.

O livro finaliza com outro conto fundado em diálogos: “Na serra, fora dela“, de Marçal Aquino. Excepcional em sua secura e poder de sugestão, aqui, não há política ou políticos: há tão-somente o jogo de poder entre quem tem – o narrador anônimo, cínico, desencantado e cúmplice de um fazendeiro que trata os funcionários como escravos – e quem não tem, como o pai de duas meninas, que as oferece em troca de dinheiro. A corrupção, neste conto, é tão profunda que parece arcaica, não fosse o conto uma espécie de fábula contemporânea, em que o narrador se assusta com a possibilidade de “envelhecer e continuar acreditando que, no fim, as coisas podem acabar, de alguma maneira, dando certo“. Pelo conjunto de histórias deste livro, o leitor por certo decidirá que, se desde o começo as coisas não foram feitas à correção, não há redenção ou final feliz possível – a não ser que sê dê um jeitinho.

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