Viva Tom Zé, 90!

Para comemorar o aniversário do gênio de Irará e habitante mais famoso do bairro paulistano de Perdizes, o perfil que escrevi para a Morel #4 (edição esgotada).

Ensaio fotográfico de Renato Parada

Felicidade dói.

Texto Ronaldo Bressane Fotografia Renato Parada

Tom Zé vive nascendo de novo.

A primeira vez foi nos anos 60, com a Tropicália. A segunda foi 30 anos depois, via David Byrne. Daí que este pequeno deus da música registra esta marca do renascido em tudo o que faz: ele vem, e revém de novo, e volta, e revolta. Confundindo pra esclarecer, como cantaria o grego Dioniso. O deus do vinho era filho de Zeus e Sêmele. A humana, grávida, desconfiada do papinho furado de Zeus, pediu ao boy que se mostrasse em todo o esplendor, para provar o RG. Só que Zeus exagerou e seus relâmpagos fulminaram a pobre mãe. Para salvar o feto, Zeus tirou-o da barriga e o costurou na própria coxa.

Meses depois surgia Dioniso, “deus duas vezes nascido”.

Esse trauma do binascimento persegue Tom Zé. Ele adora repetir, toda santa entrevista, que estaria morto pra música não fosse David Byrne costurá-lo na própria coxa – mais especificamente, sua gravadora Luaka Bop, que em 1998 lançou Defeito de Fabricação, fazendo Tom Zé ocupar no mundo o lugar que lhe cabe: o de um dos grandes inventores da música.

Estava no ostracismo desde 1973, quando lançou o genial Todos os Olhos (o álbum cuja capa concebida por Décio Pignatari e fotografada por Reinaldo Moraes trazia uma bola de gude supostamente equilibrada num fiofó – uma das capas mais famosas da MPopB. A jornalista Phydia de Athayde escreveu uma reportagem divertidíssima sobre a sessão fotográfica, leia aqui).

Pouco antes de David Byrne se apaixonar por Estudando o Samba (1976) em uma lojinha de discos da praça da República, Tom Zé, que fazia quase 20 anos não gravava, planejava voltar à cidade natal, Irará, para cuidar do posto de gasolina do sobrinho. Este repórter presenciou Tom Zé em 1998, no festival Rec Beat, no Recife, dizer ao público que o ovacionava: “Vocês salvaram a minha vida”. Tinha 62 anos.

            Quando Morel chegou ao seu estúdio, em um predinho fofo do bairro paulistano de Perdizes, Tom Zé tinha acabado de nascer de novo – mais uma vez. Estava se recuperando da covid. Octogenário, asmático, viciado em Vick Vaporub, recentemente havia implantado dois stents cardíacos, e escutado do médico: “Ainda bem que você veio aqui hoje, se não seria notícia no Jornal Nacional”. Na pandemia fincou pé em casa, ao lado de Neusa Martins, sua musa-partner-produtora há 5 décadas. Não saiu nem para escapadas em busca de salgadinhos na padoca da esquina, onde os funcionários o veneram.

            Mesmo no isolamento, acabou pegando a maldita. Tetravacinado, contudo, só teve sintomas leves. Por precaução, deu a entrevista mascarado e se manteve à distância do repórter, também de máscara. O que é muito esquisito em se tratando deste senhor com maus modos de menino, cujo traço marcante é agarrar o interlocutor enquanto fala, isso quando não o abraça a cada três parágrafos. Então sua expressividade se concentrava nos olhos, esbugalhados em todo ponto final. “Mares-algarismos! Não é uma maravilha?”, espanta-se com a própria proeza. “Maravilha” é uma das palavras mais constantes em seu vocabulário, e aqui temos outro segredo para a vida eterna: maravilhar-se o tempo todo. Como quem não cansa de nascer.

            “Mares-algarismos/ onde um seu piloto/ rouba do ignoto/ almas e abismos./ Verbo das correntes/ com seu candeeiro/ todo marinheiro/ caça continentes”, eis uma das estrofes de “Língua brasileira”, canção lindíssima a intitular o novo álbum. Que também não nasceu de primeira: fazia parte de outro álbum conceitual, Imprensa Cantada, de 2003. Nela o dramaturgo Felipe Hirsch buscou inspiração para o novo espetáculo teatral, uma viagem de três horas em torno do universo linguístico de Pindorama. Antes da pandemia, contratou Tom Zé para criar a trilha sonora, e transformou o velho mestre no personagem que ele mais cultiva: o de aprendiz.

            “Felipe me trouxe livros de Caetano Galindo, Eduardo Viveiros de Castro, Eduardo Navarro, e… como chama aquela moça mesmo? Puta que pariu. Ô Neusa!”, berra Tom Zé, chamando sua musa/produtora/HD externo. “Neusa é meu Google, sem ela eu não funciono”, explica. “Yeda Pessoa de Castro”, socorre Neusa. “Tô há cinquenta anos nesse ramo de completar as frases dele, você acredita?”, ri a jornalista, por trás da máscara. Galindo, tradutor de Ulyssses de Joyce, convocou Navarro, pesquisador de línguas indígenas, e Castro, expert em línguas africanas, para auxiliar Tom Zé. O mergulho nas línguas trouxe achados como a peça que abre o álbum conceitual, “Hy-Brasil”.

            “Descobri esse mito medieval de uma ilha celta chamada Hy-Brasil, uma maravilha no mundo gelado lá do norte que era uma ilha da felicidade. Peguei essa coincidência e comparei com o sonho do índio com a Terra Sem Mal, esse lugar em que o índio não trabalha e a flecha não mata”, desenrola Tom Zé. Portanto o álbum nasce de uma utopia – como se o Brasil pudesse fundir mitos do norte e do sul. A circular Hy-Brasil já aparecia nos mapas da Europa uns 125 anos antes da chegada de Cabral ao nosso território, e, dizia-se, só era vista sete vezes por ano. Já a Terra Sem Mal é o paraíso terreno, uma vez que os guaranis não acreditavam em vida após a morte. “E como dançar é se purificar/ Assim nessa Terra Sem Mal/ O índio é imortal/ Hy-Brasil/ Uma ilha sem fuzil/ Sem ba-ba-ba-ba-bala civil”. O recado é sintético, mas claro: na utopia de Tom Zé, a população, ao contrário do que pede o atual governante, não anda armada.

Atropelado por São Paulo

            Outro achado do disco nem é de Tom Zé, que raramente usa letras ou canções alheias para suas obras: “São Paulo San Pavlov Sanpaulândia”, funk polirritmado em cima de um poema de Douglas Diegues. O poeta carioca, radicado entre Campo Grande e Paraguai, é o líder do movimento portuñol selbaje, que junta português, guarani, inglês e o que vier pela frente. O tema é próximo a Tom Zé: a migração que fez de SP ser o que ela é. “O que seria de ti, San Pablo, San Pavlov ou Sanpaulandia, sem nosotros, los nordestinos, para vos servir manhanas y noches, tardes y nuebas manhanas?/ O que seria de ti San Pablo, San Pavlov, sem nosotros los nordestinos, los mais paraguaios, los kabroboles, los kabras de la peste?

Embora o conterrâneo Caetano Veloso tenha criado “Sampa”, famosa homenagem à capital paulista, é Tom Zé quem mais cantou a cosmópole. Não só o hino “Augusta, Angélica e Consolação” (que ele nem canta mais nos shows, deixando o microfone para o público), mas também “São São Paulo, meu amor”, presente em sua estreia, canção que faturou o primeiro prêmio no Festival da Record em 1968. Tom Zé conta que fez a música depois de conhecer os Mutantes. Na época tomou um susto que – olhaí o monotema – o fez nascer de novo.

            “Eu vinha andando pela avenida São João e fui atropelado. O sinal fechou e um carro não respeitou. Capotei. Lembro que logo depois encontrei Torquato Neto, ele me viu todo sujo e amarrotado e contei: ‘Fui atropelado’. Torquato não acreditava: ‘Ué, mas e como tá de sapato?’ Não entendi: ‘Como é?’, disse. Ele explicou: ‘Todo mundo que é atropelado o sapato voa lá longe’. E por isso ele continuou não acreditando que eu tinha sido atropelado. Mas não me machuquei. Foi só um jeito de São Paulo me dizer: ‘fica esperto’”, ri Tom Zé.

Desde 1968, são 54 anos na cidade – antes de chegar a Perdizes, passou por República, Barra Funda, Higienópolis e Cerqueira César. “Perdizes é igual Irará”, diz Tom Zé do mais alto bairro de SP – que abriga tanto a PUC, o Tuca e escritores como Augusto de Campos, Luiz Ruffato e Humberto Werneck quanto a nata do conservadorismo paulistano. “Aqui todo mundo me conhece. Ainda assim, preciso tomar cuidado quando vou à padaria. Os funcionários são todos amigos, mas os donos são salazaristas. Uma vez um senhor começou a estranhar minha camisa vermelha. Eu disse ‘essa camisa não significa nada, é só uma camisa vermelha’. Na padaria é melhor não ser nada, pra não brigar com a humanidade. A classe média sempre foi reacionária em todo lugar do mundo. Assim como tem pobre reacionário e rico de esquerda. Mas no Brasil sempre teve essa classe média salazarista”. É a deixa para aproximar de novo Perdizes de Irará, via Brasília.

Quem tem esperança no Brasil não quer a reeleição de Bolsonaro. E não quer um golpe. Ele está fazendo de tudo para que o Exército dê um golpe. É um malandro. Sempre foi péssimo militar. Viu que no tempo do Goulart os militares usavam esse fantasma do comunismo e até hoje tem idiota que acredita nisso. Tem uma porção de jornalistas livres que são indicados como comunistas… Mas meu tio sim era comunista! Era diretor do PC em Irará”, conta. E emenda outra história sem escalas. “A gente nem sabia. Um dia ele apareceu numa matéria na revista d’O Cruzeiro, com a manchete ‘Nosso homem em Moscou’!

Embora Perdizes seja seu GPS, Irará é a terra de onde parte seu canto, canto para onde sempre volta. Qualquer tentativa de o repórter mudar o assunto faz o baiano teimosamente retornar ao sertão. E nisso se esboça outro traço de sua personalidade, aparentado aos renascimentos: o ressentimento. Que, no método crítico de Tom Zé, é trabalhado de modo criativo – não reacionário, mas reativo. “Todo compositor brasileiro é um complexado”, já seu autodefiniu. Seu complexo de inferioridade – assombroso, dado o seu tamanho na música brasileira – é prato cheio para qualquer psicanalista que estude o retorno do reprimido. Quase como se fosse o outro lado da moeda narcísica que qualquer artista carrega no bolso. Sorte nossa que essa moeda é lustrada com ironia e autoderrisão.

Eu tinha composto uma música chamada ‘Doidos de Irará’, pra tocar na Festa da Padroeira, e domingo era o baile. Fiz essa música e a orquestra ensinou os meninos. Só que eu ainda era menor de idade, estava na porta do clube e não podia entrar na festa. Quando a banda começou a tocar fiquei impressionado, porque nunca tinha escutado uma música minha tocada por outro. Eu era tão complexado que só depois disso eu consegui conversar com qualquer outra pessoa de Irará. É que quando você está infeliz, você vive abaixado como um animal. Quando você se levanta para virar homem, percebe que a humanidade dói. A felicidade dói”, filosofa. No que lembra um clássico de Estudando o Samba: “Menina, amanhã de manhã/ quando a gente acordar,/ quero te dizer/ que a felicidade vai desabar sobre os homens/ Na hora ninguém escapa,/ debaixo da cama/ ninguém se esconde”. A felicidade, nesta letra, não significa de fato felicidade: era uma sarcástica metáfora para a ditadura, que vinha prender as pessoas em casa. Genial, né?

As sonoridades de Irará retornaram no processo de composição de Língua Brasileira. “Quando eu era pequeno já tinha contato com tudo que a Yeda de Castro conta em suas pesquisas sobre as línguas africanas do Brasil. Na Bahia é falada a língua negra, porque muita coisa do candomblé é dita em quimbundo, língua africana que mais influenciou o português. Em Portugal, é muito enfatizado o som de consoante. No Brasil, a língua é toda pousada nas vogais, se torna uma língua cantante, muito bonita. Porque, no quimbundo, em todo lugar que tem consoante se bota vogal. Tanto que a palavra ‘Brasil’ a gente fala não com o som de ‘L’, mas com o som de ‘U’: ‘BrasiU’. É uma influência que transformou a fisionomia da língua. Não sei como é que há brasileiros racistas, porque estão falando uma língua que se transformou graças às outras – o bantu, o guarani, o árabe…”, explica o mestre-aprendiz.

A bossa nova é a Ponte Rio-Niterói

Em criança, o pequeno Tom Zé vivia com medo de tomar porrada. Uma vez viu umas meninas subindo numa árvore, e, embaixo, uns meninos espiando suas calcinhas. “Eu não achei aquilo legal. E saí correndo dos meninos porque não queria ficar espiando. Então descobri que sou mulher. Acho que nunca passou esse medo. Eu sempre fui mais fraco que todos”, explica. O caráter feminino de sua criação está presente na terna canção “Clarice”, inspirada em Perto do Coração Selvagem de Clarice Lispector. “O feminino está na base da língua e da cultura brasileira”, provoca Tom Zé. “A bossa nova é um exemplo. Uma teoria que eu tenho muito curiosa é que a bossa nova construiu a ponte Rio-Niterói. Foi a bossa nova, a coisa feminina, frágil, que pôde boiar sobre as as águas da Baía de Guanabara e permitiu a construção dos pilares, as plataformas flutuantes que a engenharia brasileira inventou, uma tecnologia criada só para construir a ponte Rio-Niterói por causa dos problemas específicos. A plataforma flutuante é uma coisa bossa nova, fráca, flutuante. Não é dura, forte: é frágil. E foi capaz de fazer a liga, o pênis que estuprou o fundo da Baía de Guanabara e levantou a coisa para segurar a ponte. Foi o feminino quem criou o masculino e o forte. Da mesma forma, a bossa nova sendo feminina e frágil foi o general que conquistou mais terras que Napoleão Bonaparte e Nabucodonosor. Foi essa coisa feminina e fraca do Brasil que conquistou a América, a Europa e que pariu o Brasil. O Brasil só passou a existir depois da bossa nova”, desenvolve.

O repórter quer falar mais sobre medo, pergunta sobre religião. E tome recalque. “A gente nasceu católico, mas meu tio fundou o espiritismo kardecista em Irará. A principal médium era minha tia Dalva. Um dia eu não sei por que fiquei numa sessão, criança não ficava. E aí apareceu um espírito e baixou em mim. Era um africano que mal sabia falar português e que queria quebrar os móveis da sala, destruiu a mesa e fez uma porção de cavalice lá. Já no meu tio descia um poeta da Inconfidência Mineira… Mas eu até na sessão espírita já tinha me metido em confusão. Então eu era uma pessoa de quem não se esperava grande coisa. Eu tinha muita vergonha de mim mesmo”, conta. Nesses momentos, em que se vê miúdo, Tom Zé volta de novo a Irará. Suas anedotas são pequenas teses. Como a epifania de ter sido salvo da mediocridade justamente ao aprender a ler. E o assombro que foi.

Quando cheguei na escola, a professora mandou ler um texto… aí vi aquelas sílabas formando um som que era uma coisa que eu reconhecia (risos). Ela fazia assim ‘Pedro, que estava sentado no fundo da classe, pediu à professora que tava doente…’, e eu olhei em volta pra ver se tinha algum Pedro, e não tinha, e pensei ‘Como é que pode uma coisa assim tão poderosa? Será que uma pessoa, em qualquer lugar do mundo, que leia isso, vai entender o que eu tô entendendo? Isso é um absurdo!’ Fiquei arrepiado. Aí ‘Pedro veio pra falar com ela…’ E eu pensei ‘Minha Nossa Senhora, isso faz a pessoa andar? Que maravilha!’ Aí ‘Pedro ia sair porque em casa tinha um problema e ele tinha que ir e quando saiu tava chovendo’. E eu pensei ‘Isso faz chover!!!’ (risos). Mas isso cheguei em casa, e criança não fala com adulto, nem tinha vocabulário, eu não tinha com quem falar sobre isso. Estava assombrado, né. E me sentei numa escada, curiosamente é um negócio simbólico, porque da escada só se via o Brasil pré-cabralino, as fazendas, as roças, uma estradinha de bairro… E fiquei de costas para a cidade, que é a civilização, que foi quem me fez ver aquele negócio naquele dia… Passei a tarde toda ali pensando, três dias pensando, aí pensei ‘O mundo é assim mesmo, tá acabado. Deixa pra lá!’.”

Invejável, além de sua autoconsciência, é sua força física e mental, aos 85. “Eu sou ao mesmo tempo muito forte porque vim de muita fraqueza”, explica, “eu só vivia doente, tinha asma, era viciado em Vick Vaporub”. A rotina é rígida. Há muitos anos Tom Zé não bebe nem fuma. Vai dormir cedo, às 21h – a não ser nas noites em que o Corinthians joga: aí fica até mais tarde, porque sabe que o locutor Oscar Ulisses vai mandar um abraço na narração. Acorda muito cedo: 3h da manhã. Toma um pequeno café e logo em seguida dorme de novo, “porque o café dá sono”.

Faz ginástica em casa mesmo. “Vou para sala, encosto a porta para Neusa não ouvir nenhum barulho e fico uma hora. São muitos exercícios de tai chi chuan. Já tive doença que o cão duvida. Teve uma época em que não tinha vontade de botar nada no estômago. Aí eu comecei a ficar fraco e Neusa me levou na macrobiótica. Fiquei 10 dias só comendo arroz. Não mastigava 80 vezes, e sim 120 vezes. Fiz macrobiótica dois ou três anos, até que percebei que a macrobiótica só serve a quem está doente. Quando você está são, volta a comer normal. Então comecei a comer frango uma vez por semana, ou um peixe”, diz o compositor.

E como é que está sendo envelhecer para quem escreveu “Eu sofro de juventude/ essa droga maldita/ que quando tá quase pronta/ estrebucha e se frita”? Você tem que se conformar, ensina o highlander. “Você não pode se descuidar, passar frio… o negócio sexual você tem que parar porque acabou e pronto… e se você fica pensando nessas coisas, fica tomando remédio e tal, você fica louco… Você sofre muito. Trabalhar é uma forma de juventude, né? Porque as pessoas também se cansam. Tenho que ficar neurologicamente comprometido com trabalho. Por isso acordo às 3 horas da manhã e entro no quarto de trabalho, onde tem um computador velho em que gravo as músicas. Entro naquele quarto como um animal, fecho a porta e se lá dentro só tem água, daí entro nadando, e se tiver fogo eu entro também, como uma salamandra, e vou trabalhar dentro do fogo. O trabalho é uma coisa que me apoia. E é o trabalho que traz a inspiração, né? Você trabalha todo dia aí de repente um dia vem ‘Mares-algarismos’”, ensina.

Medo da barbárie

O pequeno deus nasce duas vezes, da volta e do traço da revolta. Seus assuntos se repetem, e a cada vez, trazem um dado novo, um dado errado que permite avançar a criação. Como se reencenasse ciclicamente o mito da cosmogênese de “Nave Maria”: “Quando eu cheguei das estrelas/ entrei na terra/ por uma caverna/ chamada Nascer/ E eu era uma nave/ uma ave/ da Ave-Maria/ E como uma fera/ que berra/ entrei/ na atmosfera/ E cuspido/ espremido/ petisco de visgo/ forçando a passagem/ pela barreira/ sangrando/ rasgando/ subindo a ladeira/ orgasmo invertido/ gritei quando vi:/ já estava respirando”. A luta pelo nascimento, pela criação, é incessante. Não sem perigos. Às vezes lhe aparecem umas tristezas. E medos. Um medo frequente, expresso no novo álbum, é de o Brasil voltar à barbárie. Daí entender a ressignificação de nossos mitos de origem como um escudo à estupidez reinante.

O mito é a primeira literatura das civilizações, no início de sua atividade intelectual”, diz. “O mito não só desenvolve a mentalidade de um povo, mas é o que o mantém unido ao longo dos séculos. Joseph Campbell diz que quando uma tribo passa a desconhecer seus mitos fundadores, sua origem, ela se desmembra. E Políbio, historiador da Grécia Antiga, conta de um povo que esqueceu suas lendas, suas adorações, enfim, sua cultura, e foi decaindo até a barbárie. Aconteceu na Ilha de Páscoa, quando os povos entrarem em guerra e se mataram uns aos outros. O Brasil está ameaçado disso.” Hoje Tom Zé parece uma unanimidade, mas nem sempre foi assim. Não faz muito tempo, criticando o seu método de composição – a estética do arrastão, em que vai copiando e colando células musicais e temas utilizados anteriormente –, ninguém menos que Hermeto Paschoal disse que Tom Zé não era músico.

Às vezes fico meio revoltado com coisas que falaram de mim”, confessa. “Mas a crítica pode ser uma mola, um gatilho para fazer coisas. Como o que o crítico Tárik de Souza escreveu, quando lancei Estudando o Samba: “Podia ter estudado mais…”. Ou como quando o Hermeto Paschoal disse que eu não sou músico, que eu devia morrer. Ele tem muita razão. Porque se não me matarem é o diabo! Eu produzo! Porque as pessoas como Narciso se esquecem, ficam encantadas consigo mesmas e se esquecem de trabalhar. Quando vê, lá vem o filho da puta do Tom Zé trabalhando, trabalhando, trabalhando. Só matando!”, ri Tom Zé.

E o medo da morte, como combater? A resposta, de novo, surpreende: Tom Zé segue os preceitos de uma religião fundada no Japão nos anos 1930. Nada mais antropofagicamente tropicalista… “Rezar, assim, eu não rezo. Tem uma coisa aqui em São Paulo chamada Seicho-no-Ie, um negócio do oriente. Dizem que se você tem boa expectativa e trata as coisas com bondade, tem uma vida diferente. Isso aí tenho absoluta certeza. O fundador da Seicho-no-ie tem uma frase que diz que Deus não inventou nada com tijolo, a palavra é que faz Deus, né? Então tem aquelas folhinhas da Sei-cho-noie, às vezes eu me deito e leio, e penso: tenho que pensar numa coisa positiva, senão estrago tudo. Preciso relaxar, porque pra ter comida hoje e amanhã vou precisar ficar inventando. Então faço esse exercício mental oriental de dizer assim ‘muita coisa boa vai acontecer na minha vida’, dez minutos, todo dia, todo dia. E você começa a ficar alegre por dentro e toma contato com outras esferas… Porque teve uma plantação de coisa negativa quando eu era criança e começava a entender o mundo: minha família plantou um cultivo de árvores negativas que passei a vida molhando e vendo crescer. E lutei com isso, usando essa outra coisa que me apareceu, que foi a música. Então a própria música me motiva. E me faz ficar sempre em movimento, e o movimento tem a coisa de equilibrar coisas contrárias, né? E o equilíbrio dos contrários é justamente a Tropicália, que continua a ser o eixo da minha coisa toda”, sintetiza, sem dar setas nem avisos.

Por falar em plantação, ele anda um pouco afastado do seu hobby da jardinagem. Tom Zé costumava cuidar das plantas do prédio em que mora. “A terra tem uma força curativa para o meu nervoso e a minha preocupação”, ensina. “Eu sou da roça, plantei fumo em Irará. Nasci no mato. Tem uma flor muito paulista, e eu jogava água na raiz, daí descobri que precisava por água na folha. Tem outras que é o contrário. Todas plantas têm segredos. Tem que ter paciência e esperar a colaboração da natureza. Mas hoje, por causa da pandemia, fiquei preso em casa. Então, pra curar da vontade de mexer em planta, ficava vendo o melhor programa de TV que existe, que é o Globo Rural. Tenho muitas ideias vendo esse programa. Gosto muito, você só sai dele se sentindo bem. Não escuta a palavra Bolsonaro nenhuma vez”, ri.

À saída, Tom Zé não aguenta e abraça o repórter. Um abraço poderoso, ossudo porém persistente. Alegre, ele se demora a abrir a porta e o portão que conduz Morel à calma rua de Perdizes. “Na infância me diziam que eu ia ser marginal. Então não posso me queixar da vida, porque hoje eu me sinto sempre começando. Se você se sente vivo o tempo todo como é que você vai querer outra vida?

Blurbs

“Ideias e sonoridades entram numa fricção vivaz de ritmos, células polifônicas, interjeições aliciantes e onomatopeias, levadas no embalo dos motes, dos riffs e dos refrães. Há um fascínio irresistível no fato de que as ideias mais sérias, manejadas por ele, são também brinquedos reveladores e jogos de armar. A noção de língua brasileira mobilizada pelo espetáculo e pelas canções não se reduz à ideia de uma língua única e monolítica falada dentro das fronteiras do país. Foi concebida como um magma de línguas em processo de impregnação e de metamorfoses, presentes e remotas, no qual tomam parte o latim culto e o popular, remetendo ao proto indo-europeu, ao proto-celta, aos fluxos e aos influxos do galego português, do árabe, das línguas indígenas e africanas, potencializadas ao infinito pela multiplicidade dos falares. A língua é o leito de um rio caudaloso e acidentado, cheio de passados, de presentes e de futuros, que se liga ao oceano das línguas. A diversidade das falas desemboca, para usar a imagem de uma das canções, na unimultiplicidade da humanidade, onde cada homem, a cavaleiro das palavras, ‘é sozinho (…) / a casa da humanidade’.” José Miguel Wisnik, músico e crítico literário

Língua Brasileira traz uma utopia abrindo e outra fechando um repertório unificado pelo tema da identidade linguística nacional. A constatação dura e realista de que o Brasil, onde a população ‘elege carrascos letais’, é um país ‘que até hoje não há’. Mas será que não há mesmo? Um desmentido a tanta desolação cívica – que o Brasil bolsonarista tem feito por merecer, aliás – é o próprio álbum conceitual brilhante que está entre os melhores da carreira. O artista que mais se manteve fiel aos princípios tropicalistas de experimentação, antropofagia, alegria e humor colhe os frutos artísticos dessa coerência num disco que prova a cada faixa, contracanto, interjeição e gemido que o Brasil há, sim. Se não houvesse, não haveria Tom Zé. A história que ele conta ao longo de 11 faixas é uma festa de signos dançantes, uma orgia lúdica de mitos e contramitos, uma comédia rasgada que se deixa atravessar por pontadas de dor, mas sem perder a ternura jamais.” Sérgio Rodrigues, escritor

“Desconheço um cancionista que melhor experimenta, inventa, cria e força os limites da canção. Desde o primeiro disco, quando escreveu ‘Eu sou a fúria quatrocentona de uma decadência perfumada com boas maneiras e não quero amarrar minha obra num passado de laço de fita com boemias seresteiras’, entrega a seus ouvintes verdadeiras teses verbivocoperformáticas sobre cultura, arte e vida no Brasil. Cancionista crítico, Tom Zé pensa como quem brinca, totemizando o Brasil, essa ‘Babel das línguas em pleno cio’, como canta na canção que dá título a este urgente e estupendo disco” Leonardo Davino, crítico musical

Playlist.

“Sob pressão: plantão covid”, de Ruy Guerra e Gilberto Gil

“Everyday is a miracle”, de David Byrne

“Terra”, de Caetano Veloso

“Das Lied von der Erde (Canção da Terra)”, Gustav Mahler

“Sol de giz e cera”, Emicida

“You’re the top”, Cole Porter 

“Conversa de botequim”, Noel Rosa

“Retrato em branco e preto”, Tom Jobim e Chico Buarque

“O Fortuna”, in Carmina Burnana, de Carl Orff

“Prélude à l’après midi d’um faune”, Claude Debussy

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