O colecionador de caveiras

caveiras_by_Eva_Uviedo.jpgMeio-dia, a claridade cai de tapa na cara, ele geme, a tatuagem de caveira agulhando a pele dos cotovelos, o tatuador com cara de chinês amarelado em ópio, os acordes do electro batendo na cabeça, o dia de porrada, ele geme, ela geme, geme alto e longamente a vizinha de cima, gata ciosa de sua alegria vermelha, flash, dia, acorde? Dormia com os cotovelos fincados no colchão, fetal, o travesseiro um ursinho, uma tábua de salvação. Havia enchido a caveira no dia anterior, a ressaca pegava forte, o banho o esperava, bandeira negra, amor – e o chuveiro apaga a sacanagem que vem do andar de cima.

Três horas da tarde. O carro dobra a esquina da Fradique Coutinho à direita e entra na Inácio Pereira da Rocha. Em frente ao BlenBlen, o carro é forçado a reduzir. À esquerda, uma negra Harley Davidson pilotada por um engravatado, que encara o carroceiro à direita. Este usa um lenço preto na cabeça. Na traseira de sua carreta, toda negra, três bandeiras Jolly Rogers – a clássica, de Edward England, a de perfil, com a caveira embandanada, de Henry Every, e a que troca os ossos por espadas, de Calico Jack. Quem ali o mais easy rider, o maurício na moto cara ou o traficante de tranqueiras da cidade? Ultrapassa os dois e segue reto pela Pedroso de Morais – o sol bate em cheio nos olhos, contudo ele não desce o tapa-sol nem quer óculos escuros.

Quatro horas: café, mais café, algo de trabalho e papos furados. Reunião com uma dupla de fotógrafos. Eles mostram as imagens da jornada de um médico idealista pelo Amazonas. O country doctor os levou a conhecerem Marta, uma senhora de 73 anos que vive completamente solitária em uma casa de palafita a vinte metros da margem do rio Negro. Marta não tem o nariz. Foi acometida de leishmaniose – um mosquito da família dos Psychodidae é o mensageiro da doença. Parece não ter também alguns músculos da face. Mesmo assim, é uma mulher que exala extraordinária solidez – como os esqueletos das bandeiras piratas, tão mortos que parecem vivos. Marta não é assim tão solitária: semana sim semana não, a visita o namorado – um pescador de 36 anos. A leishmaniose levou-lhe um olho. “Mas o outro olho dele é verde”, contou ela aos fotógrafos. É orgulhosa. E não tem de se preocupar com vizinhos de ouvidos em pé. Nem com cheiro de poluição.

Oito horas. O carro penetra o túnel da Cidade Jardim. Cinco viaturas da Polícia Militar paradas, o trânsito se engarrafa, galés emparedadas. Um ataque do PCC aqui? Os policiais interpelam um homem portando uma máscara antigases – que desenha nas paredes com o que parece ser um chumaço de estopa molhado. O carro pára bem ao lado da cena. Paciente, o homem tão-só retira a fuligem das paredes de concreto, criando um padrão, estranho mas familiar. O homem conversa com os policiais: “Estou limpando o muro. Se o governo achar que estou danificando o patrimônio público, pode terminar o meu trabalho e limpar tudo de uma vez. Seria um favor”, ri por trás da máscara. E prossegue sua arte. Os policiais batem no quepe e saem fora. Aproximando-se, ele reconhece o padrão: caveiras. A dor nos olhos volta – não deveria ter olhado o sol de frente, veja-se o exemplo de Merseault e de Zidane.

Meia-noite ela entra, fecha a porta, coloca a bolsa sobre a mesa. Caminha até a janela. Ela sem pressa, ele de ressaca. Ela solta um comentário sobre a péssima arquitetura que se vê do nono andar. Respira fundo, “pelo menos a lua cheia e a noite está quente”, releva. E silencia. Tudo é noite perfumada, cheiro vermelho, de rosa, sangue, jolie rouge, e, nos ouvidos dele, o eco dos gemidos da vizinha – belisca os cotovelos para ter certeza de que é tudo verdade, sim, ela está ali. Ela volta a cabeça por sobre o ombro, sorri, a pinta em seu rosto lembra uma estrela inversa, mosquito a sublinhar de ironia seu olhar como um mínimo mamilo na maçã do rosto. Então, atira as sandálias a um canto, sem se voltar, desce o zíper do jeans, desliza as calças até o chão. Preta, em sua calcinha estampa-se uma alegre caveira – com asas projetadas de onde estariam as orelhas. Ela espalma as mãos no parapeito da janela, pernas separadas, empina a bunda. Respira fundo e elogia de novo a lua cheia, a noite quente. As asas abrem-se e fazem os ossos da face sobrevoarem mares nunca dantes navegados, nove andares abaixo e além.

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> Mais caveiras aqui.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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