Ficção/Prosa

Salvia Divinorum no Iguatemi, 2055

Salvia Divinorum no olhar de Eduardo Kerges

Salvia Divinorum no olhar de Eduardo Kerges


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Este capítulo do meu romance Mnemomáquina saiu na curitibana Et Cetera [site aqui] número 8.
 
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Dia dos Namorados

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Lost among the subway crowds
I try to catch your eye
Leonard Cohen, “Stories of the street”
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— Mas você nunca morou com ninguém?

— Morar com alguém? Essa é boa. Não moro nem comigo…

Ele não me dá a mínima. O máximo que me concede é sua companhia zanzando pelos escombros deste shopping que havia na Faria Lima, alguma coisa com nome indígena. Zed sopra que gosta de flanar por velhas vitrines.

— Sentir vontade de ter coisas que não poderei jamais ter, Baby.

Quando ele manda uns clichezões de filme chinês tipo esse, só me chama de Baby. Jamais se lembra de que tive outros nomes. Parece que nunca vai se lembrar de que já entrou em mim quando eu era outras.

— A verdade é que nunca tenho vontade de ter nada — ele repete.

Eu já senti vontade de tê-lo. De ser dona dele, como de um animal de estimação, um quadro, um batom. Faz uns anos, durou umas horas, meu nome não era Baby Gasoline. Era uma época em que usava a id Salvia Divinorum. Nos conhecemos numa feira. Na Feira da Benedito Calixto, quase na praia. Eu procurava fotos antigas de gente desconhecida para decorar minha sala, tinha pego um retrato de família e escutei a voz dele por cima do ombro: “Essa aí já tem dono”. Havia encomendado a foto ao dono do estande. Não quis me dizer se também colecionava imagens de anônimos, como eu, ou se de fato conhecia aquelas pessoas na foto.

Disse o mesmo que agora:

— Vontade de ter o que não poderia jamais…

Mas, agora, no deserto deste museu, não tenho mais como reengatar essa conversa — ele vai me achar doida.

— Se achasse que sou louco, trocaria meu nome — tinha cantado, bêbado, em uma ex-casa.

Não vai acreditar que eu e Salvia somos uma, a mesma. Já tive uma enorme vontade de chegar nele e me declarar Salvia. Mas não posso. Não teria como provar — agora que perdi os royalties sobre minha id. Estou endividada até o pescoço com o Neverland Institute. Literalmente: devo 3 pescoços, meia dúzia de próteses faciais, umas cirurgias plásticas, centenas de tratamentos capilares, um crédito absurdo em fibras musculares de segunda linha e uns cinco ou seis dermoconstrutos. Não é fácil ser mulher, hoje em dia.

— O ar é baço, aqui… Não tem ao menos um café nesse antro?

— Acho que na entrada. Olha essas roupas… — rio.

— Não dá pra acreditar que vestiam isso vinte anos atrás.

— Esse texto sugere que as roupas de baixo eram para as consumidoras usarem no Dia dos Namorados… saca o que pode ser isso?

— Parece que antigamente havia um dia do ano em que os namorados se davam presentes. Algo assim.

— E o que eram namorados?

— Suponho que fossem casais temporários, alguma espécie de relação afetiva fixa. Acho que não era exatamente casamento… mas também não era o que se costumava dizer amizade, ou o que costuma se dizer ligação, hoje.

— Você aprendeu isso na escola?

— Não. Li uns dos Livros Proibidos…

— Eu também! Mas não consigo lembrar disso…

— Você não lembra nem de onde dormiu ontem!

Eu tinha levado Zed para o cafofo de Salvia. Que, naquela época, trabalhava com eletroperversão histoimagética num edifício abandonado da Vila Madalena… Quando o rio subiu, faz quase trinta anos, derrubou um monte de prédios. Alguns sobreviveram, como aquele da Fradique. Cheguei antes de todo mundo, tomei um dos últimos andares para mim e morei lá dois anos, brincando de Salvia. O dinheiro com eletroperversão era bom: podia comprar várias ids. Consegui montar uma arapuca bacana pros caras e garotas legais que catava na feira. Mas tinha algo errado em Zed. Ele não parecia alguém recriado. Parecia que tinha caído do nada, nesta Cidade-Olho. Parecia mesmo alguém autêntico — embora negasse.

— Você tem certeza de que as águas não sobem aqui?

— Como posso ter certeza? O que sei é que a última vez em que esse shopping foi inundado de novo tem uns dois, três anos. Saca as marcas das paredes. Mas até que está bem conservado, né?

— É… olha essa loja de música… também tem um display falando de uma promoção para esse tal Dia dos Namorados. Será que foi nesse dia que rolou a Última Grande Enchente do Tietê?

— Se eu tivesse um buscador portátil, via agora.

— Eu tinha um link com minha Psico implantado, mas precisei tirar… me dava coceira. Tenho umas alergias com biosilício, nunca descolei remédio pra isso…

Tudo o que queria era segurar suas mãos, levá-lo para minha cama de novo, qualquer cama, deixar que me apertasse e me olhasse como se eu fosse única, como na noite em que o levei à casa de Salvia, única e ao mesmo tempo ligada a ele. Mas não sou mais Salvia — e ele nunca vai se apaixonar por mim. Apaixonar-se. Li isso nos Livros Proibidos. Tinha a ver com aquela antiga instituição chamada casamento, considerada antieconômica pelo Estado de Transição Corporativa (engraçada a expressão — faz uns 30 anos que o Estado é o mesmo, a maldita Companhia…) e em alguns casos punida com a extradição pra Interzona. Por que Zed é o único cara de quem as mãos nunca me escapam, na memória da pele? Não costumo me lembrar dos caras com quem me ligo… Ele, pelo visto, também não. Mas e se eu dissesse a ele que Baby Gasoline é Salvia Divinorum… e que depois, virou Lucida Sans…

Tudo o que eu queria era dar um soco na cara dele.

— Você já teve alguém de quem gostasse muito?

— Como assim, ter alguém? Um escravo, um andróide, um Coiso?

— Alguém com quem você tivesse… sabe…

— Não sei, não me lembro… te falei, tenho uns problemas de memória.

— Nunca pensou em ler as digitais ou a íris no Neverland?

— Que digitais, que íris, Baby? Não tenho mais nada disso. Até minha arcada dentária é de pseudocálcio. Devo ter sido fuçado nalguma boca-de-porco em Addis Abebba, ou em Hong Kong, sei lá. Sinto que não é seguro acessar o Neverland. Não sei bem no que eu trabalhava, antes dos meus mnemoimplantes irem pro saco…

Chegamos no fim de outro corredor, descemos as escadas. O Museu do Consumo Conspícuo está às moscas a esta hora, cinco da tarde. Daqui a pouco vêm as chuvas de fim de dia. E as pessoas ficam tensas. Eu me garanto, na minha barca. E, de algum jeito que não sei por quê — confio em Zed.

— Olha isso!

Ao virarmos a esquina, depois de uma megaloja de moda, no chão à frente de uma delicatessen, o que parecia ser uma pessoa caída.

— Pelas roupas, é um Coiso…

O peito estava aberto. Da mão direita pendia uma ferramenta estranha.

— Talvez tivesse sido um Coiso tentando arrombar uma loja. Deve ter tomado um choque elétrico no peito, caiu e morreu aí mesmo.

— Era uma mulher… com certeza, pela túnica.

— Ela queria arrombar essa delicatessen aí na frente… Mas e se arriscou tanto assim só pra roubar uma cesta de chocolates podre, de vinte anos atrás?

— Talvez quisesse dar de presente pra algum namorado — ironizo, sem deixar de me deter sobre os miasmas e humores que escapavam da carniça fedorenta. O teto do shopping iluminava irrealmente a carcaça, dando a impressão de uma flor a se entreabrir. Moscas zumbiam sobre o tórax trucidado, dali saíam bandos de larvas, escorrendo num líquido grosso. Tudo isso ia e vinha em ondas, como se o corpo vivesse, e até se multiplicasse. O mais louco é que, na outra esquina, um pitviralata fuzilava os olhos pra gente — talvez achasse que fôssemos comer a sua caça. A mulher que ali apodrecia não tinha mais os olhos, eu reparei, de repente. Eu quis morrer. Precisei dos olhos de Zed. Ele tinha a mesma íris que na noite com Salvia. Quem sabe as mesmas digitais. Talvez ele mesmo não soubesse que não é mais Zed, e sim outra id largada por algum Zed, desfazendo-se sob o vento e a garoa cítrica. Me pegou nos ombros, me tirou dali, suave. Enquanto saíamos, o cão caía de boca naquele esquecido corpo.

Na rua, em frente ao shopping morto, Zed me parou. Tinha lágrimas na face. Parecia antigo, uma foto em sépia. Me puxou e me beijou. O cheiro do cadáver continuava a soar nas narinas, ao mesmo tempo em que sentia que nunca mais queria sair das mãos de Zed. Havia lido algo sobre isso nos Livros Proibidos. Ainda sentia seu gosto na língua quando soltei, sem pensar:

— A gente se vê?

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