Amor = Humor


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Namoram há 3 anos, se conhecem desde os 11 e não param de trabalhar juntos (e muito). O casal Clarice Falcão e Gregorio Duvivier são a coisa mais engraçada e graciosa do novo humor brasileiro. Perfil duplo para a revista Bravo! do mês de abril

Enquanto pesquisava vídeos e performances de Gregorio Duvivier na internet, o repórter recebeu uma chamada no celular. Coincidência: era Gregorio Duvivier. No entanto, após algumas tentativas de comunicação, o repórter notou que não era Gregorio Duvivier quem o havia chamado — e sim, o bolso dele. Sem querer o ator tinha resvalado em “ligações recentes” e o smartphone, smart demais, chamava o repórter (que pouco antes havia combinado uma entrevista para o dia seguinte). Mas, apesar de não se dirigir ao repórter, a voz de Gregorio Duvivier soava. Plena meia-noite de domingo, Gregorio Duvivier ensaiava para a peça que estrearia dali a uma semana, o musical Como Vencer na Vida Sem Fazer Força.

Teatro, internet, TV fechada, TV aberta, literatura — e até no celular alheio: Gregorio Duvivier está em todos os lugares. Claro que sua musa estaria à altura de tanta atividade: é Clarice Falcão, atriz, cantora, roteirista, parceira de vários esquetes no Porta dos Fundos, a produtora de vídeos de humor que já soma 72 milhões de visualizações em seu canal no YouTube. O casal ultrajovem (26 ele, 23 ela) é responsável por alguns dos esquetes mais nonsense do canal: “O homem que não sabia mentir“, em que Gregorio não consegue forjar desculpas esfarrapadas a Clarice e é traído por uma voz bizarra denunciando o que fazia de verdade; “Barata no banheiro“, em que Clarice pede para Gregorio matar uma barata no banheiro mas a tarefa se revela impossível; “Versão brasileira“, em que Gregorio assusta Clarice ao acordar com a voz dublada como em um seriado americano; “Setor de RH“, em que os Supergêmeos do desenho animado são despedidos da liga de super-heróis; e “Essa é pra você“, em que Clarice, cantando uma canção folk, revela para Gregorio que o engana com o porteiro.

Os esquetes da dupla consagram a química aprovada na minissérie O Fantástico Mundo de Gregorio, um falso reality show estrelado por ambos, e na peça Inbox, escrita pelos dois, sobre John e Clara, um casal que se apaixona via internet. “A gente queria entender como é esse lugar que ocupa na vida das pessoas o virtual, esse lugar que é verdade mas não é“, diz Gregorio, em conversa com Bravo! em um café do Leblon. “E existe um suspense porque um personagem pode ser uma mentira, e a personagem também, porque o virtual é cheio de máscaras, um mundo de fantasia e ficção“, emenda Clarice (sim, eles são o tipo de casal em que um começa uma frase e o outro termina). O processo de criação da peça, que ficou em cartaz em 2011, foi curioso: escreviam juntos a escaleta — enredo básico, descrevendo cenas — e depois cada um escrevia os diálogos separadamente; às vezes, Clarice escrevia as falas de John, e Gregorio, as de Clara.

Mundo comédia

Tanto o falso reality quanto os esquetes do Porta dos Fundos expõem a paixão do casal pelo humor feito através do documental, presente no sitcom Curb Your Enthusiasm de Larry David, no seriado The Office ou na literatura de Miranda July e no trabalho de Mike Berbiglia. “As comédias de antigamente tinham aqueles diálogos tão espertos que pareciam inventados, um tom farsesco. Mas a gente gosta desse tipo de situação em que os atores gaguejam, em tom realista“, diz Clarice. “No Brasil tem um problema: o ‘tom de comédia’, ‘música de comédia’, ‘direção de arte de comédia’, como se fosse só se pudesse rir em um outro universo, onde as pessoas reagem de uma maneira diferente“, diz Gregorio.

Estereótipos, música sublinhando a piada, sabe? Fo fo fo fonnnnn“, explica Clarice. “Nossa briga é juntar uma coisa de verdade, algo de improviso, com um texto forte por trás. Mas na TV você não pode contar com a cumplicidade da plateia como acontece em um show de improviso como no Zenas Emprovisadas“, diz Clarice, se referindo ao show de humor de que Gregorio participa há 10 anos, ao lado de nomes como Marcelo Adnet, Fernando Caruso e Rafael Queiroga.

Além de brigar contra estereótipos, os dois detestam tanto a correção política quanto a falsa incorreção política — aquela que, para demonstrar independência, se permite fazer piadas reforçando velhos clichês, algo muito presente no stand up. “Fazer stand up nunca foi minha praia“, conta Gregorio. “É chato porque nos EUA é feita pra boteco, e no Brasil ocupou espaço de teatro — e não vejo sentido dar um palco enorme pra um ator; como um cara que adora teatro, acho meio exagerado“, diz, criticando o excesso de stand ups que invadiu o teatro brasileiro. “Aqui no Rio parecia igreja evangélica: ‘Caralho, perdemos mais um teatro pro stand up!’“, ri — relevando que a importância do stand up foi revelar novos autores.

Falso politicamente correto

Mas tem críticas ao formato. “Me irrita ver as pessoas falando o mesmo texto: ‘Ah, sabe uma coisa que eu não entendo? Estava vindo pra cá e…’ É tipo mesa-redonda de futebol: você quer que o sujeito lá em cima fale o que você acha. Vejo o público ir ao stand up para verem seus estereótipos serem confirmados pelo cara ali em cima. Vira comício, palanque; não é humor. E os comediantes acabam escravos da plateia que querem agradar e dão coisas fáceis, tipo ‘a Preta Gil é gorda’, ‘gaúcho é viado’…“, analisa Gregorio. Clarice atalha: “E as piadas politicamente incorretas que pretendem demonstrar independência em relação ao politicamente correto usam coisas tipo ‘preto é igual macaco’, que, poxa, são totalmente reacionárias, fazem há mil anos“, afirma.

Porém, o politicamente incorretíssimo é a praia do Porta dos Fundos. Em “Confessionário“, um padre confessava a um colega que abusava de um menor que já era abusado pelo primeiro, só para lhe provocar ciúme; em “KKKKKK“, um desastrado membro da Ku Klux Klan convidava negros para participar de uma manifestação. “Acho importante que o riso recaia sobre o mais forte. Nesse esquete o riso está sobre os padres pedófilos. No ‘KKKKKK’, ridículos não são os negros, e sim os racistas“, diz Clarice. “A gente tenta fazer piadas que ainda não fizeram“, afirma Gregorio. “Se tiver um esquete com um português, ele não vai ser burro. No Mundo do Gregório, havia uma situação em que um anão ganhava de mim em um teste. Queremos o humor de inversão“, conclui.

Para um casal de criadores tão autoconscientes do que fazem, parece estranho ouvi-los criticar um procedimento por excelência do humor sofisticado: a ironia. “A gente está no processo de se livrar da ironia, do blasé“, diz Clarice. Gregorio rebate: “O YouTube gerou essa indústria de pessoas rindo dos outros: é a indústria do schadenfreude, da videocassetada, de zoar a pessoa se fodendo“, diz. Clarice defende: “Pega supermal aparentar ser ingênuo, e criou-se essa bancada do Twitter, do Facebook, de comentadores de sites, de gente que não produz nada e só ridiculariza. Esses ‘haters’ são juízes. Fico agoniada com a internet porque às vezes você percebe uma energia ruim em coisas que lê“, confessa Clarice, que sempre tromba com os “haters” por conta da megaexposição de seu canal no YouTube: ali, o curta “Laços“, escrito por sua mãe, a dramaturga Adriana Falcão, foi um dos mais vistos em todos os tempos — e a canção “Monomania“, dedicada à sua obsessão por Gregorio, já alcançou mais de dois milhões de visualizações.

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Por falar em laços, o casal, além de super enturmado em uma enorme trupe de talentos que inclui o cineasta-prodígio Matheus Souza, e os outros membros do Porta dos Fundos, como Fábio Porchat e Antônio Tabet, está cercada de artistas na própria família. Clarice é filha dos roteiristas Adriana e João Falcão; Gregorio, do músico e escultor Edgar Duvivier e da compositora Olívia Byington, e enteado do diretor e produtor Daniel Filho. Ajudam ou atrapalham?

Na verdade, a gente adora trabalhar em família“, diz Clarice. “Mas, por meus pais seram tão criativos na escrita, fui por caminhos diferentes, tentei a música, por exemplo.” Gregório concorda: “Meu pai toca 15 instrumentos, esculpe e pinta, minha mãe tem o ouvido absoluto… é uma concorrência desleal. Mas é uma coisa meio circense… a gente vem de estruturas que também são familiares profissionalmente, então é natural todo mundo trabalhar junto“, diz.

TV pra quê?

Cinema está nos planos da dupla dinâmica. Querem tanto escrever uma comédia romântica quanto fazer um longa-metragem para o Porta dos Fundos — que também tem sido assediado pela Globo. Gregorio hesita a respeito de entregar o capital somado pelo coletivo de humor na internet à televisão ou ao cinema. “Na TV aberta a gente não vai poder fazer uma série de coisas: tem que domar palavrões, não pode brincar com marcas, por exemplo“, diz. “E no cinema corre-se o risco de fazer uma longa piada sem graça ou juntar vários esquetes desconexos, que não dá certo, como se viu nos filmes do Casseta & Planeta. Estamos pensando nessas opções com calma“, afirma Gregorio, que tem equilibrado aplausos pela atuação surpreendente no musical Como Vencer na Vida, e encarado críticas à comédia Vai que Dá Certo, de Maurício Farias (que, apesar das resenhas negativas, faturou a décima maior abertura do cinema brasileiro pós-retomada).

Misturar amor e trabalho não desanda na receita da dupla, é o que dizem. Embora na fase do namoro — Clarice mora com os pais e Gregorio vive sozinho na Gávea — , os dois dizem que o relacionamento só bambeia quando ficam longe demais um do outro. “Quando a gente briga, e não briga muito, em geral é porque a gente não está trabalhando junto“, diz Clarice. É uma história que vem de longe: Gregorio conheceu Clarice pois ela era fazia jazz com a irmã — ela estava com 11 anos, ele com 14. Depois Gregorio trabalhou com o sogrão João Falcão, aos 17, e a amizade seguiu via MSN. Encontraram-se de novo na PUC, quando ela começava a estudar cinema e ele terminava letras (sua TCC rendeu o livro de poemas A Partir de Amanhã Eu Juro Que a Vida Vai Ser Agora, elogiado por Millôr Fernandes e Paulo Henriques Britto). O namoro só engatou depois de uma sessão do Confissões de Adolescente, que Clarice fazia com Matheus Souza: os dois ficaram e nunca mais desgrudaram.

O primeiro filme protagonizado por Gregorio, o elogiado Apenas o Fim, dirigido por Matheus, era para ter sido estrelado por Clarice — mas ela se recusou a refilmar uma cena e acabou cortada. Mas, no segundo longa de Matheus, Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo da Minha Vida, a ganhar as telas em maio, é Clarice a estrela, personificando uma garota que enquanto não decide se vai cursar medicina fica matando aula e conhece um rapaz interessante (não, não é o Gregorio; neste filme ele faz só uma ponta). O longa de Clarice, aliás, deve estrear na mesma época em que a talentosa garota sai em turnê de lançamento do primeiro álbum, reunindo as canções viralizadas pelo YouTube e mais uma meia dúzia de inéditas, sempre em seu estilo voz-e-violão temperado com muita fofura freak agridoce. “Fofura freak agridoce“: eis uma boa definição para este adorável casal.

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Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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